Compilação de postagens no facebook (para começar a me entender comigo mesmo)

Por João Borba – 4 de julho de 2013 – artigo 5, vol 2

mão saindo do terminal para digitarDia 26 de Junho

Queria chamar a atenção desde já para a um artigo que foi publicado na Alemanha sobre a questão dos commodities e o baixo crescimento do Brasil. Tem a ver com algo sobre o que vou escrever ainda um artigo no eu site. Não adianta nada nos livrarmos do maior de todos os gastos e desperdícios do Brasil, que é a corrupção, se não trabalharmos também o outro lado, a produção de riqueza. A oferta brasileira no mercado mundial está apoiada em commodities, produção mais básica de bens cujo preço não depende de marca, de valor agregado, em suma, não depende do que Flusser chamava de “informação” inscrita no produto. Os commodities, são coisas como por exemplo material de extração mineral, vegetal etc., produtos que passaram por poucos níveis de inscrição de “forma” (informação) sobre eles que lhes alterasse o valor. Nesse tipo de produção, menos moderno, os preços tendem a variar sujeitos apenas ou principalmente à oferta e à procura. E os commodities estão não só em baixa, mas caindo de valor no mundo. O Brasil está com sua economia demasiado apoiada nos commodities, ou seja, acomodado, “deitado em berço esplêndido”, tirando proveito do que a natureza oferece, e desperdiçando o seu potencial humano, criativo… isso ocorre por uma única razão: a baixa atenção à produção de informação no país, os baixos cuidados com a educação e a pesquisa. É preciso, e necessário, é urgente, que nos concentremos nisto. É ainda mais importante que a questão da corrupção.

http://m.faz.net/aktuell/wirtschaft/lahmende-industrie-brasilien-auf-zucker-gebaut-12239797.html

 

Dia 3 de julho à 1h08

Sobre entrevista de Fernando Henrique Cardoso a respeito das manifestações: até onde assisti, fraquíssima. Na verdade, inútil. Não me serviu de rigorosamente nada. Ele fala de um “curto-circuito” fortuito de momento, em resposta à atuação midiática do PT tentando passar a imagem de um país engrandecendo-se, e o contraste disso com os fatos. Também fala do movimento como um eco ou revivescência de 68, e fala de 68 como algo que não atingiu “as estruturas”… Nunca vi tanta bobagem junta, em uma análise tão superficial. Decepção enorme. Não estou encontrando a entrevista inteira, li só esta parte e sinceramente espero que ele se contradiga, porque o que disse até aqui, não tenho palavras para descrever o quanto é fraco e inclusive desinformado. De pasmar mesmo, de pasmar.

 

Dia 3 de julho, à 1h11

O curioso, é que pelo FHC enquanto figura humana, tenho simpatia natural. No entanto, já não concordava com a linha política, preferia o estudioso. Agora, o estudioso está me decepcionando ainda mais que o político. Está parecendo que só vai sobrar mesmo a mera simpatia pela figura humana, mais nada.

 

Dia 3 de julho, à 1h19

Estou pensando no seguinte: quem está envolvido nas manifestações realmente a fundo, precisa prestar atenção: o PSDB está se movimentando para tirar proveito próprio, direcionando o movimento especificamente contra Dilma e o PT (a fim de retomar São Paulo, principalmente). E venhamos e convenhamos: não é difícil voltar os protestos nessa direção. Entretanto, sabemos exatamente o que querem fazer acontecer: nada. O mesmo de sempre, para ser mais exato. Alteração nenhuma na política. Se puderem, enterrarão inclusive a proposta de uma constituição parcial para reformas políticas mais radicais, que a Dilma propôs porque nós a forçamos, na marra, a fazer algo nessa direção. Farão o retrocesso. PT, PSDB, a cangalha toda está na verdade no mesmo barco. Querem reduzir as manifestações a carne de canhão para tiros político-partidários, a massa de manobra para joguinhos de poder entre partidos. EU NÃO ACEITO ISSO. Você aceita?

 

Dia 3 de julho às 2h59

Sobre isto: campanha do PT recolhendo assinaturas para uma reforma política que é, justamente, essa que a Dilma está pedindo em resposta à pressão popular:

http://www.pt.org.br/noticias/view/campanha_pela_reforma_politica_pt_lanca_formulario_e_busca_15_milhaeo_de_as

Postado por meu irmão no facebook com o seguinte comentário: “note a data”. E a data é 29/04/2013 — antes das manifestações!

Meu comentário em resposta.

Interessantíssimo: se a data for verdadeira, o próprio PT pode ter participado da fomentação das passeatas, será? Para promover isto? Perdeu o controle, porque a reforma é realmente interessante, mas corre o risco agora de se combinar a uma rejeição violenta do próprio PT (na verdade, já aconteceu). Se o PT tinha ideia de fazer isso antes, foda-se. Tem mesmo que ser feito. O teor das mudanças, no entanto, tem que ser discutido com toda a sociedade. E se fossem levadas adiante por algum outro grupo à esquerda, melhor. À esquerda. O PSDB transformaria essa reforma em nada, em algo bem mais superficial e insignificante do que tem o potencial de ser (o potencial é maior do que isso aí q o PT propõe). O problema maior agora, então, é justamente evitar os movimentos de oposição que querem barrar qualquer reforma política. As últimas entrevistas do FHC vão indiretamente nessa direção.

 

Dia 3 de Julho às 3h12

Sobre o mesmo assunto, mas a partir de alguém que postou isso para promover um movimento contra a proposta de reforma política.

Meus comentários em resposta:

Isto precisa ser divulgado. Exceto por um detalhe: EU QUERO SIM, REFORMA POLÍTICA. MAIS RADICAL DO QUE O QUE ESTÁ NESSA PAUTA AI, E ESTOU POUCO ME FODENDO SE O PT TINHA OU NÃO ESSA IDEIA, O PT QUE SE LIXE. EU QUERO A REFORMA POLÍTICA.

 

Dia 3 de julho às 3h48

Está pra começar uma guerra “de !@#$%^&*ãs” entre PT e PSDB. Algo como uma dessas briguinhas de formigas que a gente, quando era criança maldosa, fazia colocando elas numa ilha de pedra em uma bacia de água. Só que essas formigas tem poder hipnótico maior do que a gente pensa, principalmente pq dominam os meios de espetacularização dos acontecimentos políticos. Podem fazer a gente esquecer quem é, e se reduzir mentalmente ao universozinho delas.

Se a gente não se cuidar, um dos dois partidos toma nas mãos as manifestações e leva pro seu lado. Resultaria em algo como um coito interrompido, ou muito, muito mal realizado. As manifestações tenderiam a morrer “por agora” num vago sentimento de insatisfação, de que “não era bem isso”… e como são (tornaram-se) orgânicas (pouco importa que possíveis organizações institucionalizadas pretenderam iniciá-la em seu favor, antes de perderem o controle), tenderiam a explodir mais tarde, provavelmente durante o próximo governo, e de modo talvez mais agressivo.

Acho que talvez seja hora de começar a pensar no futuro pós-passeatas, no que fazer agora para colocar as manifestações definitivamente e insuperavelmente acima dos partidos antes de um deles acabar tomando as rédeas da situação, porque vai acontecer. O PT tem propensão eu diria que golpista, visto que a proposta de reforma política começou a ser ativada, ao que parece, pouco antes de tudo isso começar, e ninguém aguenta mais esse partido (se for verdade que a proposta de reforma política deles começou a ser levantada logo antes do movimento, grupos ligados ao PT podem estar entre aqueles que fomentaram a coisa no início… e depois perderam o poder sobre ela).

Se fomentaram, ainda bem que fomentaram… e ainda bem que perderam. O PSDB, por outro lado, desde já está manifestando, bem mal disfarçadamente, a crápula intenção de eliminar o movimento como se fosse algo “de momento” e mera reação ao PT. Não é.

 

Mas esses caras do século passado com o partido deles de oposição podem acabar conseguindo o retrocesso, conseguindo barrar qualquer reforma política realmente profunda. O movimento ficaria pressionado, recalcado, outra vez, para explodir mais agressivo lá na frente. E seria provavelmente recebido de modo bem mais duro.

A meu ver, isso poderia significar até mesmo guerra civil, e não duvido que o PSDB levasse isso adiante assim mesmo, da pior maneira, porque já é o que está pintando indiretamente no discurso deles: dizem que o movimento é apenas algo disparado por um “curto-circuito” de momento, “lembram” que De Gaulle conteve manifestações de 68 na base da agressividade com suposto sucesso etc…  — o que é aliás uma avaliação imbecil daqueles acontecimentos, para dizer o mínimo. Imbecil mas inevitável, porque característica da idiotice intrínseca do poder, que contamina os que a fazem… Trata-se da incompetência de quem detém poder (ou se coloca da perspectiva de quem deteria), para captar a alteridade, por exemplo as margens em que os resultados da ação do outro escapam ao domínio do “poderoso”… Essa idiotice é parte constitutiva do próprio poder, ela inclusive ajuda a gerar o poder.

Não há poder sem uma boa dose de idiotice, de fechamento no idios, de fechamento no ídios, de recusa da percepção do outro, ou em outras palavras, sem uma boa dose de pre-potência, de julgar-se mais potente que o outro, ignorando-o para poder pensar assim e agir de acordo.

Em suma… precisamos começar a pensar na nossa morte, a escolher os melhores possíveis caminhos para a morte do movimento, quando vier a acontecer, e cuidar que o retrocesso (que necessariamente ocorrerá) seja minimizado.

Quem quer que suba ao poder, tem que se ver forçado, na marra, a curvar-se ao movimento das ruas.

 

Dia 3 de julho às 4h29

Fui dormir.

 

Dia 3 de julho às 13h32

Comentário de uma aluna no facebook (uma das manifestantes): “E como continuar com as manifestações, parece que acabou. Não existem mais movimentos, isso é triste. Eu estava pensando que agora iríamos caminhar rumo ao um país democrático.”

Minha resposta: Sinceramente, o que acho, é que é o momento de o movimento buscar propostas específicas para uma reforma política (como antes buscou o fim da PEC 37). Se a gente não deixar claro em que direção quer as coisas antes de o movimento enfraquecer nas ruas (digo nas ruas pq não vai enfraquecer no fundo, e tende a acabar reeditado mais adiante) o q vamos ver acontecer é esses caras determinando à maneira deles o q deve ou não ser feito em uma reforma política, e a gente sendo apenas “consultado” sobre coisas já praticamente decididas.

Mesmo q a gente não tenha domínio dos detalhes técnicos da coisa, não importa, alguns poucos pontos fundamentais em q a gente se agarre são o suficiente para que se possa tentar “entender” o que queremos. Porque por enquanto, só “entenderam” que não queremos corrupção, que queremos contenção de custos e que queremos saúde e educação.

Na direção de uma reforma política, só entenderam que não estamos satisfeitos e não nos sentimos representados, o que tende a fazê-los pensarem em reformas que podem ir desde o mero sistema eleitoral e sistema de financiamento de partidos (ligando isto à questão da corrupção) até propostas de maior espaço de participação popular.

Mas se não começarmos a firmar algo na direção política, acho q os espaços de participação popular tendem a perder terreno nas reformas que virão para a mera reestruturação dos partidos e do sistema eleitoral (que se forem pelo menos bem acompanhadas pelo controle das nossas pressões, já serão algum ganho, já vão fazer alguma diferença consistente na democracia, e pavimentar melhor as coisas para a sua geração, Aninha… só acho mesmo, sinceramente, q dá pra conseguir mais do que isso desde já, sem esperar novas reedições do movimento lá pra frente.).

Mas atenção para uma coisa: sempre posso estar errado. Não sou nenhum mago, nenhum vidente, nada disso. só estou tentando entender o rumo das coisas, ao mesmo tempo que tomo minhas posições (o que complica e dificulta a análise aliás). Muita gente está tentando, às vezes uns acertam, às vezes outros. Nunca é bom a gente se orientar pelas análises de um só.

 

Dia 3 de julho às 22h50

Acho que preciso fazer um levantamento mais cuidadoso de como estão os protestos no país, checar se não estou ficando “por fora” com as coisas que estou dizendo, pq tenho dormido mal e isso tem afetado meu humor, o q pode afetar minha visão das coisas. Está na hora de eu observar um pouco mais atentamente, e fazer uma análise de conjunto mais rente aos fatos, articulando-os.

Outra coisa que preciso fazer é retomar alguns conceitos meus de filosofia que comecei a aplicar bem esculhambadamente, no calor da opinião, e que ficaram sem precisão e sem suficiente esclarecimento. Fazer também autocrítica e retomada dos posicionamentos de modo mais refletido. Minha primeira observação é q talvez tenha me apressado com a avaliação de que é preciso começar a pensar no pós-morte das passeatas. Posso estar enganado quanto ao fôlego da coisa.

Também tenho a impressão de que acabei moderando alguns posicionamentos meus quando talvez fosse o caso de, pelo contrário, radicalizá-los. Não sei. Vamos ver.

 

Depois de dormir, é hora de acordar…
Postado no facebook dia 5 de julho à 9h47
(mas copiado de um email que enviei dia 3 de julho, às 14h28,
repensando o pessimismo de uma postagem feita quase uma hora antes)

 

No que escrevi para o meu pai num email:

…acho que dei umas devaneadas meio fora de sintonia com o movimento. Andei falando na necessidade de começar a pensar o pós-morte das manifestações, e não sei se avaliei direito o fôlego da coisa não. Andei estressado, e acho q isso torceu um pouco minha visão em algumas coisas (mais especificamente, acho que moderei meu discurso mais do que devia).

Vou retomar o conjunto do que andei dizendo com mais cuidado, corrigir o que for preciso, moderar o que for preciso (acho pouco provável que seja preciso em algo, vamos ver), radicalizar o que for preciso (suspeito que talvez tenha que ir nessa direção, não sei, vamos ver), examinar com mais cuidado o que rola na mídia alternativa, pq eu mesmo tenho andado pouco conectado nos últimos dias, e explorar mais a fundo uns conceitos filosóficos que comecei a usar pra examinar as coisas, e q acabei deixando meio q no ar.

Meu site agora vai estar com um Fórum e um Blog,dos quais ainda vou precisar estudar as configurações antes de colocar no ar, e vou ter q aprender a mexer com isso muito, muito rápido. Tem moçadinha (muita gente mesmo) acompanhando as coisas q digo, e preciso fazer isso com mais cuidado, mais investigação e menos inflamação de tipo militante (ou deixando a inflamação rolar só no fio e no impulso da própria investigação).

Lancei umas primeiras linhas no ar, agora vou tentar começar a correr atrás da consistência.

 

Deixe uma resposta