Alguns posicionamentos tangenciando Hobbes e as redes sociais

sumário:

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A natureza humana e a guerra:
a questão do prazer, do desejo e do ódio

Não acredito que exista uma “verdadeira natureza humana” que nos seja acessível, nem aliás uma “verdadeira natureza” do que quer que seja para além das aparências em sua multiplicidade, fluidez e conflituosidade. Quanto a isto, minha visão das aparências se assemelha à guerra de todos contra todos de Hobbes, ou mais precisamente à guerra de possessividade (guerra de cooptações e rupturas) de todas as coisas em relação a todas as coisas, vivas ou não, físicas ou não, de que fala Stirner.
E quanto a essa guerra, acho que Hobbes errou em alguns pontos fundamentais. Acima de tudo:

1 – não considerou o suficiente o poder do prazer e da transmissão ou provocação de prazeres calculadamente selecionados, tanto na formação de alianças quanto (e ainda muito mais) no desmantelamento de oposições e forças inimigas (no que não há necessariamente alguma ingenuidade do “sejamos bonzinhos”, e sim muita malícia estratégica): o desejo é um recurso extremamente poderoso a manejar em política.

2 – Hobbes não considerou o suficiente, também, a emergência do ódio em lugar do medo, como consequência (que me parece aliás muito mais natural e evidente) da repressão, e o poder do ódio como combustível de ação no entanto arriscado, perigoso e explosivo, podendo explodir em qualquer direção. Por outro lado, o ódio autocontido e direcionado refletidamente pelo agente carregado desse sentimento, se torna ainda mais poderoso — …e neste caso o risco envolvido no mau equilíbrio entre o que se retém de ódio sem colocar para fora e o que se consegue transformar em ação estratégica, quando se retém mais do que se pode conter, é que a pessoa comece a ser deformada patologicamente por esse ódio contido. Esse risco de deformação exige da pessoa, no caso raro em que tenha consciência disto, um enorme desperdício em gasto de energias para constantemente se “reformar” e corrigir outra vez até recuperar a sanidade e saúde de novo e de novo e de novo…

Quanto ao caráter fluido,
múltiplo e conflituoso das aparências,
e a busca de alguma “verdade absoluta” para além delas

As coisas que nos aparecem aos sentidos e à mente são formadas, reformadas, transformadas, deformadas e des-formadas (desmanchadas) por suas interações umas com as outras, em ritmos os mais variados, e não sei se há algo “mais verdadeiro” para além deste modo como nos aparecem. O mesmo vale para essas aparências chamadas “seres humanos”, nessa imensa guerra de aparências (ou jogo de influências) em que tais “seres humanos” convivem.

Mas considero pernicioso e perigoso “fixar” que algo exista para além disto (inclusive mesmo que realmente exista, caso em que teremos algo a real a combater e tentar destruir, e que valerá a pena combater mesmo que a vitória seja impossível… mas ao que tudo indica nunca saberemos se tal grande mal, que é a existência de alguma “verdade absoluta” para além do aparente, existe).

Considero pernicioso porque aprendi em minhas leituras de Proudhon a ver toda valorização de algo supostamente “absoluto” (seja esta suposição correta e esse “absoluto” verdadeiro ou não) como algo associado às vezes indiretamente e às vezes muito direta e evidentemente ao “absolutismo”, que se define em última instância precisamente como um movimento em direção a e em favor de algo “absoluto”.

E sabemos o que significa “absolutismo” em política.

Sou, como Proudhon, anti-absolutista. Contra qualquer poder absoluto que se queira atribuir a quem quer que seja, de individual ou coletivo. Sou da opinião de que nada de absoluto pode prestar, de que qualquer pretensão a algo absoluto deve estar sempre sob suspeita e vigilância como algo perigoso e que eventualmente, se adquirir muita impetuosidade, terá que ser combatido e desmantelado, da maneira mais inteligente e eficaz (e rápida, se possível) que se puder encontrar para isso.

Esta opinião acompanha meu sentido de vida e portanto também todo o percurso em que meus valores vão se encadeando uns aos outros. Portanto, não posso (não faria sentido nenhum para mim) ficar buscando algo “absoluto” e inquestionável que seria verdadeiro para além de todas as aparências e apesar delas. Toda pretensa verdade absoluta é, para mim, questionável por princípio e já de saída, e de minha parte, se me conheço bem, tenderei a questioná-la sempre até o fundo e até o fim.

Contudo tais pretensas verdades surgem apenas a partir do momento em que começamos a focalizar o caráter incerto das aparência como algo que deve ser superado. E o fato é que vivemos num mundo de aparências do qual, no conjunto, não parece haver qualquer superação possível (coisa que me deixa aliás muito feliz, porque pessoalmente acho a noção de “verdade absoluta” uma coisa insuportavelmente horrorosa).

Por que superar o “incerto” em busca de algo “fixo”?

Todas as possíveis respostas que tenho sempre encontrado para isto invariavelmente me levam a querer em última instância combater e desenraizar o que quer que se “fixe”, e não a querer combater o incerto em busca do fixo. Mesmo que para isto possa me utilizar instrumentalmente em certas circunstâncias e em certa medida de alguma fixidez menor e provisória como parte de uma estratégia maior de desenraizamento do “fixo”.

Para mim, superação de aparências significa superá-las em direção a outras aparências diferentes das primeiras, nada mais. Especialmente quando pensamos no “fixo” em termos de algo… — arrrgh!, que horrível — …algo “absoluto”! (Digo esta palavra com um certo asco, uma certa aversão eu diria que visceral).

Só que combater o absolutismo não significa viver pasmado em um campo de incertezas insuperáveis e paralisantes. Em primeiríssimo lugar porque não é preciso ter certeza perfeita, completa e absoluta de algo para agir em relação a esse algo. E em segundo lugar porque essa incerteza quanto à realidade ou não das aparências não significa incerteza quanto ao modo como elas nos aparecem (sejam elas ilusórias ou não), modo que está aí diante dos nossos olhos e pode sim ser descrito, com muitíssima precisão e clareza.

Uma ilusão pode ser tão bem e tão perfeitamente descrita quanto uma realidade. E é importante fazê-lo, inclusive porque nos ajuda a avaliar graus de determinação ou indeterminação em algo que nos aparece, e as coisas vagas, indeterminadas (reais ou não), exigem um modo de agir diferente daquele das coisas que nos aparecem com os contornos bem definidos (reais ou não). O que importa na vida prática é justamente o modo como as coisas nos aparecem, muito mais do que saber se são a verdade em si mesmas ou se são apenas uma superfície ilusória encobrindo alguma verdade mais profunda.

Sobre o senso crítico e as informações
que aparecem nas redes sociais

Podemos traçar mil, dez mil especulações diárias acerca de “verdades profundas” que supomos estarem ocultas por detrás das aparências.

Entretanto temos aí (felizmente) o mundo meramente sensorial, o aparente em que estamos enredados o tempo todo. E neste campo, que é o campo em que efetivamente vivemos e agimos, a informação e sua precisão são fundamentais — procurando inclusive acompanhar tão corretamente quanto possível suas transformações e compreender seus ritmos de transformação. Diria mesmo que se trata de uma questão capacitação básica e mínima para a a ação e para a eficácia, e ao mesmo tempo de sanidade mental, o que quer dizer que é no limite uma questão de vida ou morte, nada menos que isso.

Guardo a imprecisão e a incerteza para o absoluto e as discussões acerca da realidade das aparências tomadas em conjunto. Mas na medida em que estamos mergulhados nelas, e considerando-as de dentro como referências para a nossa vida prática, a coisa é inteiramente outra. Porque nesta situação, saber se estamos lidando com uma mera aparência que encobre alguma realidade mais profunda ou se estamos lidando diretamente com a verdade e não há nada mais além do que se vê… é praticamente irrelevante.

A questão toda está em saber como é que se apresenta aquilo que está diante dos nossos olhos. Porque é apenas isto o que pode determinar com alguma mínima segurança as nossas ações. Todo o resto, é especulação que não se pode confirmar no momento da ação em si, de modo que do ponto de vista prático, simplesmente, não interessa. Passará a interessar se e quando e na medida em que alguma das especulações se confirmar, e quando ocorrer, isto não terá qualquer relevância para o julgamento de ações passadas, porque então se realizaram sem poder contar com mais do que especulações.

Justificações a posteriori do que em algum momento se caracterizou como mera especulação, e culpabilizações a posteriori de ações realizadas segundo o que se julgava correto ao serem tomadas, não significam revelações de verdades descobertas antecipadamente por alguém e de erros cometidos por outro alguém. Pelo contrário, elas têm para mim um nome muito claro: cretinice de quem as utiliza. Nada mais. E não estou interessado nisto.

O fato de que tenha tido a sorte de ter acertado em tudo ou quase tudo em minhas especulações particulares quanto a política, até o momento, não me qualifica para desqualificar as especulações de outros como “falsas visões da verdade” ou qualquer cretinice do gênero. Porque não me julgo lidando com “verdades” ou “falsidades” quanto ao “sentido profundo” das coisas. Não trabalho com essas categorias. Elas não me interessam.

Mas quanto ao que diz respeito ao que é posto diante dos nossos olhos para nos orientar as ações, precisão e consistente base de informações são coisas fundamentais, e me desculpem se me expresso com demasiada veemência aqui, mas me parece que promover a incerteza quanto a cada informação que pipoca diante de nós destruindo sucessivamente sua confiabilidade, sob o pretexto de que promover tal desconfiança estimula o senso crítico, é uma imbecilidade. Não estimula em absolutamente nada o senso crítico, porque não deixa elementos palpáveis com os quais mobilizar o pensamento, e senso crítico é pensamento em movimento.

Na verdade promover essa inconfiabilidade generalizada em toda e qualquer informação básica e simples é algo que se assemelha muito de perto a certas técnicas bastante conhecidas de lavagem cerebral utilizadas em guerras sobre inimigos capturados e já condenadas por órgãos internacionais de proteção a direitos humanos. E a coisa é tão gritantemente evidente que quem supõe que promovendo esse tipo de ambiente informacional está promovendo alguma espécie de senso crítico, não posso julgar senão como um completo imbecil.

Você, que me lê, não sei até que ponto concorda comigo ou discorda de mim, mas pense um pouco comigo a respeito… e dê uma olhada no que está acontecendo ao modo como têm circulado as informações sobre os “fatos” nas redes sociais.

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