A sombra do equilibrista

 Por João Borba – 26 de julho de 2006 – artigo 05, vol. 1
originalmente publicado em www.eleicao.info
(discreta reedição em 2012)

ética do equilibrista

Conversa de filósofos

Não necessariamente! — esta frase, de um grande amigo, Alessandro, tem uma história interessante, e devo confessar que ela exerceu uma grande influência intelectual sobre mim; especialmente no campo da política, que é, afinal, o campo das relações humanas do ponto de vista dos seus desequilíbrios.

Tinha acabado de sair do colégio e passado no vestibular para entrar na USP, no curso de Filosofia, e fui a um bar com esse amigo e mais um outro amigo nosso, Paulinho, para comemorar. O Paulinho já estudava filosofia lá, e puxou comigo uma discussão interminável sobre o filósofo Pascal e o ceticismo. A questão era o modo como Pascal define a fé: para ele, ter fé significa ter uma dúvida, mas uma dúvida tão intensa e persistente que toda a nossa vida se transforma em função dessa dúvida.

E a dúvida de Pascal era: “Deus existe?”.

Não é uma definição estranhamente bela? Pois é. — Mas o problema é até que ponto isto pode mesmo ser considerado como fé, até que ponto Pascal é um crente ou é na verdade um cético. Eu era o calouro ali, mas discutia fervorosamente com Paulinho, o veterano. Não chegávamos a um acordo, e mergulhamos tão concentrados no assunto, que não nos demos conta de que a conversa devia estar, para dizer o mínimo, um tanto chata para aquele meu grande amigo, Alessandro que ? pelo menos naquela época ? não era da área (mais tarde acabou defendendo um Mestrado em filosofia… sobre o tema do riso). Como o Alessandro não tinha mais o que fazer, enquanto discutíamos ele bebia… bebia… bebia…

A certa altura, já bem embalado, ele percebeu que nós dois estávamos finalmente quase chegando a um acordo, e decidiu que era o momento estrategicamente mais apropriado para entrar na conversa. Com o dedo em riste, soltou essa única frase: — Não necessariamente! Olhamos para ele. Ficamos em silêncio, coçamos nossos queixos profundos… que diabos, ele tinha razão: não necessariamente! Mas será que não? Não, é claro que não! Como assim “claro que não”, pra mim não está nada claro, só estou vendo uma enorme sombra nessa questão… — e lá se foi nosso acordo.

Então o debate se reiniciou, e nem nos demos conta de que o provocador, entre mais goles e goles de bebida, estava dando boas risadas ali ao lado, muito orgulhoso de sua participação. Novos acordos foram se esboçando, e meu amigo, escalando cambaleante o balcão, dedo em riste, repetia, com um ar profundo e circunspecto: Não necessariamente! E a cena toda se repetia mais uma vez, e mais uma, e mais uma… no final com ele já quase deslizando para o chão às gargalhadas, sem nem percebermos…

Conversa de filósofos às vezes pode ser uma coisa deveras interessante.

 

Ser cético é uma maneira invertida de acreditar?

Quando dizemos que alguém é “cético” em relação a alguma coisa, em geral queremos dizer que essa pessoa “não acredita” na coisa. O que deixamos escapar é que, quando alguém diz que “não acredita” que um político possa ser ético, por exemplo, está ao mesmo tempo dizendo que “acredita” que um político não pode ser ético — o que quer dizer que essa pessoa, no fundo, está exprimindo uma crença, e não uma descrença. Ela tem fé na incapacidade ética dos políticos — acredita nisso.
Do mesmo modo, se a pessoa diz que “não acredita” que todos os políticos sejam necessariamente corruptos ou anti-éticos de alguma maneira, ela também está exprimindo uma fé: ela acredita que nem todos os políticos são necessariamente anti-éticos, e exclue a possibilidade de que, no fundo, de algum modo talvez todos sejam — mesmo os que não se dão conta disso (estou fazendo referência, aqui, a uma possibilidade que explorei em meu último artigo, O isolamento parlamentar).

Será que ser cético é apenas uma maneira invertida de se dizer no que é que se acredita? — Não é o que parece quando examinamos melhor o sentido original da noção de ceticismo. A palavra vem de skepticismo, da raiz grega spek, que foi se torcendo com o tempo e caindo em skep. Essa raiz original — spek — quer dizer inspeção, observação atenta, investigação, e não descrença. “Ceticismo”, ao pé da letra, quer dizer “investigacionismo”. O que ocorre é que, enquanto estamos investigando, não temos ainda uma resposta, e portanto nenhuma verdade em que acreditar. Apenas vivenciamos o processo de investigação — e é isto o que faria uma pessoa realmente cética, no sentido mais amplo e profundo do termo. Deixaria de ser “cética” quando encontrasse uma resposta (positiva ou negativa) em que realmente acreditasse. E se nada indicasse que viria a chegar a alguma resposta, se pelo contrário tudo indicasse que essa pessoa iria continuar sempre e sempre investigando… aí teríamos, então,
uma pessoa cética pra valer.

Esse sentido de investigação, que está na própria raiz do termo ceticismo, foi o que se perdeu com o tempo na linguagem popular. Ficou apenas a ideia de que para o cético não há uma resposta, uma verdade ou objeto de crença. E este não-acreditar, por sua vez, foi logo sendo torcido no uso corriqueiro da noção de ceticismo, e confundido com um acreditar-que-não.

 

Será que todos os filósofos são céticos?

Os filósofos não esqueceram essa origem da noção de “ceticismo”, e de certa forma ela está sim enraizada no sentido mais profundo de toda atividade filosófica. Isso às vezes deixa exasperadas as pessoas de outras áreas, porque têm a sensação de que as investigações filosóficas são intermináveis e nunca chegam a lugar nenhum — ou seja, a nenhuma resposta definitiva, a nada em que se possa definitivamente acreditar.

Mas esse “investigacionismo” dos filósofos tem limites, e não é correto dizer que ser filósofo é a mesma coisa que ser cético. É preciso dar um pouco mais de atenção ao que os filósofos realmente dizem e fazem em relação a isto, porque as coisas não são bem assim. A filosofia oferece sim suas respostas — muitas, e fundamentadas em muito bons argumentos, em geral todas muito razoáveis… mesmo quando se contradizem umas às outras! — Por isso, justamente, é que o leigo às vezes fica angustiado: porque queria uma só, na qual pudesse acreditar com toda a certeza (sem que lhe fosse preciso realmente pensar a respeito). Na prática filosófica, no entanto, o que se quer é justamente que as pessoas pensem, que elas usem a cabeça, por isso o exercício da suspeita é fundamental, e toda crença deve manter-se aberta ao exame crítico, ou já não estaríamos praticando propriamente essa forma de conhecimento que chamamos de “filosofia”.

 

A “sombra” da filosofia

Mas existe uma filosofia, em especial, em relação à qual essa má impressão de que nunca se chega a respostas talvez esteja bem correta. É que na Grécia e na Roma antigas, essa atitude intelectual incansavelmente “investigacionista” assumiu a forma de uma filosofia, chamada Ceticismo Pirrônico.

Esse ceticismo filosófico, que parece ter começado com o filósofo grego Pirro de Elis, assume essa atitude “investigacionista” da maneira mais radical, no sentido mais decididamente fiel à sua raiz original. A filosofia cética (ou pirrônica) efetivamente se recusa a fixar respostas definitivas, e os demais filósofos, com suas mil respostas fundadas em dez mil argumentos, costumam ficar tão angustiados diante dela quanto o leigo diante da filosofia em geral, a tal ponto que ela recebeu o apelido histórico de “a sombra da filosofia”. As respostas do cético, quando existem, tendem a ser em última instância apenas instrumentos de renovação do questionamento e da dúvida.

Mas como distinguir o “autêntico” cético — aquele que aposta no próprio movimento da investigação — daquele para quem a investigação é que é apenas o instrumento de uma futura crença, portanto algo como uma esperança, um caminho para a fé? Como distinguir aquele que está sendo provisoriamente cético ou que está em um estado provisório (ou até mesmo fingido)de ceticismo,daquele que é cético pra valer ? O jogo dos debates filosóficos, na prática, é tão carregado de máscaras retóricas, malícia e jogos de cena, quanto a política — senão mais — e essas distinções se tornam difíceis.

Frequentemente um filósofo se engana inclusive a si mesmo sem se dar conta, traído por suas próprias palavras — e os outros filósofos, com os quais está sempre em debate, não deixam escapar facilmente esse tipo de lapso: desmascarado, ele pode se descobrir menos cético e mais dogmático do que se julgava, ou mais cético e menos decidido acerca da verdade do que pretendia. Além disso, o cético não poderia ser acusado de acreditar que o próprio processo de investigação é um fim em si mesmo com tanto valor quanto uma verdade?

 

Quem é o autêntico filósofo cético?

A essas dificuldades, filósofos dessa linha de pensamento costumam responder que o autêntico cético é também um equilibrista. Ele procura sim chegar a algum lugar: ele compara as alternativas, e ao invés de buscar aquela que dá a resposta verdadeira, procura chegar a um impasse, equilibrar as possíveis respostas até não poder decidir qual é a melhor. Quer chegar ao impasse porque, quando isso acontece, ele suspende a investigação — já que não tem mais por onde “passar” com ela nesse impasse, para continuar investigando — e então, como a investigação está suspensa, ele aproveita o momento e… descansa — ou, para ser mais preciso, atinge um sentimento de bem-estar que os antigos chamavam de “ataraxia”, em cuja melhor tradução é “um estado de ausência de perturbações”.

A ataraxia filosófica do cético é uma espécie de tranquilidade que, de certo modo, substitui a sensação tranquilizadora de ter uma verdade nas mãos. E enquanto descansa, o cético se contenta com as aparências e com o modo menos filosófico e mais popular e corriqueiro de pensar, sem julgar se são opiniões verdadeiras ou falsas (e isso, geralmente,apavora os outros filósofos!).

Mas o filósofo cético vai ainda mais longe: essa “ataraxia” é declarada e assumidamente uma coisa provisória, de forma que, sendo “autenticamente” cético — ou pelo menos é o que se supõe — ele oscila entre os momentos de ataraxia e os de investigação, deslizando escorregadio com seus argumentos por entre os dedos daquela verdade (ou daquela fé) que, na ocasião, estiver pretendendo (em vão) agarrá-lo desarmado de seu senso crítico. Assim, mesmo quando está em ataraxia com relação a um assunto, o cético “autêntico” logo se sente inquieto e mergulha em outra investigação — ou retoma a investigação anterior, se alguém, algum novo argumento ou nova alternativa de pensamento, o tira do impasse.

Podemos dizer que o cético é um equilibrista não apenas porque busca o equilíbrio de forças entre diferentes pontos de vista e respostas possíveis, a fim de chegar a um impasse e à ataraxia, mas também porque tende ao equilíbrio entre o próprio movimento de investigação e o impasse no qual pode enfim descansar… — pelo menos em relação àquele assunto, e enquanto não houver nada de novo e de relevante em jogo para desequilibrá-lo.

 

O que significa ser cético em política?

O leitor talvez espere agora que eu responda a esta pergunta, já que este artigo está estruturado como um pequeno jogo de perguntas e respostas — ou seja, um diálogo. Mas quando a gente entra realmente em um diálogo, e alguém nos faz uma pergunta, é a nós que cabe pensar em uma resposta. A questão, então, é: será que disse aqui o suficiente para dar ao leitor alguma vontade de entrar neste diálogo, em outras palavras, alguma vontade de tentar responder por si mesmo?

Pra fechar o círculo do que me cabe dizer neste momento, tenho sim, cá pra mim, umas respostas, e posso até dar uma pista: não creio que o ceticismo seja só uma questão de palavras, acho possível ser cético através de ações, e minhas respostas iriam talvez nessa direção.

Mas será que são as melhores?…

Um comentário sobre “A sombra do equilibrista”

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