FIGUEIREDO, William. “O rito de Dioniso na Grécia antiga”. São Paulo: Giostre, 2013.

O livro me decepcionou. Em termos de conteúdo até que é razoável. De certo modo resume algumas ideias importantes de um mitólogo importante, Mircea Eliade, combinando-as com uma ou outra passagem de uns poucos outros pensadores, e com uma leitura interessante a respeito das tragédias gregas antigas no teatro que resume alguns pontos a esse respeito do pensamento de um outro autor importante, Jean-Pierre Vernant.

Mas essas combinações apenas resumem umas poucas ideias dos autores em questão. Não trazem nenhuma reflexão nova digna de nota, e a combinação entre eles também não traz nada de interessante em acréscimo ao que cada um deles diz. Melhor ler diretamente os livros dos próprios Eliade e Vernant. O mais grave, no entanto, é a qualidade da escrita.

Embora no geral escreva razoavelmente bem no que diz respeito a exprimir os conteúdos em pauta, a expressão fica muitas vezes prejudicada pelo mau uso da gramática. O autor parece não ter muita noção a respeito do uso de crases e acentos agudos, e também comete uma quantidade considerável de erros de pontuação, além de esquecer e simplesmente pular uma ou outra palavra chave aqui e ali, e de algumas pequenas falhas menores de ortografia.

Um erro ou outro seria talvez coisa normal: uma pessoa pode se distrair com a forma da escrita quando está escrevendo um livro com entusiasmo e muito atenta ao conteúdo. Mas não é o caso. A quantidade de erros que se acumulam por página é tanta que torna a leitura incômoda, truncada, e frequentemente sem o sentido correto — para não dizer sem qualquer sentido mesmo —, de modo que somos forçados a adivinhar o que o autor quis dizer com base no que já conhecemos do assunto. Péssimo. Horrível. É inadmissível que uma editora deixe passar algo assim. O livro precisava do trabalho de um bom revisor. Mas parece ter tido menos ainda que isso, parece não ter passado nem mesmo pela (já sempre necessariamente precária) revisão automática de um software de edição de texto.

Pessoalmente não me agrada a ideia de estar lendo um texto de alguém com tantas falhas de português. Talvez não seja uma dificuldade do autor exatamente. Pode ser um problema do software de edição de texto utilizado, ao coisa assim (embora isso não explicasse o excesso de redundâncias na linguagem). A questão é: como uma editora deixa passar isto em um livro de teoria, sem nenhum cuidado de revisão?!

Quanto ao conteúdo e ao poder de expressão, bem, como ja disse, é um trabalho razoável, aproveitável. Mas prefiro ler diretamente Eliade, Vernant e as tragédias gregas citadas, porque esse resumo em si mesmo não me pareceu trazer nada de novo. Tirei da leitura de todo o livro apenas 3 informações realmente importantes, das quais duas não estavam exatamente no livro, mas em conclusões que pude tirar dele comparando-o com outras coisas que já li.

1) Há uma descrição do deus Dioniso (em sua versão pré-órfica) que parece aproximá-lo muito de um personagem de outro mito que conheço e que não é mencionado no livro. Trata-se de um mito bem mais antigo, da Babilônia. O personagem é Enkidu, do mito de Gilgamesh. A semelhança é tanta que faz pensar em examinar com cuidado possíveis conexões históricas de um mito até o outro.

2) Há menção a uma aproximação entre o deus Dioniso e a imagem (por vezes assumida por ele) de um bode. Essa menção, em conjunto com a descrição do caráter terreno desse deus, de sua ligação com a natureza e a mãe terra (e modo inclusive similar ao de muitos dos arcaicos titãs), faz pensar em uma possível aproximação, a ser examinada, entre ele e uma divindade mais básica e fundamental, por assim dizer, do panteão grego: o deus Pã, protetor da natureza, mais tarde associado pelos cristãos à noção do “mal”, e a sua personificação como o “demônio”. Nenhuma dessas referências, no entanto, a Pã ou ao “demônio” cristão, aparece no livro.

3) Há uma associação das tragédias gregas à figura do bode acima mencionado, e a inserção delas no conjunto do movimento sociocultural e político de afirmação da democracia de Atenas. Isso tudo parece acompanhar de perto estudos dessa questão feitos por Jean-Pierre Vernant. Como não li ainda o livro de Vernant que trata mais diretamente e completamente das tragédias gregas, as informações a respeito foram realmente bastante úteis para mim (assim como o esclarecimento sobre as relações entre a tragédia e o bode enquanto símbolo de Dionísio).

É isso.