Dentro ou fora do político

Atos do governo federal

Estamos já no início de Junho de 2021, e assistimos agora um momento de drástica e maliciosa politização do que não deveria estar politizado. A informação sobre os fatos e mesmo sobre pessoas já vinha sendo distorcida, com as fake news, em função de valores e posições políticos. Especificamente em favor de posições que valorizam a autoridade do poder executivo federal (e em particular o atual titular desse poder e as pessoas de sua confiança pessoal) e desvalorizam a democracia, a separação e independência dos poderes e a autonomia das instituições.

Conforme foi emergindo a resistência democrática contra isto, a carga de contra-informação desinformadora foi se voltando mais claramente no sentido de fornecer apoio ao controle dos demais poderes e instituições pelo poder executivo central — o que foi sendo acompanhado de intensa e constante gestão de ações também nessa direção, com a infiltração de aliados do governo federal e o enfraquecimento das forças resistentes.

Controle da PGR (Procuradoria Geral da República), controle das lideranças da polícia federal, esforço de infiltração aliada na liderança das casas legislativas, infiltração de um aliado no poder judiciário e campanha difamatória constante contra os demais, forte mobilização no sentido de politizar e subjugar as forças militares, forte mobilização no sentido de subjugar governadores e prefeitos, jogando com a pandemia e contra eles e tirando proveito da impopularidade das necessárias medidas de isolamento.

O governo federal faz acompanhar essas movimentações não apenas de forte contra-informação desinformadora sobre a pandemia e as eficientes condições de luta contra ela, mas de frequente contra-informação desinformadora sobre a Constituição Federal e sobre as decisões de seus escolhidos adversários de todos os poderes.

Politização da percepção

Há em tudo isso um esforço notório de politização em proveito próprio do que deveria estar para além do político, a começar pelas religiões, passando pelas forças policiais e militares, e atingindo por fim até mesmo as informações sobre a ciência –– cujos critérios de validação e avaliação de qualidade envolvem justamente, entre outras coisas, a neutralidade e o distanciamento em relação a juízos de valor.

Tipos de jogadas no jogo político

Podemos notar o seguinte: no jogo político, há sempre um ou mais de quatro tipos diferentes de movimentos, ou “jogadas”:

  1. Ações que visam desequilibrar poderes ou mantê-los desequilibrados.
  2. Ações que visam equilibrar poderes ou mantê-los equilibrados.
  3. Ações que visam politizar o que não é considerado uma questão política.
  4. Ações que visam despolitizar o que é considerado uma questão política.

No tipo 1 (desequilíbrio), podemos ter um polo pretendendo se submeter ou se manter submetido a outro, por ver alguma vantagem nisto ou por outra razão qualquer. E podemos ter um polo pretendendo submeter o outro ou manter a submissão do outro.

No tipo 2 podemos ter um polo mais forte retraindo ou contendo sua própria força para equilibrar-se com outra, por ver alguma vantagem nisto ou por qualquer outra razão. Ou atuando no sentido de fortalecer o outro polo para equilibrá-lo com si mesmo. E podemos ter a iniciativa partindo do polo mais fraco, que procura enfraquecer o outro polo para obter equilíbrio, ou que procura fortalecer-se para obter esse equilíbrio.

No tipo 3 temos um polo (forte, fraco ou em equilíbrio) na relação de poder, que procura construir uma percepção politizada do que era percebido como apolítico.

No tipo 4, temos o oposto do tipo 3.

Perniciosa politização das percepções
por parte do governo federal

O tipo 3 de jogada política (politização da percepção) é o que vemos quando o governo federal coloca um político de perfil aliado na chefia da polícia federal, ao invés de alguém de perfil mais técnico na área. Quando coloca militares em cargos técnico-políticos (como por exemplo o general Pazuello em um ministério alheio a questões militares) e interfere com a pressão de seu poder político sobre decisões internas das forças armadas dobrando-lhes a autonomia (como fez protegendo o mesmo Pazuello em julgamento interno às instituições militares).

Também é o que vemos desde o início deste governo com relação às Igrejas, transformadas em palcos de defesa de valores morais defendidos em campanha política, como se devessem ser impostos a todos e o regime democrático não fosse laico, e o que vemos depois com o governo aliciando lideranças religiosas conservadoras como forças de apoio em propaganda política constante. Lembremos: lideranças religiosas, em apoio ao governo, chegaram a levar ARMAS para dentro de suas igrejas e permitir fotos de campanha armamentista com os fiéis, beirando e por vezes atingindo a apologia à violência civil e a ações policiais para além dos limites da lei.

Ainda é o que vemos na constante tentativa de politização (ou construção de uma percepção politizada) das decisões do STF (Supremo Tribunal Federal), que embora não consiga sempre escapar à política (o que de fato é preciso examinar), tem por outro lado como diretriz mestra realizar um esforço centrífugo constante em relação às flutuações dela e centrípeto em relação a uma única referência política máxima: a Constituição Federal — de modo que não é ou não é para ser uma instituição constantemente afetada pelas flutuações político-partidárias.

As críticas bolsonaristas e dos aliados do governo federal em geral ao STF não criticam as flutuações ocasionais do STF ao sabor da política do momento por seu afastamento em relação à Constituição: criticam diretamente as decisões como políticas ora ignorando a Constituição, ora desinformando em relação a ela, por meio da difusão de interpretações completamente inválidas, parciais e superficiais, que por exemplo destacam um trecho de algum artigo como se ele valesse isoladamente e nada mais na própria Constituição viesse a interferir em seu sentido.

O governo federal e seus aliados procuram politizar também a percepção da própria pandemia enquanto fato, enquanto dado de realidade, como se a realidade em si mesma pudesse mudar ao sabor dos interesses e valores políticos, e com o combate à pandemia encampado pela ciência, o bolsonarismo passa finalmente a tentar a contra-informação desinformante em relação às próprias práticas científicas. Mais um movimento de politização da percepção do que não é político, e a rigor, no caso não é sequer politizável.

Pandemia e ciência não são politizáveis

Não é uma questão de ponto de vista político se há pandemia ou não há, se ela é grave ou não e se deve ou não deve ser combatida. A resposta é sim, sim, sim. Não há outra resposta. A pandemia não é politizável primeiramente em vista do peso com que essa realidade — a realidade da pandemia — infringiu a uma imensa parcela da população o contato com a morte, direta ou indiretamente atingindo parentes, amigos e conhecidos que correram esse risco ou de fato morreram.

Em segundo lugar a ciência também não é politizável, em vista da eficiência notória da ciência como instrumento de combate à pandemia. E finalmente em terceiro lugar, a ciência também não é politizável em vista do fato de que ela tem em seus próprios critérios de validade e de avaliação de qualidade, como já dito, a neutralidade e o distanciamento em relação a juízos de valor, de modo que praticar ciência como se fosse uma questão de mera opinião ou juízo de valor, é o mesmo que não praticar ciência, porque isso destrói os critérios que fazem com que a ciência seja ciência e possa ser avaliada como boa ciência.

Equilíbrio democrático e despolitização das percepções

As ações políticas de tipo 2, que visam equlibrar ou manter equilibrados diferentes poderes, são difíceis de empreender na política. São as que mais exigem do político em termos de capacidade e habilidade, e são justamente as mais democráticas. Mas todos esses tipos de jogadas políticas podem aparecer (e costumam aparecer) combinados uns com os outros.

Dos quatro tipos, o quarto (despolitização) merece uma atenção especial, precisamente por ser o oposto daquele que mais nos prejudica no momento político atual, devido às ações nefastas do governo federal.

Trata-se de construir uma visão despolitizada, ou a-política, politicamente neutra ou imparcial, de alguma coisa que surge no jogo político. Trata-se de tirá-la do jogo político. Isto é de especial interesse quando se detecta algo que deveria estar acima de questões de posicionamento político. Por exemplo algo que é de interesse de todos independentemente de posicionamentos. Por exemplo, a vida. Lutar pela vida das pessoas numa situação de pandemia em que o número de mortes é imenso e crescente numa velocidade chocante, é algo que tende a se colocar como bom motivo para despolitização. Há coisas que são do interesse de todos e que são prejudicadas pela politização, por isso deveriam ser colocadas acima de posicionamentos.

Essas coisas acabam fornecendo uma boa base para políticas mais equilibradoras — de perfil mais ou predominantemente democrático.

O problema da percepção politizada ou despolitizada
em um país como o Brasil

No Brasil, este problema da percepção politizada ou despolitizada das coisas é extremamente delicado. Por quê? Porque a população é historicamente desinformada, e o país tem um dos piores históricos que se possa imaginar em termos de políticas de valorização da educação. Professores mal pagos, baixa ou fraca alfabetização, desinteresse generalizado pela leitura e ainda mais pelo pensamento teórico, instituições públicas de ensino em péssimas condições, baixíssimo apoio à pesquisa, e inúmeros outros problemas nos assolam nessa área.

O Brasil é uma nação muito facilmente sujeita aos males de uma politização manipuladora, como esta praticada furiosamente pelo governo Bolsonaro. E o problema não para por aí, porque é uma população igualmente sujeita aos males de uma despolitização superficial — pois é igualmente pernicioso que não se tenha uma clara percepção das relações de poder aonde elas efetivamente existem. O brasileiro médio não vê relações de poder onde elas estão presentes, caindo na ingenuidade, e por outro lado ele as vê (e as defende) onde elas não deveriam estar, porque estando prejudicam a todos.

Uma percepção menos ingênua e menos manipulável das coisas vai se desenvolvendo, mas lentamente, historicamente, aos poucos, e cada vez mais aceleradamente. Uma percepção em que “os políticos” de um modo muito generalizado aparecem como aqueles que poderiam fazer algo pela educação e pela informação… mas nunca o fazem. Já se tornou da fala comum nas ruas em todo o país a ideia de que “os políticos” (TODOS) não se interessam pela educação e pela informação, precisamente porque acham que é vantajoso para eles manter a população na ignorância e manipulável.

Não é à toa que o eleitorado brasileiro se volta cada vez mais para figuras que pareçam ímpares, diferentes, deslocadas do meio político tradicional. E se isso leva a erros dramáticos e perigosos, também leva a aprendizado.

Uma pesquisa feita por um partido de direito de direita (se não me engano DEM), e levada ao ar recentemente pela Globo News, revela um eleitorado que quer um candidato distante da política tradicional, mas ao mesmo tempo com experiência suficiente para lidar com os políticos — numa possível alusão a decepção com o direitista Bolsonaro, que vai se revelando cada vez mais como “qualquer outro” político, apenas (muito) mais incompetente, ou numa possível alusão à incompetência bolsonarista para lidar com os demais políticos, ou às duas coisas e mais outras.

Normalmente não me interessam muito assuntos da direita, a não ser quando afetam meu lado político (esquerda) ou minha vida. Mas acho essa pesquisa significativa. Não me parece que esse perfil levantado na pesquisa seja uma novidade. Acho que vem crescendo no anseio da população de antes até da eleição de Bolsonaro.

Digo o seguinte: se esse anseio não é novo, por outro lado há um cenário novo politicamente falando: se há alguma verdade em dizer que a desinformação e a ignorância da população são do interesse “dos políticos” (e acho que há, que são do interesse no mínimo de grande parte deles), então é preciso atentar para o fato de que essa mesma desinformação e ignorância está começando a se tornar gravemente perigosa para os próprios políticos, porque está construindo um cenário em que tende a sobrar espaço para poucos e de perfil bastante raro, jogando todos os demais para escanteio.

Afinal, o que é um político que não é político e tem experiência política e não se comporta como político e sabe como agir para lidar com políticos?! — No que é que as últimas eleições poderiam ter dado senão em um mentiroso compulsivo e que transforma todo o seu jogo político num imenso e patológico jogo de mentiras? Que outra saída um político teria para atender a essas exigências populares?

Agora pergunto: nas sucessivas decepções da população com os políticos, neste país, alguém ainda acredita que o maior alvo de revolta será alguma outra coisa que não a desonestidade e a mentira? Pois podem anotar: Político mentiroso e político desonesto não terão mais vez. Minto: há uma única brecha para o desonesto: é o fato de considerarem todos desonestos, o que pode tornar menos inaceitável aquele menos desonesto.

A população por outro lado parece confiar cada vez mais na polícia federal (desde que autônoma) e nos processos de impeachement, ainda que com uma margem de desconfiança que permanece. Afinal, só a polícia federal e as CPIs parecem conseguir desencavar as sujeiras de políticos. Ok, ok… as CPIs ainda permanecem até certo ponto suspeitas para o cidadão médio por serem, compostas por políticos. Mas a polícia federal quando atuando com autonomia parece crescer bem na confiança popular. O governo federal procura tolher essa autonomia — o que atiça evidentemente a desconfiança.

Por outro lado a sinceridade parece poder ser captada sem recurso a essas instituições. Parece poder ser captada mais imediatamente pelo cidadão, e depois checada e conferida por ele com o tempo acompanhando os atos dos políticos. Lembro de uma aluna que, fora de aula, me perguntou insistentemente, no tempo das eleições passadas, se eu votaria em Bolsonaro. Como estávamos fora de contexto acadêmico (onde procuro manter neutralidade) acabei respondendo: nunca, de jeito nenhum. E perguntei se a aluna confiava nesse candidato. Ela disse “mais ou menos, mas se estiver mentindo ou se não der certo, a gente derruba” — simples assim. E deste modo desce pelo ralo o que parecia a última saída para algum político satisfazer àquele anseio popular tão contraditório em relação a um representante: a mentira.

Digo mais: se Bolsonaro foi eleito, não foi por ser o astronômico mentiroso que é, mas precisamente porque a população confundiu sua grosseria, sua falta de tato e impulsividade, com sinceridade. E a mesma população já percebeu que linguagem impulsiva não é sinal de honestidade, já ficou mais do que claro que se trata de um governo que tem um discurso específico para a população (um discurso aliás moralista) e faz outra coisa inteiramente diferente, ou seja: mente. E mente para esconder o que faz de imoral e de errado. Como mente por exemplo dizendo-se “democrático” e agindo inteiramente no sentido contrário, ferindo o espírito democrático em cada uma de suas ações, e apregoando-as como se fossem uma defesa da liberdade…

— “Vamos, saiam às ruas e infectem todo mundo com a doença! Cada cidadão tem o direito à liberdade de matar todos os outros ao seu redor com suas micro-cusparadas viróticas!!!”.

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