Estética Anônima e equilíbrio de tensões no horizonte político da questão da interpretação do outro

sumário

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Três temas de interesse estético-político:
Sorel, Black Blocs e Anônimos

Quem tem acompanhado minhas postagens no facebook, sabe que tenho falado bastante sobre George Sorel e a proximidade dos Black Blocs com o seu pensamento. Sabe também que tenho falado bastante sobre a questão da interpretação do comportamento alheio, e do que há de implicações éticas e políticas nessa questão. E sabe, finalmente, que essas reflexões estão diretamente conectadas ao estudo do que estou tendendo a chamar de estética da ação política. Não vou me concentrar centralmente na discussão estética aqui, mas vou sim levantar uma série de elementos (ligados principalmente a questões éticas) que servirão mais adiante, noutro possível artigo, para um estudo realmente centrado na estética da ação política dos Anônimos.

A ética sempre fornece muito material para isso precisamente porque, em última instância, de meu ponto de vista, é bastante questionável que ela própria seja realmente algo mais que uma estética da ação. No caso particular em foco aqui, há uma estética da ação política examinada por Sorel na violência e na unidade do sindicalismo revolucionário, e vejo nisto um paralelo bem próximo com a estética da ação política dos Black Blocs.

Mas é uma estética que, ao menos no caso dos Black Blocs brasileiros, parece não apenas enfocar a unidade expressiva interna e simbólica de sua ação, mas descuidar gravemente da questão das interpretações de sua ação, isto é, parece perder de vista o próprio caráter estratégico que se supõe que deveria estar na raiz de gestos fortemente simbólicos visando a inflamação da luta de classes como, por exemplo, o espancamento de automóveis de luxo.

O modo como a coisa tem sido realizada aqui parece ser de caráter mais puramente expressivo (expressão de frustrações) do que de caráter estrategicamente atento às interpretações possíveis das ações — que não dependem de maneira nenhuma só daquilo que fazemos e do tipo de efeito para o qual nossos feitos apontam, porque há mais outras coisas em jogo. Há por exemplo uma multiplicidade real de agentes interagindo uns com os outros e interferindo nas interpretações uns dos outros, e da qual não se pode descuidar quando se pretende precisamente sua anulação e sua redução a duas classes econômicas opostas, como parece ser do empenho dos nossos Black Blocs. Ocorre que tomar essa noção de “luta de classes” da maneira mais crua e simplesmente tratar como uma oposição real e evidente na qual nos lançamos como numa guerra, não é sempre o melhor modo, ma melhor estratégia de torná-la real, quero dizer, efetiva (porque o que está atuando na prática como algo efetivo para as pessoas, neste momento histórico, não é exatamente isto).

No caso da estética da ação política dos Anons, ou Anônimos, pelo contrário, tudo muda de figura em relação a essa questão da consideração das interpretações, e das considerações estratégicas implicadas. O refinamento da ação, nesse aspecto, conduz a uma engenharia de significações colocadas em jogo de tal modo que a coisa toda, a bem da verdade, beira as raias da obra de arte. E curiosamente… coletiva, gerada inconscientemente, pelo entrechoque natural de ações modeladas por certos valores e princípios orientadores que as foram lançando em um jogo de entrelaçamentos interessantíssimo.

Esta questão da interpretação do comportamento alheio não deixa de estar conectada a esse outro tema sobre o qual tenho refletido, e de que falei há pouco: o da possibilidade e do interesse de uma estética da ação como recurso (bem mais profundo e eficaz do que se poderia pensar à primeira vista) para o exame das ações éticas e políticas em geral. E anuncio desde já com clareza: nessa questão (da interpretação do comportamento alheio) esse outro perfil de mobilizações sócio-políticas bem diferente do perfil Black Bloc — o perfil dos “famosos” Anônimos — está inteiramente imerso.

Ao falar sobre essa questão, portanto, estou também falando também dos Anônimos, do que está implicado em sua linha de ação, tanto quanto ao falar de Sorel estou falando dos Black Blocs e do que está implicado nas ações deles.

O próprio Sorel, muito à frente de sua época, desenvolveu à sua maneira um exame estético da ação política (defendendo uma estética do impacto agressivo e da unidade mitopoética anti-analítica — infelizmente de perfil no fundo fascista, em conformidade com o desalentador e deprimente destino final a que chegou sua inicialmente tão rebelde e libertária filosofia).

Enfim, para mim, como se vê, o tema da interpretação do comportamento alheio, complementar a esse tema da estética da ação, também diz respeito às minhas reflexões sobre Sorel. Mas conduz muito mais a pensar nas mobilizações ético-políticas dos Anônimos do que nas mobilizações dos Black Blocs.

A gênese do tema da interpretação do outro:
antes de Sorel, o teatro e os gestos de Flusser

Tenho andado fascinado por Sorel, é verdade, mas minha busca de uma estética da ação não nasceu da leitura de Sorel — apenas coincidiu com o que encontrei ali.

Era para mim uma busca muito mais antiga. Vinha de minha adolescência atuando já como ator amador, de minhas experiências no teatro, quando ainda nunca havia ouvido falar em Sorel.

Vinha também de meu acompanhamento (já desde aquela fase de adolescência) do pensamento de Vilém Flusser (que acabou por desembocar, como para mim parecia óbvio que acabaria desembocando em algum momento) na questão da teatralidade, mais precisamente, em uma filosofia dos gestos.

Flusser reclamava do academicismo filosófico no Brasil. Essa filosofia acadêmica, era vista por ele como “irresponsável” na medida de seu descompromisso existencial, de sua impessoalidade, do não envolvimento da vida do pensante ali.

A dissolução despersonalizante de que o Brasil é vítima no campo filosófico desde o início dos estudos desse tipo aqui, dissolução contra a qual Flusser procurou se engajar, na verdade é algo que, hoje, reverbera um sintoma de tendências culturais de nível mundial.

Além de minhas leituras sorelianas (ligadas às minhas reflexões sobre os Black Blocs), importa que saibam que tudo o que tenho pensado acerca da questão da interpretação do comportamento alheio, por outro lado, está conectado a uma reflexão que me leva a pensar ainda bem mais e bem mais a fundo. É a reflexão relativa a um tipo de mobilização socio-política com o qual sinto muito maior afinidade: a dos famosos Anônimos. E este nome do “agrupamento” fluido que sob ele se mobiliza em protestos ético-políticos por todo o mundo – “Anônimos” – reflete já muito dessa tendência mundial de que falo.

Os Anônimos e sua base hacktivista de fundo

Neste caso dos Anônimos, independentemente de minhas afinidades — e minhas críticas, que jamais deixam de estar presentes em relação ao que quer que seja em termos de posicionamentos políticos, quase que por princípio —, julgo estar diante de um fenômeno político mundial que oferece sintomas (e consequências) de muito maior porte e de uma significação maior, mais original e mais profunda no que diz respeito às novas práticas políticas que vêm surgindo.

E isto sobretudo na medida em que este fenômeno não pode se confundir, simplesmente, com o fenômeno do hacktivismo (a ação dos hackers ético-políticos), que é uma outra coisa, nem por outro lado pode se separar totalmente do hacktivismo, ao qual está necessariamente e incontornavelmente ligado, sob pena de se descaracterizar por completo e não ser mais reconhecível como o movimento sociopolítico que vem sendo em todo o mundo.

Digo que há muito dessa questão da interpretação do comportamento alheio, na verdade, que há todo um enfoque específico nisto, nas relações entre os fluidos e variáveis “Anônimos” deste movimento, e especialmente nas relações entre os hacktivistas que, no fundo do movimento, lhe servem de combustível, modelo, inspiração constante, e de arma eficaz.

Note-se bem: esses mesmos hacktivistas atuam mais como “serventes” e ocasionais “incitadores” do que como “líderes” do movimento, pois realmente não o são (ainda que às vezes pensem que são). Nem mesmo a fonte do personagem-símbolo do movimento (o protagonista de “V” de vingança) é, entre os hackers, a mesma que para a multidão dos Anônimos.

A gênese do hacktivismo por trás dos Anônimos:
uma ética da liberdade bruta policiada pelo princípio de Talião?!

A ideia dos “Anônimos”, associada à de uma liberdade, surgiu (na “pré-história” de tudo isso, digamos assim) de fóruns do 4chan, site que servia de “point” para o lazer de hackers, que postavam ali (anonimamente ou não) memes inteligentes, críticos e divertidos, acompanhados de comentários igualmente inteligentes, críticos e divertidos.

Mas havia quem se esmerasse em fazer autopromoção, acentuando “suas” criações, e tendendo a impor orientações ao que devia ou não devia ser valorizado e elogiado, e quanto ao que podia ou não podia ser postado, inclusive em termos de comentários e críticas ao que quer que estivesse sendo ironizado nos memes.

E assim começou uma briga. Porque enquanto uns, geralmente com pretextos morais, queriam “controlar” ou “orientar” as informações postadas, exigindo que fossem “assinadas” por seus realizadores, outros queriam manter o direito ao anonimato, e a total liberdade de informação, questionamento, expressão e posicionamento, sem aquele “moralismo” repressor (o que também na verdade também era defesa de um posicionamento ético, ligado ao valor da liberdade no campo comunicativo-informativo.

A ética dos defensores do anonimato cresceu, se difundiu, se tornou potente e ativa e ultrapassou em muito o campo dos debates lá no 4chan, carregada de um certo furor subversivo e transgressor, e de ironia agressiva contra seus adversários “carolas” e “repressores”, “censores”, “autoritários”. O elemento ético foi o que deu mais combustível ao crescimento da coisa, uma ética da liberdade de dizer e mostrar inclusive o que os “carolas” pudicamente ocultavam com pretextos morais superficiais e hipócritas.

De certo modo, era uma ética de valorização da verdade nua e crua, e da livre expressão, brutal mesmo, do desejo, desde que garantida a mesma liberdade a todos, numa lógica que inclui paradoxalmente a defesa radical da privacidade: quem quiser tem o direito de expor o que bem entender, a internet é livre. Mas ninguém é forçado a expor nada de seu, porque… a internet (mais uma vez) é livre! Não é lugar de imposição de carolices e contenções aos outros, também não é lugar de invasão e constrangimento ativo dos outros.

Só que, (mais uma vez paradoxalmente) o castigo “natural” para os que agissem contra a liberdade da internet, por exemplo impondo coisas aos outros, seria o seu controle por meio de ações de hackeamento, no limite a sua retirada de acesso à internet, e o castigo para os que invadissem a privacidade alheia seria… ter sua própria privacidade invadida e exposta. Uma espécie de cruento princípio de Talião: olho por olho, dente por dente. juridicamente, primitivo, bem primitivo.

De qualquer modo, esses princípios, assumidos confusa e informalmente, mas intensamente, iam justificavam como ética, até mesmo altruística, essa postura na verdade acima de tudo auto libertadora… mas marcada por uma postura justiceira extremamente agressiva, ainda que de uma agressividade carregada de (sádica?) alegria.

Os Anônimos: uma força ao mesmo tempo
de potencialização e contenção de “seus” próprios heróis hackers

Alguém poderia se perguntar, na esteira de certos famosos quadrinhos… Who watches the watchmen? Surpreendentemente, no caso dos hacktivistas que acabaram se ligando aos Anônimos… eles, os anônimos — porque ligados aos debates da opinião pública nas redes sociais — são quem infiltra nos “seus” hackers, nesses seus “heróis e modelos” desgarrados de qualquer limite, o bom vírus de um eticismo mais civilizado, que os contém e vigia contra seus excessos de sanha justiceira e vingativa!

De onde surgiu a máscara do anarquista
Guy Fawkes como símbolo dos Anônimos?

Guy Fawkes foi um anarquista do passado, de uma linhagem agressiva, que, numa famosa conspiração, tentou explodir o Parlamento inglês. Uma caricatura de seu rosto foi transformada em máscara pelos criadores do personagem “V”, do livro, dos quadrinhos e do filme intitulados “V” de vingança. O livro (o primeiro dos três) foi escrito por um anarquista contra a política de Margareth Tatcher no auge da crise da AIDS, que segregava os doentes preconceituosamente. Mas a origem da noção política de “Anônimos” como existe e atua hoje, conforme já vimos, é bem outra.

Embora o hacktivismo seja dominado geralmente por jovens, ainda devem existir alguns “dinossauros” do tempo do 4chan por aí, ativos ou não como hackers, mas ainda ligados na net e que devem ter vivenciado um pouco daquele conflito original entre os defensores do anonimato e os contrários a isso.

Agora vejam só: essa coisa de “anônimos”, ligada como se vê ao intenso poder libertador do anonimato, e intensificado ainda mil vezes mais por sua transformação em princípio ético e de luta coletiva num tipo de militância ética espontaneamente anarquizante, em que cada um toma atitude por si mesmo em defesa da liberdade para todos, de modo que nessa militância ninguém manda em ninguém… até que ponto (ou mais precisamente a partir de que ponto) tudo isto passa a ter alguma coisa a ver com o personagem de “V” de vingança, aquele da máscara-símbolo dos Anônimos? Não se sabe.

Talvez algum daqueles “dinossauros” do tempo do 4chan tenha conhecido bem o caso político do “personagem coletivo” Luther Blisset criado pelos Situacionistas de 68, e empolgado com os quadrinhos de “V” de vingança, tenha algum dia feito e começado a espalhar essa associação, entre o “V” anarquista dos quadrinhos, o Luther Blisset dos Situacionistas sessentaeoitistas, e o movimento do anonimato libertador dos outros hackers do 4chan… pouco importa!

O fato é que a coisa pegou, cresceu e tomou mais ou menos rapidamente, e espontaneamente, um tamanho e uma forma e uma significação e um sentido político-estratégico, sem dúvida nenhuma imprevistos por quem quer que tenha pensado nisto inicialmente. Aliás, em coisas assim, do mesmo modo como ocorre com uma piada muito muito muito velha e famosa, mas que ainda faz todo mundo rir, chega um ponto em que o próprio inventor, e se dissesse “fui eu”, isso seria uma nova piada!).

Na realidade, a recriação coletiva redimensiona e altera qualquer que tenha sido o “original” de tal modo e a tal ponto que… bom, tanto faz de onde veio! Já não interessa mais. Não foi uma “maquinação estratégica” de alguém, não há marionetes com cordões nas mãos de ninguém. O criador, assim como “sua” criação, dissolveu-se no oceano dos Anônimos e das criativas ousadias anônimas.

Assim, o que importa o é notar neste ponto, é apenas e unicamente o seguinte: a luta pelo anonimato libertador encontrou-se e fundiu-se parcialmente com o poder simbólico da materialização nas ruas de algo que estava em romance, em quadrinhos, em filme, e no caminho da expressão de desejos, anseios e angústias de uma inumerável quantidade de gente que, mergulhando de cara nesse símbolo… foi para as ruas, abrindo o precedente para outros e outros o fazerem, se mais adiante o símbolo ainda estivesse disponível.

Por detrás, os lutadores do anonimato libertador e da livre expressão e livre informação mantinham-se sempre ativos alimentando o símbolo (e as brasas) quando o fogo dessa gente toda passava, o que é plenamente compreensível e explicável não por algum empenho cego ou fanático deles por alguma futura renovação do movimento, mas simplesmente pelo fato de que sua fonte para isso era outra, de sua luta mais específica não ter nunca arrefecido e estar sempre lá para ser lutada: na internet. A luta interminável contra invasões de privacidade e controles de informação no mundo virtual.

Se os hackers por detrás dos “anônimos” não se “cansam” nem “desanimam”, é porque sua luta não passou nunca por nenhum “esvaziamento” como a das multidões (esses “anônimos”) nas ruas. Ela não é uma luta periódica que acumula um bando de gente num certo momento: é constante e real na internet, e é uma luta que diverte esses nossos hackers heroicos. Periódico, ou mais precisamente feito de golfadas erráticas e nem sempre previsíveis, é apenas esse super crescimento súbito e passageiro de sua luta e diversão, que ocorre quando alguns deles conseguem de algum modo a super façanha empolgante, divertidíssima e carregada de ousadia e orgulho, de conseguirem “reativar” a chama das mobilizações “na rua”, e de tentarem levá-las o mais longe possível conforme vão escapando de qualquer previsão sua quanto aos rumos que elas tomarão. (Pesquisem sobre os membros do LulzSec, que vieram do hackivismo ligado aos Anônimos, e perceberão isto com clareza.)

Há entre esses hackers uma cultura similar à dos antigos pilotos de provas de antes das viagens espaciais. (Se alguém quiser ter uma noção a respeito, leia o livro da reportagem Os eleitos, ou mais facilmente, veja o excelente filme que existe com esse mesmo nome).

Os hacktivistas lideram e controlam os Anônimos?

Os hacktivistas por detrás dos Anônimos podem até, em alguns casos, tentar… mas não, não lideram nem controlam essa imensa “colmeia” de gente. Eles apenas conseguem atiçar a nuvem de abelhas, e reatiçá-las de novo e de novo, tentando manter o fogo aceso, principalmente com atos de hackeamento heróico  e surpreendente, de efeito e impacto na mídia virtual, condizentes com as reivindicações que vão evoluindo e tomando forma.

Tais atos de hackeamento funcionam ainda melhor quando não são apenas “espetaculares” e devidamente bem divulgados, mas têm também uma eficácia real. Como o famoso bloqueio por três dias do uso de impressoras nos escritórios do FBI, quando o FBI tentava impedir (nesses três dias) as passeatas de manifestação pró-Snowden prendendo provisoriamente “para interrogatório” os organizadores. Sem os docomentos necessários, o FBI, fortemente burocratizado, não conseguia agir. O hackeamento foi realizado pelo LulzSec, grupo de jovens hacktivistas que se destacou por um tempo das mobilizações junto aos Anônimos para conseguir maior mobilidade de ação.

Na verdade, como já vimos, do ponto de vista político os hackers acabam por se reduzir a simplesmente nada sem a “colmeia” dos Anônimos, aos quais algumas vezes tentam controlar, direcionar… mas em vão: a rede ou “colmeia” dos Anônimos — com um perfil inclusive geralmente muito mais para “moral fag“, muito mais “moralista” do que o dos hacktivistas —essa rede ou “colmeia” rebelde que emerge das redes sociais indo para as ruas, é o que que caracteriza e orienta o movimento dos Anônimos.

Para grande parte dos hackers envolvidos, o que está em jogo é sua glória de fazer mais pontos (conseguir atiçar mais gente e por mais tempo) nesse grande jogo… por LULZ! — como costumam dizer. Se começam a certa altura a ser contaminados pelos valores das multidões mobilizadas (e é o que normalmente acaba ocorrendo), vão se transformando em militantes mais e mais, mais e mais ativistas além de hackers nesse seu título de “hacktivistas”.

As multidões de anônimos mobilizados caracterizam e orientam os hackers, no final das contas, muito mais do que os próprios hackers as caracterizam e orientam. E isso ainda que esses hacktivistas acabem servindo de inspiradores e modelos: porque na verdade, repito, são fundamentalmente orientados pela “colmeia” que tentam orientar, mesmo quando não se dão conta disso. É a “colmeia” dos Anônimos que faz deles modelos e quer aprender com eles, e não o contrário!

A ética dos amigos sinceros de Montaigne e La Boetie,
e os diferenciais da ética hacker

Então, pensando em tudo isto, me pergunto: qual a ética das relações entre os hackers no fundo das mobilizações dos Anônimos? E qual a ética das relações entre os próprios Anônimos?

Vou mencionar um elemento apenas, do que está presente no caso das relações entre hacktivistas: uma ética da amizade similar àquela de Montaigne e La Boétie…

Mas uma na qual a sinceridade e a transparência trazidas pela intimidade não são apenas objetivos tragicamente inalcançáveis para além de um grupo muito restrito de pessoas, como nesses dois filósofos: são fragilidades perigosas a serem evitadas.

Não obstante, esses hackers estão sim numa linha que não deixa de ser a montaigniana e laboetiena: sem propriamente se conhecerem ou se abrirem intimamente um com o outro, eles mantêm uma “amizade” não-íntima: uma colaboração, uma cooperação mútua muito intensa que se dá virtualmente através de suas ações conjuntas de hackeagem, nas quais a falha de um pode ter frequentemente consequências terríveis para todos os demais. Estabelece-se neste caso não propriamente uma confiança… mas uma aposta deles uns nos outros, combinada a uma ética de competição e desafio mútuo no interior dessa colaboração.

Note-se que cada um, no ambiente hacker, tem a sua “personalidade” virtual construída, e a construção passa pela sua ascensão como hacker de capacidade — e que não deixa na mão os parceiros provisórios em trabalhos de hackeagem conjunta.

A quase hobbesiana
guerra de todos contra todos entre os hackers

O ambiente virtual em que os hackers convivem é, acima de tudo, um ambiente de “guerra” constante entre tribos de hackers diferentes, pelas quais perpassa uma espécie de distinção básica maior em dois grandes grupos opostos nos mais variados “campos de batalha”: os chapéus pretos e os chapéus brancos (uma referência talvez aos personagens de Spy versus Spy, uma velha tirinha cômica da famosa revista Mad?)…

A demarcação dessa distinção entre os dois grandes “exércitos” de hackers ativistas ético-políticos (hacktivistas) parece ser, basicamente, a distinção entre: conservadores e moralistas de um lado; e rebeldes igualmente éticos de outro, mas de moral muito menos rígida e mais politizada, voltada para a defesa de pontos que, politicamente, tenderiam a ser considerados de “esquerda”.

Estes últimos tendem a valores muito próximos aos dos históricos anarquistas, ou mesmo a valores assumidamente anarquistas. Entre estes do tipo rebelde é que estão, na grande maioria, os que costumam mobilizar-se no fundo da imensa e fluida e variável rede dos Anônimos.

Mas a “guerra” entre os hacktivistas é também fluida e variável, alianças provisórias se fazem e desfazem constantemente inclusive envolvendo esses dois lados.

E há nesse bolo, é claro, os crackers, ou “quebradores”, hackers não-éticos e até mesmo nada éticos, ou inclusive marcantemente antiéticos. E são de sois tipos básicos: cibercriminosos de peso, ou ciber-vândalos, em geral uma “molecada” que crackeia e cria vírus pelo puro prazer de destruir (ou, no caso mais suave e que acaba servindo como uma espécie de “escola” prática para todos esses grupos) são ciber-vândalos que estão interessados apenas em curtir games, quebrando por exemplo limitações desses games ao invés de simplesmente jogarem.

Isto tudo, quanto a hackers e crackers, está longe de ser um mapeamento de grupos ou uma “classificação”: é apenas uma vaga e esboçada visão geral de um conjunto heterogêneo de gente, mas no qual se pode mais ou menos observar algumas massas de posturas similares.

Seja como for, pense-se um pouco, e logo se verá emergir aí, fortemente, a questão da interpretação do comportamento alheio. E se verá esta questão emergir muito mais sob o signo do lúdico – e de uma espécie de ética da honra combativa e dedicada de algo como parceiros provisórios de guerrilha em que se “aposta” no outro e em sua capacidade como colaborador, ao mesmo tempo em que se “desafia” sua competência num duelo de competências — do que sob o signo de algo como uma “confiança” entre pessoas que são “íntimas” e se conhecem muito bem.

Hackers não se conhecem: convivem uns com os outros. Também não “confiam” uns nos outros: se desafiam, e apostam em si mesmos e uns nos outros.

Desafiam-se num duelo que envolve a competência técnica — tanto em uma “guerra de nervos” em que se deve manter o bom-humor mesmo na derrota, quanto em uma colaboração íntima (ainda que sem “intimidade” a não ser brincalhonamente fingida).

Trata-se de colaboração na qual hackeando juntos sem se conhecerem pessoalmente, cada um aposta no outro ao mesmo tempo que desafia o outro a fazer melhor junto com ele. A cumprir melhor e mais brilhantemente seu papel, cada um à sua própria maneira, com seu estilo próprio… e até ensinando o outro com seu exemplo, por vezes fazendo melhor até mesmo pelo outro alguma coisa (ou envergonhando-o ao fazer melhor ou mais agilmente o que ele deveria ter feito). Continuam sendo sempre competitivos, divertindo-se e rindo-se um às custas do outro inclusive, e de maneira nenhuma em postura autosacrificialmente “altruísta”.

No Brasil, entretanto, é possível (até provável) que haja muitos pequenos grupos de hackers de atuação mais local, que se conhecem pessoalmente, e que até vieram estudando a coisa juntos desde o início — o que deve alterar consideravelmente esse perfil tão interessante, em uma direção a meu ver já não tão interessante assim… (mas talvez eu esteja dizendo isto por um excesso de influência stirneriana, anarco-individualista… quem sabe!)

A máscara-símbolo
— em um complexo e delicado equilíbrio de opostos

O ponto mais importante a notar, se estamos falando da conexão entre a questão da interpretação do comportamento alheio e a postura ético-política geral dos Anônimos (incluindo o grupo de hacktivistas por detrás), é essa questão da máscara. Não há de modo nenhum uma despersonalização como nos Black Blocs: “Anônimo” é um personagem de livro, de quadrinhos e de filme, de personalidade aliás muito marcante e característica, ao mesmo tempo que é a caracterização de “um qualquer”, despersonalizado.

A despersonalização aqui se transforma em recriação coletiva de um personagem, apropriado coletivamente para isto (e que já foi criado com este perfil) — conferir V de vingança, o livro, os quadrinhos ou o filme (que seguem essa ordem de desaprofundamento e superficialização gradual, aliás, e ao mesmo tempo, de poder de atração dos militantes provisórios anônimos).

O personagem “V” foi criado originalmente (e depois reapropriado pelos Anônimos) com base em um terrorista anarquista real, e seguindo um modelo já iniciado antes pelos Situacionistas, grupo de artistas politicamente engajados do Movimento de 68 (os interessados no assunto, pesquisem quem foi Luther Blisset — não o atleta original de carne e osso, mas aquilo que ele se tornou como símbolo entre os sessentaeoitistas).

Os Anônimos, portanto, brincam com a contradição — fortemente expressiva e significativa — entre a despersonalização e a personalidade coletiva assumida e abandonada fluidamente por parte de qualquer um que queira num momento qualquer fazer valer aqueles princípios e valores encarnados pelo personagem, mas também com a contradição entre essas duas coisas e uma terceira.

A terceira coisa em contradição com as outras duas é nada menos que a valorização das iniciativas não apenas individuais, mas criativas, ousadas, originais, divertidas e ao mesmo tempo profundas e intensas — tudo o que arrasta a pessoa a uma valorização do personalismo, inclusive heroico e (por que não?) abnegado!

Mas abnegado apenas sob a máscara do coletivo e do despersonalizado, e sob um personagem simbólico, um avatar, um portador artificial de um conjunto de princípios e valores relativamente em aberto nas suas margens, mas concentrado em torno de algumas ideias-força bem básicas e claramente identificáveis.

Tudo isto conduz, como um jogo de cena finamente articulado, a uma transferência, para o grande público de possíveis militantes “anônimos” provisórios, de valores característicos dos hacktivistas que, atuando no fundo a serviço dos Anônimos, servem ao mesmo tempo de modelo para eles.

Servem de modelo, sim, mas de maneira não condutora – a não ser que falemos de uma intensa condução de energia rebelde e ímpeto heroico… (este último, é claro, ao mesmo tempo facilitado pelo elemento despersonalizador da máscara, que permite a alguns a ousadia que não arriscariam se tivessem que se expor).

Como resultado, os mesmos hackers incitadores da coisa — grupo aliás sempre e incessantemente renovado por novos aprendizes, porque esses hackers atuam também como educadores na internet para novos hackers, seguindo um modelo de pensamento caracteristicamente anarquista — acabam atuando mais a serviço dos Anônimos aos quais estão incitando e fornecendo valores, princípios e modelos gerais de ação, do que “no comando”.

E são, ao fim e ao cabo, de fato arrastados pelos Anônimos mais do que os Anônimos por eles, mesmo quando acreditam (ingênua ou desesperadamente) no contrário.

Entretanto, há os que já compreenderam há muito tempo seu papel nessa arquitetura de mobilizações, sempre que quiserem fazer parte, e o assumem com empenho e LOLco prazer, às vezes LULZtrando a garganta, aliás, de tanto rir… —quem disse que política tem que ser uma coisa chata?

Há quem brinque, sim, política e pesadamente… mas com a leveza do riso. E com toda consciência estratégica e política que normalmente não se costuma esperar de quem ri — neste nosso mundo em que as técnicas tendem crescentemente a dominar com algoritmos fatalistas as nossas ações até mesmo na vida política e cidadã (que deveria ser das mais apaixonadas).

Política praticada com prazer!

Ainda há, como se vê, quem se diverte politicamente, este nosso mundo em que as técnicas nos dominam mais e mais, ao invés de as dominarmos nós, e à nossa maneira pessoal — como na arte e no jogo.

Há quem atue politicamente como na arte e no jogo… ou ainda como na experimentação livre e arriscada de quem vai, mesmo que estrambelhadamente, aprendendo com ousadia alguma coisa por si mesmo, jogando para além das regras (como quando o jogador vai se tornando realmente “cracker” no jogo!)

Enfim, o complexo e delicado jogo de equilíbrios das mobilizações dos Anônimos — complexo e delicado sim, mas sempre preservável pelo tempo suficiente para uma ou algumas manifestações políticas públicas na rua, e sempre renovável enquanto houver suficiente motivo de indignação pública para ser realimentada a coisa — percorre o incessantemente não apenas a questão da estética da ação (intensamente presente também nos Black Blocs, mas com uma estética diferente), mas também a questão da interpretação do comportamento alheio.

A questão da interpretação do outro está incontornavelmente implicada em diversas camadas dessa arquitetura de mobilizações ético-políticas. Sem atenção a essa questão, seja intelectualmente, seja em termos de sensibilidade intuitiva (ou de preferência pelas duas vias), torna-se bem difícil promover e manter o já instável jogo de equilíbrios antitéticos entre os três pólos opostos e igualmente valorizados da despersonalização, da repersonalização coletiva sob uma máscara-símbolo-vivo, e da super personalização “oculta”, heroicamente discreta inclusive, que conduz à iniciativa de ousadia heroica em que qualquer um, anonimamente, pode mergulhar (e é mesmo estimulado a mergulhar no calor da mobilização).

Bem longe de uma certa (e calculada) truculência presente na estética Black Bloc, a coisa toda aqui, como se vê, é de um refinamento estratégico ímpar. Eu diria, na verdade, que sem paralelo (nem mesmo longínquo) na história política mundial.

…O que não quer dizer que seja perfeito!

As deficiências deste esquema de ação política não deixam de ser muitas, enormes e evidentes.

Seja como for, não é de modo algum algo que possa ser confundido, numa apreciação tosca e apressada, como costuma ser a das “autoridades” assustadas com esse tipo de coisa, com a postura dos Black Blocs.

A mobilização dos Anônimos é, eu diria, de uma estética muito mais consistentemente anárquica que fascistoide, e em seu constante esforço em busca de equilíbrios entre coisas opostas, até mesmo contraditórias, é de uma experiência estética enriquecedora, que educa, cultiva e refina a sensibilidade de quem a capta e vivencia.

É Bela.

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