Esquerda, direita: o violino do poder (Primeiro Ato)

Por João Borba – 07 de setembro de 2006 – artigo 16, vol.1
(originalmente publicado em www.eleicao.info)

o_violino_do_poderQual o tema deste artigo?

Em Esquerda, direita: onde você lava as mãos?, procurei examinar uma frase que circulou recentemente e que causou algum alvoroço (para não dizer alguma histeria) na mídia. Logo no início daquele artigo, prometi comentar também, em outro artigo, uma segunda frase interessante… o tal “outro artigo” é este aqui, e venho por meio dele cumprir a promessa.

A frase tema deste outro artigo, como já mencionei naquele anterior, é uma espécie de “dito” popular entre os políticos (portanto não exatamente um dito popular, e sim algo que circula no ideário da classe política em geral): “O poder é como violino: se pega com a esquerda e se toca com a direita”.

 

O violino “se pega com a esquerda e
se toca com a direita”: o que significa isto?

Significa precisamente o que se observa de fato ao longo da História política mundial: uma parcela das elites sociais com menor influência sobre as instâncias oficiais de poder, para conseguir se enfiar “na marra” nessas instâncias e fazer valer as suas vontades junto às outras elites que já estão ali, “alia-se” (superficialmente) a toda uma camada bem mais extensa da população mais pobre.

Procura inflamar a população no sentido de exigir (com o apoio dessa força excedente) maior abertura na “panelinha” do poder — mas o faz com todo o cuidado para evitar que essa população se organize efetivamente debatendo as questões, de modo que continue a servir como massa de manobra. Trata-se neste momento de uma massa quente, mas que precisamente por sua condição de massa, sem atritos que a aqueçam internamente por si mesma, é uma massa razoavelmente mais fácil de se re-esfriar no momento oportuno.

O momento oportuno de esfriar a massa, no caso de elites já com alguma proximidade daquelas da “panelinha”, é antes que a massa “exploda”… mas é depois da “explosão” (e aproveitando-se dela) no caso de elites sectárias e mais distantes, à direita ou à esquerda em termos partidários, daquela “panelinha” atual. Isso porque, estando muito distantes dela, não vislumbram negociação possível e sentem a necessidade de subir a o poder pelo golpe.

Em qualquer dos casos, o que ocorre depois é que se formam, dentro da panela de pressão do poder, as direitas partidárias, representando (ou supostamente representando) as elites que já estavam lá por meio dessa representação; e as esquerdas partidárias, representando (ou supostamente representando) as novas “parcelas” (em geral novas elites) da população agora presentes na panela.

Quando uma nova representação (supostamente mais à esquerda) sobe ao poder, o eixo do que se chama de “esquerda” e de “direita” nos meios partidários se desloca, e o que era “esquerda” passa a ser “direita” junto às antigas direitas. Essa é a dinâmica histórica da coisa, e uma certa pressão popular extrapartidária que tende atualmente a formar-se e avolumar-se no continente, no Brasil, especificamente, ainda desorganizada e tendendo ao protesto silencioso, mas já indiscretamente sensível em toda parte e incitando elites representativas a dar forma a novos partidos (e interesseiros de plantão a aproveitarem-se também do movimento), tem a ver com parte daquilo a que estamos assistindo no país, (muito recentemente saído de ditadura, em termos históricos, e começando a sentir alguns efeitos agora) e na América Latina em geral.

Neste sentido, quanto mais PSOL e outros partidos “de esquerda” tomarem forma e consistência, mais PT e PSDB, mas também PMDB, PFL e outras representações mais antigas na panela (e digo mais antigas em função dos grupos sociais aos quais se supõe que representem, e não em função das datas de fundação dos partidos), tenderão naturalmente a aproximar-se e configurar numa mesma grande salada (ainda que com “folhas” e verduras diversificadas) o caldo geral das “direitas” partidárias, sem estarem por isso necessariamente “mudando” ou “traindo” suas propostas programáticas mais do que os novos partidos “de esquerda” se sentirão igualmente forçados a fazerem conforme forem entrando na panela — e é o que a História, examinando as coisas mais a longo prazo, e de um ponto de vista mais generalizante, atestará, caso não haja, como não me parece que deva ocorrer (felizmente!), nenhum acidente golpista ou “revolucionário” no caminho (segundo o modo a meu ver errôneo como se costuma usar este termo, associado necessariamente à violência), seja à “direita” ou à “esquerda” no campo partidário.

 

A política no setor privado (o campo empresarial)

Digo, a partir deste ponto e até o final do artigo, algumas coisas talvez meio azedas para muitos ouvidos, e que sei que não vão agradar, inclusive a amigos meus. Mas não me parece que se deva fazer política pura e simplesmente “para agradar” a quem quer que seja. E manifestar-se politicamente, em um meio de comunicação (como é o caso da Internet), é praticar política no sentido mais forte do termo. Devemos nos responsabilizar pelo que dizemos nesse sentido (ou seja, responder por aquilo que dizemos, o que é algo mais do que enfiar a escova de dentes do cotidiano na boca e calar-se). Respondo pessoalmente por este artigo como por todos os outros, e eximo de qualquer responsabilidade, aliás, a direção deste site.

A dinâmica da representação é o que não permite que igualemos, simples e diretamente, a estruturação da autoridade política àquela da autoridade empresarial, que quanto a isto funciona normalmente de maneira similar a um regime de castas medieval, mas feito de castas abstratas (os níveis hierárquicos de comando), de modo que se um sobe, e outro desce, nada muda necessariamente por essa mudança de um por outro.

As lutas políticas no interior das estruturas empresariais tornam-se por isso mais difíceis do que as lutas políticas partidárias, uma vez que normalmente não há representatividade claramente definida entre os “candidatos” a um cargo hierárquico, manifestar-se como representante de um grupo de interesses pode ser perigoso para o “candidato”, dependendo do caso (embora como representante de certas propostas por exemplo modernizantes talvez não, desde que isto não seja personalizado como representação de pessoas ou grupos, mas colocado como representação da finalidade sagrada e superior de toda empresa: o lucro!). Na estrutura hierárquica de uma empresa, como se sabe, normalmente não há nem eleições, nem mesmo direito à manifestação nesse sentido por parte de todas as partes interessadas, ou seja, de todos os membros da instituição e consumidores de seus produtos e serviços.

Assim, as elites no interior das empresas não tocam violino. Preferem a corneta, como num quartel. No entanto, no próprio meio partidário há os que insistem em compreender a atuação política pura e simplesmente segundo o modelo de uma atuação empresarial, desconsiderando-lhe o caráter político e representacional: embora não o seja necessariamente, tende a ser um posicionamento direitista em um sentido mais profundo do termo que o puramente partidário — e no decorrer desta minha seção de artigos intitulados O violino do poder (e mais alguma outra coisa no título), veremos por que.

 

As elites representativas e o senso prático empresarial

Entretanto, na dinâmica da representação que acabo de descrever, e que não se manifesta (ou pelo menos não às claras) no campo empresarial, existe um fator complicador: é que supor que a presença de uma representação sua nas instâncias oficiais de poder significa estar efetivamente presente nelas, é quase sempre uma rematada tolice, em que as militâncias de esquerda têm incorrido insistentemente ao longo da História: os próprios representantes e membros do governo em geral, não importa a quem estejam representando, formam por si mesmos uma elite relativamente independente daquela parcela da população a que representam ou pretendem representar, de forma que a representação efetiva que realizam, se há alguma, é mínima.

Inclui-se nessa elite (que à maneira de Proudhon eu chamaria de elite governamental) tanto o legislativo quanto o executivo, mas também o judiciário, por um viés que não é diretamente o da representação de pessoas e grupos sociais (a não ser parcialmente no caso de advogados e promotores), mas sim indiretamente mediante as leis — que são representações inanimadas, não encarnadas em pessoas e partidos, mas são representações.

É característico do meio empresarial (e diria que também do pensamento de direita em geral, embora as duas coisas não coincidam necessariamente), um sentido pragmático e um senso de eficácia colocados acima e até mesmo além e aquém da questão dos valores políticos (o sociólogo Chico de Oliveira parece ter algo de interessante a dizer nesse sentido), como se a eficácia fosse uma outra questão quase completamente desconectada daquela, e quando se trata de valores morais, a tendência é também isolá-los dos valores políticos ou estabelecer uma relação de simples oposição entre eles, condenando moralmente, por exemplo, os valores políticos, sem passar muito desse nível de relação a não ser que seja para valorizar moralmente o respeito às autoridades, geralmente a coisa não vai muito mais longe que isso. O isolamento mais frequente (e o mais grave) típico dos meios empresariais, é justamente o que separa os valores morais da questão da eficácia, e isto muitas vezes ocorre mesmo no campo da política.

Em função desse senso prático, desde a nossa retomada democrática com a saída da ditadura, os meios empresariais perceberam mais rapidamente a desconexão entre a elite governamental e seus “representados”, e que na maioria dos casos não é como “representados” que conseguem mais eficazmente a defesa de seus interesses, mas corporativamente por meio de pressões (em geral econômicas), ou por debaixo do pano, pelos caminhos da corrupção, e aprenderam a lidar com essas vias alternativas à pseudo representação mais rápida, discreta e eficazmente do que as esquerdas — inclusive em função de não terem de organizar, como se sabe, uma quantidade muito grande de gente, como ocorre no caso das esquerdas, coisa bem mais difícil, trabalhosa e demorada.

As esquerdas partidárias por outro lado, aqui no Brasil, querendo, por uma espécie de moralismo tacanho e superficial, fazer-se de verdadeiras representações dos seus representados e reconhecendo a falha intrínseca da representação apenas nos outros, tiveram a infelicidade de apostar, por uma estupidez estratégica e uma falta moral imensuráveis e a meu ver absolutamente imperdoáveis, na via da corrupção, como se sabe; aliando-se no caminho por dentro e por fora “ a todo gênero de interesseiros.

A desconexão entre representação política e representados, no entanto, não é absoluta. Além disso, a representação, no campo político, é relativamente explícita (embora explicite não apenas aquilo de que é representação mas também, no mesmo bolo e sem distinção, aquilo que finge e/ou aquilo que pensa representar). Por essas razões, precisamente, é que a estruturação governamental e partidária do princípio de autoridade não é a mesma que vemos em uma empresa. Os valores políticos vêm à tona como não costumam vir na dinâmica organizacional de uma empresa.

 

Declaração de vot

Meu posicionamento em política, enquanto esquerda, é radical, sem dúvida, no sentido de que vai, ou procura ir, à raiz da coisa. Não é sectário. Não proponho seitas ou a exclusão por princípio de uns em favor de outros, sem qualquer consideração do que têm a dizer. Mas é radical (e de certo modo me orgulho disto). Meu modo de ver o quadro político nacional “antecipa-se” muitos passos à esquerda no sentido de um deslocamento do “eixo” do que se considera partidos à “esquerda” e à “direita” (supondo-se que caminhemos mesmo para a esquerda, caso contrário, pode-se considerar meu ponto de vista relativamente fantasioso — lembro no entanto que está sempre aberto ao diálogo, ao reexame e, se for o caso, “a correções, uma vez que não me considero o dono da verdade, disposição de que já creio ter dado provas em meus artigos). E esse modo de ver as coisas radical de que me orgulho é mais ou menos o seguinte: vejo os partidos como todos de direita precisamente por serem partidos. Coloco então no horizonte como referência ideal a democracia direta, e em termos práticos, a curto e médio prazos, enfatizo uma democracia participativa que não perca de vista essa referência como alvo ideal do qual sempre aproximar-se mais, em seu processo de desenvolvimento. E no entanto, reconheço que há posicionamentos mais radicais do que o meu, nesta mesma direção.

Assim, coerentemente com o que tenho dito em todos os meus artigos até o momento, meu voto de consciência nestas eleições presidenciais a princípio seria nulo. Mas visto que talvez não seja a via mais eficaz para mudanças de fato, meu voto útil não está decidido (aliás, não só para a presidência como para nenhuma das instâncias). Quero aqui, publicamente, colocá-lo então, por assim dizer “à venda”: só que não há dinheiro, amizade ou participação em instâncias oficiais de poder que o comprem.

A “moeda” que me interessa é outra: meu voto útil será daqueles candidatos ou partidos que me apresentarem, durante o processo eleitoral, as melhores, mais concretas e eficazes condições de “suicídio” partidário à esquerda… — “suicídio partidário à esquerda”?! Como assim? Em que sentido? No sentido de darem maiores e melhores condições eficazes para que a população de mais baixa renda se organize e passe a integrar efetivamente o que podemos chamar de “sociedade civil organizada”, que por enquanto está restrita principalmente aos setores empresariais e às classes médias e altas (e que nem por isso, enquanto sociedade civil organizada, deixa de ter boas condições para se colocar muito mais à esquerda, na prática, do que qualquer partido que pretenda se substituir aos grupos desorganizados abaixo desta camada mantendo-os assim, como “massa de manobra”, ao invés de efetivamente ouvi-los e ajudá-los a organizarem-se em grupos de pressão autônomos).

Educação, por exemplo, é um campo em que haveria muito o que fazer neste sentido. Não apenas educação formal (em relação a ela há compromissos com a educação sendo firmados atualmente pela sociedade civil e que mereceriam extrema atenção dos órgãos públicos, porque são, ou pelo menos parecem ser, bastante consistentes) mas também aquela educação informal promovida por ONGs e erroneamente desprestigiada por esquerdas partidárias de cariz marxista (e de visão excessivamente generalizante e “desengajada na coisa de fato”) como se fosse sempre e necessariamente de caráter assistencialista. (Os amigos marxistas aqui que me perdoem, mas essa tolice marxistizante de que a “totalidade” seria de algum modo mais real ou mais relevante na análise dos fatos do que suas partes, às vezes atinge um nível de barbarismo cognitivo absolutamente impressionante).

Há na verdade uma multiplicidade e diversidade de formações nem privadas nem governamentais nesse sentido — ONGs voltadas para a educação — que não são necessariamente voltadas para o mero treinamento profissionalizante (para o subemprego, naturalmente) ou para o socorro aos coitadinhos dos necessitados, à maneira das titias carolas, mas sim para a efetiva formação no sentido da cidadania, voltadas para a politização (para além de qualquer partidarismo ou mesmo de qualquer necessário anti partidarismo como o meu) e para a integração social em um nível muito profundo e por assim dizer proativo, como aliás não vejo chegar a ocorrer sequer nas escolas oficiais, públicas ou privadas, que teriam talvez mais condições materiais para isso (embora muito menos condições políticas, no sentido de integração real com a comunidade ao redor aonde estão instaladas, em função mesmo de seu grau de institucionalização e padronização de procedimentos independentemente das culturas locais… aqui, Paulo Freire mereceria uma leitura atenta no que diz respeito à própria estruturação das escolas enquanto instituições “plantadas” em um determinado ambiente cultural, ao qual em geral são estruturalmente alheias).

Tais experiências na “área social” — e quanto a isto o Chico de Oliveira me desculpe, mas como tantos outros, está errado — não podem ser todas simplesmente colocadas “no mesmo saco” do assistencialismo. Entre outras coisas por descaso dos órgãos governamentais, têm dependido do apoio empresarial e entrado em uma estúpida concorrência umas com as outras pelas minguadas verbas públicas ou privadas existentes, ao invés de se inter articularem. E apesar de estarem na prática, inclusive por absoluta necessidade, entre os setores mais criativos entre todas as estruturas administrativas em que a sociedade se organiza, sofrem os resultados de profunda e absurda ausência de condições e de “clima” mesmo para a transferência de tecnologia organizacional entre elas.

Em função dessas verbas, advindas na maior parte dos casos do setor privado, dependem de critérios de avaliação de seus trabalhos que lhes são externos e tendem lhes a impor esse caráter assistencialista que frequentemente não teriam por si mesmas, o que as força a conviver com contradições dolorosas (porque em geral, quando já estão aculturadas e enraizadas em seus ambientes, nas comunidades em que atuam de maneira não-assistencialista, não abandonam os valores que já lhes são próprios em favor do mero assistencialismo a que as “novas verbas” acaso adquiridas querem forçá-las). Acabam dependendo inclusive, em larga escala, de favores e de mão-de-obra voluntária para continuarem existindo, sem condições para oferecerem mercado de trabalho atraente para profissionais eficazes. Há aliás, uma ampla “glamourização” do trabalho voluntário nesses setores, quando ele na verdade é justamente um sintoma das condições escabrosas em que se desempenham as atividades de cunho social, nesses setores.

Quanto à elevação das camadas economicamente mais baixas da população à condição de sociedade civil organizada, aposto de preferência, pelo perfil político que tracei de mim mesmo em meus artigos até aqui, nas raras dentre essas experiências que conseguem encontrar algum caminho de subsistência e autonomia econômica para si mesmas enquanto entidades e para seus membros, sem acabarem sucumbindo a uma relativa (mas bastante perniciosa) descaracterização como entidades com fins sociais e com características próprias e únicas, desenvolvidas em suas relações com as comunidades atendidas; casos raros que por encontrarem tais caminhos de subsistência e autonomia (ainda que capenga), por isso não dependem tanto nem do setor empresarial nem do Estado.

É uma aposta de sustentação fraca, reconheço, mas de sustentação real… apesar das poucas chances. Não me farão mudar de ideia sem me mostrarem um caminho mais eficaz no mesmo sentido. E de qualquer modo, não é o tipo de aposta que se muda só para sair “vitorioso”, mas o tipo que se luta para realizar (porque não se trata apenas de um jogo de azar).

Infelizmente, o clima de concorrência no qual têm emergido, como já disse, não costuma permitir que esses poucos exemplos de autonomia se difundam de ONG para ONG, se confrontem uns com os outros, se apoiem e se corrijam mutuamente visando maior eficácia — coisa que mudaria completamente de figura esse quadro. Mas não haveria o que fazer no sentido de promover isso? Parece-me por exemplo que o apoio governamental, se não for por sua vez assistencialista em relação a elas (como costuma ser o apoio empresarial, ainda que nem sempre seja o caso), mas planejado especificamente no sentido de promover-lhes a autonomia, tenderia a estimulá-las pelo menos um pouco em um sentido que me parece politicamente interessante, rumo à organização da sociedade.

É o tipo de proposta que atrairia meu voto útil, se feita consistentemente e com firmes, claras e concretas precauções no sentido de evitar que se transforme, como tantas vezes miseravelmente acontece (assisti de perto acontecer), em uma via para se arrastar as populações atendidas rumo ao apoio à política partidária, e pior ainda, a um partido específico, qualquer que seja.

Recolhem-se os violinos. Fim do primeiro ato.

Deixe uma resposta