Cinema: Mulher Maravilha

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De Linda Carter a Gal Gadot, as duas mulheres maravilha

Esta do video que postei quase no final é a simpaticíssima sucessora da Linda Carter no papel da Mulher Maravilha, falando de seu entusiasmo com a personagem, de como sua filhinha recebeu a notícia, de como se orgulha de fazer no cinema um símbolo que para as meninas não será apenas a princesinha que fica em perigo à espera de ser salva pelo príncipe encantado… (podíamos acrescentar que na verdade ela é quem salva seu príncipe rsrsrs, e sem perder um pingo sequer de sua feminilidade). Pena a entrevista não estar legendada, vou ver se encontro uma versão com legenda.

A Linda Carter, dos antigos seriados da Mulher Maravilha da minha infância, que depois se tornou cantora, deu a seguinte declaração a respeito:

“I think it’s time. It’s cool, it’s very cool. It just adds to the charm and the legend”.

Esta era a mulher maravilha da Linda Carter:

https://youtu.be/i1y3enyF8i4

Mulher maravilha, junto com a aprendiz “garota maravilha” (que não era a Gal Gadot rsrsrsrs, mas aposto que a Gadot, quando era criancinha, talvez gostasse da ideia de ser essa assistente, que era a irmã mais nova da mulher maravilha… chegou mais longe rsrsrs)

https://youtu.be/lJTcznj78D0

 

É um super filme? Um filme cult, alguma super obra de arte do cinema? Claro que não! Não é essa a proposta.

E sim, é uma peça capitalista, feita pra render muito dinheiro, claro! Mas justamente por isso, é feita para chegar a um grande público, e chegando, se torna um objeto de propagação de valores, que podem ter um lado positivo.

Da crítica ao autoconhecimento

Este é mais um de tantos e tantos filmes desses de ação e inspiração heróica para jovens curtirem, se divertirem, e é bastante bem realizado. É um filme pra gente passar um tempo com a família e sentir um pouquinho do mito do herói falando dentro da gente (no caso, heroína, o que pode ter um impacto bacana para as meninas, porque os meninos já têm muitos e variados símbolos desses em que se inspirarem). É um bom arquétipo se for trabalhado na gente do modo certo, muito educativo, principalmente do ponto de vista ético, porque pode contribuir para boas predisposições de espírito no conjunto da formação de uma criança.  

Acho um importante sinal de mudança dos tempos, que uma personagem feminina do gênero possa ganhar um público extenso nos cinemas mundiais a ponto de atrair uma produção tão cuidadosa. Os filmes de grande bilheteria são um sintoma interessante para examinarmos muitas coisas, boas e ruins, que vêm ocorrendo no mundo. Há aqui uma representação do espaço conquistado recentemente pelas mulheres no mundo, apesar de Trumps que existem por aí.

Claro que em Mulher Maravilha, isso vem necessariamente misturado e acompanhado a um monte de outras coisas que o capitalismo impõe ou a que nos submete em coisas como filmes para grande público. Mas não vou fazer aqui a crítica política de uma heroína que na TV, em meu tempo de infância, ajudou a formar uma faceta mais respeitosa e cheia de admiração em relação à mulheres, que está presente na imagem mista de tantas coisas que tenho a respeito delas em minha cabeça. Por enquanto ainda estou no fascínio de ter me dado conta, de ter lembrado, que na minha infância essa personagem, quando era da Linda Carter, foi marcante em minha imagem das mulheres. Porque tinha me esquecido de que assistia a esse seriado e de que gostava. Muito.

E hoje, graças à versão da Gal Gadot no cinema, me dou conta de uma contribuição benéfica que o antigo seriado teve em minha formação (até mesmo pelo contraste com o que posso criticar em mim mesmo, como o fascínio talvez exagerado pela sensualidade da atriz rsrsrs).

No mesmo sentido havia o velho desenho animado da Princesa Safiri, “A Princesa e o Cavaleiro”, criado por Osamu Tezuka entre as décadas de 50 e 60, e que me fazia refletir muito e profundamente sobre muitas e muitas coisas, no meu maluco pensar de criança daquela época. (Eu assistia a esse desenho animado décadas depois, é claro, na TV, rsrsrs não sou tãããão velho assim rsrsrs…):

https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Princesa_e_o_Cavaleiro

Há coisa boa que posso reacender lá no fundo de minha imagem das mulheres, lembrando do arquetipal e mítico por detrás dessa personagem de quadrinhos, seriados e cinema revivida pela Gal Gadot. Ainda estou no fascínio.

A mulher maravilha em todas as mulheres do mundo

Adorei o modo como reconstruíram a personagem no cinema. Adorei a interpretação da Gal Gadot, e ela subiu muito no meu conceito enquanto atriz. Adorei também, e muito, a participação da Robin Wright, a eterna e icônica Princesa Prometida — que por isso mesmo neste Mulher Maravilha ganha pelo contraste um significado muitíssimo especial —, a também soberba Robin Wright da incrível e assustadora Clair Underwood, e do insuperável Congresso Futurista. Acho que a Gadot, com essa mulher maravilha, entrou no barco do futuro em que a Robin Wright de modo discreto e elegante é uma das que estão pilotando, o barco do novo espaço que as mulheres vêm (re?)conquistando no mundo.

https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Princesa_Prometida

(“A princesa prometida”, aliás, não é apenas um filminho sobre princesa indefesa em perigo e herói salvador, mas a releitura de uma narrativa já mítica, na verdade uma deliciosa e inteligente sátira a esse tipo de fábula, baseada em um livro de William Goldman, e carregada de reflexões filosóficas… chegaram a publicar um livro de ensaios sobre as relações entre a filosofia e essa pequena aventura “cult” de honra, amor e heroísmo…)

O incrível “O congresso futurista”, que focaliza acima de tudo outro aspecto da mulher — a mãe — não deixa de fazer uma homenagem ao simultaneamente doce e satírico “A princesa prometida”:

https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Congress

Sobre o trabalho de Robin Wright vale a pena ler também:

https://medium.com/@mathdavila/como-claire-underwood-conseguiu-se-tornar-a-personagem-mais-importante-de-house-of-cards-cf9df5221424

 Gostei. Para além de todas as críticas que poderia fazer, e das que certamente farão e eu talvez assine em baixo concordando rsrsrs. Mesmo assim. Gostei.

Fiquei também interessado, muito, em acompanhar o trabalho de Patty Jenkins, a diretora. Já existem diretoras de cinema incríveis. Sofia Copolla, por exemplo, para mim é certamente um dos exemplos mais marcantes, alguns de seus filmes pra mim são inesquecíveis.

http://casavogue.globo.com/LazerCultura/noticia/2017/06/com-mulher-maravilha-e-sofia-coppola-o-cinema-finalmente-da-um-passo-para-igualdade-de-genero.html

Quanto ao Mulher Maravilha de Patty Jenkins com Gal Gadot, como já disse, estou no fascínio. Deixo pra fazer minhas críticas ao filme no futuro. Agora não.

Agora estou ainda me deliciando em acompanhar um pouco a reconstrução da mulher maravilha, desta vez como cobertura dessa simpaticíssima, encantadora atriz que a está encarnando e remodelando.

Gal Gadot como a nova Mulher Maravilha

 

Patty Jenkins, a diretora, em entrevista para a revista Playboy, sobre a escolha de Gal Gadot:

“Lembro que quando li as notícias que a Mulher-Maravilha havia sido escalada meu coração afundou. Estava conversando com o estúdio há tanto tempo sobre fazer o filme e pensei ‘é isso’. Tenho certeza que não faríamos a mesma escolha. E aí comecei a prestar atenção nela e olhando para ela era apenas inacreditável. Francamente, acho que eles fizeram um trabalho melhor do que eu pois não sei se teria vasculhado tanto a Terra como eles para encontrá-la. Não sei se teria procurado internacionalmente. Teria apenas procurado por uma garota americana. O fato de terem achado Gal, e escolhido ela, foi um presente mágico para mim… (…). Ela compartilha cada qualidade com a Mulher-Maravilha e não é piada. É apenas uma dessas coisas que acontecem.”

No messenger do facebook, entramos uma grande e antiga amiga e eu, em um bate-papo sobre as duas mulheres-maravilha, em que ela declarava firme preferência pela elegância aristocrática, cheia de classe, da Linda Carter. Quando elogiei os movimentos incríveis de luta da Gadot no filme, que parecem quase uma dança, minha amiga respondeu (com razão, que Linda Carter tinha tanta classe e elegância que não precisava sair “dançando” na tela, podia ficar parada que nossa imaginação dançava sozinha. tive que concordar. Mas no conjunto do debate, minhas respostas acabaram resultando assim:

“…a personagem continua com aquela combinação de inocência arrojada e ousadia feroz e delicada. Honestamente, não achei nada ruim não, e acho que a rainha dos seriados da minha infância, a Lindíssima Carter, deve estar se orgulhando bastante dessa princesa herdeira da telona… por causa da época a Linda Carter ainda era a mulher maravilha de porcelana, o ícone visual que, como vc observou bem, nem precisaria se mexer muito. (…) O que a Gal Gadot faz hoje com essa personagem, mais próxima dos quadrinhos originais, seria quase inviável na época. Considerariam ela agressiva, masculinizada. Hoje a coisa mudou e dá pra se aproximar mais da agressividade dos quadrinhos originais. Uma coisa interessante é que a Gadot tem uma imagem pública super hiper mega sensual e sexualizada, mas construíram (ela, os roteiristas, o diretor) uma mulher maravilha muito mais contida nesse sentido e, acima de tudo, uma potência ética e guerreira, mas a sensualidade exaltada da Gadot transparece sutilmente por baixo da guerreira agressiva e inocente, e isso me parece que dá uma tensão e um charme especiais às cenas de ação, porque é como se uma coisa viesse explodindo lenta e poderosa de dentro dela, em passos de gata a caminho do bote, ao mesmo tempo que testando e descobrindo suas próprias forças a cada passo. Achei bom pacas! (…) A Linda Carter tem um certo porte aristocrático, isso é verdade. Mais porte de princesa que a Gadot. A Gadot tem mais perfil de guerreira amazona, mas realmente não tem o mesmo porte de princesa. (…)”

O fato é que as duas são incríveis no papel, cada uma dentro das limitações e possibilidades de sua época, a “rainha” dos seriados e a “treinee” do cinema, como diz minha amiga, mas que para mim já está perfeitamente pronta para a batalha.

 

Gadot, em entrevista sobre sua escolha para a personagem:

 

Uma das principais mensagens do filme,
segundo minha interpretação pessoal

 

Talvez eu possa exprimir como compreendi esse filme fazendo uma rábida colagem dos próprios trailers que estão disponíveis por toda a internet:

Mulher Maravilha: Uma interpretação pessoal

Nesta minha reedição crítico-interpretativa do filme procurei dar um sentido especial a certas imagens que aparecem representando a circularidade: uma estátua dourada de um tentáculo de polvo em espiral, ladeado por dois círculos dourados que bem poderiam ser duas uroborus (cobras mordendo a própria cauda), porque ser trata mesmo de representação forte da circularidade.

Georges Bataille diria provavelmente que para amar é preciso matar um tanto a si mesmo a fim de poder dar lugar a um tanto de acesso a quem nos é outro. De certo modo, nessa visão sacrificial da coisa, há também alguma dose de “morte” em todo processo de efetivo conhecimento do que nos é outro, e por isso também em todo processo de transformação ou desenvolvimento pelo qual passamos, em que algo novo cresce em nós, quando somos como que fertilizados pela alteridade — numa metáfora, aqui, a algo que só uma mulher pode fisicamente experimentar, mas que é possível ao homem no plano psicológico, como bem diria Sócrates com sua esperta e galhofeira “maiêutica”.

Vejo ligada a tudo isso no filme (a essa descoberta do “outro” e do nosso equilíbrio com o outro, contra toda e qualquer submissão), a ideia mítica do sacrifício de amor, do assumir nossa fraqueza e limite na força do outro em equilíbrio com a nossa. Nessa versão sacrificial, me parece que o filme recupera tal ideia parcialmente do cristianismo, e parcialemente de uma fonte muito mais antiga, quase pré-histórica, que é a lenda mesopotâmica da descida ao inferno da deusa Inana (ou Ishtar, a estrela). Nessa lenda mesopotâmica já aparece de modo sutil mas profundo e perceptível a ideia do sacrifício por amor à humanidade que reaparece milênios depois no cristianismo, na história de Cristo.

Acho que a diretora do filme e/ou os roteiristas captaram essa fonte primitiva provavelmente de maneira inconsciente, mas ela está lá, claramente marcada nessa releitura da deusa greco-romana Diana, que é a Mulher Maravilha, interpretada por essa deusa israelense (agora no sentido metafórico, mas nem por isso menos válido) que é a Gal Gadot, a filha ou irmã mais nova da deusa Linda Carter rsrsrs.

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