Bolhas, mistérios e temores: arqueologia da ousadia

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Pulando da bolha uterina

1. Bolhas de sabão

Um dia, no curso de Direito, eu estava lá iniciando minha aula (ou melhor, ainda dando boa noite e conversando sobre as novidades da semana, porque faltavam na verdade uns cinco minutinhos para o horário e alguns alunos ainda estavam entrando na sala devagar, conversando e rindo), quando uma colega professora simpaticíssima com a qual tenho muito pouco contato, mas que acho que devia ser conhecida da turma, colocou o rosto na porta e soprou um monte de bolhas de sabão na sala, dando um alegre “boa noite!” para o pessoal.

Você já notou como são fascinantes as bolhas de sabão?

São transparentes, poderíamos ver tudo o que estivesse lá dentro! Mas seria um mundo fechado, isolado: até o ar que está lá dentro é um ar próprio, exclusividade da bolha. Podemos ver pequenos reflexos e brilhos sutis, levemente coloridos, deslizando para cima e para baixo naquela finíssima pele da bolha, porque ela gira, ela gira no ar. E é de uma leveza, de uma limpeza, de uma pureza fascinante… e mesmo assim , vai caindo, caindo…

Podemos movê-la no ar sem tocá-la, porque qualquer agitação de nossas mãos ao redor faz deslocar o ar que a move. Mas se move devagar… devagar… por mais que agitemos as mãos — embora às vezes, de surpresa (ou se pegamos o jeito de como fazê-lo, agitando as mãos ao redor), pode dar uma guinada um pouco mais súbita para lá ou para cá.

E podemos ver através dela, como se tudo na bolha, de algum modo, fosse completamente compreensível, em contraste com o mundo complexo que ao redor e por detrás dela, se perde numa infinidade de formas multicoloridas em movimento — que agora estão fora de foco porque estou focalizando só a bolha, mas que são esse oceano tudo o que existe no mundo, no qual nós estamos também inseridos. O grande mistério da bolha, é que na bolha não há mistério.

 

2. A bolha universal mesopotâmica

Na antiga Mesopotâmia, mais de 2000 anos antes de Cristo e antes até do Código de Hamurabi, os sumérios, que viviam lá antes dos akadianos (que por sua vez viviam lá antes dos babilônicos), imaginavam o universo como uma bolha de ar e de luz flutuando e girando no fundo de um oceano infinito, escuro, misterioso e denso.

Esse oceano, para eles, era um caldo vivo, irracional e denso, como a sopa orgânica primordial da qual há teorias de que teriam nascido todos os seres vivos na Terra: era uma deusa-mãe primordial, e essa bolha, o nosso universo inteiro, era como um útero. Essa deusa-mãe primordial, esse caldo vivo, denso e irracional.

Outras vezes as lendas mesopotâmicas colocam dizeres nesse oceano, uma voz, uma fala, que responde aos deuses de dentro da bolha, seus filhos (sim, porque a bolha é ela também repleta de deuses que nasceram dela dentro da bolha, além de plantas, criaturas humanas e outros animais!). Esses deuses na bolha (seus filhos), e ela dialoga com eles, fazendo desaparecer aquela irracionalidade habitual.

Sim, porque como iríamos pretender que ela falasse ou manifestasse a presença de alguma racionalidade antes de ter os filhos com quem dialogar? Era um oceano indistinto, homogêneo, nem formas ou partes distintas possuía para que se organizasse de alguma maneira que se poderia dizer “racional”, quanto mais palavras, frases, dotadas de sentidos!

Com esse útero-universo dentro dela, inclusive todo diferenciado internamente em mil formas multicoloridas e dinâmicas, até mesmo formas vivas, como seus filhos divinos por exemplo e as criações deles, algo nessa deusa irracional oceânica e infinita passa a ser racional, a ter uma “organização”. É que agora há nela esse lugar, esse espaço, essa bolha cheia dessas formas e cores em movimento, e há suas relações com essa bolha, e com seres vivos dentro da bolha. Sem relações e diferenças, sem diferentes que se relacionam, não há razão, não há racionalidade possível, parece. Ao redor desse foco de racionalidade em que a deusa-oceano dialoga com sua bolha uterina, está resto dela, que continua irracional e indistinto.

Mas essa bolha, esse útero, no sentimento daqueles antigos mesopotâmicos, não é de modo nenhum o centro da deusa: ela é um oceano infinito, não se sabe o que mais pode haver perdido no fundo misterioso dela, ou mesmo se há alguma coisa mais. Assim, a motivação, o princípio motor que possibilita e dispara a razão, é para eles apenas uma bolha, um detalhe insignificante num oceano infinito e denso de irracionalidade.

Ademais, sabemos como as lendas e mitos podem ser contraditórios — e o quanto essa especulação filosófica acerca da racionalidade e da irracionalidade para os mesopotâmicos é, provavelmente, mais uma interpretação minha do que exatamente o que pensavam de fato, não é? Talvez para eles as coisas fossem simples assim: a deusa é um oceano irracional, mas dialoga racionalmente com seus filhos, que são parte de um detalhe insignificante nesse oceano infinito em que não se sabe se há outros “úteros” como este…

 

3. A bolha como limite

No entanto os mesopotâmicos parecem tender a crer que a bolha é única — ainda que sim, absolutamente insignificante no infinito, e não central, um detalhe sem nenhuma dignidade especial, surgido da deusa surgido quase que ao acaso (a tal ponto que meu senso de humor, aliás, me leva a imaginar se essa bolha não teria emergido no interior da deusa de um soluço… ou de gases, quem sabe… mas os mesopotâmicos decerto me repreenderiam).

A bolha não deixa de ser também um limite, uma prisão… é sufocante imaginar os mesopotâmicos nesse mundo fechado, para nós, que vivemos (ou julgamos tão firmemente viver) num universo infinito, e que já viajamos à lua! É de uma claustrofobia terrível.

Imagine olhar o céu e as estrelas, e pensar que tudo isso, toda essa enorme abóboda azul que vai até o horizonte (pelo menos quando a observamos dos nossos extremos de altitude, das montanhas ou praias), é como uma casca de ovo ao nosso redor, uma barreira, um limite…!

Mais do que isso, porque uma casca de ovo imaginamos que podemos bicar, em busca de saída, mas sabe do que era feita essa abóboda celeste, na visão dos mesopotâmicos? De metal.

Sentiam-se vivendo numa bolha de metal!

Alguém dos dias de hoje provavelmente pensaria “presos ali”. E se essa bolha arrebentasse, ainda por cima, o oceano, a carne líquida da própria deusa, desabaria para dentro dela, e os esmagaria: seria o fim do mundo, nada menos.

Não havia nem mesmo no imaginário mesopotâmico, que eu saiba, “viagens submarinas” no interior e para o fundo da deusa: nada de naves “sub-espaciais” de ficção científica. Apenas o mistério, denso, assustador e infinito.

 

4. Hoje já fomos à Lua!

A Lua, vejam só! — sim: hoje já fomos à Lua. Essa imensa outra bolha que nos olha lá de longe, do espaço sideral. Só que para os mesopotâmicos, em seu imaginário claustrofóbico, até a própria Lua estava apenas na pele dessa bolha de metal… do lado de dentro!

A Lua, aliás era mais um deus, um deus masculino, assim como o Sol. Dentro da pequena bolha de metal que era o mundo, o rei dos deuses era Enlil… o deus do ar e dos ventos, claro! Só podia ser! O primogênito, o mais velho, o primeiro neto dessa velha deusa líquida infinda, criador de quase toda essa complexa e variada existência dentro da bolha (embora ainda tenha seus pais, os filhos diretos da deusa). Enlil é aquele que, com sua pressão e sua força, mantém a bolha inteira ainda intacta, impedindo-a de ser esmagada nesse abraço maternal irracional, de potência oceânica e infinita.

Mas e os seus pais? E os filhos diretos da deusa-oceano, quem eram?

O deus-vento, neto da deusa líquida primordial, era filho dos deuses Terra e Céu — e Céu era esse deus transparente que tinha suas costas lisas e redondas de metal bem visíveis lá no alto, e que era atravessado para lá e para cá pelo ousado filho Enlil (o vento), que o havia destronado e tomado seu lugar no comando das coisas no mundo, ao separá-lo de sua esposa Terra e tomá-la sob sua guarda e proteção.

Há um forte tema edipiano aí, como os freudianos poderiam notar… exceto pelo fato de que isto foi imaginado milênios antes do próprio modelo da peça “Édipo rei” ser escrita na Grécia, para servir de inspiração a a Freud, de modo que o mais correto seria dizer: há um forte tema Enlilniano nesse “Édipo” dos freudianos (tão eurocêntricos e ocidentalizantes).

O deus Céu era chamado An (mais tarde passou a ser Anu), a deusa terra chamava-se Ki. As costas de An (a abóboda celeste que vemos indo até os contornos do horizonte, quando estamos na praia ou em uma montanha muito alta), era chamada pelos mesopotâmicos de o “metal-do-céu”, o metal de An. E o conjunto de toda a bolha, de todo o universo (ou mundo fechado ali) era chamado de Anki, o “céu-terra” — e essa união entre o pai céu e a mãe terra que constitui o universo foi curiosamente criada pela intrusão entre os dois, separando-os, do seu filho vento (o Enlil). Ele paradoxalmente os separa e os une, numa espécie de laço dialético.

Entretanto, ao mesmo tempo — ainda mais uma vez, eu diria, para a felicidade dos freudianos, deliciosamente pornográficos e perversos como são, (ou como julgam que todos são, o que de certo modo dá no mesmo) — o resto desse universo fechado teria nascido da relação incestuosa de Enlil e sua mãe Ki, com Enlil ferindo o orgulho de An e tomando-lhe o lugar, sem que no entanto deixassem todos os membros da família de se amarem, tensa e problematicamente (…e ocasionalmente, nesse amor, se odiarem).

Mas deixemos um pouco de lado os nossos umbigos e a nossa bolha freudiana uterina para pensarmos um pouco nessa outra coisa: caramba! Chegamos à Lua!

Os mesopotâmicos estavam à beira da pré-história, recém-saídos dela. Não posso deixar de pensar no osso pré-histórico do filme do Kubrick — “2001, Uma odisseia no espaço” — especialmente no final de toda aquela sequência pré-histórica que tem o subtítulo de “Aurora do homem”.

Primeiro penso em minhas mãos agitadas, abanando ao redor da bolha de sabão que flutua docemente à minha frente, e percebo o descompasso entre minha tensa agitação das mãos, tentando movê-la no ar sem tocar nela, e seus leves movimentos no ar em resposta… aí me lembro do osso pré-histórico de Kubrick, se transformando numa ferramenta. Depois me vejo dando um passo atrás, e deixando a bolha de sabão à sua própria sorte, girando e suavemente caindo, caindo com toda naturalidade… e me lembro daquele osso pré-histórico, girando lançado para o ar e subindo, subindo…

 

Chegamos a Lua! Isso nos reflete e nos põe a refletir sobre nós mesmos. Que coisa linda o progresso, não? Do osso ao satélite espacial… nos tornamos tããããããão civilizados… (so so soooooooooo civilized…) — temos até disputa presidencial!

 

5. O “lado escuro” das coisas

A Lua, essa enorme bolha branca do céu, de um lado iluminada pelo sol, de outro também tem seu lado escuro, que nos vai aparecendo como sombra conforme ela cresce ou ela mingua. O universo mesopotâmico, que era igualmente uma bolha, tinha também seu lado escuro.

Eles imaginavam sua bolha dividida bem no meio, porque a Terra (Ki) era uma placa circular, como uma moeda, flutuando no meio dessa bolha, rodeada em suas bordas por um mar circular (que seria na verdade como um gigantesco rio de água salgada a dar a volta em toda a terra, dentro da bolha, entre ela e as paredes metálicas do costado do deus céu (An).

Esse mar em forma de um rio gigantesco e circular como um anel em volta da terra, seria o Abzu (o “Abismo”), o oceano terrestre — ainda que gigantesco, evidentemente minúsculo em face do oceano primordial e sem forma do lado de fora da bolha, que se estenderia infinitamente em todas as direções.

Pois bem: abaixo de Ki e do Abzu (abaixo do círculo da terra e do anel desse oceano que a circunda dentro da bolha), haveria o quê? Se acima do Ki e do Abzu havia o mundo dos seres vivos, que era também o mundo de Enlil (o vento), da Lua e do luminoso Sol, abaixo do Ki e do Abzu era o reino da escuridão sufocante e da morte. E os caminhos para esse reino subterrâneo, era um mergulho até o fundo do Abzu, ou até o fundo das entranhas da Ki (da terra) através do labirinto de suas cavernas.

O universo dos mesopotâmicos não era apenas claustrofobicamente fechado: era também dividido entre o mundo dos vivos e um inferno.

A palavra “inferno” cabe melhor aqui do que poderíamos imaginar: ela vem de “ínfero”, “inferior”, no sentido do que está lá no fundo, por debaixo de tudo. E para os mesopotâmicos, muito mais do que para a imensa maioria dos povos cuja cultura e cujas crenças já tive a curiosidade de examinar, realmente a base, o fundo, e o fundamento de tudo, dentro dessa bolha em que estavam presos vivendo, era o inferno. No sentido mais assustador inclusive.

E havia uma certa simetria, um paralelismo, um equilíbrio, entre esse inferno dos mortos e a muito melhor, mas sufocantemente limitada e fugaz, vida no mundo superior, sob a gerência dos deuses “da luz”…. (sim, porque havia do outro lado, do lado debaixo, também os deuses das sombras, da escuridão, da tristeza sem fim e da morte).

Esse equilíbrio ou simetria não era perfeito, era dinâmico e estava sempre em constante desequilíbrio, exigindo a constante ação gerencial dos deuses para reequilibrarem as coisas — porque o desequilíbrio total poderia pôr fim à própria bolha, poderia levar não só ao caos, mas ao extermínio do universo.

Como? Como a quebra do equilíbrio das coisas dentro da bolha poderia levar à destruição dela e de tudo mais dentro dela? — Retirando do lugar, por uma lógica perversa e desarmônica, todas as forças que se dedicavam, junto à pressão dos ventos de Enlil e ao costado sólido de An, a manter essa bolha resistente ao abraço amoroso mas mortalmente esmagador da mãe primordial oceânica e infinita.

Mesmo que essa imensa deusa criadora primeva até percebesse e amassse muito seus filhos e netos ali naquela bolhazinha delicada e discreta num canto perdido de seu ser… porque esse impulso amoroso irracional era, diríamos em termos de hoje, mais forte do que sua “vontade consciente”. (Brincando com as palavras, podemos dizer que quanto mais os amasse mais o risco de que os amassasse!)

Podemos dizer, de certo modo, que na deusa criadora infinita o bom e o ruim, os aspectos “luz” e “sombra”, não se diferenciam, como no mundo criado dentro da bolha: se confundem numa só massa indistinta (amor e morte por exemplo, ou criação e destruição).

Esses deuses sombrios não eram exatamente “outros” deuses. Eram “alteregos” de deuses superiores, o “lado B”, a outra face da moeda, a versão ou lado “assustador, tenebroso” dos próprios deuses superiores. Seus “duplos” — diziam os mesopotâmicos.

Para os mesopotâmicos tudo o que era vivo, e mesmo as coisas inanimadas, tudo… tinha o seu “duplo” no próprio mundo superior ou no mundo inferior (o das trevas). Era preciso aprender a lidar com isso, conviver com isso, e gerenciar o contraste, do modo mais harmônico e equilibrado que fosse possível. A vida e o conjunto da existência no mundo era um tenso e constante gerenciamento de conflitos, dentro de um mundo fechado numa bolha intransponível, mergulhada num oceano divino, amoroso mas mortal.

 

6. Do mundo fechado ao universo infinito: o “ir além”

…E no entanto, milênios depois de toda essa impossível ruptura que fascinava, mas também aterrorizava absolutamente os sumérios, nós agora, alcançamos a lua!

Alcançamos a Lua com nossos foguetes, rompemos a bolha, flutuamos no espaço com nossos satélites! E me contenho aqui para não fazer mais alusões sexuais incestuosas muito ao gosto sacaninha freudiano (porque o que me vem à mente, curiosamente, é a imagem contrária, de um espermatozóide entrando numa bolha).

Gostaria de lembrar aqui o Alexandre Koyré, que faleceu em 1964 — coincidentemente o ano em que aqui no Brasil entrávamos na mais sufocante e assassina das bolhas, a ditadura dos militares, que não hesito em reconhecer, pelo menos quanto à maioria deles, que tinham grande “amor à pátria”.

Desconheço se Koyré tinha algum pingo de conhecimento acerca dos mesopotâmicos arcaicos, mas escreveu um belo livro sobre o modo como a civilização europeia saiu de uma outra bolha sufocante e terrível em que os humanos se meteram, a bolha fanática da visão de mundo medieval, que dominou essa grande parte da humanidade por um milênio inteiro.

O livro se chama Do mundo fechado ao universo infinito, e traz logo no prefácio um trecho do autor em que ele nos esclarece que

Também as revoluções precisam de tempo para se consumarem; também as revoluções têm uma história. Assim, as esferas celestiais que continham o mundo e o mantinham íntegro não desapareceram de uma só vez, numa colossal explosão; a bolha terrestre cresceu e inchou antes de rebentar e fundir-se no espaço que a circundava.

(KOYRÉ, Alexandre. Do mundo fechado ao universo infinito – Prefácio)

 

Koyré sabia bem o quanto furar uma bolha é fecundo — e como cavar esse furo leva tempo.

O mito da bolha, no entanto, e o que esse mito pode nos querer dizer, incluindo a perspectiva do furo, do estouro, e do que nos pode esperar nesse estouro e depois dele, é o assunto mais profundo e o mais interessante aqui.

 

7. O mito da bolha e do ir além dela: a filosofia tem bolhas?

A ideia da transparência da bolha desempenha um papel especialmente interessante nesse jogo do ir além dela: a transparência é a ideia de que temos algum sinal ou alguma noção do que pode existir lá fora, mas não o suficiente. A de que intuímos alguma coisa do que será essa vivência de algo inteiramente outro… mas o que intuímos é insuficiente para qualquer segurança e certeza.

Essa ideia é a mesma que está presente no fascínio que exercem, nos casais que não se conhecem e que estão ainda “tateando” na superfície um do outro, o charmoso, estranho e às vezes aflitivo jogo da sedução.

A ideia está ligada à da atração, à do fascínio que exerce o “lá fora”, o que está para além de nossa bolha atual, o que nos é outro — precisamente até por seu mistério, pela aventura, pelo imprevisto, pela mudança das coisas de que se tem a expectativa, e que causa aquele gostoso calafriozinho na espinha. O mistério do além-bolha (que na iminência do estouro se faz suspense) traz no seu bojo a semente fecunda de outra bolha, de um outro horizonte no futuro, mais além, e traz também o receio, a ansiedade, a angústia.

Isso me faz pensar o seguinte, já que me dedico tanto à filosofia: a filosofia não tem também, ela própria, as suas bolhas?

Muitas vezes costumamos, por exemplo, pensar nas teorias filosóficas como se elas se iniciassem necessariamente como produções individuais de grandes filósofos fundadores, ou no máximo como se as fontes de uma teoria devessem ser somente aquelas outras teorias examinadas pelo filósofo fundador. Mas muito das melhores elaborações teóricas na filosofia me parecem surgir, na verdade, de vivências pessoais que foram se conceitualizando, e que muitíssimo frequentemente não são vivências estritamente individuais, mas coletivas.

E se são sim vivências pessoais, ou de algum modo claramente personalizadas, trata-se no mais das vezes, na verdade, de vivências alguma pessoa coletiva, uma rede de interações pessoais que é vivenciada pela pessoa individual como se fosse uma superpessoa coletiva da qual ela de algum modo ou até certo ponto participa.

Trata-se de vivências que se reproduzem e se transmitem em infinitas pequenas reinterpretações e variações individuais para todos os envolvidos, ao longo da rede. E cada envolvido a sente como se aquilo fosse parte de si mesmo como pessoa, e sua interpretação e variação pessoal daquilo fosse também parte daquela superpessoa em que participa, um elemento novo a marcá-la, sua contribuição pessoal como participante da rede — seja qual for o grau de fixidez ou maleabilidade dessa conexão da pessoa individual com a tal rede coletiva de relações interpessoais.

No jogo linguístico dessas intercomunicações, conceitos vão se formando, vão tomando forma e função mais definida na articulação dos demais conteúdos. Pensamentos vão se conceitualizando com mais clareza e utilidade mais nítida. O filósofo se apropria deles, e quando é experiente e suficientemente consciente dessa sua própria apropriação de conceitos coletivos, constrói com eles formulações excelentes. De minha parte, penso que deveria procurar detectar, compreender e citar com clareza essas fontes, assim como o faz com conceitos de outros filósofos, em cujos textos se aprofundou.

Muitos desses conceitos são antigos, se desenvolvem ao longo da história, emergindo de mitos ou das fantasias humanas. O que estou focalizando aqui, quando falo da vida em uma bolha, mas com os olhos postos fora dela — o conceito do dentro e fora da bolha, e do permanecer ou sair (em que estou destacando o sair) — é um desses de origem antiquíssima, e mítica. Reapropriado e reformulado inclusive inúmeras vezes ao longo da história da civilização, por inúmeras superpessoas coletivas.

(Pessoalmente, prefiro chamá-las apenas de personas coletivas, porque a palavra “persona” preserva o sentido de máscara, e sabemos que, na verdade, a tal persona coletiva não é realmente uma unidade, algo como um “superindivíduo”, mas sim apenas uma máscara de unidade por sobre o que consiste numa rede.)
8. Os astronautas loucos de Tom Wolfe

Uma belíssima reportagem de Tom Wolfe, se não me engano inclusive premiada, sobre o início das viagens espaciais nos Estados Unidos e a formação dos primeiros astronautas, captura de maneira magnífica o modo como os ousados pilotos de testes aeronáuticos acabaram desenvolvendo um conceito que me parece emergir diretamente dessa ideia mítica e arquetípica da bolha, com seu fascinante e imprevisível além.

Esses pilotos eram os aviadores que, antes de darem origem aos astronautas, testavam novos aviões e equipamentos aeronáuticos. Eles criaram e utilizaram, nessas suas atividades, um conceito que me parece bem conectado a essa mítica bolha que já vem de tão longe nos pensamentos humanos — ideia de raízes historicamente tão profundas que, como se vê, as pudemos detectar na arcaica Mesopotâmia.

Eles formavam uma rede dotada de uma persona coletiva muito característica, e o conceito que criaram é bastante provocador, conduz a muita reflexão. Falo do conceito — já dessacralizado mas nem por isso menos fascinante — de bolha operacional.

Na verdade, se quisermos detectar ainda melhor a raiz mítica desse conceito, creio que devemos procurar não tanto diretamente visão de mundo que estava fixada nos mitos da época, essa visão de uma bolha insuperável, de uma bolha que prende, ainda que circundada de algo misterioso e fascinante.

Creio que devemos procurar a raiz mítica desse conceito no fato de que essa visão mítica dos antigos mesopotâmicos está registrada de modo disperso (nunca esclarecida por completo de uma vez só num mesmo e único texto) em trechos e passagens que se espalham na lenda de Gilgamesh e em outras lendas da época, poucos séculos anteriores ou poucos séculos posteriores.

Quem recolheu, organizou e publicou o conjunto dessas passagens dispersas sobre a visão de mundo mesopotâmica, que se está espalhada por essas narrativas míticas, foi Samuel Noah Kramer, um dos maiores especialistas mundiais no assunto. É possível encontrar esse material no capítulo 13 de seu livro belíssimo L’histoire commence à Sumer (o capítulo se intitula Philosophie. La première cosmologie). Kramer fez até um diagrama desse mundo-bolha cheio de deuses dos mesopotâmicos.

Digo que o melhor é procurar nesses mitos do período esse tema da ultrapassagem da bolha (especialmente na lenda de Gilgamesh), porque são mitos que se desenvolveram não apenas ao longo daqueles mesmos séculos em que os mesopotâmicos foram criando (pela primeira vez na história da humanidade) a escrita para registrar isso — o que constitui, para lembrarmos Flusser, uma das mais estarrecedoras saídas de bolha e migração para nova bolha ou esfera de toda a história da humanidade — mas também ao longo dos mesmos séculos em que os mesopotâmicos (para o bem ou para o mal) foram ultrapassando uma mentalidade matriarcal, ligada ao predomínio da figura feminina, e passando a uma patriarcal, ligada ao predomínio da figura masculina.

A passagem, tensa, conflituosa, de uma mentalidade a outra — muito acentuada especialmente na lenda de Gilgamesh, que a meu ver jamais deveria ser lida isoladamente, sem esforço de integração com as demais lendas anteriores e posteriores do período ao seu redor — carrega (precisamente neste personagem que é o seu principal portador), a noção de um desesperado esforço de ultrapassagem, de superação, que podemos examinar o quanto não se colou, nesse período, a certos aspectos da masculinidade em geral, associados provavelmente também a questões anatômicas ligadas à prática do sexo.

Digo essas coisas e me vem à mente, de maneira incontornável, o aspecto fálico dos foguetes lançados ao espaço sideral, nas primeiras viagens espaciais — que me parece bastante evidente. Significativo? Possivelmente.

Enfim: qual o conceito de bolha operacional descrito por Tom Wolfe em sua excelente obra jornalística, quando procurava compreender a ousadíssima mentalidade daqueles pilotos de testes que experimentavam os limites de novos aviões?

Entendamos isso melhor. O trabalho daqueles pilotos — para o horror e desespero de suas corajosas esposas — era entrarem em um avião novo, recém-inventado, e testarem os limites do novo aparelho, em todos os sentidos. Coisas como por exemplo… até que altura esse novo avião pode ir antes de entrar em colapso e começar a cair? Ou… que velocidade esse avião pode atingir até sua lataria começar a ranger e suas partes começarem a voar aos pedaços?

O final do teste era, quase invariavelmente, a queda do avião… e variavelmente, quero dizer, às vezes sim às vezes não, a morte do piloto, depois de ter transmitido detalhadamente pelo rádio do aparelho todas as reações da máquina antes de cair.

Os pilotos se divertiam com tudo isso, de maneira quase adolescente: como se estivessem curtindo uma montanha russa! Faziam apostas, torciam uns pelos outros etc., desafiavam-se constantemente para ver quem era “o maioral”, quem conseguia ir mais longe e sair ileso. Com as esposas em pânico, é claro.

E raciocinavam como se estivessem tentando furar, estourar, uma “bolha”, e fossem com isso alargando os limites dela, inflando-a em busca desse estouro, desse romper a bolha, desse além… um além que, apesar do caso mais específico de um ou outro desses pilotos, em geral não tinha nada de místico, sobrenatural ou religioso. Era sim, pelo contrário, algo lúdico — de um tipo de ludicidade que Roger Caillois, em seu belíssimo estudo sobre a diversão humana intitulado Os jogos e os homens: a máscara e a vertigem, classificou como jogos vertiginosos, ou “jogos de vertigem”.

E que bolha era essa que os pilotos de testes tentavam alargar, e furar, e romper, e estourar? Era a bolha operacional dos aparelhos aeronáuticos. O limite da estabilidade e funcionalidade eficaz de cada coisa naqueles aparelhos.

Agora deixo ao leitor o exercício de pensar de que modo um conceito interessante como esse pode trazer de instigador ou inspirador para pessoas que, como eu, se interessam direta ou indiretamente, sobretudo por questões de filosofia política…

E talvez, para os que se interessam por… lulz?

Dedico este artigo à primeira pessoa de quem, na vida,
ouvi alguma coisa a respeito dos tais “Sumérios”:
o velho amigo Marcos VanAcker (o Marcão)
— grande abraço!

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