Da questão da utilidade em Marx e no utilitarismo liberal

Peço desculpas de saída ao leitor se esse texto exprime as coisas de maneira demasiado abstrata, sem exemplos nem esclarecimentos em linguagem clara em dose suficiente — é o mal funcionamento de minha cabeça, não consigo percorrer a distância até o público leitor mais geral neste estado. Escrevo tarde da noite e não estou muito bem. De modo que isto é apenas um apontamento político-econômico feito em (mais uma) noite de insônia, apontamento resultante das coisas várias que tenho pensado… e vou começar pelo seguinte: acho que Marx não entendeu o valor de uso, e que sua compreensão da importância do tema foi (ridiculamente) insuficiente.

Já os economistas liberais que, tomados por um utilitarismo benthamiano recauchutado, valorizaram a noção de “utilidade marginal”, estes a meu ver… bom, estes estão em erro ainda pior: eles não têm sequer a mínima noção do que se trata.Tentam (ainda mais ridiculamente) calcular uma “utilidade” subjetiva que um bem pode ter para quem o julga útil de algum modo e em alguma medida (isto é, para um sujeito avaliador psicológico  “livre”… e não se dão conta de que o próprio bem produz o seu usuário, inclusive individualmente, e produz, por exemplo, o seu “gosto” supostamente subjetivo ou o sentido daquilo que ele “considera” útil).

Tudo isso então, que nos dizem Marx e esses seus opositores, de um lado e de outro, acerca da questão do valor de uso, em suas teorias econômicas, me parece cada vez mais um imenso, um vasto equívoco.

Primeiro porque não, o valor não pode ser reduzido (sem cairmos em erros grosseiros) a uma quantidade: trata-se, isso sim, de um vetor. Portanto indica não uma quantidade, mas um sentido, e também algo quantitativo nesse sentido. Indica o sentido de uma ação (ou movimento). Dizendo-o com mais precisão, indica o sentido de um processo. E um processo é uma alteração pela qual uma forma material passa, objetivamente falando.

E ocorre aliás que, por isso mesmo, falar em valor moral e em valor econômico, ao contrário do que se costuma julgar, não é utilizar a expressão “valor” em sentidos diferentes, mas apenas especificar dois casos particulares da mesma noção geral — o que é uma das inúmeras razões pelas quais a economia nunca deveria ter passado a ser tratada como uma especialidade (erro grave, e em vista dos resultados disso atualmente observáveis, eu diria que gravíssimo, de Marx em seu julgamento acerca da economia ético-filosófica de Proudhon).

Em segundo lugar, Marx e os economistas liberais do utilitarismo me parecem equivocados porque nem nem um, nem os outros, se deram conta de que o valor de uso de um bem (aquilo que, justamente, faz dele um “bem” isto é, algo bom para alguma coisa, algo útil), está inscrito objetivamente como possibilidade em sua forma, isto é, no conjunto de “seus” traços caracterizantes — “seus” e “caracterizantes” porque resistem nesse algo a alterações como se estivessem fixados, congelados (embora não estejam), e é nisto que consiste a “materialidade” desse algo.

Uma observação de passagem, mas importante aqui: a forma de algo é uma abstração didática útil, é apenas corte “fotográfico” daquilo que, na realidade, é uma formação material que está em processo, em mudança, se desenrolando, desenvolvendo em algum sentido seus movimentos de alteração. A “materialidade” dessa formação, desse conjunto de traços caracterizantes que compõem uma forma em processo de ultrapassagem de suas condições atuais, em processo de trans-formação, é o que resiste a essa transformação ou persiste ao longo dela. (Trata-se, é claro, de meu materialismo existencial, de uma materialidade em sentido existencial, tal como a vivenciamos na prática a cada momento, isto é, considerada como resistência).

E se o valor de uso está, deste modo, inscrito como possibilidade na própria forma (em cada recorte “fotográfico” de conjunto que possamos abstrair, extrair, da formação material) de um “bem”, esse valor de uso está também inscrito como fato nas alterações que a forma desse bem produz no comportamento (que é parte da… forma) dessa outra formação material chamada “usuário”.

Um “bem” é uma formação material relativamente estável na sucessão (ou no contínuum) de suas formas, e que altera comportamento do seu usuário quando se opera a interação com as formas que esse usuário apresenta. E é um “bem” porque, ao fazê-lo, interfere no conjunto dos sentidos das ações desse usuário de modo a incorporar essa interferência no próprio sentido geral resultante do histórico comportamental dele, passando a ser reconhecida não mais como interferência externa, e sim como parte desse histórico, portanto daquilo que caracteriza o próprio usuário enquanto usuário particular.

Em outras palavras, um “bem” é um “bem” (útil) porque se pode reconhecer sua ação sobre o usuário como “boa” para o sentido das ações desse usuário — entretanto, isto é de caráter objetivo. Está ligado ao sentido já demonstrado no histórico comportamental do usuário. E não significa de modo algum que o “bem” se ajusta ao que o usuário “considera” útil, e sim que no processo das interações entre as formas objetivas que esse bem vai apresentando e as formas objetivas que o usuário vai apresentando, considerando ambos os sentidos de desenvolvimento, isto é, os sentidos de desenvolvimento dessas duas formações materiais (o usuário e o bem), há sentido resultante harmônico em que se integram um ao outro.

Só que nesse processo, o usuário e o bem se alteram mutuamente, e a medida (ou dosagem, para utilizar um termo que prefiro) dessa alteração que se opera em cada lado da relação (e também do quanto um deles é que acaba integrado no outro ou o inverso), pode variar de zero a um para o caso das alterações sofridas em cada lado (de alteração nenhuma até o máximo de alteração suportado pela mesma formação sem que ela deixe de existir para dar lugar uma formação que seja inteiramente outra), e de zero a um também para o caso de o quanto cada lado mantém alguma autonomia na integração de ambos um ao outro (podendo haver equilíbrio ou não entre eles, aliás), isto é, do quanto cada um passa a integrar o outro em si mesmo ou é integrado pelo outro (no “corpo” ou “forma” do outro).

A maior importância dessas considerações, do ponto de vista existencial — que é o de meu maior interesse — está neste último parágrafo acima, e no fato de que um “bem” pode (e eu diria na verdade que tende a) alterar o próprio usuário. Isto pode não parecer tão evidente no caso de um simples bem de consumo. Torna-se mais evidente no caso de um bem utilizado como meio de produção de outros bens. E ainda mais evidente quando tais bens não são “objetos”, mas serviços.

A concepção de história de Flusser examina, precisamente, essa tendência (histórica) que acabo de mencionar acima, de os “bens” (sobretudo os de utilidade instrumental), predominantemente incorporarem neles os seus usuários ao invés de ocorrer o contrário.

Estou apenas resumindo (grosseiramente aliás) uma série de reflexões que venho desenvolvendo faz já algum tempo. Este é apenas um apontamento em uma noite de insônia, para ver se consigo dormir. De fato, o sono está chegando, de modo que era o que eu tinha a dizer… por enquanto.

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