Entre fantasmas, bolhas e um rocambole de carne, Kant emerge como um novo e valoroso adversário

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Kant e outros fantasmas companheiros

Tenho relido Kant. As aulas que dou sobre sua teoria ética e jurídica têm me incitado a isto. E relendo Kant, comecei a perceber uma coisa.

Entre os pensadores que vou estudando, há sempre algum que mexe mais com a minha cabeça. Kant nunca esteve exatamente entre estes. Mas por outro lado, sempre me deparo com ele mais e mais uma vez, de modo que ele me parece, de alguma maneira, estar sempre ao redor, sempre rondando meu pensamento, ainda que a alguma distância.

Há sempre então uma porção de pensadores seletos que vão se tornando especialmente importantes para mim, porque de alguma maneira estão contribuindo para minha formação filosófica, tornando-se referências constantes nos meus estudos.

Procuro entender não apenas o que eles pensaram, mas também quem eles eram, como viviam, e de que modo aquela filosofia se incorporava para eles no conjunto de sua vida. E então me divirto imaginando-os como se fossem “fantasmas” que estão sempre ao meu redor, com os quais convivo, e que estão sempre conversando comigo.

Brincando de filosofia

Como não chego a ser esquizofrênico nem acredito fantasmas, posso brincar de imaginar também livremente variações desses pensadores. Posso por exemplo misturar dois deles um ao outro e criar um terceiro imaginário, feito da combinação.

Posso também criar diálogos imaginários entre eles no pensamento, e outras coisas do gênero, e até mesmo imaginar situações nada filosóficas envolvendo alguns deles, e dar boas risadas. Estou constantemente me divertindo com esse tipo de coisa, e quando estou distraído, não é difícil alguém me pegar dando uma risada sozinho, do nada, ou até deixando escapar em voz alta alguma frase que imagino numa “discussão” com meus “fantasmas” companheiros. Corro o risco de parecer meio doido, é verdade. Mas estou pouco me lixando, porque a diversão é muito boa e sempre valeu muito a pena.

Pouco me importam os títulos acadêmicos de Mestre e Doutor em Filosofia, e mais de uma década dando aulas sobre assuntos filosóficos, ou ter me iniciado nos estudos filosóficos desde a pré-adolescência, e em contato com um filósofo hoje de renome internacional (Flusser). Reconheço plenamente que nada disto me faz realmente um filósofo “sério”. Podem dizer com toda firmeza que sou, sim,  sem dúvida nenhuma, um filósofo “diletante”, no sentido mais profundo e completo possível do termo.

Diletante, sim, e bem pouco “sério” — desde que compreendam que, para mim, a própria vida é uma, digamos assim, “diletância”. E a única coisa realmente séria que existe é a morte.

A vida é, para mim, o desenrolar de uma grande, imensa, brincadeira, carregada de filosofia, de arte e de outras coisas. E uma brincadeira densa, intensa aliás, e profunda. Uma brincadeira de vida e de morte — porque não vejo qualquer possibilidade de vida sem a presença constante da morte. Da morte que, para mim, não é mais do que aquilo que vai se arrancando (sempre mais e mais) da nossa vida com o passar do tempo e das intempéries que enfrentamos, se arrancando e se dissolvendo no ar, até que a vida afinal se arranque do meu corpo por inteiro.

As bolhas espirituais do nosso rocambole de carne decaído

Meu modo de ver as coisas é mais ou menos assim. O viver quase inteiro que está nos nossos corpos, pelo menos naquilo que costuma ser para nós — animais humanos — o mais valoroso, relevante e importante, está nessa imensa bolha imaginária feita de milhares de outras bolhas que vão brotando desse corpo e borbulhando, formando coisas como as que nós chamamos de nossa personalidade, a cultura em que vivemos e que tanto nos afeta, nossos conceitos, pensamentos, valores, conhecimentos etc. etc. etc. E algumas dessas bolhas me parecem quase fundidas ao nosso organismo e à nossa animalidade, emergindo sem se descolarem do corpo… como é o caso dos nossos sentimentos, ou pelo menos de sua base, mesmo no caso dos mais refinados.

E o corpo? O corpo orgânico… bom, vejo-o como uma espécie de rocambole desengonçado de carne como que despencado e espatifado no chão, e que continua vivo. Mas um tanto, digamos assim, moribundo. Um rocambole desengonçado, decaído, e que vai tentando sobreviver ao seu medo da morte presente.

Um rocambole do qual essas bolhas espirituais vão emergindo, sopradas pelo medo e pela necessidade de uma fuga de toda essa condição — e que misteriosamente parece dotado de uma sublime organização, ainda que bastante suspeita (suspeita de ser ela própria, a “organização” do assim chamado “organismo”, apenas mais uma fantasia, apenas mais uma bolha). Mas confesso que seu caráter organizado parece bastante convincente. Apenas não confio plenamente que seja um fato real toda essa organização do mundo orgânico e material, para além de nossas bolhas imaginárias, conceituais por exemplo, pelas quais projetamos fantasias sobre as coisas.

A decadente delícia da nossa carnalidade

Em tempo: acho que esse rocamboles de carne — meu símbolo aqui para representar a vida orgânica e a materialidade do vivo em geral — deve ser absolutamente delicioso. E que ir consumindo a vida orgânica e material, ali mesmo, no chão, é o mais supremos dos prazeres (…por que será que, neste instante, estou me sentindo tão próximo de um específico amigo, o fantasma de Diógenes, o cínico?).

Entretanto, não deixo de ter… — oras bolhas! — essa dolorosa, fina, bela mas vazia, vazia mas bela (e cheia de leveza, flutuante!) consciência humana das coisas. De coisas como bactérias, doenças, civilidade, dignidade, higiene… e então, essa imagem de consumir auto-canibalescamente o rocambole da minha vida ali tremelicante no chão (no sujo chão, talvez), me inspita a ideia (me faz emergir mas essa bolha) de que há algo a recear, ou por outras razões a talvez rejeitar, nesse absolutamente delicioso mergulhar do meu focinho guloso naquela carne viva espatifada ali (que é a parte orgânica de mim mesmo, a vivência intensa das sensações corpóreas).

A imagem então me conduz ao dilema entre uma indignidade decadente e arriscada mas deliciosa — a do materialismo orgânico — de cujos traços que parecem mais reais não temos nunca certeza de que estão mesmo para além da nossa fantasia “espiritual”; e de outro lado, a leve e alegre (“divertida”, diria Pascal) assunção até a medula (e além) do nosso ambiente alienado, isto é, fantasioso, irreal. Nossa prisão pelo medo numa delicada bolha de “espiritualidade” escapista. Só que essa fuga, essa alienação, essa diversão, se revela por fim o que é talvez nosso mais profundo e mais íntimo, ou pelo menos, o nosso humanamente mais relevante, civilizado e refinado.

Diversão, acidez e autoironia tragicômica

Descrevo isso tudo em imagens, metáforas, que não são lá muito elegantes. Entendam bem o sentido e a importância que essas imagens (reconheço que um tanto bizarras, kkkk!) acerca da condição humana, têm afinal para mim: elas são para mim acima de tudo divertidas. E isto é muito importante.

São fonte também de muita diversão de tipo intelectual, o tipo que mais me agrada. Diversão carregada de uma autoironia ácida, é verdade, mas muitas vezes é assim que me divirto comigo mesmo… com acidez, acidez autocrítica, como que brincando de cutucar, e de transgredir, a mim mesmo, testando e por vezes rasgando meus próprios limites, como quem espeta um peircing na carne. É uma diversão em modo não apenas autoirônico, mas tragicômico.

Uma recente amizade fantasma,
e o fantasma de Kant nos rondando
(ao meu novo “amigo” e a mim)

Recentemente, fiz mais um “amigo” fantasma filosófico quando encontrei, para minha surpresa, uma filosofia que coincide em diversos pontos com esse meu modo de ver as coisas — apesar de, por causa de alguma influência darwiniana, ser uma filosofia talvez otimista e confiante demais em relação ao caráter organizado e funcional da materialidade viva.

Trata-se da filosofia do “como se” (ou filosofia da ficção) de Hans Vaihinger — um filósofo que se desenvolveu a partir de uma base fundamentalmente kantiana da qual nunca se desligou (nem pretendeu se desligar) por completo, apesar de ele se sentir também bastante próximo de Nietzsche. Vaihinger foi aliás o organização de uma sociedade internacional dedicada a estudos direta ou indiretamente kantianos, e um dos responsáveis por uma enorme retomada e divulgação do pensamento kantiano em todo o mundo no século XX.

Seu ponto de partida básico para sua filosofia da ficção ou deo “como se” foi precisamente o modo como Kant lida com a noção de liberdade, ou livre decisão humana. Kant considera a liberdade como “coisa em si”, isto é, como algo que existe ou ocorre independentemente de qualquer condição, sem depender de absolutamente nada, assim como Deus, supondo que ele exista.

Só que, assim como no caso de Deus, Kant não coloca a liberdade humana como algo real, e sim como algo que não sabemos de fato se é real ou não, mas que sendo real ou não, é de qualquer modo uma suposição logicamente necessária para podermos fundamentar a existencia ética humana, e neste sentido tem para nós como que o peso de uma realidade.

É uma linha de raciocínio (uma série de bolhas interconectadas, eu diria) bastante interessante. Já havia me deparado com ela no anarquista Pierre-Joseph Proudhon, tão atraído por esse modo de pensar quanto Vaihinger. Também podemos encontrar a influência desse modo kantiano de raciocinar na filosofia juspositivista de Hans Kelsen, quando ele desenvolve sua teoria da norma fundamental.

Fantasmas amigos e fantasmas “inimigos”
(nem por isso menos valorosos)

Talvez tenha tido minha infância marcada por Puft, o fantasminha camarada, sem me dar conta bem disto… não é impossível. Contudo, sinceramente, não me lembro de qualquer importância de Puft para mim. Por outro lado, é fato que os fantasmas filosóficos com os quais dialogo mentalmente a todo momento, como Vaihinger ou Proudhon, são uma espécie de reedição dos meus antigos “amigos imaginários” de quando era criança. Brincando assim, mantenho um pouco da minha jovialidade nas atividades filosóficas, e cultivo os estudos com um pouco mais de prazer.

Costumo classificar esses meus divertidos “fantasmas” companheiros (ou pensadores-referência) que flutuam em minhas bolhas de pensamento, em dois grandes grupos.

Um deles é o grupo dos meus “outros” — ou “aliados” — em meus posicionamentos nos debates filosóficos acerca dos mais variados problemas. São pensadores que me oferecem pontos de vista e posicionamentos parciais que se combinam com os meus e me ajudam a complementá-los, quando vou examinando um problema filosófico.

Como essas “alianças” costumam ser duradouras a ponto de me parecerem praticamente definitivas, incorporando-se cada vez mais aos meus próprios posicionamentos — e como vou relendo e reestudando os textos desses pensadores de novo e de novo — costumo ir me sentindo cada vez mais íntimo deles, a ponto de brincar de chamá-los também de meus “amigos imaginários”. Entre eles, estão por exemplo Sócrates (que não confundo de maneira nenhuma com Platão), o sofista Protágoras, Sexto Empírico, Maquiavel, Pascal, Montaigne e outros defensores do ceticismo pirrônico, La Boétie, Hobbes, Proudhon, Max Stirner, Hans Vaihinger, Albert Camus e Vilém Fluser. Mas há outros.

O segundo grupo em que costumo classificar esses meus fantasmas filosóficos companheiros é o dos meus inimigos valorosos ou adversários valorosos (há alguns anos atrás, costumava chamá-los de “os uns“, em oposição aos meus fantasmas “amigos”, aos quais chamava de “os meus outros“). É preciso que se compreenda aqui que não estou distinguindo “inimigos” e “adversários”. São os que têm posicionamentos filosóficos não apenas opostos aos meus, mas incompatíveis com os meus, inaceitáveis para mim, e aos quais eu combato filosoficamente.

Estão no campo oposto ao meu no imenso jogo dos debates filosóficos e do exame dos problemas intelectuais e da vida (e da morte) em geral. Talvez sejam melhor descritos como “adversários”. Se os chamo às vezes de “inimigos” é apenas para acentuar o aspecto passinal que jamais deixo de lado em meus estudos. Ninguém me compreenderá corretamente quanto a isto se não der a devida atenção ao adjetivo “valorosos” que procuro sempre lembrar de acrescentar quando falo desses meus “adversários” ou “inimigos”.

Tenho sim, é verdade, adversários ou inimigos filosóficos dos quais não gosto, e aos quais realmente desprezo. Estes, não costumo me dedicar a estudar com tanto afinco, a menos que seja necessário para ensinar sobre eles aos meus alunos, ou então que se caracterizem para mim como um problema ruim ou parte de um (não um problema bom e desafiador, mas um de consequências efetivamente ruins) que precisa ser “quebrado”. Neste caso sinto-os no meu pensamento mais como uma “coisa”, uma pedra no caminho a ser devidamente arrebentada para podermos passar sem incômodo ou empecilho, do que propriamente como pensadores de grande densidade a serem dignamente combatidos.

Mas os que me afetam realmente, são os que considero valorosos. Gosto deles, e são para mim uma fonte de intenso e interminável (e muito muito muito prazeroso) aprendizado e desenvolvimento, porque cresço muito em minha formação filosófica precisamente me esforçando para combatê-los da maneira mais consistente possível — e não considero esse combate nada fácil: acho-os tremendamente (e deliciosamente) desafiadores.

Entre meus valorosos e desafiadores inimigos, tenho por exemplo Platão, Schelling, Marx e os defensores da lógica elementar matemática de primeira ordem (mais conhecida como a lógica clássica atual, que já não é mais a de Aristóteles).

Minha (re)descoberta de Kant, afinal

Minha descoberta mais recente, em relação a esses valorosos adversários é a de que Kant está aos poucos assumindo posição entre eles. Já faz algum tempo que o venho combatendo, apesar da proximidade “vaihingeriana” com alguns aspectos de seu pensamento. Ainda não havia percebido isso com clareza. Estou percebendo agora.

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