A massa da pizza : sobre a Google, o monopólio e o futuro próximo

Meu pai recentemente me enviou por email uma divertida historinha sobre a Google. A historinha me fez pensar, e como às vezes sou um “chato de galochas”, acabei verticalizando minha resposta, isto é, respondi ao gracejo do meu pai com um pequeno comentário de tipo “profundo” em que fazia especulações sérias sobre os atuais e futuros desenvolvimentos do capitalismo e suas implicações políticas.

No final das contas, acabei achando que seria um comentário interessante para partilhar no blog, então aí vai.

A historia que deu pretexto ao comentário tinha o título “Pizzaria Google”, e foi a seguinte: um sujeito telefona para uma pizzaria para fazer um pedido e…

— Pizzaria Google, boa noite!

— Quem?!

— Pizzaria Google, senhor. Qual é seu pedido?

— Mas esse telefone não era da Pizzaria do…?

— Sim senhor, mas a Google comprou a Pizzaria e agora sua pizza é mais completa.

— Ok, você pode anotar meu pedido, por facor?

— Pois não, o senhor vai querer a de sempre?

— “A de sempre”? Você me conhece?

— Temos um identificador de chamadas em nosso banco de dados, senhor. Pelo que temos registrado aqui, nas últimas 53 vezes que ligou, o senhor pediu meia quatro queijos e meia calabreza.

— Puxa, eu nem tinha notado, vou querer esta mesma.

— Senhor, posso dar uma sugestão?

— Claro que sim. Tem alguma pizza nova no cardápio?

— Não, senhor. Nosso cardápio é bem completo, mas eu gostaria de sugerir-lhe meia ricota, meia rúcula.

— Ricota??? Rúcula??? Você ficou doido? Eu odeio essas coisas.

— Mas senhor, faz bem para a sua saúde. Além disso, seu nível de colesterol não anda bom…

— Como você sabe?

— Nossa pizzaria tem o banco de dados mais completo do planeta. Nós temos o banco de dados do laboratório em que o senhor faz exames também. Cruzamos seu número de telefone com seu nome e temos o resultado dos seus exames de colesterol. Achamos que uma pizza de rúcula e ricota seria melhor para a sua saúde.

— Eu não quero pizza de queijo sem gosto e nem pizza de salada. Por isso tomo meu remédio para colesterol e como o que eu quiser…

— Senhor, me desculpe, mas acho que o senhor não tem tomado seu remédio ultimamente.

— Como sabe? Vocês estão me vigiando o tempo todo?

— Temos o banco de dados das farmácias da cidade. A última vez que o senhor comprou seu remédio para Colesterol faz 3 meses. A caixa tem 30 comprimidos.

— Porra! É verdade. Como vocês sabem disto?

— Pelo seu cartão de crédito…

— Como?!?!?

— O senhor tem o hábito de comprar remédios em uma farmácia que lhe dá desconto se pagar com cartão de crédito da loja. E ainda parcela em 3 vezes sem acréscimo… Nós temos o banco de dados de gastos com cartão na farmácia. Há 2 meses o senhor não compra nada lá, mas continua usando seu cartão de crédito em outras lojas,o que significa que não o perdeu, apenas deixou de comprar remédios.

— E eu não posso ter pago em dinheiro? Agora te peguei…

— O senhor não deve ter pago em dinheiro, pois faz saques semanais de R$ 250,00 para sua empregada doméstica. Não sobra dinheiro para comprar remédios. O restante o senhor paga com cartão de débito.

— Como você sabe que eu tenho empregada e quanto ela ganha?

— O senhor paga o INSS dela mensalmente com um DARF. Pelo valor do recolhimento dá para concluir que ela ganha R$ 1.000,00 por mês. Nós temos o banco de dados dos Bancos também. E pelo seu CPF…

— ORA, VÁ SE DANAR !

— Sim, senhor, me desculpe, mas está tudo em minha tela. Tenho o dever de ajudá-lo. Acho, inclusive, que o senhor deveria remarcar a consulta que o senhor faltou com seu médico, levar os exames que fez no mês passado e pedir uma nova receita do remédio.

— Por que você não vai à m…???

— Desculpe-me novamente, senhor.

— ESTOU FARTO DESTAS DESCULPAS. ESTOU FARTO DA INTERNET, DE COMPUTADORES, DO SÉCULO XXI, DA FALTA DE PRIVACIDADE, DOS BANCOS DE DADOS E DESTE PAÍS…

— Mas senhor…

— CALE-SE! VOU ME MUDAR DESTE PAÍS PARA BEM LONGE. VOU PARA AS ILHAS FIJI OU ALGUM LUGAR QUE NÃO TENHA INTERNET, TELEFONE, COMPUTADORES E GENTE ME VIGIANDO O TEMPO TODO…

— Sim, senhor… entendo perfeitamente.

— É ISTO MESMO! VOU ARRUMAR MINHAS MALAS AGORA E AMANHÃ MESMO VOU SUMIR DESTA CIDADE.

— Entendo…

— VOU USAR MEU CARTÃO DE CRÉDITO PELA ÚLTIMA VEZ E COMPRAR UMA PASSAGEM SÓ DE IDA PARA ALGUM LUGAR BEM LONGE DE VOCÊ !!!

— Perfeitamente…

— E QUERO QUE VOCÊ ME ESQUEÇA!

— Farei isto, senhor… (silêncio de 1 minuto)

— O senhor está aí, ainda?

— SIM, POR QUE? ESTOU PLANEJANDO MINHA VIAGEM… E PODE CANCELAR A MINHA PIZZA.

— Perfeitamente. Está cancelada. (mais um minuto de silêncio)

— Só mais uma coisa, senhor…

— O QUE É, AGORA?

— Devo lhe informar uma coisa importante…

— FALA!

— O seu passaporte está vencido…


 

É muito comum pensarmos na cobertura da pizza e escolhermos por ela qual a pizza que queremos. Mas e a massa? O que é isto que está no fundo e que sustenta o resto? No campo político e social muitos tendem a dizer, na esteira de Marx, que essa massa, essa base que dá sustendo à cobertura das coisas na vida em sociedade, está na economia, nos processos técnicos e econômicos de desenvolvimento do capitalismo. Embora eu não seja marxista (mas algo talvez mais radical), o comentário chato e sério que fiz a essa historinha se enquadra nessa linha, de uma consideração mais economicista das coisas.

Foi o seguinte.

por enquanto, a coisa é discreta para o consumidor individual pq o consumidor empresarial de grande porte ainda dá mais lucro e não pensaram como tirar lucro da possível (provável) reação generalizada de rejeição a esse tipo de coisa no nível do consumo individual.

Mas o mecanismo da acumulação do capital está atiçando o poder midiático de controle de rede a buscar uma solução lucrativa para isso no campo do ativismo político (em qualquer direção que incite participação popular, não importando qual), porque isso ajuda a superaquecer as trocas de informações via youtube ou similares e via redes sociais.

Por isso o maior campo de concorrência do grande capital (e por outro lado de conchavos de oligopólio limitando e desintensificando esse campo de concorrência) são as redes sociais (hoje com o predomínio do facebook, que o “amiguinho” Google+ do outro lado do tabuleiro do jogo não alcança) e as redes de compartilhamento de vídeo (com predomínio do youtube, já comprado pelo Google).

Tudo o que a gente lança de informação nesses meios é analisado e filtrado para coleta de informações secundárias e indiretas cuja formação de bancos de dado de consumo cuja venda para grandes empresas seja lucrativa.

Isso não deixa de ter um lado p trazer algum otimismo. O mecanismo capitalista é cego para valores políticos que não o afetem diretamente, e realidade política resultante é ambígua, com tendências contraditórias.

O ativismo político superestimulado pode levar para qualquer direção dentro dos limites do que não afeta de imediato a acumulação do poder midiático (inclusive direções que mais tarde, no correr de décadas, venham a afetá-lo), porque também há uma necessária dose de imediatismo (e um imediatismo crescente) nesse mecanismo cego do capitalismo midiático, por causa da aceleração crescente das coisas (se concebe “longo prazo” hoje como coisa de alguns anos).

No entanto, as vidas humanas e gerações continuam no mesmo ritmo (na verdade com a.a expectativa de vida até aumentando lentamente). A vida então tende a se tornar politicamente sempre mais tensa e aventureira.

É interessante pensar tb no seguinte: o Pizza Google tbém recebe telefonemas da Dilma, da Marina, do Aécio, dos Governadores, Prefeitos, Senadores, Deputados, Juízes…

 

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