HUIZINGA, Johan. “Nas sombras do amanhã: Diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo”. São Paulo: Saraiva, 1946.

LEITURA INICIADA EM MARÇO DE 2013.

 

Confira mais sobre o texto em Sombras do amanhã, na seção Textos e Obras do ProjetoQuem.

 

É um livro menos conhecido do brilhante historiador-filósofo Huizinga, em que ele faz um diagnóstico da cultura européia após a Segunda Grande Guerra. E aliás, com uma escrita de um estilo que, depois de uma má impressão inicial, agora acho absolutamente delicioso.

 

O livro traz também, espalhadas por ele, princípios, suposições, valores e ideias básicas que caracterizam bastante bem o conjunto dos posicionamentos desse pensador. É interessantíssimo. Ele, por exemplo, parece ter sido uma das prováveis fontes de referência iniciais de Guy Debord na análise da “Sociadade do Espetáculo”. Já me lembrava de que Debord mencionava Huizinga, levei um susto ao encontrar já feita por Huizinga, neste livro anterior, uma crítica ao caráter espetacular da sociedade. Muito bom mesmo.

 

Tenho este volume há muito tempo, mas por razões inexplicáveis sentia um certo desprezo por ele, havia lido de relance uma passagem ou outra e achado fraquíssimo, decepcionante… contava como sendo um livro decepcionantemente ruim de Huizinga sem sequer tê-lo lido.

 

Por que tive essa primeira impressão ruim? Difícil dizer… mas vou tentar, vou tentar explicar o inexplicável. O problema talvez tenha sido o fato de a recomendação ter vindo inicialmente de um antigo colega de teatro na juventude, arrogante e autoritário. O sujeito havia sido agressivo e grosseiro com minha nova namorada, que era também do mesmo grupo de teatro (creio que ele estava enciumado, porque ela era bastante atraente). Em suma, me desentendi com ele por essas grosserias com a moça e por outras razões ainda bem mais graves, guardando do mesmo (evidentemente) uma péssima impressão. Hoje aliás, creio que não teria nenhum problema se o reencontrasse por acaso. Talvez até o convidasse para uma cervejinha lembrando as asneiras juvenis época… (as dele, é claro). Seja como for, de algum modo devo ter transferido aquela má impressão inconscientemente para o livro, coisa que atrasou em décadas minha descoberta do precioso valor dessa obra de Huizinga.

 

Ela se desenrola de um modo que, a princípio, pode parecer (e me pareceu, quando comecei a tentar ler, na juventude) um tanto presunçoso, com momentos de possível arrogância inclusive, como se o autor se colocasse acima de sua época, olhando-a com desprezo. E se desenrola também em um tom que, numa primeira leitura rápida, cheira mesmo a um certo arcaísmo, um certo saudosismo pelo passado, e um certo pedantismo erudito avesso às “modernidades”. É além disso um livro sem uma estrutura de raciocínio muito coerente e consistente, no qual Huizinga lança pensamentos de maneira muito opinativa, sem muita fundamentação.Não é a toa que em minha primeira leitura rápida, de apenas algumas passagens, na agitação e impaciência da juventude, senti uma certa aversão e larguei a leitura. Mas estava enganado.

 

Felizmente guardei o volume. O mesmo. Até os dias de hoje. E ainda mais felizmente, me dispus agora a ler o livro todo. Em tudo isso que me havia provocado aversão inicialmente, o livro condiz (parecia condizer) em certa medida com a má impressão que o tal colega de teatro havia me deixado de si mesmo, pois via no sujeito algumas dessas mesmas características — com a exceção de que o achava elogiavelmente bem-humorado na maior parte do tempo, e de maneira divertida, bastante desinibido (meio que “atirado”)… e embora lesse razoavelmente bastante, também não me parecia nem um pouco erudito (o que já não merece elogios).

 

Em suma, creio ter projetado sobre o livro (ou “trasferido” para ele, para usarmos talvez melhor uma linguagem que não deixa de ser freudiana) a má impressão que tinha de quem o indicou. Nada mais que isso. Pura tolice minha, portanto.

 

O fato é que, apesar de toda possível má impressão inicial, o livro — agora reconheço — é excepcional, para dizer o mínimo.

 

É preciso antes de tudo situá-lo no tempo em que foi escrito. O autor havia assistido à ascenção e queda do nazismo, e sendo holandês, conhecia também em seu país o escabroso movimento eugenista (de “purificação da raça”) — pois este modo de pensar não foi forte apenas na Alemanha nazista: se estendeu com força também para os Estados Unidos e para a Holanda de Huizinga. Portanto, muito do que parece sem fundamento no livro, na verdade está fundado em sintomas que eram muito evidentes sobretudo na juventude da época, e hoje já não têm esse mesmo exato aspecto. A influência da eugenia, por exemplo, era ainda persistente após a guerra, também a do nacionalismo militarista, e a do tecnicismo e progressivismo, oriundos dos desenvolvimentos tecnológicos que haviam ocorrido também sob o impulso da guerra; e a isto se juntavam agora todos os males psicológicos das destruições provocadas pela guerra, que tendiam a se exprimir no imediatismo irrefletido ou, quando refletido, na filosofia existencialista de valorização do aqui-e-agora.

Colocado tudo isto, e situados mais cuidadosamente (e historicamente) os pensamentos de Huizinga neste livro, é preciso notar que seus comentários e reflexões antecipam os de inúmeras interessantes correntes de pensamento emergidas mais tarde, sobretudo as impulsionadas pelo Movimento de 68. Lembrando que Huizinga de fato foi lido por toda essa geração de filósofos, e que muitos se declaram influenciados por ele (sem mencionarem claramente por meio de qual texto), é fácil reconhecer e localizar essas influências, em sua enorme maioria precisamente neste livro, de modo que vale a pena — muito — fazer o mapeamento delas e de suas implicações em todo o pensamento sessentaeoitista… do qual, aliás, sou eu próprio uma espécie de fruto tardio.

TÉRMINO DA LEITURA: Abril de 2013.