Exercícios de poder e “absolutizações” em geral: o paradoxo de duas referências para o combate ético-político

King Kong

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 Exercícios de poder: ódio, corrupção moral e hipocrisia sobrevivencial

Qualquer um que dê uma ordem a qualquer um, sob qualquer circunstância, está necessariamente agindo de maneira em si mesma anti-ética. Ponto final. E a princípio não há, a meu ver, nada o que discutir quanto a este ponto.

Se as circunstâncias mudam alguma coisa quanto a isto (e mudam, assim como quanto a qualquer outra coisa), não mudam o que a coisa é em si mesma, na sua raiz. Todo o resto são as meras e dolorosas ponderações, negociações, joguinhos diplomáticos etc., pelo simples fato de que as forças em jogo são diferentes, e é preciso (queremos!) viver. Trata-se de uma margem de hipocrisia que nos é odiosamente imposta a todo momento, na vida, porque queremos viver, e não conseguiremos sem ela.

De modo que dar ordens e impor que sejam obedecidas, sob toda e qualquer circunstância, significa, necessariamente, ser em alguma medida (e é provável que secretamente) odiado — com todo direito por parte de quem odeia — ou então significa ser em alguma medida corruptor do sentido ético desse alguém a quem demos uma ordem, caso esse alguém se submeta a essa ordem sem ódio (mesmo secreto).

(Vale lembrar o bom conselho de Maquiavel quanto a evitar o ódio, que ele corretamente detecta como altamente perigoso, e ainda mais o ódio secreto… e igualmente perigoso, segundo Maquiavel é corromper aquele que está sob suas ordens, porque ele perderá seu empenho na luta não só contra você, mas também a seu favor quando você precisar dele… e precisará). Portanto, como se vê, para mim essa coisa do “dar ordens” constitui um beco sem saída: é uma atitude de tipo suicida, e ainda mais suicida na medida em que estúpida (isto é, na medida em que não se dê conta de nada disso).

A base do ódio eticamente justificado contra o sofrimento de qualquer exercício de poder é facilmente compreensível. É que os exercícios de poder de outros sobre nós, em si mesmos, nos matam um pouco — precisamente porque nos instrumentalizam um pouco, em favor dos objetivos que orientam esse exercício de poder, e pouco importa quais sejam esses objetivos (ou melhor: nada importa quais sejam). Instrumentalizando-nos, o poder que se exerce sobre nós nos coisifica um pouco, tirando de nós parte do nosso poder de deliberação (e da nossa responsabilidade), e é isso o que está nos matando.

Aquilo que nos é imposto por esse exercício de poder (o que, aí sim, diz respeito aos objetivos desse exercício de poder) normalmente também nos mata um outro tanto, por não ser deliberado por nós mesmos.

Alienação, hipocrisia sobrevivencial
e o caráter medicinal da entropia (ou presença da morte)

Isso tudo, me parece, não deve ser difícil de entender, porque é fácil de sentir. Mas frequentemente nos alienamos em relação a esse fácil sentimento, entre outras coisas porque o ódio é faca de dois gumes, e nos fere ao mesmo tempo (e imediatamente) enquanto estamos maquinando ferir o outro. Nos alienamos do nosso fundo de ódio porque nos dói. E alienados, perdemos o senso da dimensão ética de tudo isto.

Só podemos compreender a dimensão desse assassinato constante ao qual somos submetidos — o exercício do poder de outros sobre nós (e mesmo o de um outro indefinido, sob a forma do poder das pressões sociais, econômicas e políticas) — só podemos compreender o peso desse nosso assassinato constante, que resulta na nossa morte em vida, essa condição “zumbi” que enfrentamos a todo momento na nossa vida social… só podemos enfim compreender a real dimensão disto na medida em que compreendamos o peso da entropia sobre a vida (isto é, o fato de que a vida se esvai constantemente, o fato de que a morte não é um ponto final, e sim uma presença constante e crescente tomando-nos a vida desde o instante em que nascemos).

Cada exercício de poder sobre nós, cada mínimo exercício de poder, está sim, e não metaforicamente, nos matando.

(Este tema da entropia devo a uma combinação de experiências pessoais com a leitura de Vilém Flusser, de todos os que conheço, o filósofo mais dedicado ao assunto.)

Por outro lado, a mesma consciência da presença da morte é também o que nos pode relativizar essa hipocrisia “sobrevivencial” das contemporizações, negociações, gestos diplomáticos etc., por duas razões.

Uma: porque podemos relativizar a importância específica daquela situação particular em que aquele particular exercício de poder está nos pressionando. A vida é repleta de situações ao nosso redor, por todos os lados, nas quais podemos, com maior ou menor dificuldade em cada caso, entrar ou sair, e a troca de uma circunstância em que sofremos o exercício do poder por uma outra em que o sofremos de outro modo ou em outra medida pode ser vantajosa na comparação. Então por que se apegar a uma situação específica?

Todas essas situações, com raras exceções, são facilmente caracterizáveis como jogos da vida. É claro que se estamos jogando um jogo, não queremos… perder. Mas é ainda apenas um jogo, entre inúmeros, inúmeros outros possíveis. Diante do peso da presença constante da morte, o que mais nos resta afinal, senão a vida como um saltar de jogo para jogo?

Duas: porque se já estamos morrendo, do que é que podemos ter tanto medo, afinal? E neste caso, FODA-SE tudo. Enfrentamentos são divertidos. É o que basta.

O problema da conciliação entre antiabsolutismo e
oposição como que absoluta a todo exercício de poder

Não obstante os dois pontos observados no tópico acima, que tão interessantemente nos fornecem um saudável desapego em relação a situações em que somos vitimados pelo exercício do poder, o problema realmente interessante do ponto de vista filosófico nisto tudo, é para mim ainda um outro.

Esse problema (o que considero realmente interessante aqui), é o seguinte.

Que o exercício do poder de uns sobre outros seja em si mesmo, na raiz, algo eticamente condenável, é uma evidente manifestação de um valor moral. E valores morais variam de pessoa para pessoa, e de grupo para grupo. E de meu ponto de vista… é bom (eticamente bom) que variem — o que constitui manifestação de um outro valor moral que tem para mim o mesmo peso, e com o qual tenho o desafio de compatibilizar o primeiro . O jogo político das diferenças em equilibração (inclusive no campo moral) é, segundo meus valores, algo bom.

A proposição de algo em termos absolutos — inclusive sob a forma de “crença” — é algo para mim eticamente condenável ou, conforme o caso, algo a ser considerado como uma triste patologia, frequentemente incurável. De qualquer modo, algo que não deve ser valorizado. Eis a questão que complica o que coloquei logo no início deste artigo.

As razões pelas quais digo isto — que a proposição de qualquer coisa em termos absolutos é eticamente condenável — não vão ficar claras aqui (embora já as venha pensando há algum tempo). Vou deixá-las para alguma outra postagem no blog (embora o leitor curioso possa acabar encontrando pistas em diversas coisas que já escrevi em diferentes lugares).

O que interessa observar mais diretamente aqui, é que o que chamo de “raiz” — quando digo que algo (no caso o exercício de poder de um sobre outro) é ruim “em si mesmo”, ou “em sua raiz” — deve ser entendido, por uma questão (importante, até mesmo fundamental) de coerência,  a partir da noção de que essa raiz é ela própria uma construção relativa. Portanto, uma “raiz” que poderia ser diferente e que ainda pode inclusive mudar, pois esse algo que tem essa “raiz” pode ser inclusive “desenraizado” daí e “reenraizado” em uma outra base, em uma outra “raiz” caracterizadora para ele, em outra definição igualmente válida.

Um exemplo de relativização da oposição
a todo exercício de poder: a questão
pedagógica do amadurecimento

É fácil encontrar vias eticamente compreensíveis para essa relativização do que eu disse sobre o exercício de poder. Por exemplo quando falamos no exercício de poder dos pais sobre os filhos ainda pequenos, que sob certas (e frequentes) circunstâncias, para o bem da própria criança, parece algo inevitável. Do ponto de vista que estou colocando, de qualquer modo, mesmo o exercício de poder dos pais sobre os filhos passaria a ser considerado como um mal necessário, e não como um bem (por exemplo sob pretexto educacional).

Por outro lado, o próprio sofrimento do exercício de poder não deixa de ter importância em nossa formação, assim como o sofrimento de pressões em geral, a travessia de dificuldades etc. Tem importância formativa justamente na medida em que aprendemos as melhores maneiras de nos confrontarmos com isto, o que nos traz força de caráter, tenacidade, nos ajuda a desenvolver a inteligência estratégica e, por outro lado, nos dá maior senso de realidade, gerando também a autocrítica e o senso de limite.

Um tema importante da filosofia política e jurídica de Kant — o tema do amadurecimento político e ético — nos leva a pensar (inclusive questionando o próprio Kant) que há por outro lado um certo perigo nessa consideração dos casos em que o exercício do poder seria um mal necessário: porque Kant traz essa mesma questão educacional para os campos da política, do direito e da ética de maneira interessante mas problemática.

Kant considera que certas pessoas mesmo adultas, sob certas circunstâncias, são comparáveis a crianças. Isto é, podem ter menor grau de amadurecimento, portanto de responsabilidade e condições de deliberar por si mesmas, nesses campos (política, ética e direito).

É uma consideração que por um lado parece bastante realista. Por outro, não obstante, bastante (muitíssimo, na verdade) perigosa, por exemplo do ponto de vista de uma política democrática, ou mesmo de um espírito democrático aplicado às relações humanas em geral na vida em sociedade.

Perigosa porque tende a justificar com muita facilidade o exercício de poder aonde sua necessidade é, no mínimo, questionável — visto que não há critérios para definir esse tal “grau de maturidade” que não sejam muito vagos, fluidos e discutíveis, e que sempre pode haver algo de tendencioso na escolha (ou nos critérios de escolha) de quem irá decidir se alguém é ou não suficientemente maduro do ponto de vista político e/ou do ponto de vista ético.

Se há algum realismo reconhecível nessa noção de uma “imaturidade” que pode não se limitar à infância, é porque há casos em que isto é notório, como certos casos clínicos de pessoas com deficiência mental que lhes dá um retardamento considerável no processo de amadurecimento. O problema maior está nos casos em que isto não é notório e quase inquestionável (note-se bem, eu disse quase). E o que torna essa questão interessante é precisamente o que ela tem de questionável, e não o modo como Kant a coloca — pois Kant a coloca em seus caminhos de resposta muito mais do que em seus questionamentos.

Para além do exemplo kantiano do amadurecimento:
a referência do anarquista Proudhon

Muito mais interessante (um jogo intelectual muito mais desafiador) que toda essa questão kantiana do amadurecimento é o simples problema de como se pode compatibilizar o antiabsolutismo ético (no caso sob a forma de um antidogmatismo radical), com a afirmação de um caráter radicalmente (isto é, já de raiz) antiético de todo e qualquer exercício de poder.

(Estou entendendo como antidogmatismo radical a recusa de toda e qualquer afirmação do que quer que seja em termos absolutos, considerando qualquer afirmação assim como algo antiético ou de implicações incontornavelmente antiéticas.)

Já disse que não vou esclarecer nesta postagem as razões que me levam a esse antiabsolutismo. Mas vou desde já indicar para o leitor possivelmente interessado uma fonte de pesquisa maior e melhor do que eu.

A referência maior que encontro para a discussão desse problema desafiador de compatibilização entre essas duas posições (antiabsolutismo e oposição como que absoluta a todo exercício de poder) é o anarquista Pierre-Joseph Proudhon — porque pensou o problema muito antes de mim (no século XIX) e muito a fundo, durante toda a sua vida. Talvez mais a fundo que qualquer outro filósofo na história da humanidade, incluindo outros anarquistas.

Um caminho evidente nesse sentido — tomado aliás pelo próprio Proudhon — é o de conectar intimamente o absolutismo (que do ponto de vista intelectual é a tendência ao dogmatismo absoluto) ao próprio exercício de poder. Na época de Proudhon, o caminho para essa conexão estava facilitado pelo próprio assentamento histórico de certos nomes para certas coisas na política da época, em grande parte do mundo.

É que o regime político dominante em toda a Europa era o que se padronizou chamar de “monarquia”, e em sua versão mais autoritária, “monarquia absoluta de direito divino” (sendo considerada como absoluta em termos ainda mais profundos, na época, a própria força divina que cedia tal direito ao exercício de poder sobre os outros em uma nação, nesse tal “direito divino”). Assim, a noção de “absolutismo” estava como que naturalmente inscrita na reflexão política em geral, em toda a Europa, e já com esta conexão íntima com o exercício de poder.

Muitos pensadores desta época, portanto, estabeleciam essa conexão. Especialmente na França, em que o absolutismo e o republicanismo vinham se confrontado violentamente em uma sucessão de revoluções e contra-revoluções. Mas asseguro que nenhum a levou tão longe e tão a fundo, de modo tão refinadamente elaborado, quando o anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (nem mesmo entre os anarquistas, como já observei).

A própria questão do amadurecimento colocada por Kant está implicada nas reflexões de Proudhon, porque ele conecta também à sua discussão toda uma teoria da educação, radical e interessantíssima, pela qual se afasta dos posicionamentos de Kant em um sentido bastante interessante e até surpreendente (deixo a surpresa para os que queiram estudar o assunto diretamente em Proudhon… mas podem encontrar já alguma coisa em minha tese de doutoramento, Relativismo e ceticismo na dialética serial de Proudhon (disponível em pdf na seção Textos e obras da enciclopédia ProjetoQuem).

Essa facilidade ao estabelecermos a conexão, que havia no século XIX (especialmente na França) se perdeu, porque vivemos em um mundo em que a predominância é dos regimes ditos “democráticos”, mas de uma democracia indireta, em que há representantes eleitos para exercerem o poder sobre os demais seres humanos de todo um território. Trata-se agora de uma situação em que se pretende justificar certas formas de exercício de poder em detrimento de outras. Ainda que alguns só justifiquem esse exercício de poder “democraticamente legítimo” como uma espécie de mal necessário.

E acontece que… não aceito me incluir nesse “trata-se”.

Adianto que simplesmente retomar Proudhon, com seu anarquismo mutualista, não me parece suficiente — ainda que reestudá-lo, e com muita atenção, sirva como um bom ponto de partida.

Eis um dos meus jogos favoritos nos últimos tempos, em minha estratégia pessoal de luta contra as prefigurações da morte completa: o de tentar compatibilizar esses dois valores éticos, oposição como que absoluta a todo e qualquer exercício de poder de uns sobre outros, e antiabsolutismo. É um jogo que se desenvolve nos campos socio-político e ético, o que significa que não é um jogo para um só.

Postar um artigo como este é, evidentemente… um convite.

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