A morte

O que é a morte?

A morte é vomitar. É ter um sofrimento, ficar doente, estar acima de um peso saudável, abaixo de um peso saudável, perder os cabelos, ter uma cárie, perder um dente, passar fome, ter excesso de estresse, ficar deprimido, sentir solidão demais, falta de sossego, tédio demais, não sentir nada (o que é ainda pior), é ter ter alegrias apenas superficiais, não ter nunca sentimentos estranhos, e é também ter sentimentos apenas instáveis, excessivos e descontrolados.

A morte é ter um cotidiano invariável, ser forçado a… (qualquer coisa), ser impedido de… (qualquer coisa), não ter condições de… (qualquer coisa), ter dificuldades ou barreiras absolutamente e desproporcionalmente acima de suas forças, ou não ter desafio nenhum, nunca arriscar, nunca experimentar, não ter sonhos ou esperanças, assim como ficar preso apenas a sonhos ou esperanças.

A morte é nunca ter vomitado. Nem pensado no vômito como um símbolo.

A morte também é não ter nunca nenhum sofrimento, nunca ficar doente, nunca experimentar fazer nada que nos deixe acima do peso saudável, ou abaixo do peso saudável, nunca ter que se preocupar com os cabelos ou os dentes, não saber o que é fome, nunca se estressar, nunca passar por uma depressão, nunca sentir solidão, estar sempre sossegado, nunca sentir tédio nem experimentar uma ausência de sentimentos, nunca se deixar levar por alegrias superficiais, ficar perdido em sentimentos estranhos, ter sempre os mesmos sentimentos, manter-se sempre controlado e nunca sentir de modo excessivo ou instável.

A morte é não ter a segurança de um cotidiano regular, mas é também não ter que enfrentar (ou combater) nada que nos force ou nos tente forçar a… (qualquer coisa), impedir de… (qualquer coisa), nada que nos tire ou nos impeça de ter condições de… (qualquer coisa). Morte é não ter nunca barreiras a medir, enfrentar ou combater, mesmo que absolutamente impossíveis de superar e desproporcionais às nossas forças, mas também é morte viver constantemente sob desafios que não escolhemos, ou que não consideramos dignos de nós ou aceitáveis, ou mesmo apenas humanamente dignos. Morte é ser posto em risco, ser objeto de esperimentos, descobrir que a vida até aqui não passou de um sonho, descobrir que a vida (inteira) não passa de um sonho… ou nunca descobrir nada disso.

A morte é banal e cotidiana. A morte é, acima de tudo, nunca enfrentar a morte.

A morte é muito natural, é nosso enfrentamento diário. A morte é aquele enfrentamento do que não podemos vencer, porque se a vencemos de um lado, sob uma de suas formas, ela sempre retorna de outro, sob outra forma ou figura. A vida é o enfrentamente constante das infinitas figuras que a morte assume. E de figura em figura, a morte vai crescendo dentro de nós, até um dia nos tomar por completo.

Mas sempre podemos resistir a ela, sob alguma de suas formas, por um tempo, quanto mais tempo melhor. E sempre podemos também nos acostumarmos a ela. É nossa inimiga e amiga diária, porque é um dos motivos e um dos maiores motores da vida.

A morte é a face da entropia quando sorri para a vida… sorri com um sorriso faminto, o dos dentes arreganhados de quem rosna. Viver, é fazer-lhe cafuné enquanto rosna, e voltar a fazer, com misto de despeito, respeito e coragem, quando ela nos arranca outro dedo, e enquanto não nos pula de uma vez na garganta. A morte é irracional e suicida: ela se mata (perde os sentidos, cai em coma) ao nos matar — e volta a ser então para nós, mortos, apenas entropia sem sentido, sem nenhum sentido para a vida.

A vida… é o combustível da morte — e a morte é esse estranho motor que move e modela o seu próprio combustível, assim como em sua forma mais profunda, a forma da entropia natural, move e modela tudo mais o que existe no universo.

Pronto, já disse. Agora acho que posso ir lá tomar minha cerveja.

 

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