Luzes da cidade

Gosto muito dos filmes de Chaplin. Sempre me emocionam muito, mesmo quando os estou revendo pela terceira, quarta vez. Entre os que mais me emocionam está o filme Luzes da ribalta, cujo título muitas e muitas vezes confundi com Luzes da cidade — outro belíssimo filme de Chaplin, normalmente bem mais contado entre os seus “clássicos”.

Em Luzes da cidade seu personagem é o velho mendigo malandro, esperto e inocente ao mesmo tempo, dócil, carinhoso e valente também: o famosíssimo Carlitos. Neste filme ele se apaixona por uma moça cega e pobre (embora não tanto quanto ele), que vende flores na rua.

Pelo bater da porta de uma limusine, quando ele está passando, a moça o confunde com um milionário. Ele então se deixa levar (e a deixa levar-se) por essa fantasia, e decide fazer de tudo, dentro ou fora da lei, para pagar para ela uma operação dos olhos, a fim de que ela possa voltar a ver.

O encontro final da moça, já com os olhos bons e melhores condições de trabalho e de vida, com o seu “rico protetor”, revelando quem ele realmente é — um humilde mendigo — (e tudo o que, nessas condições, ele teve que fazer para conseguir que ela enxergasse de novo… e o visse), é muito, muito comovente. Comove por que nos faz ver, com os olhos da moça, o coração e a valente dedicação daquele humilde mendigo.

Estou pensando neste filme, no momento, por causa da perda de minhas tão amigáveis  “luzes da cidade”. Eu explico. Aos saltos (como este “salto” de Chaplin para um assunto que parece quase inteiramente outro), mas explico.

Volto do trabalho de ônibus, e dependendo do dia e do ponto de ônibus em que resolvo naquele dia descer (porque gosto de variar), de quanto estou disposto a caminhar ou não, vou chegando em casa por volta da meia noite. Em breve vou enlaçar este fato no resto. Mas vou saltar agora mais uma vez, desta vez para assuntos de arquitetura urbana.

Algum tempo atrás, houve polêmica e uma boa pá de discussões em torno de uma tal arquitetura da violência, que vinha sendo adotada nos bairros ricos e por vezes em espaços públicos. Hoje ela continua aí, mas o bafafá quanto a ela sumiu. Nada melhor para relembrar a questão do que alguns simples e diretos exemplos dessa arquitetura, que não vou intitular “da violência”:  vou chamar de aquitetura anti-Carlitos.

Primeiro exemplo: paredes com detectores de presença e esguichos automáticos de água. Se alguém se deitasse na calçada na frente de certas casas, por exemplo para dormir na falta de abrigo, os detectores no muro captariam a presença da pessoa deitada, e os esguichos imediatamente entrariam em ação, molhando todo o chão.

Segundo exemplo: os assentos de espera para passageiros, nos pontos de ônibus, trocados por canos… para que ninguém possa também se deitar ali. Não digo que em homenagem a Carlitos devêssemos deixar os assentos de pontos de ônibus disponíveis para mendigos deitarem-se e dormirem, visto que se trata de um bem de utilidade pública com uma finalidade específica para atender a um público específico, e que, neste caso, a finalidade não estaria sendo cumprida e o público-alvo não estaria usufruindo devidamente do benefício visado.

Mas dá um bocado o que pensar o fato simples de que haja mendigos, e de que tanta dedicação dos órgãos públicos seja direcionada a evitar que eles se utilizem à sua maneira (prejudicando outros usuários, reconheça-se) de um certo bem público, às vistas de todos.

Dá o que pensar na seguinte específica direção: será que há, também, por parte dos órgãos públicos, tanta dedicação ao bem-estar dessa gente, quanto essa dedicação que vemos direcionada a afastar essa gente de certos espaços públicos?

Será que há, repito, tanta dedicação como esta ao bem-estar desses cidadãos — que como que para nos educarem, encarnam tanto em si mesmos, na sua figura, toda uma simbologia relativa às condições da vida em sociedade, uma simbologia tão socraticamente questionadora… e que foram tão belamente retratados e homenageados no inesquecível personagem de Chaplin?

Terceiro exemplo: pequenos holofotes de luz forte que se acendem subitamente à nossa passagem, revelando uma câmera apontada para nós, quando andamos por uma calçada escura junto a um muro (em geral de uma casa grande e rica). Algo como um silencioso mas nada discreto — “Ei, você aí, o que está querendo andando assim junto ao meu muro? Saia já daí, vamos lá, caia fora, cirulando, circulando…!”

A dignidade humana, evidentemente, é a vítima número um nessa arquitetura anti-Carlitos. E isto me faz lembrar do outro filme de Chaplin, aquele cujo título sempre confundo com Luzes da cidade, mas que é um filme muito muito diferente, a começar por já não ser com o personagem Carlitos, nem ser exatamente uma comédia, mas um filme lento e chato… e absolutamente maravilhoso. Como se chama mesmo? Ah, lembrei: é Luzes da ribalta, e o seu tema central é, segundo me parece, a dignidade humana justamente.

Por que lembrei deste filme? Calma, como disse, vamos aos saltos. Então vou saltar mais uma vez. Agora para uns relatos cotidianos, autobioráficos. Uns relatos banais da minha vida.

Moro num bairo muito, muito rico, em que há muitas e muitas mansões. Mas moro numa pequena casinha muito velha e esculhambada, que precisa de muitas reformas que até hoje ainda não pude bancar, em uma vilazinha de muito muito boa vizinhança, onde todos mais ou menos se conhecem e em certa medida se curtem. Uma pequena vila encravada no meio das mansões do bairro.

Como tenho pouco tempo e leio muito, faço boa parte de minhas leituras andando pelas ruas feito um cego, com um livro enfiado no nariz, quando estou indo para o trabalho ou voltando do trabalho.

Claro, procuro parar a leitura e prestar bastante atenção sempre que atravesso uma rua. Não obstante mais de uma vez cheguei a enfiar a testa, dolorosamente, num galho de árvore, e uma vez dei de cara, com livro e tudo, no poste de metal de uma placa. E também leio no ônibus (não tenho carro), e no metrô, e quando estou comendo um p-f… — costumo muitas vezes ter um livro aberto ao lado do prato, e já me aconteceu de distraidamente enfiar um grafo sujo entre as folhas de um livro (…e ser atendido, surpreso com minha própria distração e todo desajeitado, por uma simpática garçonete que, rindo muito, me oferecia um guardanapo pra limpar, e um garfo novo).

Pois é, este sou eu (ou parte de mim). E um dia estava voltando do trabalho na parte da manhã (com um livro enfiado na fuça, claro), quando de repende shaash! — uma fileira de esguichos de água automáticos molhou meu belo sapato de couro. Levantei um pé, depois o outro, aborrecido, mas já me acalmando ao notar que os esguichos haviam molhado só o solado, sem nenhum estrago.

Só que reparei, então, que havia pisado em cocô de cachorro. E então me ocorreu uma ideia: dei uns passos para trás, examinei a base do muro, e localizei os detectores. Então passei um pé bem na frente de um deles… e shaash! — lá veio o esguicho. Só que eu estava preparado, e usei o esguicho para me ajudar a limpar a sola do sapato. O resto o próprio piso molhado me ajudou a raspar (pois também era todo de granulados fundos, provavelmente para evitar que algum Carlitos se acamasse ali).

Depois disso foi a festa. Percebi que, no ponto de ônibus, podia aproveitar os canos que substituem bancos, para dependurar minhas coisas e ir arrumando-as melhor enquanto o ônibus não chegava — cachecol, guarda-chuva, e até livro com a página marcada aberta.

Mas o melhor de tudo, realmente maravilhoso para mim, passou a ser aqueles pequenos holofotes com câmeras que me assustavam de repente, acendendo do nada na minha cara quando vinha voltando do trabalho para casa, pelas calçadas escuras que ladeiam as mansões.

Pararam de me assustar quando me dei conta de que podiam me ajudar na leitura. Vinha andando pelas calçadas mais iluminadas com meu livro aberto na fuça, como sempre, mas já não precisava mais parar a leitura nas calçadas mais escuras. Bastava ir ladeando os muros das mansões que tinham aqueles pequenos holofotes com câmeras. E quando aquele farolete intimidador se ascendia apontado para a minha cara, eu felicíssimo retomava a leitura.

Às vezes estava num ponto importante do texto, que me exigia atenção (leio quase sempre teoria), e não queria interromper a leitura até a próxima quadra iluminada, então começava a andar em círculos, ou para a frente e para trás, com meu livro na mão, junto ao muro de alguma das mansões com holofotes. Meu movimento reacendia os holofotes de novo e de novo por algum tempinho mais, e podia terminar a leitura daquele trecho, concluir o conjunto do pensamento pelo menos.

Quando concluía, bastante satisfeito, às vezes até mesmo acenava para a câmera, muitíssimo feliz e agradecido. E só então seguia em frente… assobiando alguma coisa, como normalmente.

Pois é. Por que escrevo tudo isto, neste instante?

Por que minhas luzes se foram! Que triste, minhas luzes se foram!

Vinha hoje andando como sempre, voltando do trabalho perto de meia-noite, e ladeando um dos muros com luzes para continuar a leitura interrompida na quadra anterior. E de repente, as luzes intimidadoras de que me tornara tão íntimo, simplesmente não se acenderam. Percebi então que estavam modernizadas, tornaram-se apenas uma espécie de câmera com luzes próprias dessas que a gente nem vê, mas que iluminam o filme depois. Uma tecnologia de sensores combinados com infra-vermelho ou coisa assim. O fato é que aquilo não ilumina mais o meu livro. Vou precisar de uma lanterna.

Estava acostumado com as luzes. Estou tremendamente desolado! Será que deixo um bilhetinho simpático para o dono da casa, pedindo-lhe a volta dos meus faroletes?

Ah, minhas luzes se foram! Se foram, as minhas gostosas luzinhas!

Sinto-me como o Chaplin do final de Luzes da ribalta. Idoso e amargando desemprego, o personagem, um comediante aposentado que precisava desesperadamente de serviço, batia de porta em porta inutilmente, casa de show após casa de show, até que finalmente, ao fim do filme, consegue um lugar para apresentar-se. Filme terrivelmente cansativo e até chato, e um grande tanto deprimente… mas somente até este momento.

Em cena, o velho comediante se transforma, e de repente juro, rara vez em minha vida me arrebentei tanto de rir, chorando com a mão na barriga, caindo e rolando no chão. Não conseguia me conter, não conseguia nem respirar com aquele surpreendente Chaplin doido no palco, numa cena em que tentava fazer um concerto musical impossível, em que tudo saía dos eixos. Eu era uma explosão de risada que estava já me arrebentando, depois de tanta deprimente pernada do pobre velho Chaplin em busca de serviço inutilmente.

Até que pumba! — (o fim patético e trágico inevitável): ele cai do palco de bunda num tambor, ficando com o corpo ali enfiado e dobrado, num ângulo verdadeiramente impossível, enquanto a multidão na casa de show ri a bandeiras despregadas, assim como nós fora da tela. E o carregam com tambor e tudo para fora de cena, enquanto o público ri e ele acena. Fora do palco, comentam para ele o sucesso, entusiasmados.

O público quer que ele volte para os aplausos. É só ele sair daquele tambor e… só aí é que percebemos a dimensão de “fim” da coisa (a dimensão trágica e patética). Não havia mais isso de sair do tambor. O ângulo impossível em que estava enfiado e dobrado ali, não era parte da piada. Embora fosse, é claro, muito parte da piada sim. Na verdade só não era apenas a piada do show, e sim a piada de uma vida, que é, naturalmente, a morte vindo.

E esse personagem de Chaplin, o velho comediante aposentado, com sua maquiagem de palhaço, e o traseiro ali enfiado enquanto a gente ri, chora, não sabe se ri ou se chora, pede, neste seu momento de glória, que o levem outra vez para a ribalta… com tambor e tudo! Para receber os seus aplausos, e fechar os olhos em paz.

Enfim, foi meio assim que me senti, quando estava andando com meus livros, e as luzes, desta vez, não se acenderam.

É triste, mas é fato: a opressão sempre se moderniza — e vai escapando um a um, a todos os nossos esforços para humanizá-la.

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