ANÔNIMO. “A epopeia de Gilgamesh”. São paulo: Martins Fontes, 2011. Com estudo inicial de N. K. Sandars.

O mito de Gilgamesh é o mais antigo de que se tem registro na história a aparecer inteiro, com começo, meio e fim. É um mito mesopotâmico de mais ou menos uns 3000 anos atrás, de pouco antes do aparecimento do Código de Hamurabi (e exprime todo o caldo cultural que, na época, influenciou a formação desse código). De todas as histórias mitológicas de que tive conhecimento na vida, é o que mais me fascinou (e me fascina cada vez mais). Na verdade é o segundo livro que leio sobre o assunto. O primeiro foi uma interpretação belíssima realizada por uma psicóloga junguiana.

 

Muitas passagens das mais variadas lendas e mitos das mais variadas culturas religiosas do mundo estão fundadas, direta ou indiretamente, nesse mito (a começar pelo dilúvio e pela arca de Noé, que para mim é a passagem menos interessante de todo o mito, embora seja a mais estudada). O mito trata da confrontação com a morte e com a nossa própria natureza. Nele aparece a figura do “duplo” (tão trabalhada mais tarde por Artaud); no caso o duplo de si mesmo, o alterego, o “outro eu”… que se exprime na figura do melhor amigo de Gilgamesh, Enkidu — que é meio animal meio gente, e que é muito, muito evidentemente, uma outra face do próprio Gilgamesh.

 

Enkidu é o personagem mais interessante de todos no mito. Muita coisa conduz a crer que seja, talvez, um misto de gente e touro; uma espécie de antecipação mitológica do minotauro. Mas tornado carnívoro ao se “civilizar” (até certo ponto) e passar a viver entre os humanos. Por outro lado seu comportamento é quase todo o tempo extremamente “canino” em relação ao amigo Gilgamesh — exceto por uma boa dose de selvageria fora de qualquer controle que estoura de vez em quando… como um cão selvagem que anda em pé e fala, mas que não deixa de ter o seu “dono” a quem ama.

 

(A selvageria e a fidelidade protetora se vêm bem quando, por exemplo, Enkidu arranca a perna do touro divino enviado pela ciumenta e irada deusa Ishtar, do amor e da guerra, para matar seu amigo Gilgamesh… Enkidu não se contenta em vencer e matar o touro: ainda ameaça com fúria a deusa, rindo com escárnio, com a perna do touro divino na mão. Diria que quase se pode imaginá-lo com os pelos arrepiados, “latindo” furiosamente impropérios contra ela em defesa do amigo, e ao mesmo tempo inocentemente entusiasmado com sua façanha selvagemente protetora… façanha que acabaria por levá-lo tragicamente à morte, condenado pelos deuses… e no leito de morte, Enkidu amaldiçoa tudo e todos que o levaram a ser arrancado da natureza e tornado semi-humano… mas incondicionalmente fiel, morre perdoando o amigo, que em seguida enlouquece com a perda, dando início à segunda metade do mito).

 

Touro ou outro animal qualquer (não fica realmente definido) o fato é que toda essa simbologia de “lado animal do humano” de que Enkidu é portador, faz dele na verdade o primeiro lobisomem de que se tem registro na história da fantasia humana.

 

Uma leitura política, que não está nos livros que li nem nos que consultei, me parece no entanto inevitável e interessantíssima — e pretendo fazê-la: Gilgamesh é um rei, e a energia de suas grandiosas realizações levou o povo ao limite, fartos com as obrigações que ele lhes cobra. Enkidu é enviado pelos deuses a pedido do povo, para desafiar e enfrentar Gilgamesh, e desviar-lhe as atenções e energias, dando sossego a esse povo. Com base nisto, minha hipótese é a de que Enkidu, o lobisomem, não é apenas um duplo do rei Gilgamesh, mas ao mesmo tempo um duplo do próprio povo, por sua vez associado às forças da natureza enquanto Gilgamesh representa as da superação humana e até trans-humana, rumo ao divino… minha hipótese é a de que em Enkidu se exprime a utopia da junção num só de povo e líder, e no mesmo movimento de natureza com superação dos limites naturais. Que as influências sobre o famoso código de Hamurabi, por exemplo, são em função disto imensamente maiores do que parecem.

 

E a moral da história, interessantíssima, está no fracasso dessa junção utópica e em seguida do empenho de superação de Gilgamesh. Enkidu é a própria expressão trágica desse fracasso, encarnada em um personagem. Gilgamesh tem que, dolorosamente, sofrer o sacrifício de Enkidu (seu lado povo e natureza) para obter a superação rumo ao divino (superação da morte). A história conduz no entanto ao fracasso da junção natureza-superação (fracasso da união amiga de Enkidu e Gilgamesh, com a morte de Enkidu) e finalmente, ao fracasso do projeto de superação em que Gilgamesh se empenha. E o resultado final, mais interessante ainda, é o anticlímax: Gilgamesh reconhece a precariedade de sua condição meramente humana, e volta à proximidade com o povo, reconhecendo suas limitações tanto nessa proximidade quanto nas grandes realizações que pretendia…

 

Não é um mito maravilhosamente interessante para se analisar?