KRAMER, Samuel Noah. “L’histoire comence à Sumer”. Paris: Flammarion, 1994

Um livro excelente!

Kramer e seu livro “A história começa na Suméria”

O próprio Kramer, embora escreva muito bem para o grande público, não é apenas um divulgador das pesquisas mundiais sobre a antiga Suméria (de pouco menos de 3000 anos antes de Cristo para cá), mas ele próprio um pesquisador de grande importância, responsável por algumas traduções e interpretações cruciais de textos encontrados em escrita cuneiforme. O autor é referência constante de muitos outros que tratam do assunto.

Os textos em escrita cuneiforme da Suméria (que fica no Oriente Médio, na região da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates) são os mais antigos de que se tem registro na história da humanidade. Pensou-se por um tempo que o documento mais antigo fosse o Código de Hamurabi (cuneiforme da mesma região), mas a cada ano novas e novas tabuletas de argila com escritos cuneiformes são datadas pelos arqueólogos e decifradas (pois forma e continuam sendo encontradas em imensa quantidade), e já temos tabuletas traduzidas que se sabe com clareza serem vários séculos mais antigas que o Código de Hamurabi.

Estou lendo em francês (desconheço se há alguma versão traduzida para o português, mas creio que não). O título, traduzido, seria “A história começa na Suméria”, e os capítulos procuram mostrar como diversas instituições e formações culturais dos dias de hoje tiveram sua primeira versão criada por aquele povo, com títulos como por exemplo, para mencionar apenas alguns:

  • Educação: as primeiras escolas
  • Governo: o primeiro parlamento
  • Guerra civil: o primeiro historiógrafo
  • Ética: a primeira ideia moral
  • Paraíso: os primeiros paralelos com a Bíblia
  • O rito do casamento sagrado. O primeiro simbolismo sexual
  • Literatura épica. A primeira era heroica da humanidade

etc.

Outros estudos que levaram João Borba à leitura de Kramer

Meu interesse pela Mesopotâmia, onde viveram os Sumérios e onde se firmou mais tarde o império da Babilônia, está diretamente ligado ao meu interesse por mitologia e pelas relações entre pensamento mágico-mítico e pensamento filosófico. Mas os padrões de pesquisa tradicionais nesse sentido não puderam me conter na Grécia e nos mitos pré-filosóficos. Precisava ir mais fundo, buscar as raízes mais longínquas daquelas entidades e formações de pensamento características da mitologia grega, e que indiretamente marcaram (e diria que não só pelo contraste) as primeiras filosofias (e com elas, me parece, o conjunto inteiro da filosofia).

Vou falar primeiro de coisas que li em outros livros e que não estão neste. Livros que me levaram à leitura deste, e que mostram talvez melhor o percurso da minha curiosidade.

Lendo este e inúmeros outros livros sobre o assunto, por exemplo, descobri as conexões entre a deusa da sedução e do amor Afrodite dos gregos e a arcaica deusa da sedução e da guerra Inana, dos Sumérios (que aparece na lenda de Gilgamesh). Descobri sua conexão íntima com a mais antiga mas ainda sumeriana Ereskhigal, que é como um “duplo” (uma “face oculta”) dela, e que é a deusa subterrânea dos ciclos da natureza, portanto deusa da morte e da decomposição e das transformações, dos ciclos orgânicos. A deusa Ereskhigal, sendo “face oculta” de Inana, forma com ela um par especial: além da sedução e da guerra, Inana está ligada à fertilidade e à reprodução, de modo que essa dupla de deusas mesopotâmicas, consideradas as duas em conjunto, esse par de deusas femininas, torna-se descendente direto da mais antiga divindade de que se tem conhecimento: a pré-histórica vênus primitiva, deusa da fertilidade e dos ciclos naturais.

Mais antiga que o Código de Hamurabi, a lenda de Gilgamesh, em que Inana tem um papel importantíssimo, ainda nos mostra  um homem-touro (chamado Enkidu) que representa a noção de uma inocência perdida, e que é o antepassado não apenas do Minotauro, mas também do antiquíssimo deus Pan, e mais tarde, do demônio cristão associado à figura do bode expiatório.

O “deus cornudo”, representado nos antigos rituais de imolação do bode, representa na mitologia dos Sumérios o sacrifício do par masculino de Inana, deus agricultor de mesmo nome do tal homem-touro (Enkidu), num sacrifício que gera fertilidade da terra (Inana também é ela própria sacrificada, originalmente… empalada por sua outra face, Ereskhigal, empalamento que simboliza o ato sexual, em mastro ou lança que simboliza o chifre (e também outro órgão) do par divino de Inana. Mas Inana ressucita renovada, porque ela é ao mesmo tempo a “eterna virgem”, e a “eterna apaixonada”, enquanto o par de Inana é o eternamente “passageiro”, o que está de passagem, o que se vai. Daí Inana ser também padroeira das prostitutas e das amantes passageiras. O outro par de Inana (Tamuz, ou Dumuzi, o deus do pastoreio), que muito significativamente era um nômade, também é sacrificado, só que não pela morte, e sim pelo amaldiçoamento: transforma-se no primeiro lobisomem de que se tem registro nas lendas mundiais.

O lobo, e os bodes, cabras, e mais adiante os bois, ou melhor, os antepassados pre-históricos desses animais, foram provavelmente os primeiros a serem domesticados. Provavelmente primeiro os lobos. Os homens pré-históricos, similares a macacos, com seus corpos cobertos de pelos, andavam ainda bem pouco eretos, corriam quase de quatro, caçavam junto com os lobos, e talvez a princípio não se distinguissem visualmente tanto assim dessa outra espécie quando se punham a caçar. Para a caça, provavelmente, eram todos uma mesma matilha de terríveis predadores. Mas os homens provavelmente desempenhavam o papel mais estratégico nessa caça, que foi se tornando dominante, e se os lobos se acostumaram a vir chamar os companheiros humanos para isso, é porque havia vantagem claríssima em tê-los como companheiros de caça.

Perceba-se que estamos falando dos primórdios de tudo o que é humano, do próprio processo de hominização, e do universo de ideias, pensamentos etc, que começa a surgir nessas mentes humanóides primitivas para irem fazendo-as se destacarem de outros animais e da sua original integração com a natureza, disparando um processo de autosuperação que nunca mais teria fim, e que é característico do animal humano. Ao mencionarmos essas ideias e pensamentos primitivos que começam a formar para os primeiros hominídeos um universo virtual paralelo, mental, estamos falando também dos primeiros traços de religiosidade.

A lenda sumeriana de Gilgamesh, a mais antiga de que se tem registro escrito completo, ou quase completo, com começo, meio e fim, e justamente uma lenda sobre a integração com a natureza, a luta pela autosuperação, e a trágica perda dessa integração paradisíaca com a natureza que acompanha essa luta por superação. E foi o estudo dessa lenda de Gilgamesh, e depois de outras mais antigas (como por exemplo algumas mais diretamente referentes a Inana e ao seu marido amaldiçoado e tornado lobisomem), que me levou aos estudos sobre os sumerianos e, finalmente, à leitura do estupendo livro de Kramer.

Há muita pesquisa sobre a questão dos arquétipos levantada pelos junguianos, nesses meus estudos — embora minha compreensão desses “arquétipos” seja bem menos ligada a qualquer “inconsciente coletivo” (e absolutamente nada ligada a qualquer misticismo) e bem mais ligada ao que está verificavelmente e materialmente inscrito, como memória subliminar transmitida geração após geração, nos registros produzidos pela imaginação, pela fantasia e pela arte humanas, em textos e imagens sobretudo.

A cosmologia sumeriana descoberta por Kramer

Kramer não fala de nada ou quase nada disso tudo que mencionei, mas traz outras informações sobre a cultura mesopotâmica, que me impressionaram talvez ainda mais. Sobretudo no seu capítulo 13, que estou traduzindo: “Filosofia. A primeira cosmologia.” Neste capítulo, ele procura esclarecer que embora os sumérios não tivessem desenvolvido o poder de abstração característico da filosofia, produziram algo como uma cosmologia, uma visão de mundo coerente, toda conectada à sua religiosidade, e a partir da qual pode-se captar muito do modo característico de pensar desse povo.

Resumindo essa extremamente fascinante e bastante impressionante cosmologia — eu diria que assustadoramente claustrofóbica — levantada com todo cuidado por Kramer, podemos dizer o seguinte: o mundo, para eles, era algo como uma bolha de ar imóvel no meio de um oceano infinito, misterioso, denso e escuro… e vivo (de caráter feminino). Esse útero ou ovo de ar no meio desse oceano vivo, teria a sua abóboda (o céu) feito de metal. Uma bolha de metal cheia de ar.

Mas pessoalmente, por um detalhe cuja interferência nisto me parece que não foi captada por Kramer, suspeito que o metal era apenas um lado da bolha: o que está por cima durante o dia. O outro lado da abóboda seria algo talvez como uma fina película de bolha mesmo, assustadoramente frágil, que revela mais diretamente a sombria e misteriosa mãe-oceano em toda a sua escuridão. Digo isto porque — e este é o detalhe que me parece que o genial Kramer talvez não tenha observado com suficiente atenção — os deuses que viajavam pelo céu de dia (como o próprio deus Sol, por exemplo), viajavam a pé ou em carroças, carruagens etc., enquanto os deuses que viajavam à noite, como Inana (que é uma estrela) e seu irmão lua, viajam de barco. Mas não posso afirmar com muita certeza esta possível correção a Kramer, eu posso estar errado.

Essa bolha seria dividida internamente por uma placa circular de terra, por sua vez rodeada por um rio. Sobre essa placa de terra,  mundo dos vivos, e abaixo dela, o mundo subterrâneo dos mortos, o lugar sem retorno. Uma espécie de inferno de degradação e humilhação eternos, comandado por Ereskhigal, “tia” ou “irmã mais velha” de Inana e que representa o lado negro desta. Ereskhigal, a deusa dos lentos, intermináveis e inescapáveis ciclos naturais de morte, decomposição e absorção da matéria em outra forma orgânica.

Os espíritos liberados desse ciclo viveriam uma eternidade como sombras apagadas no reino subterrâneo dela, perambulando no escuro sem muita vontade própria, numa eternidade tediosa e deprimente, inclusive vestidos como pássaros sujos de lama e poeira, simbolizando precisamente que não podem mais “voar”, buscar qualquer elevação, qualquer superação. A vida eterna após a morte, para os sumerianos e mesopotâmicos em geral, não seria nada mais além disto. A menos que a pessoa se superasse e se divinizasse (há muitos deuses nas lendas que inicialmente eram simples mortais, a começar pelos infelizes pares de Inana, Tamuz (ou Dumuzi) e Enkidu.

Gilgamesh aliás consegue, após a morte, um lugar entre os juízes do “inferno” (isto é, do territorio “ínfero”, inferior, subterrâneo, que é o de Eresqkhigal). Mas o melhor lugar é o dos deuses superiores, que vivem num par de montanhas gêmeas cujos cumes se perdem nas nuvens. Essas montanhas seriam uma espécie de “pilar” que se estendeu da terra ao céu quando terra e céu foram separados pelo deus “vento” (Enlil, rei dos deuses), dando origem a essa bolha de ar (ou de vento, como mais a imaginavam os sumérios).

Trata-se de uma bolha mantida portanto pela pressão do vento (pela força de Enlil), pela pilastra formada pela montanha dupla, que restou “espichada” dessa separação entre terra e céu — e supõe-se, embora Kramer não o diga, que a bolha toda poderia ser esmagada com os sumeriano dentro, sem essas forças e sem a força também de Anu (o ceus céu, feito de metal, que é o pai de Enlil destronado por ele… Ki é a deusa terra, que tem forma de pizza. Enlil, ao separar Anu de Ki, ou seja, ao separar o céu da terra, separou seu pai de sua mãe, e (para a alegria dos intérpretes freudianos) ligou-se (incestuosamente?), à sua mãe, passando a “encarregar-se” do que diz respeito a ela, o que antes era encargo de Anu, o céu. Pode-se considerar que todas essas forças de manutenção dessa bolha cósmica contam também com abenevolência da grande mãe-oceânica e noturna que a circunda, e que não a esmaga.

O arquétipo da pessoa presa em um bolha sempre me fascinou, e a possível conexão desse arquétipo, na história dos relatos textuais e imaginísticos em que os seres humanos sempre exprimiram sua fantasia, me parece assustadora e deveras impressionante.

Palmas para Kramer!… Com o brilhante levantamento dessa visão de mundo dos sumérios — um delicado e cuidadosa trabalho de detetive, visto que em nenhum texto os sumérios descrevem claramente e por completo todo esse quadro cosmológico (grande detetive, aliás, trabalho muito bem realizado) —, Kramer conseguiu o que me parecia impossível: impressionar ainda mais a minha mente já tão impressionada pelos hipnóticos estudos em torno da lenda de Gilgamesh, Enkidu e Inana, estudos que se tornaram, para mim, uma confessa e assumida obsessão.

 

 

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