Esquerda, direita: onde você lava as mãos?

Por João Borba – 02 de setembro de 2006 – artigo 14, vol.1
(originalmente publicado em www.eleicao.info)

bocas nos cus de um par de porgosComo defecar um violino

Há duas frases interessantes que merecem algum comentário. Uma é uma frase dita recentemente por um artista ligado ao partido da situação (PT), e que exprime uma posição atual de todo um leque de artistas esquerdistas no país, em face da onda de corrupção pela qual passamos, mas que na verdade não é uma frase nova, pois já tem uma certa história na política mundial: “Fazer política é lavar as mãos na merda”. A outra frase, sem dúvida mais elegante, é uma espécie de “dito” popular entre os políticos (portanto não exatamente um dito popular, mas algo que circula no ideário da classe política em geral): “O poder é como violino: se pega com a esquerda e se toca com a direita”.

Examinarei aqui a primeira delas, e deixarei a segunda para um outro artigo, que deve ter o título Esquerda, direita: o violino do poder. No entanto advirto desde já que o título deste primeiro dos dois artigos talvez devesse começar com Esquerda, esquerda… — porque este é o verdadeiro assunto, aqui, e a dissimetria é patente. Começamos então esta nossa redefinição de “esquerda” e “direita”, para lembrar um dito popular, com dois pés esquerdos…

 

A tendência das esquerdas para a mudança

As esquerdas tendem tradicionalmente à mudança por razões simples: é que historicamente há sempre ou quase sempre (pelo menos desde o Renascimento e o assim chamado “capitalismo”) uma pequena minoria altamente beneficiada e lutando para manter seus privilégios, em detrimento de uma imensa maioria em piores condições de vida, ou seja, uma minoria poderosa lutando para conservar essa situação de privilégio, e representada nessa luta pela “direita”, enquanto a maioria desempoderada luta para mudá-la, sendo representada nessa luta pela “esquerda” — esta é, aliás, precisamente a dinâmica que tem sofrido profundas alterações em todo o mundo e, por isso, confundido as coisas no que diz respeito à delimitação que diferencia esquerda e direita.

 

Os princípios de autoridade e indiferença

O primeiro desses dois princípios que têm sempre norteado as “esquerdas”, é fruto de uma avaliação equivocada da questão da eficácia (eu diria que equivocada por exagero e por supervalorização da generalização e das análises puramente macroscópicas) por parte da facção historicamente vitoriosa na condução dos rumos do socialismo, que foi até o momento a facção marxista. Os marxistas, contaminados pela supervalorização hegeliana da grande “visão global” da realidade, de caráter sintético conforme reza a dialética de Hegel, traduziram-na “governamentalmente” (para usar uma expressão de Proudhon) no sentido da necessidade de tomar as esferas institucionais de poder, como se isto, fornecendo a tal “visão global” e também a possibilidade de atuar mais globalmente — e ainda também por outras razões, de ordem policial/militar por exemplo — tornasse sua ação mais forte e eficaz.

Vale lembrar que esse grupo de filósofos idealistas alemães, Fichte, Schelling e Hegel, tinha fortes propensões para a teologia, e que as grandes sínteses, e a visão global da realidade, em Hegel, como se a totalidade do real fosse uma “verdade” absoluta captável (e de maneira unívoca, como uma única totalidade que seria “a” real) são um eco dessa propensão para a teologia e a busca da ideia de deus, busca do que Schelling, ainda mais incisivamente que os outros dois, chamava de o absoluto. Interessante notar que, para Schelling, a noção de indiferença estava fortemente associada à ideia de absoluto (o leitor poderá encontrar mais a respeito dela em meu artigo Realismo e ilusão nas esquerdas).

O termo “absoluto”, na época, não tinha — nem de longe — a conotação de uma neutra “abstração” conceitual: tratava-se da noção que fundamentava a monarquia absoluta, e nada menos que isso, ou seja, dos fundamentos teóricos do regime defendido pelas extremas direitas de então — a monarquia absoluta geralmente era tida não apenas como um poder terreno absoluto, mas também como sendo um poder de direito divino, ou seja, legitimado por essa autoridade absoluta, superior a todas as outras, que seria deus. E infelizmente é no fundo um resquício histórico disto o que está por detrás dos excessos autoritários e macroscópicos da esquerda marxista atual.

 

”Lavar as mãos na merda”

O professor e filósofo Renato Janine Ribeiro, uma das maiores estrelas do pensamento político que emergiram da USP e de quem tive a felicidade de ser aluno nos longínquos tempos da minha graduação, é alguém a quem ainda hoje gostaria de poder cumprimentar… mas não tenho lá muita certeza de como, exatamente, receberia minha mão estendida. Eu explico:quando era aluno dele em um curso sobre a revolução de 1848 na França, líamos O 18 Brumário de Luís Bonaparte, belo livro de Marx, e logo na introdução me chamou a atenção o fato de o autor — Marx — fazendo uma rápida menção a Proudhon (que deste a época já era uma de minhas referências), acabar distorcendo (e muito), os posicionamentos proudhonianos em relação aos processos históricos, aproveitando-se inclusive da menção a um texto de Proudhon amargo e irônico, mais fraco e menos importante, sobre a revolução de 1848 (A revolução demonstrada pelo golpe de Estado), e deixando de levar em consideração o livro realmente importante de Proudhon sobre o assunto (Confissões de um revolucionário).

A discussão que puxei em sala de aula tomou o seguinte rumo: Proudhon era acusado, pelos marxistas em geral, de valorizar antiquada e “burguesmente” a força histórica de um indivíduo (no caso o sobrinho de Napoleão), e de não colocar o trabalho e as forças trabalhadoras na base da ação transformadora. Falso — foi o que observei — a publicação por Proudhon daquele texto aparentemente (e aliás só aparentemente, em uma leitura superficial) valorizando da “força” de Luís Bonaparte pessoalmente como agente histórico de mudanças reais, era uma ironia e uma estratégia retórica circunscrita especificamente àquele momento político, e não um produto expressivo e direto de sua concepção filosófica, que aliás era bem outra e podia ser captada indiretamente mesmo naquele livro de pouca importância, lido de maneira tão distorcida e superficial por Marx. Procurei atestar isso citando uma passagem de Proudhon em que ele diz, justamente a esse respeito, e lamentando o fracasso nessa sua infeliz tentativa literária de ser irônico e maquiavélico, que “fazer política é lavar as mãos na merda…”

Bom… há traduções que preferem “lavar as mãos na lama”, e aquela que apresentei pareceu certamente um tanto… deselegantemente divertida, digamos assim. Mas eu estava realmente tomado pela questão, e mal me dei conta disso (Stirner denunciaria um aspecto um tanto religioso em mim, nesta coisa de às vezes ser tomado pela discussão filosófica de ideias e abstrações, como se isso fosse mais forte que eu próprio).

Pouco depois, no intervalo da aula, fui ao banheiro. O Renato entrou também rapidamente para lavar as mãos (mas me pareceu que menos por isso do que para não perder “a deixa” de uma boa piada), e com o fino bom humor que lhe é habitual, disse: — É sempre bom a gente saber aonde lava as mãos quem a gente vai cumprimentar…

 

O direitismo da frase do Paulo Betti

Não sei de onde Proudhon tirou essa frase, e se é mesmo originalmente dele ou de outro antes dele ? creio que há nela uma alusão indireta e reformulada ao gesto de Pôncio Pilatos em relação a Cristo…

De qualquer modo, compreenda-se que o sentido do uso proudhoniano da frase, razoavelmente anterior, já que estamos falando da primeira metade do século XIX, se dá em um registro muito mais à esquerda do que jamais o nosso bom ator Paulo Betti poderia sequer sonhar em querer ser, no contexto em que a deixou explodir por sua boca: Proudhon buscava algo como tentar arrancar forçada e ironicamente, por meio de estratégias retóricas, das possíveis ações do golpista Luís Bonaparte instalado no poder, alguma garantia ou pelo menos alguma esperança de espaço para a futura articulação de mobilizações sociais organizadas para além de todo e qualquer partido ou candidato, empresa ou governo — e ele próprio lamentou a tentativa como um erro retórico que fez de Da revolução demonstrada pelo golpe de Estado um de seus piores livros.

O que Paulo Betti fez, por outro lado, foi usar a mesma expressão não apenas em defesa de um partido (e do partido que já está no poder), mas — e isto sim é realmente grave (ou tornou-se grave por toda essa inesperada e um tanto “histérica” repercussão) — como forma de defesa de algo similar à tirânica razão de Estado que Maquiavel, apesar de seu esquerdismo radical pouco lembrado hoje, e por um talvez tortuoso (ainda que interessante) senso de realismo, pretendeu fundamentar. É a tal ideia de que os fins justificam os meios, leitura superficial do mesmo Maquiavel e colocada, no caso, talvez um tanto cinicamente demais, digamos assim, em favor de nada menos que a corrupção e o processo de desmantelamento estratégico e moral das próprias esquerdas no país.

A frase, redita neste contexto e por sua repercussão, soa como se os procedimentos que operaram esse desmantelamento das próprias esquerdas tivessem sido afinal, de algum modo que não posso vislumbrar qual seria, algo muito eficaz para elas, e não uma retumbante demonstração de incompetência política, felizmente (para a instituição partidária que abrigou os seus mais notáveis praticantes) contornada pelo fôlego adquirido graças ao contrapeso de competências (hoje há quem diga questionáveis) em outras áreas — mais precisamente, na área econômica (acusada de “direitismo” financista) e depois, enfim mais “esquerdosamente”, por assim dizer, na área social.

 

Pondo pingos nos “is”

Desculpem-me se, desta vez, ponho alguns pingos nos “is” e carrego um pouquinho mais nas tintas: supondo que consideremos Lula e o PT como “esquerda”, o fato é que essa “esquerda” tem sido, em seus sucessos como em seus fracassos, talvez o maior cabo eleitoral das direitas que o Brasil já teve… assim como Alkmin e o PSDB, de certo modo podem ser considerados o maior cabo eleitoral de Lula, em vista do desmantelamento, que esse partido conseguiu brilhantemente realizar, das suas próprias condições de concorrência, desmantelamento que se deu pelo modo como o PSDB se “articulou” para a entrada de Alkmin e a quebra da sagrada “panelinha” de caciques que, ali dentro, já estava se auto predestinando comportadamente, em “filinha indiana”, para a presidência. Como se não bastasse isso, para exemplo de desarticulação e falta de senso estratégico, perderam a prefeitura e ainda não deixam de correr algum risco quanto ao governo do Estado.

Quanto ao PT então, nesses dois quesitos — articulação e senso de estratégia — nem se fala! Mas o eleitorado já estava em certa medida até acostumado… Neste quadro, o que resta no campo partidário para quem não quer cair de vez no colo das direitas tradicionais ou do fisiologismo centrista de sempre? PSOL — ou PT 2, a missão… agora com mais “pureza” para você, consumidor brasileiro! — e de resto,outros tantos nanicos, nanicos, nanicos, e necas de pitibiribas com o menor vislumbre de resultados de fato, pelo menos assim de imediato (como aliás não deixa de ser o caso também do “PT 2”).

Assim, direta ou indiretamente, as duas candidaturas mais fortes à presidência, atualmente, são decididamente, na prática, de direita. E diria que, pelo puro e simples fato de serem partidos visando a tomada do poder, todos os demais também o são. Porque — e esta é a raiz da questão — “direita” e “esquerda” são, pela própria história do desenvolvimento dessas noções, valores políticos intrinsecamente ultra partidários, e não estritamente partidários. Em outras palavras, esses valores nasceram com a ideia de representação política. E aí pergunto: de quem?

 

A questão da representação na política

O teórico político Renato Lessa diria que, a rigor, e desde o começo nada ingenuamente, são representações das elites dominantes, sempre e só, e que há explícita e assumidamente,nas formulações originais da ideia de representação, a imagem do fingimento teatral de se estar exprimindo a voz popular. Estou com ele, tem toda razão neste ponto — e eu acrescentaria uma crítica ao enorme preconceito e à enorme ignorância em relação às artes teatrais presentes nessas formulações originais.

O Paulo Betti, que é ator e certamente conhece a diversidade das técnicas teatrais e talvez o desenvolvimento histórico que foram tendo até as que existem hoje, o campo limitado que o puro “fingimento” tem entre elas, como parte de técnicas específicas e não de toda e qualquer prática teatral, e ainda o sentido desmascarador e crítico de um fingimento segundo a técnica de Brecht, por exemplo (… fui ator amador durante 15 anos, por acaso). A associação direta, pura e simplória do teatro a um fingimento pelos primeiros formuladores da noção de representação política deveria ser examinada também, aliás, sob o ponto de vista de seu preconceito contra essa arte.

Infelizmente, Marx não estava isento desse preconceito, e em seu Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, analisando a revolução de 1848 na França, coloca a eficácia em oposição à atuação meramente teatral, ou seja, meramente simbólica dos paramentares quarentaeoitistas franceses.

Proudhon, em atitude bem diferente, faz a mesma crítica no capítulo 11 de seu Confissões de um revolucionário, mas acaba dizendo, talvez com excessivo orgulho, que agora o ator de verdade — ele próprio — ia subir ao palco, e diz “de meu banco de espectador me precipitei, novo ator, sobre o teatro”! O que fez então (e era deputado eleito) foi lançar oficialmente pela primeira vez, com um projeto de lei simbólico (porque sabia que não teria votos, e declarou isso depois entre amigos), a distinção entre burguesia e proletariado, com a finalidade declarada de promover um “choque” retórico em que as posições à esquerda (ou seja, fora do campo partidário) e à direita (no campo partidário e representativo) se definissem mais claramente. Naturalmente, saiu dali diretamente para a cadeia — como aliás já estava prevendo — acusado de “bagunçar” a ordem pública promovendo a insurreição…

Pensei muito em escrever um artigo só sobre isto, mas acabei preferindo deixar apenas as referências para que o leitor possa por si mesmo compreender do que é que estou falando: a imagem do espectador pulando para o palco, em Proudhon, é mais do que uma metáfora, porque por analogia traduz uma postura em relação à representatividade, que não é a de pura e simplesmente negá-la, mas a de negá-la de um modo muito específico.

Compare-se essa imagem proudhoniana com o que mais tarde Brecht, no teatro artístico mesmo, propôs como um teatro politicamente crítico — procure-se pela ideia de “ruptura da quarta parede” no teatro (a quarta parede é aquela “parede invisível” entre atores e espectadores, de modo que não há interação entre eles… Proudhon está falando de algo mais que a simples “interação”, está criticando a própria distinção ator-espectador. Só que faz isto na política e não em um palco de arte teatral). E finalmente, compare-se isto com as práticas dos situacionistas de Guy Debord, no movimento de 68.

Debord criticava a sociedade do espetáculo, mas não dirigia sua crítica exatamente à teatralidade na vida política e econômica, e sim à espetacularidade que dominava esses campos… e o que é o espetáculo? Debordianamente falando, é aquela forma específica de teatro (de representação, se assim o quiserem), em que há como que uma parede invisível separando de um lado o espetáculo ativo, e de outro, o passivo espectador, e na qual portanto os espectadores não são ao mesmo tempo atores, nem os atores ao mesmo tempo espectadores.

O que estou dizendo poderia soar como uma redução de minhas críticas até o momento a uma proposta apenas participacionista, de defesa da democracia participativa (com participação da população junto aos representantes oficiais)… mas não se trata disto: não se confunda meios e fins, ainda que interajam um com o outro! Não se confunda numa coisa só práticas efetivas e valores, ou não conseguiremos orientar as primeiras pelas segundas.Estou falando, na verdade, de politização da população em todos os seus “recortes” e em todos os níveis. É disso que estou falando. E sugerindo que há algo de representação na própria raiz do que significa ser politizado, pois não se trata de pura e simplesmente defender seus próprios direitos e interesses… (ainda que haja parte disto na coisa também).

 

Reduzindo a representação ao absurdo

Mas voltando à questão da representação tal como se dá hoje, a constatação evidente é que existe (e persiste sempre) de fato esse discurso da representação do “povo” na figura dos políticos oficiais (e aqui não estou distinguindo representantes do legislativo ou do executivo, mas tomando a noção de “representantes” no sentido mais popular, que enquanto tais não os diferencia). O sentido explicitamente atribuído a essa “representação” é, de fato, o da re-apresentação de alguma coisa em outra esfera, — como tenho mencionado em meus artigos desde o começo — e que no caso dos representantes ditos “de esquerda” não é, não pretende ser, a elite dominante (… perguntem por exemplo ao Paulo Bettia quem ele julga que o PT representa!… E não se trata de um sujeito nem um pouco politicamente ingênuo).

Como quer que a coisa funcione de fato, ela pretende funcionar do mesmo modo como funcionam os signos linguísticos em geral. Assim, seguindo a lógica do próprio discurso da “representação política” (ainda que para reduzi-la ao absurdo, como seria do gosto do filósofo Zenão), diria sim, que o sentido intrínseco da representação está em ser uma re-apresentação (ou em termos platônicos uma imitação) tão fiel quanto possível daquilo que supostamente re-apresenta. No caso das direitas é fácil, está inscrito na própria estrutura daquilo que é efetivamente um partido, em relação aos seus “representados”: uma elite dominante.

No caso das esquerdas, a coisa se complica, porque essa elite dominante que compõe o partido — e que insisto, é sim, necessariamente, em relação aos seus “representados”, uma elite dominante, uma vez que articulada para o poder, e não mera e estritamente como porta-voz sem qualquer poder decisório, legislador, jurídico ou mesmo diplomático e negociador — no caso das supostas “esquerdas” partidárias, enfim, a atuação política deveria ser, por uma questão de coerência, uma atuação suicida. Coisa bem pouco provável, e se possível, bem pouco sensata… não acham?

E portanto, para finalizar, é também direitista,infelizmente, a frase do meu quase colega de artes Paulo Betti (porque acabei abandonando o caminho teatral pela filosofia, como se vê). Direitista — o quase-colega que me desculpe, mas tenho de dizê-lo — não só pelo papel na prática questionável enquanto esquerda que o PT no governo tem desempenhado, mas também porque, exprimindo o que foi usada para exprimir (a ideia de que vale-tudo para manter o poder , e quem pode fazê-lo, justamente porque já está de posse do poder, então que o faça) seria de qualquer modo uma frase direitista, fosse qual fosse o partido — embora não me pareça que tenha sido essa a intenção do Betti, cujas posições conhecemos razoavelmente bem.

 

O esquerdismo na frase de Paulo Betti

Mas resta ainda um aspecto em que a frase parece ter realmente algo de “esquerdista”, e pelo qual eu cumprimentaria sim o Paulo Betti: é aquilo que Marcelo Coelho observou, na página A6 da Folha de São Paulo de sábado, 2 de setembro de 2006, sob o título Tecle M para votar : a ruptura da “distinção preconceituosa que separa em níveis hierárquicos de nobreza as palavras da nossa língua”, colocando o palavrão na ordem do dia.

Coelho estava sendo finamente irônico. O que queria dizer — e disse — é que “o debate político ganhou, com isso, um termo mais expressivo para descrevê-lo”. Queria exprimir sua indignação, apontando que essa diferença de vocabulário era no fundo a maior diferença que podemos encontrar entre os polos mais fortes da disputa eleitoral atual.

Mas o fato é que, realmente, como o próprio Coelho diz, com a frase de Paulo Betti “toda a blindagem do marketing, das belas aparências, dos sorrisos de campanha era desmontada de repente”. De maneira muito mais interessante, eu diria — e neste caso proposital e estrategicamente bem realizada, e dentro de uma esfera de atuação em que era especialmente habilidoso — o genial quadrinista underground Robert Crumb, depois de agradar às mil maravilhas o gosto pudico e carolinha do público médio norte-americano com muitas e muitas historinhas bonitinhas e divertidinhas de personagens que eram uma gracinha… (tudo muito “inha”, enfim), quando já estava famoso e atingia o grande público, de repente passou a lançar, com seus personagens (que continuavam uma “gracinha”), nada menos histórias em quadrinhos pesada e lascadamente pornográficas, incluindo por exemplo um gatinho branco que era estudante universitário (Fritz, the cat), e que em tudo se mostrava (nada por acaso) o extremo oposto do ratinho preto Mickey Mouse, que simboliza tão veementemente o american way of life.

A frase de Betti — certamente para sua própria surpresa — de fato tornou-se, por sua repercussão mais do que pela frase em si mesma, um momento de maior contraste em relação à mesmice em que estamos no campo político, um fenômeno interessantemente diferenciador, de rompimento com o indiferentismo que neste momento tende a se tornar generalizado… o único problema é que se a moda pega… — me entendam bem, porque não há carolice nisto, mas uma questão de finesse — se a danada da moda pega, enfim, não só o próprio contraste acaba se transformando em mesmice, como teremos o desgosto de assistir à campanha mais porcamente deselegante e grosseira de todos os tempos.

Então, pelo amor do santo bicho do coquinho, não interpretem o que vou dizer como uma indicação de que “nós, esquerdistas”, deveríamos todos agora passar a utilizar uma linguagem “bela e libertamente” recheada de dez mil palavrões (inclusive banalizando a novidade pós-moderna, por assim dizer, desse belo “achado” retórico novecentista que a mídia, desconhecendo-lhe o lastro histórico, construiu em cima da fala do ator)!… Mas o fato — e é o que quero frisar — é que a frase de Paulo Betti, bem ou mal, acaba configurando uma espécie de divisor de águas, em termos de discurso, em relação à definição do que significa realmente ser “de esquerda”… águas bem turvas e decerto turvas, de substâncias suspeitas, mas onde nos “limpando” de nossas pudicas carolices encontramos certas posições a tomar.

Trata-se na verdade, como espero ter demonstrado, de um divisor de águas bastante desequilibrado, pendendo nitidamente para as esquerdas “partidárias”, e com um sentido centralista e autoritário cujo alcance não sei até que ponto o Paulo Betti, em suas melhores intenções, chegou a vislumbrar, mas que para mim — para mim, e não sou dono da verdade — anula, pela força do princípio de autoridade que evoca, o próprio sentido do que se poderia e se deveria considerar como “esquerda”. O problema colocado agora por esse divisor de águas, a partir do momento em que a frase do Betti assumiu toda esse inusitado terreno na esfera pública e toda essa significação e fantástica utilidade para a reflexão ética e política das esquerdas no país (e só por isso acho que ele já merecia uma medalha!) — o que se enxerga afinal no fundo dessas águas assim divididas, e que aqui procurei tornar menos turvas e mais límpidas e transparentes, passa a ser mais ou menos o seguinte: você, leitor “de esquerda”, lava as mãos no pouquinho de cá ou no tantão de lá?

O que diria ao Paulo, amistosamente, é: e aí, seu moço… imaginava que ia fazer todo esse barulho…?

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