Ética e Malícia

Por João Borba – 10 de junho de 2006 – artigo 01, vol. 1
(originalmente publicado em www.eleicao.info)

beijo no copo dáguaO que é o político?

O político é uma bola. Permitam-me esclarecer essa tese. Ela é um tanto óbvia, mas estamos em copa do mundo, e neste momento em que outra bola nos preocupa, tendemos a esquecer essas coisas, porque todos nós, torcedores, paramos de pressionar e torcer os políticos para formarmos a grande torcida do Brasil. E esquecemos que o político também é, evidentemente, uma bola.

Uma bola é uma superfície redonda que recebe pressões por todos os lados. Redonda porque precisa rolar com facilidade para lá e para cá, conforme o jogo. E precisa ser ao mesmo tempo dura e relativamente macia, para receber e aparar chutes sem arrebentar o pé de ninguém, porque pelo menos desde que deixamos de lado os últimos resquícios da Idade Média e começamos a engatinhar na arte da democracia, a política só é uma guerra metaforicamente, mesmo que o barbarismo primitivo de promover guerras também seja ainda hoje um instrumento da ação política, nos seus piores e mais decadentes exemplos, política de açougueiros, de butchers (ou de bushers, como diríamos em brasinglês). Mas vamos nos concentrar aqui especificamente na política democrática.

O político, em uma democracia, sofre pressões de todos os tipos. O pré-requisito para atuar nessa área é saber lidar com elas, o que envolve uma saúde de aço em relação ao estresse, à ansiedade e à frustração, além da dificílima combinação de ética e malícia de quem é capaz de bailar equilibrado numa corda bamba e, naturalmente, para finalizar, uma enorme cara de pau.

Pressões

As pressões mais diretas e mais evidentes são as que ocorrem pelo fato de estar em meio a outras bolas, ao mesmo tempo macias e duras, que rodam e se chocam com você e umas com as outras ao seu redor. É preciso lidar com elas, e só é possível com muita malícia, coisa que envolve uma certa tensão interior, que precisa estar muito bem calibrada; é preciso, em suma, ter a combinação certa de dureza e maciez nos conflitos, que são naturais na política. Um político bola murcha, em que se afunda o pé facilmente no primeiro atrito, não tem muito futuro no jogo se não aprender a arte de se calibrar. Um duro demais, tende a ser isolado e deixado fora do jogo também, ninguém quer jogar com uma bola que machuca o pé. É a pressão ou tensão interior do político o que garante a sua sobrevivência nesse jogo, e é também o que faz dele um político consistente.

De onde vem essa tensão interior? De sua personalidade, de seu caráter, de sua força de vontade? Um pouco, talvez. Muito pouco, ainda que esse pouco seja necessário, sem dúvida. Um político de caráter pode ter a sensação de que tudo está aí, de que o fundamental está nisto, porque é o que sente mais intimamente, e por isso com mais intensidade. Mas está redondamente enganado, não deve se deixar iludir por essa sensação. O político é um representante, e como tal, não tem, não pode e não deve pretender ter consistência própria. Sua consistência, todo o seu conteúdo, tudo o que tem a dizer e a fazer como político, deve vir de outros: deve vir daqueles que ele representa. Mais precisamente, da sociedade que o tomou como representante.

Os verdadeiros jogadores

Por isso mais uma vez reafirmo: o político é e deve ser oco como uma bola. Sua pressão interior, aquilo que lhe dá consistência, é e deve ser fundamentalmente uma reação a pressões externas. Não as de outras bolas, mas as pressões mais importantes de todas, que são as da sociedade, as dos cidadãos, eles sim, os verdadeiros jogadores. A razão de ser, a razão de existir de uma bola, no jogo da democracia, é ser instrumento da ação popular, e deve estar calibrada para isso, para receber bem os chutes e pressões da população, e avançar eficazmente, tão eficazmente quanto a força de vontade da população o conseguir, para o gol.

No entanto, o político deve estar preparado para assumir todas as responsabilidades: se chocar-se na trave ou sair pelo escanteio, ele que não se iluda: a culpa é da bola, e será cobrado por isso. Pode parecer injusto, mas não é. Há nessa bola um olho que a população não possui, a bola vê as coisas de um ângulo que, infelizmente, no atual estágio da democracia no mundo, não está acessível ao pé meio cego do cidadão, que carece de educação, de organização civil, de informação transparente e sobretudo de prática participativa nas questões públicas.

A população, jogadora maliciosa, sabe perfeitamente da existência desse terceiro olho em sua bola: em última instância, foi ela quem deu um de seus olhos ao político, para que ele pudesse representá-la melhor, fez uma bola justamente para conseguir chutes mais certeiros ao gol, e é exatamente o que exige da bola em troca por esse olho.

O Dever de Informar

O político tem portanto a responsabilidade de observar o que se passa e de informar, alertar a população para que ela decida o chute. Para isso, precisa estar muito bem informado de tudo o que ocorre na realidade, e saber claramente o que é possível realizar, em que medida é possível e quais são as forças favoráveis ou contrárias a cada possibilidade, porque a realidade não é feita apenas de fatos, mas também e principalmente de possibilidades, tendências e alternativas.

O político pode e deve propor caminhos, é claro. Mas precisa principalmente observar tudo isso que compõe a realidade, orientar claramente a sociedade e, então, seguir finalmente, e fielmente, a direção em que for chutado por ela, seja ou não a direção que se propôs a seguir originalmente. Pode e deve renunciar se a direção for contra a sua consciência, porque tem esse direito também, como cidadão e parte dessa mesma população. Mas como representante, deve seguir em última instância para onde a sociedade, enquanto maioria, o chutar, oferecendo-lhe a sua visão da realidade e das alternativas para orientá-la tão bem quanto possível. Esse é o seu papel. É a sua responsabilidade.

Quem o político representa?

Mas nesse jogo chamado democracia há muitos campos e gols diferentes, e nossa bola terá de lidar não só com bolas que são puramente maliciosas e mais interesseiras do que éticas, mas também com aquelas cujas propostas apontam sinceramente em direções diferentes. Não apenas o meio político, mas a própria sociedade ou população não é, a rigor, uma só, não forma um só time, mas muitos, e não jogam sempre do mesmo lado. Na verdade o político é eleito principalmente por um ou por alguns desses times, e não por todos; no entanto, se quer ter fôlego para grandes realizações, se quer ter pressão interior suficiente para isso, para não murchar no caminho e conseguir apenas um pequeno e medíocre avanço em direção ao gol mais próximo e menos desafiador, não basta representar apenas quem o elegeu: deve representar todos os times, a sociedade por inteiro. E naturalmente, não é fácil, em meio a tantos conflitos e diferenças. Além disso, uma vez eleito, o político tem o dever de representar todos aqueles que foi eleito para representar, e não apenas os que votaram nele ? há políticos que “se esquecem” disso.

Em vista das dificuldades para lidar com o tecido social complexo como ele se apresenta na realidade, quando chega o momento de passar ao público sua visão das coisas, muitos fogem para a solução simples de “não enxergar” a intrincada rede das diferenças, e falar no Povo ? essa grande entidade abstrata ? como se fosse uma coisa só, com uma só voz e um só sentimento… guardemos isso para a copa do mundo, fora de eventos como esse, essa imagem não passa de superficial (e perigosa) ingenuidade, difundida aliás aos quatro cantos por todas as ditaduras e tiranias de que temos notícia na história da humanidade.

Ética e Malícia

As diferenças existem. Por essa razão, em política, e estamos falando de democracia, não é possível ser apenas ético.

É preciso além disso malícia, não apenas para sobreviver em meio à redonda malandragem generalizada que conhecemos tão bem, mas mesmo para conseguir lidar eticamente com aqueles que sinceramente não concordam conosco. O carola e o purista que recusam qualquer malícia e qualquer margem de negociação não têm lugar nesse meio, e para conseguirem lugar, frequentemente perdem o próprio senso de ética, porque não consideram a malícia e a negociação como parte natural e saudável do jogo democrático, tendem a encará-las como um mal necessário, e assim a praticam: como um mal, um defeito da democracia. Estão errados. Malícia, diplomacia, negociação, estão na própria raiz daquilo que conhecemos como democracia. E quando se pretende jogar o jogo democrático, é preciso justamente malícia e muita diplomacia para manter a firmeza ética em um meio bem pouco propício para isso, como sabemos que é o meio político.

É preciso ter ao mesmo tempo a altivez moral e a visão global de uma águia, capaz de captar a realidade como um todo, mas também a sinuosidade discreta e rasteira de uma serpente, com seu realista senso de chão. Este é o autêntico espírito democrático. Por isso, o baile na corda bamba da ética e da malícia constitui o maior e o mais importante desafio para essa nossa bola.

Há políticos que simplesmente não se preocupam com isso, porque não se pressionam a si mesmos no sentido de tentar realmente realizar seus compromissos de campanha; não têm aquela pressão interior, aquela tensão realizadora, aquela força de quem quer realmente trabalhar duro e realizar algo, a força de quem sente vibrar as vontades cruzadas de toda uma série de camadas da população em sua própria voz, mas não se satisfaz apenas com isso, e procura realmente dar vazão a essas vontades buscando uma forma eficaz de realizar algo junto à sociedade.

Outros também não se preocupam com o baile na corda bamba da ética e da malícia porque se sentem tão tensionados por essa pressão da voz popular, e tão satisfeitos com o mero fato de senti-la, que não se preocupam com as condições para serem eficazes e realizarem algo de fato. Tomados pela embriaguez de se sentirem representantes autênticos, não conseguem a maciez de superfície, a malícia e a diplomacia necessárias para elencar diferenças, e não se dão conta de que, assim, perdem o fôlego e a pressão de ar que a própria sociedade lhes dá, porque ela também, nas suas camadas mais profundas e capazes de gritar por seus direitos com pulmões mais inflamados, é um tecido de diferenças, de conflitos, de diversidade, e quando se manifesta como uma só massa e uma só voz está manifestando apenas o que tem de mais superficial, apenas uma imagem feita dos poucos traços comuns entre todos esses diferentes grupos de cidadãos, uma imagem pálida, muito apagada, das verdadeiras características da sociedade.

Conclusão

O político bola precisa evitar esses erros, precisa afiar o seu olho, o olho que a sociedade lhe cedeu, e enxergar não apenas os fatos e as alternativas de ação, mas também a própria sociedade que o representa com todas as suas facetas e diferenças, forças e contraforças, precisa compreender e aceitar aquele pé que o chuta, porque foi moldado para esse chute, para essa pressão popular que lhe exige isso ou aquilo, e precisa dessa pressão, porque essa é a sua razão de existir.

Precisa, em suma, ser capaz de coletar, administrar e cruzar para análise uma grande quantidade de informações referentes aos fatos, às possibilidades de ação e às pessoas com quem está lidando, especialmente aquelas que pretende representar como político, as que o colocaram nessa posição pelo seu voto e as que não o colocaram, mas que agora tem o dever de representar também.

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