Gratidão

Dia 19 de junho, sexta feira, vinha voltando do trabalho de ônibus pela avenida Santo Amaro, como tantas vezes e, chegando perto de meu destino, ao me levantar para dar o sinal e descer no próximo ponto, tive a vontade de cumprimentar a moça que estava sentada ao meu lado.

Nobre dama — tive o impulso de lhe dizer — foi uma imensa honra estar sentado aqui ao seu lado nos últimos dez minutos desta nossa longa viagem desde o terminal Santo Amaro. Lhe agradeço muitíssimo pelo prazer incomparável de sua discreta, civilizada e elegante companhia.

Eu lhe teria então beijado a mão educadamente, inclinando para baixo minha cabeça em sinal de respeito, e desceria em meu ponto — com o mesmo sorriso tão largo quanto minha sensação de paz e tranquilidade… como de fato sorria e me sentia quando desci. Só que não fiz nada disso. Não a cumprimentei nem lhe beijei a mão. Apenas me retirei em educado silêncio — o que talvez tenha sido ainda melhor (e sem dúvida nenhuma, socialmente mais adequado).

A moça? Bem, tinha, se não me engano, o rosto redondo e os olhos levemente puxados, de tipo oriental… mas não tenho certeza. Não sei ao certo se era gorda ou magra, talvez nem bem uma coisa nem outra, não reparei. Também não sei se era particularmente bonita, como alguma dessas beldades que chamam a atenção. Acho que não. Feia certamente não era. Acho. Também não conversamos.

Na verdade, não trocamos uma palavra sequer. Aliás nem mesmo algum olhar. Apenas a vi quase por acaso (por que não prestei muita atenção) através de seu reflexo em na placa de acrílico ou vidro à frente de nossos assentos. O tempo quase inteiro (me parece que uns dez minutos) em que estivemos sentados um ao lado do outro, passei com os olhos fechados, pensando em nada a não ser minha tranquilidade e paz naquele momento, e sem ouvir-lhe sequer a respiração.

O enorme prazer desses últimos dez minutos de viagem ao lado de tal moça, na verdade, adveio do contraste com os mais de sessenta minutos anteriores, dentro daquele ônibus. O que me agradou — enormemente — naquela companheira de viagem, foi apenas o seu… silêncio.

Havia passado quase todo o resto da viagem ao lado de um rapaz que, com celular à mão, estroboscopicamente, em pausas mais ou menos regulares, falava.

E falava.

E falava. E falava.

E falava.

E falava. E falava. E falava.

E falava. E falava. E falava. E falava. E falava. E falava… — e aquilo foi me dando uma terrível, terrível, dor de cabeça.

Deseperadoramente, observei que não havia escapatória, não havia outro lugar onde pudesse me sentar no ônibus. Tapei os ouvidos — …um pouco ostensivamente, talvez? — pensando nisto, cheguei a hesitar em tapá-los, imaginando que talvez estivesse sendo grosseiro, mal educado. Mas o incômodo foi força maior, e ainda pensando se devia ou não fazê-lo, percebi que já estava com as pontas dos dedos enfiados nos ouvidos.

Só que não atiantava. O som continuava. Aquela insuportavelmente enfadonha e interminável arenga em voz alta. O sujeito, sem nem sequer se dar conta de meu tapar de ouvidos, ainda falava.

E falava. E falava. E falava. E falava. E falava. E falava. E falava…!

Com toda clareza, não havia nada de urgente ou importante naquela falação interminável. Era mais algo assim como jogar um lero fora. Em voz alta, já mencionei. Bastante alta. E bem ao meu lado. No penico da minha orelha. Interminavelmente.

Iiiiiiiiiinterminavelmente. Putz! IN-TER-MI-NA-VEL-MEEEENTE!

Até que… enfim, nos últimos dez minutos, um belo oásis à vista. Uma cadeira vazia logo ali adiante! Ufa! — em passos de gazela, saltitei para lá como num palco de balé, pois era ainda mais distante da falação, e já me sentia nas nuvens.

Sentei-me ao lado da moça que já tentei descrever mais acima (mas da qual não lembro muito bem). E abençoei deliciado o silêncio dela, com seus tranquilos olhos ajaponesados que vi refletidos de relance numa superfície transparente logo à frente, para imediatamente em seguida, e sem mais pensar, fechar gostosamente os meus olhos, e — enfim! — relaxar.

A essa moça desconhecida, essa lady de tão rara civilidade, essa abençoada, esse anjo celestial que tem a virtude nada brasileira de respeitar os ouvidos de quem está ao lado no ônibus… a ela dedico, de coração, a minha mais profunda e enternecida gratidão.

Obrigado!

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