Não discuto religiões

Não discuto religiões. Porque não gosto, só por isso.

Acho esse assunto um saco. Cansativo, inútil, desgastante e no limite, até irritante — embora compreenda (e respeite) que haja gente até apaixonada por esse assunto que me parece tão absolutamente sem graça. Assim como adoro café quente com suco de uva e compreendo perfeitamente que muita gente diga “blharrgh!” só de pensar. Sinceramente, não consigo deixar de dizer “blharrgh!” mentalmente com uma leve sensação de enjôo quando sinto que, por respeito e educação, terei que aguentar um pouco de encheção de saco religiosa antes de conseguir dispensar uma conversa sem magoar a pessoa.
Há casos em que é inclusive difícil não perder a cabeça, de tão chato que acho esse tipo de papo. Não me leva a nada e não me interessa em nada.
Defendo a liberdade de crença, isso sim, e respeito profundamente que as pessoas tenham suas próprias crenças, religiosas ou não… dentro do exato limite do respeito que essas pessoas dirijam a mim quanto ao modo como sou e como penso quanto a isto.
Discuto inclusive a liberdade de crença, porque me interesso pelo tema “liberdade”, e até mesmo considero a noção geral de “crença” conectada a essa questão. Noção geral de crença. Não me interessam assuntos internos desta ou daquela crença.
Só entro neles na medida em que carreguem algum outro assunto muito especificamente de meu interesse. Por exemplo um assunto ético que me atrái discutir, um assunto ligado a questões psicológicas, especialmente de psicologia social, ou a questões de história (amo estudos históricos); ou ainda um assunto direta ou indiretamente político que tenha uma profunda conexão com certos elementos desta ou daquela crença religiosa. Mas o que está me interessando é sempre ética, psicologia, história, política… apesar de tais assuntos estarem naquele caso específico ligados a religião, e não por estarem ligados a essa chatice.
Mas há um tema em especial pelo qual sou perdidamente apaixonado, e que tem as mais profundas e complexas conexões com todas as religiões: o pensamento mítico.

Entretanto, minha compreensão da coisa é a de que o pensamento mítico é independente de qualquer religiosidade, por mais que muitas vezes apareça ligado a isso. É uma espécie de pensamento coletivo poético e dotado de força modeladora de instituições, valores e comportamentos nas mais diversas sociedades do passado e de hoje, mesmo (e com igual força) nas sociedades industriais e pós-industriais, informatizadas. E acho, na verdade, que o estudo do pensamento mítico fica muito reduzido e perde muita de sua riqueza e profundidade quando se limita a assuntos mítico-religiosos, o que constitui um costume infeliz da maioria dos estudiosos dedicados a isto.

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