Magia, instituição, tecnologia

Magiação (ou magia — mas usar este termo me poria em atrito com magistas crentes) é o procedimento de instituição ou destituição mítica, pela via da egrégora suposta, procedimento que, sacralizado ou não, é fantasiado, engendrado no imaginário. (A sacralização desmagiza, precisamente porque desfantasia, transformando o imaginário assumido em fé).

A Magiação é como são modeladas as instituições no que portam do imaginário coletivo: está ligada à ideia de “truque” e ilusionismo, fé poética ficcional. “Aparelho” (ou “Aparato”) — aqui em sentido flusseriano — é a materialização dessacralizada e desfantasiada dos procedimentos rituais de magiação que instituem e constantemente reinstituem.

A instituição é o produto ilusionista disto assim como em uma tela de computador as imagens dotadas de sentido são produto de pontos de energia tremeluzentes em interação com um certo aparelho receptivo orgânico, ou como na relação mente-cérebro. e esse produto tem algum grau de eficácia ou ilusão de eficácia, porque na desfantasiação se desloca do conotativo para o denotativo, enrigece suas conexões, necessitarizando-as (reduzindo-as ao necessário), porque despossibilita (reduz suas possibilidades associadas) em vista de objetivo(s) de modo a esvaziar-se de contexto, construindo ao redor de si o fosso da ignorância intrínseca do poder (em relação à alteridade).

As técnicas são os programas (compostos de gestos rituais chamados “funções”) que, por sua vez, compõem os aparelhos. Os aparelhos, por sua vez, podem combinar-se sistemicamente, compor um Sistema.

Na arte, há paralelos não apenas fantasiados para isto tudo, mas também estilizados e até personalizados. As “técnicas” artísticas, funcionando de modo diferente, são compilações de materiais e procedimentos (que utilizam ou produzem esses materiais) oferecendo um repertório cuja seleção (ou reformulação experimental) e manipulação visa a expressão que se projeta do que se constrói nessa manipulação — e não a impressão sobre o presente (com impacto já de início sobre essa esfera procedimental) de um objetivo externo, futuro.

O estilo, sem linearidade preestabelecida no uso de seus recursos, substitui o programa sequenciado de ações ou alternativas de ação que caracteriza a técnica. No estilo a opção anterior não predetermina a posterior senão no sentido de que “engrossa o caldo” geral do que caracteriza esse estilo. Cada recurso colocado em cena é colocado em função da totalidade desse estilo, que torna os recursos condizentes uns com os outros, operando a convergência entre eles.

Na técnica “fria”, desestetizada e despersonalizada, o ponto de convergência (o objetivo) exerce pressão hierarquizante aponto de alinhar as ações rumo a ele, porque é um ponto externo, objeto de ações de aproximação, enquanto na arte, a expressividade estilística já não é um ponto externo a atingir, mas um campo presente que oferece ambiência às ações que nele (e não apenas para ele) convergem.

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