Bola de Neve

Por João Borba – 15 de agosto de 2006 – artigo 09, vol. 1
originalmente publicado em www.eleicao.info
(reeditado em maio de 2013)

caído na neveQuando um programa de TV
é realmente chocante?

Gostaria de fazer aqui o relato de um estranhamento: vamos falar um pouco sobre o PCC e os pequenos contrastes do cotidiano…

Estava com minha namorada assistindo a uma simpática comédia norte-americana sobre um professor querido e respeitado de uma cidadezinha interiorana, que todos descobrem ser gay, coisa de que ele próprio ainda não havia se dado conta. Era um desses filmes de militância, em defesa das minorias sexuais marginalizadas. Mas talvez por ser antigo, não assumia aquele chato tom habitual de protesto, e as reações mais preconceituosas dos personagens se davam em tintas suaves, como se fossem uma mera incompreensão, a ser sanada com o tempo.

O protagonista chega a ser demitido da escola, mas era apenas uma incompreensão de seu “amigo antiquado”, o diretor… — acho que o público norte-americano, na época, ainda não havia assimilado muito bem o caráter criminoso da discriminação das diferenças. O resultado foi bom para o filme, ele ganhou uma leveza e uma graça que não teria de outro modo. Uma pena que a realidade seja bem diferente, e os protestos insuportavelmente chatos sejam mesmo necessários.

Enfim, era uma dessas comédias em que a gente fica com um sorriso estampado na cara do começo ao fim, e com a sensação de que todas as pessoas no mundo são fundamentalmente bondosas e capazes de aceitar razoavelmente bem as diferenças. Só que não deu pra manter o sorriso, porque no meio do filme a transmissão foi interrompida, e tomada por um curta-metragem tosco e nada cor-de-rosa, que não estava programado: o filme do PCC, que havia sequestrado um repórter e prometia libertá-lo se isso fosse posto no ar.

Aquilo foi estarrecedor. Através da telinha da TV, toda a insanidade da violência que vem se apoderando de São Paulo, mas que tentamos ridiculamente ignorar (… porque parece ser a nossa única defesa), de repente invadia a intimidade do nosso lar, e tirava o gosto da nossa pipoca. Mas o mais estarrecedor, o mais perturbador, o mais incompreensível, era o fato de que o PCC pedia que as autoridades seguissem as leis! — E o pedia lendo com monotonia um discurso escrito nitidamente por alguém que domina a linguagem das leis… (aquela mesma linguagem esdrúxula em que os advogados e juízes se acastelaram ao longo da História, e que acabou tornando impossível a um cidadão comum defender-se por si mesmo em um tribunal).

Céus! — Começam sequestrando um repórter, terminam ameaçando as famílias dos policiais caso os policiais continuem “mexendo” com as suas… (os policiais estão mexendo com as famílias deles, fora das prisões?!), comportam-se como numa daquelas vendetas assassinas entre famílias nordestinas… e entre uma ponta e outra, querem a proteção da lei! O que está acontecendo, afinal? alguém entende exatamente o que está acontecendo?! Será que alguma coisa neste mundo ainda faz sentido?

 

O PCC e os gays na TV: tudo uma coisa só

Permitam-me completar o que vinha dizendo com este tópico sobre a associação que fiz entre o PCC e os gays na TV — tópico que não estava aqui quando o artigo foi publicado pela primeira vez na Internet, mas que talvez seja necessário. Quero esclarecer um pouco mais explicitamente por que é que associei de forma tão bizarra uma doce comedinha gay com um ato terrorista do PCC. Não que eu tenha algum problema com os homossexuais, ou precise de algum modo deixar claro que não sou gay (visto que a alusão ao professorzinho gay do filme é evidentemente uma alusão a mim mesmo)… não sou. Ah, mas o professorzinho do filme também dizia isso! “Não sou, não sou e não sou!”. O leitor que me desculpe, mas sinceramente não estou nem aí para sua opinião a meu respeito. A questão aqui é outra. A questão está nas situações-limite.

A aparição de gays na TV de maneira tão escancarada , para algumas pessoas — os doentes de homofobia, os que têm preconceitos muito fortes enraizados nas suas cabeças quanto a isto, em nível patológico — tende a ser tão chocante e desconcertante quanto o ato terrorista do PCC. Por isso é que os gays tendem a aparecer nos filmes de maneira tão estereotipada, como se fossem uma caricatura de gente, e não gente de carne e osso. Precisam aparecer menos realistas, porque isso diminui o choque de certos espectadores.

Antigamente, os estereótipos na TV acompanhavam a cabeça do homofóbico, porque a sociedade inteira tendia a ser patologicamente homofóbica: ridicularizavam o gay. Hoje, em tempos de lenta e difícil “abertura” das cabeças mais conservadoras para a possibilidade (incrível, inacreditável, surpreendente) de que os gays sejam gente também afinal, e de que não tragam nenhum perigo que vá abalar o nosso macho mundo, os estereótipos ainda continuam — mas mostram o gay como alguém sempre necessariamente “simpático”, “bonzinho”, “dócil”, “educado” etc. O que continua sendo um estereótipo.

Gente é gente, e tem de tudo, gente boa e gente ruim — ou mais “gaymente”, para brincarmos um pouco com os estereótipos, tem bonzinho e ruinzinho,  bonzão e ruinzinho, bonzão e ruinzão, bonzinho e ruinzão… seja gay ou não.

No entanto, não é fácil vencer os estereótipos na nossa cabeça. Eu próprio abandonei certa vez um filme do Almodóvar (excelente diretor) no meio, e saí do cinema sem ver o resto, porque aquilo lá era “gay demais” para a minha cabeça, e não aguentava ver. Muitos de nós vemos cenas de sexo heterosexual bastante tórridas na TV, por exemplo, sem uma piscada sequer de preconceito, sem nenhum mal estar, e até com um sorriso de malícia. Uma cena gay feita assim já não é sempre tão fácil de encarar para a maioria de nós. A gente sai correndo do cinema — foge para um boteco pra tomar cerveja, arrotar e coçar o saco (estereotipadamente)… Por quê? Qual o problema? Não são simplesmente duas pessoas se amando lá na tela do cinema, sejam elas quem forem? Não, não são: são dois estereótipos praticando um outro estereótipo (o do sexo amoroso e de como imaginamos que ele deve rolar) — e estereótipos são símbolos, modelos, por isso por um lado não são reais, mas por outro são mensagens dizendo algo sobre a realidade, assim como uma caricatura pretende dizer algo sobre a realidade… quando o estereótipo começa a se desestereotipar e se aproximar muito do real, e mostrando o que não aceitamos, ficamos chocados, podemos até nos sentir agredidos.

O problema no fundo é o seguinte: vivemos no Brasil. A nação brasileira tem aproximadamente cinco séculos de história. Desses cinco séculos, quatro com a imensa maioria da população na escravidão, o que quer dizer também no analfabetismo e sem escola de um modo geral. Depois disso, tivemos Vargas reduzindo o pouco que havia de educação ao mero ensino técnico, com as verbas todas voltadas para a industrialização. E foram duas ditaduras, a do próprio Vargas e mais uma ainda bem mais pesada. Uma parte preciosa da educação é necessariamente destruída em qualquer ditadura: a educação política — coisa que vai muito além do minúsculo assunto referente a partidos e governos.

A educação política é aquela que nos ajuda a desenvolver o senso crítico e a autocrítica, e a lidar com quem pensa, sente e age diferentemente de nós. Quem não sabe lidar com o diferente é dotado daquela insuficiência que se pode chamar, com toda clareza, de “incompetência política”. A incompetência política instalada nos poderes oficiais pode ser ainda mais perniciosa que a incompetência política diária de uma pessoa ou de outra. A democracia, que apesar de ser — dependendo de sua formulação — o melhor dos regimes, não deixa de ter suas fraquezas; e que por isso precisa ser sempre aperfeiçoada, pois sempre corre esse tipo de risco (de colocar a incompetência política no poder).

Democracia, é algo que, apesar dos riscos imediatos que sempre oferece, no médio e no longo prazos tende a aperfeiçoar em um povo o senso de convivência com quem é e com o que é diferente. Educação também, porque aprender está ligado justamente a captar e assimilar o que é novo, o que ainda não estava nos nossos conhecimentos, o que é diferente daquilo que já conhecemos. Não tivemos nada disso no Brasil, até o momento.

E quem não tem mente aberta para compreender o que lhe é outro, o que lhe é diferente — porque vive onde as pessoas nunca tiveram oportunidade de desenvolver coletivamente uma cultura do respeito e da democrática consideração ao outro —, passa a depender de estereótipos e preconceitos para se orientar na vida. Isto está na base, lá no fundo, de fenômenos como o ato terrorista do PCC e como a nossa dificuldade frente aos gays na TV (e fora dela).

Diante do cidadão assustado quando a casca de sua realidade burguesa comodamente limitada é rompida, não há diferença: a invasão de sua tela de TV pelo PCC num ato terrorista, ou a de uma tórrida e agressiva cena de sexo gay (por exemplo em um filme de Almodóvar), rompendo o delicado e diplomático estereótipo do “bom gayzinho” de um filme como “Será que ele é?”… — são rigorosamente a mesma coisa. São, cada uma, uma situação à sua maneira insuportável, inaceitável, que nos choca e nos leva aos nosso limites, que rompe a ordem normal da realidade para nós. (Vale a pena ler, aliás, o que Nietzsche diz sobre esse tipo de coisa no livro Sobre verdade e mentira no sentido extramoral).

E foi assim que me senti, ali, ao lado da minha namorada, quando via com ela (a segurança de uma fêmea ao meu lado, para me sentir macho) aquele filminho reconfortantemente estereotipado de maneira simpática sobre um simpático gay… e o filme foi interrompido por aquela brutal e “almodovarística” entrada dramática do PCC (um estereótipo se materializando muito muito muito próximo do real… mas sim, um estereótipo ainda, pois o moço do PCC, na TV, imitava sem se dar conta imagens que já havia assistido em filmes).

Só que aquilo não era uma ficção televisiva. De repente, então, os estereótipos eram a própria realidade. O mundo virou de cabeça para baixo e me senti de súbito completamente impotente, paralisado, frágil. Minha virilidade estava atingida. Era algo além das minhas forças, como uma avalanche desabando de repente na nossa cabeça… e a gente não tendo o que possa fazer. De uma hora para outra e inesperadamente, eu com toda a minha (para mim) seguríssima macheza era alguém tão delicado quanto aquele delicado professorzinho do filme.

Por que digo tudo isto? Porque foi o que me levou a essa metáfora: o PCC e os gays na TV, e também a essa outra, em que eu próprio me comparo com um professor gay de um filme. Sutileza estilística para exprimir certas coisas do sentimento humano. Infelizmente, as sutilezas não são lá muito boas no Brasil, porque grande parte do público não as alcança. Estou seguro disso, pelo menos quanto à maioria dos meus alunos, que leem essas coisas que escrevo. “Sutileza? Que é isso, ô psor! Sutileza é coisa de viado mesmo!”…

Este não é apenas um país em que a violência já demonstrou claramente seu poder de arrebentar, de um momento para o outro e sem aviso, a burguesa casquinha envernizada de comodidade e segurança de um classe média como eu — como no caso que estou registrando neste artigo. É também um país carregado de preconceitos e de analfabetismo funcional, de modo que estou seguro de que mais de metade dos que vierem a ler este meu artigo não entenderiam minhas sutilezas estilísticas sem este tópico acrescentado (e talvez mesmo com ele) — a começar por um público que conheço bem de universitários que estudam pedagogia, administração e direito (três cursos cuja importância para um país não preciso explicar… sim, é o que estou dizendo mesmo, analfabetismo funcional na universidade, isto é uma coisa que haveria de chocar qualquer estrangeiro por exemplo europeu, mas é um fato). Por isso explico minhas associações estilísticas (o que infelizmente tira um pouco do seu valor poético).

E as explicações vão adiantar alguma coisa? Na verdade não. Também não vão entendê-las. Liberdade estilística provavelmente “é coisa de viado”. Mas pelo menos vale o apelo, ainda que provavelmente inútil. Capaz que enfiem na cabeça que sou gay? Tudo bem. Como queiram. Professor é mesmo um símbolo no qual a gente projeta um monte de bobagens que a gente imagina… é compreensível. Mas não diminuam minha sutileza estilística dizendo que foi alguma “escapadela inconsciente” da minha parte, que “sem querer me denunciei gay” ou qualquer coisa assim. Este é o apelo: por favor, não rebaixem o gesto estilístico de um autor, e sua capacidade literária, a algo “inconsciente”. Não sou assim tão estúpido — por incrível que pareça — nem tão mediocremente preocupado com o que pensam ou deixam de pensar a respeito da minha sexualidade. A associação entre o ato to PCC e o filme gay é, sim, proposital, e a associação entre o simpático professorzinho gay e eu mesmo também é… por que não?

— Quá quá quá! O professor se chamou ele mesmo de gay! E ainda confessa que fez de propósito… mas que anta!

Pois é…

Mas não se apressem a me chamar de “anta”… pensem apenas: por quê? Por quê fiz essas associações, afinal? Por quê? Que raio de ideia estou querendo passar com isso?

Fiz essas associações porque foi assim que me senti quando a casca da minha realidade se rompeu diante da tela da TV: tão impotente que aquilo atingiu minha virilidade. E associar o ato do PCC a um filme gay me pareceu, tolamente, não apenas engraçado, mas também um pequeno gesto de coragem, dentro dos meus frágeis limites no momento. Como se estivesse confrontando os perigosos bandidos ao deixar mais ou menos claro o quanto as armas que esses caras gostam tanto de afagar são, no fundo, a representação de uma parte da anatomia humana de cuja potência eles não parecem se sentir tão seguros…

Agora alguém me diga: um bandido do PCC está lá interessado no que escreve “um viado dum professorzinho lá na internet”…? Foi algo, digamos assim, como o espernear ridículo de barriga para cima de um inseto moribundo do qual arrancaram uma pata.

 

Pequenos contrastes

Mês passado (julho de 2006), em uma conversa com um amigo —que é filho de filósofo e, apesar de não se dar conta, tem ele próprio uma cabeça meio filosófica —, surgiu a questão da presença constante dos contrastes, que percebemos entre as coisas que existem na nossa vida.

Cada coisa ao nosso redor é diferente da coisa ao lado, e do mesmo modo, uma sensação é diferente de outra, uma ideia é diferente de outra, uma situação é diferente da situação seguinte. Quando duas coisas quaisquer são diferentes uma da outra, existe um certo contraste entre elas, e quanto a isto não importa se estamos falando de duas coisas que estão presentes ao mesmo tempo uma junto à outra, ou se estamos falando de um contraste no tempo, de uma coisa diferente que surge depois da outra.

Nossa vida cotidiana — ou nossa percepção do mundo em que vivemos — é um tecido de milhões e milhões de pequenos contrastes que mudam o tempo todo, mas que têm uma certa regularidade, certos padrões que se repetem milhões e milhões de vezes e aos quais estamos acostumados. Algumas coisas apresentam um contraste maior com as outras ao redor, e então se destacam mais na nossa atenção (os jornalistas costumam ter um sentido muito aguçado para isso, porque é o que vende notícia). Esse destaque, a partir de uma certa intensidade, quando começa a destacar-se mais do que aquilo a que estamos acostumados e a romper com os nossos padrões habituais, torna as coisas estranhas — como se a própria realidade começasse a escapar-nos por debaixo dos pés. E isso em geral nos traz uma sensação de caos, de desorientação, de incerteza, de vertigem ou abismo sem onde nos segurarmos. Essa sensação pode ser incômoda, divertida, assustadora, irritante… depende do perfil de cada um e do tipo de coisa estranha de que estamos falando.

O vídeo do PCC foi um desses destaques estranhos e perturbadores. Não parecia real.

 

Experiências limite

Antonin Artaud, um surrealista que escreveu muito e coisas muito interessantes sobre a arte da encenação e suas relações com a vida, merecia ser mais lido. Em um ensaio chamado O teatro e a peste — no livro O teatro e seu duplo — descreve um caso curiosíssimo que se passou na Idade Média. Um navio estava se aproximando de uma cidade portuária, e correu o boato de que os tripulantes estavam contaminados com a peste. O pânico se alastrou rapidamente. Não havia tempo para fugir. Ninguém chegaria a uma distância suficiente, porque todos sabiam o quão rapidamente a peste se espalharia. Era o fim. A cidade estava condenada. Estavam todos mortos, era só uma questão de tempo.

Diante disso, parece que todas as regras romperam-se. Houve estupros, assassinatos, depredações. As personalidades se romperam, cada pessoa passou a sentir, a pensar e a agir de maneira que dias antes seria absolutamente impensável. Segundo Artaud, há registros históricos de tudo isso (…talvez pessoas tenham escrito, narrando o que se passava). No caso mais impressionante, um sujeito, examinando-se em desespero diante do espelho, começou a apresentar de repente, por todo o corpo, as feridas da peste… e ali mesmo, morreu. Com todos os sintomas da doença. — Só que não tinha nada. O navio chegou e encontrou a cidade devastada. Não havia peste a bordo. O boato… era apenas boato.

Situações como esta, em que todos os padrões habituais da vida se rompem, e com eles todo o sentido de realidade, são situações-limite, situações em que se chega aos limites de toda a regulagem da realidade cotidiana, aos limites de todas as suas regularidades, de tudo aquilo que é regra e a que estamos acostumados. E nessas ocasiões, em que essa regulagem perigosamente se perde a qualquer movimento, tudo o que se experimenta parece inusitado, estranho, incompreensível, com todas as sensações e sentimentos que vêm junto com isso.

Nas situações-limite, nossas experiências também se tornam experiências limite, e na verdade muitas vezes é difícil distinguir uma coisa da outra. Se é uma situação real que nos arrasta para experiências limite, ou se são experiências limite — como no caso da cidade medieval de Artaud — que acabam gerando uma situação-limite real, concreta. De qualquer modo, uma coisa tende a alimentar a outra e vice-versa.

É uma bola de neve.

 

Partido do Comando da Capital?

A questão é que bolas de neve como esta são uma estratégia clássica, não propriamente na história do crime organizado… mas na história política mundial, uma estratégia de grupos golpistas. Já existe quem compara o PCC ? Primeiro Comando da Capital ? às Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que de partido político comunista tornaram-se um grupo de crime organizado. Aqui estaríamos apenas no caminho contrário.

Lamento sentir-me forçado a concluir que comparações como esta talvez não sejam meras figuras de linguagem. A corrupção tem igualado autoridades políticas e criminosos. Que fique claro, antes que queiram nos calar a boca: a corrupção, como fato, e não o discurso crítico a esse respeito nos meios de comunicação.

Agora, estamos em período de campanhas. A ditadura, tampos atrás, obrigou os agrupamentos políticos a colocarem todos um “P” no início de suas siglas se quisessem atuar como partidos. O PCC, com seu perfil claramente autoritário, já se adiantou, ainda nem é partido e já tem o “P” no início da sigla, é só mudar o resto da palavra. Agora, acabam de lançar sua plataforma eleitoral, em defesa de certos grupos marginalizados pela sociedade, em seu horário gratuito na globo… uma combinação aliás que faz a gente pensar: defesa de minorias marginalizadas (normalmente coisa “nossa”, digo, das esquerdas) e postura ultradireitista, de apelo às autoridades, tendo como autoridade máxima o cano da metralhadora.

O que seria o governo de um “partido” como o PCC? Certamente as telinhas, que resumem a porta de entrada principal da esfera pública (como algo que podemos sentir pelo menos um pouco presente) em nossas vidas cotidianas, passariam a mostrar frequentemente as imagens de sujeitos armados até os dentes, explicando por que foi que deram um sumiço em tal jornalista, afinal… talvez só não estejam mais encapuzados, mas usando algum uniforme oficial (talvez o dos antigos policiais, se não tiver ficado com muitos furos de bala).

Imagino que esse tipo de imagem, que hoje ainda se destaca dos pequenos contrastes cotidianos a ponto de nos assustar, se tornaria o padrão regular das coisas, se tornaria parte dos nossos pequenos contrastes cotidianos, como aqueles protestos chatos de filmes de militância em defesa de minorias, aos quais já estamos tão acostumados… só que esses caras do PCC e os “seus protegidos”, já não seriam mais uma minoria vitimada pelo preconceito (ou no caso, pelo descaso) que precisa realmente protestar para conseguir uma vida minimamente decente…

Pensemos um pouco nisto, e nos nossos queridos governantes que, lá nos picos gelados do poder (e até os que eram do mesmo partido) passaram tanto tempo brincando de se atirarem flocos de neve uns nos outros enquanto a situação se formava e vinha rolando abaixo em nossa direção, e como nas calças de um sadomasoquista, se avolumava… e se avolumava… e se avolumava… e se avolumava…

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