MLODINOW, Leonard. “Subliminar: Como o inconsciente influencia nossas vidas”. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

LEITURA INICIADA EM MAIO DE 2013

 

Excelente! O autor é físico, da equipe de Stephen Hawkins. Curiosamente, o livro se dedica a um assunto de outra área: aos funcionamentos inconscientes da mente humana. Mlodinow procura mostrar, em linguagem clara, quais os atuais avanços técnicos no campo dos estudos sobre o funcionamento do cérebro humano, e que conclusões básicas têm sido extraídas dessas novas técnicas de exame do cérebro em relação ao que costumamos chamar de “inconsciente”. O resultado é toda uma cuidadosa e interessantíssima descrição dos mecanismos inconscientes de funcionamento do cérebro, que nos dão uma compreensão disto completamente diferente daquela dos freudianos. Deste ponto de vista, Freud parece ter acertado apenas quanto ao papel dominante e onipresente do inconsciente no fundo de todas as nossas ações, mas errado completamente quanto ao modo como esse inconsciente se desenvolve e atua sobre nosso comportamento.

 

O livro foi uma surpresa muito positiva.

 

Havia bastante tempo que eu estava interessado na questão das mensagens subliminares. Vinha cultivando e defendendo a hipótese de que, na verdade, o “subliminar” é o conjunto de tudo à nossa volta a todo e cada momento, apontando em direções tão variadas e ambíguas que não se pode discernir nesse caldo geral de subliminaridades nenhuma “mensagem”. E que portanto as tais “mensagens subliminares” só se estabelecem justamente na medida em que racionalmente recortamos, destacamos, algo como “mensagem” nesse conjunto. Faltava-me examinar em que medida essa racionalidade não poderia ser ela própria inconsciente também. Mas de qualquer modo, esta hipótese me colocava contra o tradicional posicionamento que culpabiliza o inconsciente e o irracional pelas manipulações exercidas sobre as opiniões, e me permitia uma interessante linha de defesa da sofística democrática radical da Grécia antiga.

 

Agora, o livro de Mlodinow veio dar sustentação muito sólida ao que eu já imaginava.

 

É apenas um livro de divulgação científica, e comete inclusive um ou outro pecadilho apelativo para atrair seu público, principalmente no modo como manipula dados estatísticos no início, para “vender seu peixe” (Sócrates teria muito a questionar dos primeiros capítulos). Mas quando se desapega dessa necessidade de autodivulgação, o livro se torna excepcionalmente bom. Estou lendo devagar, saboreando. Depois vou complementar com a leitura e releitura de bons livros que tenho há algum tempo sobre neurologia, assunto que tem me interessado cada vez mais nos últimos anos, aliás.

 

Minhas únicas críticas realmente relevantes:

 

1. Até o momento, pelo menos (estou na metade), parece um grande apanhado descritivo das atividades inconscientes do cérebro com base o que as técnicas atuais permitem captar dessas atividades. Falta um pouco mais de conexão com os detalhes neurológicos por debaixo disso.

 

2. Mais importante: falta criar uma operação geradora única para tudo isso, um interpretação que com base em poucos princípios possa articular coerentemente todo esse conjunto de descrições para que apontem um sentido, em outras palavras para que o conjunto tenha sentido — e possa ser finalmente inserido no campo dos debates humanos de maneira inteligente e não meramente “fática”, como se fossem simples “dados indiscutíveis” para fins técnicos… caso contrário nada disto tem interesse cognitivo real, não há propriamente conhecimento, mas apenas uma massa de dados tecnicamente utilizáveis.

 

Se a interpretação de Freud e seus seguidores, com suas operações geradoras de toda a teoria psicanalítica, não se sustentam mais quanto à noção de inconsciente que essa interpretação tão brilhantemente sustentou por tanto tempo, se elas perderam sua realidade e se tornaram fantasiosas com a emergência dessa nova massa de dados (ou base de informações) sobre o “inconsciente”, então qual outra interpretação, com quais outras operações geradoras devemos criar para transformar isto em conhecimento, em algo capaz de realmente nos orientar, gerar valores que nos orientem (na vida como um todo mesmo, como rumo de vida, e não em meras operaçõeszinhas técnicas de dia a dia)? — Esta é a questão.

Pois isto é o que realmente interessa do ponto de vista do conhecimento, e não meras “informações” e suas possíveis “utilidades” práticas, em sentido tarefeiro, de quem por exemplo cumpre ordens e resolve problemas específicos que lhe são atribuídos…

LEITURA AINDA INCOMPLETA

TÉRMINO DA LEITURA: Junho de 2013

 

Confirmo tudo o que já disse antes sobre o livro nesta seção.

Mas pouco antes de terminá-lo, já estava começando a formular aquilo de que sentia falta nele: uma operação geradora capaz de fornecer uma explicação coerente para o conjunto dos dados experimentais apresentados pelo autor. Isto é, uma operação de raciocínio, com seus conceitos básicos, que seria capaz de gerar racionalmente — “engendrar”, diria Fichte, em sua crítica a Kant — todo esse conjunto de dados apresentados. Fiz um esboço (inicial e ainda precário) disto falando sobre sexo, em um texto sobre o assunto que coloquei na Seção Pensamentos errantes/Notas, Máximas e Aforismos de 2013 (o texto está datado de junho de 2013, e se inicia com a expressão “Por que o sexo não é tudo no mundo”).

Coloquei o texto também no facebook, porque é bem longo (isto mesmo, coloquei no facebook porque é bem longo, e não apesar de ser longo… achei que isso era divertido, depois de uns dois séculos sem dar as caras por lá).