O problema do impositismo nas instituições educacionais do país

sumário

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Fontes históricas da impositividade
sofrida pelos trabalhadores brasileiros

Tenho falado muito sobre a hospedagem do opressor no Brasil (esse conceito de Paulo Freire que aprendi em música de Tom Zé), tenho falado sobre o modo como tendemos a conscientemente ou inconscientemente repetir a opressão história que sofremos imitando-a, dirigindo-a contra os outros, e em como a liberdade adquirida pela democracia vem sendo confundida com direito de oprimir.

Há outras fontes históricas que levam a isto no país. Por exemplo o fato de termos tido nossa passagem da escravatura para o trabalho assalariado com o empresariado escravocrata assumindo o papel de sócios em relação novo e jovem empresariado não-escravocrata que vinha surgindo. Os sócios que entravam com o capital (portanto dotados de forte influência. Isto imprimiu uma mentalidade escravocrata em grande parte do empresariado brasileiro.

A vida do trabalhador no Brasil, suas condições diárias de trabalho, são fortemente afetadas por esse histórico, umas vezes mais, outras menos, e de diferentes maneiras. E essas condições são, também, de forte reflexo na formação cultural e comportamental de todos os direta ou indiretamente envolvidos.

A opressão generalizada de todos contra todos:
efeitos individuais coletivos e institucionais

Essas fontes históricas dessa opressão generalizada de todos contra todos, são difíceis de sanar. Não há soluções possíveis de curto prazo que me ocorram, pelo menos. E delas emergem aqui e ali, pipocando por todo o país, ambientes de trabalho afetados por dois efeitos igualmente danosos disto.

Primeiro, por uma habitual postura impositiva de cada indivíduo sobre os demais ao seu redor, rompendo laços de cooperação e prejudicando também o correto exercício das funções profissionais de cada um — seja por ingerência, interferindo agressivamente no que é papel do outro, seja por recusa ao cumprimento de seu próprio papel por parte do trabalhador, quando corretamente cobrado em relação a isto.

(Costumamos sempre lembrar o quanto a competitividade pode ser danosa para a cooperação entre proficionais, mas raramente o quanto a impositividade individual de cada um sobre os outros ao seu redor pode ser também danosa, em um sentido diferente.)

Segundo efeito dessas fontes históricas: a construção de ambientações de trabalho com traços fortemente impositivos nas relações hierárquicas, com muita frequência incluindo imposições que vão para além dos real papel do profissional, inclusive para muitíssmo além, transformando o profissional numa espécie de “faz tudo” ao qual se exige, sob risco de desemprego, que desaprenda suas especialização e assuma responsabilidades que não escolheu, para as quais não se formou, e que não condizem de fato com sua profissão.

Os mais afetados por esse tipo de coisa, evidentemente, são os estudantes em condição de estagiários, de modo que chegou-se no país inclusive a uma conhecidíssima piada irônica, que estabelece uma analogia perfeitamente compreensível e muito significativa, que ajuda na conscientização realista dos estagiários quanto ao que irão encontrar pela frente — ao mesmo tempo que, evidentemente, os desestimula. Chama-se o estagiário de “escraviário” — e dão-se boas risadas com isto.

Os efeitos da ambientação opressiva no país
sobre os profissionais da educação em geral

A impositividade, entretanto, não afeta o campo educacional agindo apenas sobre estagiários. O professorado é um setor especialmente vitimado e sensível a isto.

Houve por exemplo um lugar onde trabalhei há bastante tempo atrás — para mim uma eternidade de tempo, porque tratei de me afastar dali e de afaztar aquela experiência da minha lembrança o máximo possível — no qual, sendo professor, me exigiam que, por exemplo, descobrisse os nomes dos alunos e reconstruisse do zero a própria lista de presença, para que pudessem corrigi-la, porque os nomes nos chegavam sempre diferentes da realidade (e inclusive em quantidades diferentes, sendo a tal instituição na época, envolvida em financiamentos públicos para estudantes!).

Detalhe: não se exigia isso uma vez. Eram duas, três, dez, dezenas de vezes, o que tornava em especial o processo de lançamento de notas um inferno insuportável. Por mais que construíssemos e reconstruíssemos as listas de nomes de alunos (o que tomava tempo em sala de aula), as listas oficiais da Secretaria (que recebia as inscrições dos alunos e deveria ser responsável por isso, segundo me parece), que eram informatizadas, estavam constantemente alteradas, com dezenas de nomes falsos, faltando muitos dos nomes reais, e com muitíssimos nomes simplesmente alterados.

Era uma instituição educacional privada enorme, que cresceu comprando outras e não propriamente por sua competência, tendo em média 50 alunos por sala. E recebíamos a ordem, o comando de fazermos isso, de reconstruirmos de novo e de novo e de novo as listas de alunos matriculados. A certa altura, começou-se a incentivar o professor a atuar inclusive como vendedor, atraindo alunos com o chamaris do financiamento público estudantil, sob promessa de recompensa financeira. Pelo menos isso não foi impositivo, foi feito pela via do incentivo financeiro. Mas era uma atividade claramente corruptora do ponto de vista do que deveriam ser as atividades de um professor.

Houve também um momento em que nos anunciaram (animadamente, como se fosse algo bom com que nos entusiasmaríamos) que alguns professores escolhidos iriam aparecer na TV, em uma espécie de video “educativo” periódico, ao vivo, junto a um político famoso que estava “dando apoio” à instituição, e começaram a nos dar instruções sobre como devíamos nos portar se fôssemos “selecionados” para isso, instruções que nos colocavam, claramente, na condição de garotos-propaganda da instituição e do político em questão (aliás, já nem me lembro bem qual era).

Felizmente, nada disto aconteceu. Muito felizmente aliás. Pois naquela ocasião o sangue me subiu à cabeça e declarei em alto e bom tom que não ia cumprimentar político nenhum diante de câmera nenhuma, e que se me empurrassem para isso iria dizer exatamente o que pensava ali, diante da câmera e ao vivo — e faria mesmo.

Ainda mais felizmente, o diretor local, particularmente, não era de perfil impositivo: apenas passava adiante (tentando tornar a coisa “suave” e até “alegre”) a impositividade que era transmitida de um foco hierárquico superior, de modo que tínhamos perfeita liberdade para atitudes como esta minha. Mas não é o normal.

O mais habitual em instituições de ensino impositivas (e são muitas no Brasil) é que este tipo de coisa venha acompanhada de impositividade também a ponto de bloquear agressiva e repressivamente qualquer manifestação aberta de tom um pouco mais elevado, e às vezes até mesmo a mais discreta e educada também, que seja contrária às ordens dadas.

Naquele caso específico não, naquele caso específico reinava uma impositividade de tipo menos militaresco e mais esculhambada. Sinceramente, entre esses dois perfis, o impositivo militaresco e o impositivo esculhambado, não sei qual é o pior (e já trabalhei em diversas instituições com um dos perfis ou com o outro).

Dois tipos de impositividade
nos ambientes educacionais:
a “militaresca” e a “esculhambada”

A) A imposição “militaresca”

No primeiro tipo de caso, o caso da impositividade mililitaresca, pelo menos as coisas tendem a funcionar. Contudo funcionam e maneira de fato puramente “funcional”, isto é, de maneira mecânica, desumana… e por desumana, quero dizer como que com o chicote pairando no ar para o momento em que o engenho educacional emperrar, em que professor errar como gente — e erra, claro, visto que é tratado como peça de engrenagem, com as expectativas correspondentes,  e não como gente.

Há instituições que adotam como política inclusive a constante imposição de absurdos ou do irrealizável, “perdoando” ou “fazendo vista grossa” para parte do irrealizado, de modo que o professor se mantenha sempre sob a imagem da atuação “insatisfatória” para a instituição, e possa ser depois “lembrado” da “lista” do que “não fez direito”, no momento do chicote.

Vasculha-se dentro da lei (no menos ruim dos casos) cada mínima palha de possibilidade de exploração do profissional, inclusive para além de sua profissão… e avança-se para fora da lei também nisto sempre que não há grande risco fiscalização, o que no Brasil é muito mais regra do que exceção. Se o professor se mostra ousado demais, trata-se de “enviar sinais” a ele, em geral poucas vezes, para que”se coloque no seu lugar”. Utiliza-se de uma política de intimidação.

Professor é gente. Gente que fica diante de uma porção de outras gentes (chamadas “alunos”) durante horas a fio. Gente transmite informações mesmo quando não quer, e capta informações mesmo quando não se dá conta.

Há todo um caldo ambíguo e contraditório de informações que transparece no olhar de uma pessoa, no tom de voz, em cada mínimo gesto, mesmo quando a pessoa não e consciente disto. Um tal ambiente milistaresco tende a transferir o quê para esse caldo, e portanto para a formação do aluno? Pensemos um pouco nisto.

Isto para não falar da síndrome de hospedagem do opressor, que pode levar o professor àquela situação descrita por La Boétie em seu Discurso da servidão voluntária e popularizado pelo filme The wall, do grupo Pink Floyd, numa cena de desenho animado em que ocorre algo mais ou menos assim: o governante bate com um porrete na cabeça do patrão, o patrão bate com o porrete na cabeça do professor, o professor na cabeça do aluno, o aluno (se universitário e já casado), bate na cabeça do filho, e o filho, finalmente, no cachorrinho.

Outro dia estava andando pela rua, a caminho do trabalho, e passou uma pequena passeatade jovens tentando reunir mais gente para um protesto em que se clamava: “— O porfessor… é meu amigo… mexeu com ele, mexeu comigo!”. Eu estava completamente por fora do que vinha ocorrendo em termos de greves ou coisa do gênero, porque não conseguia tempo nem tranquilidade para me informar devidamente, mas aqueles dizeres de repende me comoveram até quase as lágrimas.

Só que não é sempre assim que o alunado vê o professor. Inclusive porque o professor frequentemente reproduz sobre o aluno, com cegueira, a opressão cega que sofre de outro lado (promovida no fundo por pressões capitalistas, como mencionado no tópico final deste artigo). E isto rebate de volta, de modo igualmente cego e mecânico, do aluno em direção ao professor. Ação-reação.

Na saída da ditadura militar no Brasil, o general João Figueiredo foi “convocado” a, no poder, “fazer” o processo de abertura política, já que o militarismo não se sustentava mais. Era pressionado a fazer a abertura, e evidentemente não tinha perfil adequado para isso: vejam só, a certa altura, em jornal, declarou nada menos que algo como “Vai ter abertura sim, quem não quiser abertura, eu prendo e arrebento!” — dá pra imaginar uma declaração mais paradoxalmente antidemocrática que esta?

Pois é, mas não se diferencia tanto do que muitas instituições fazem quando se trata de evitar que o professor aja sobre o alunado de uma maneira agressivamente impositiva que, na verdade, na imensa maioria dos casos, é apenas e nada mais que o reflexo cego e mecânico, inconsciente, irrefletido por parte do professor, daquilo que ele sente que está sendo feito com ele pelos mecanismos impositivos da instituição em que trabalha, seja ela qual for, quando a impositividade é de dose muito alta.

B) A imposição “esculhambada”

No outro caso, o da instituição esculhambada — como aquela em que trabalhei tempos atrás, da qual mencionei o exemplo em outro tópico deste artigo — o educador oprimido, explorado, corrompido ou pressionado no sentido de fazer o que está para além de sua condição profissional, frequentemente pode dizer mais ou menos o que quiser, reclamar mais ou menos do que quiser inclusive… porque simplesmente não faz diferença. Irá espernear a toa, e nada mudará.

Há uma louvável sinceridade no perfil esculhambado de impositivismo presente em tantas instituições de ensino no Brasil. A imposição não se disfarça de mecanismo funcional, e não se faz jogando sob o professor, tratado e cobrado como se fosse peça de máquina, a pecha de incompetente. Há um grau maior de “liberdade” para o “humano” se manifestar.

Mas trata-se de uma “liberdade” que deságua em nada, num grande marasmo educacional em que nada funciona. E as faíscas ocasionais de salto de aprendizagem que o professor conseque, a muito custo, em algum aluno aqui e ali, tende a se aforgar facilmente nesse marasmo. Só de raro em raro tal faísca já em si rara chega a efetivamente marcar o aluno, que tende a perder o sentido do aprender, a ver o professor (que deveria ser modelo vivo e atraente de aprendizado humano) nem mesmo como gente, tende a vê-lo como uma “peça” mais num jogo que vai levá-lo a outra “peça” — o diploma — útil na engrenagem do seu fazer dinheiro mais adiante.

 Liberdade e modernização ameaçadas:
e perfis combinados de imposição e opressão

Existem também combinações desses dois perfis de impositividade. O perfil mais “moderno” — o militaresco, que é no Brasil seguramente o mais incomum dos dois — por vezes assume também uma maior sinceridade em seu caráter impositivo, tornando-se mais agressivo e cruento, mais brutal no trato com o educador.

E isto tende a conduzir para o mais evidente: pressões no sentido da eliminação da liberdade de cátedra — redundando em incontornável baixa qualidade de ensino, visto que o par ensino-aprendizagem é algo de caráter incontornavelmente relacional e humano — ou, ainda mais habitualmente, no sentido da eliminação do pólo “ensino”, tendendo a substituir o modelo vivo de aprendizagem, isto é, o professor (já diminuído nisto por sua descaracterização nacional como pesquisador, pois é cobrado quanto a este perfil de pesquisador sem que as instituições ofereçam condições efetivas para que se realize nesse sentido), pelo que alegremente se propagandeia como “ensino à distância”.

A virtualização e informatização do aprendizado é uma tendência mundial, e a meu ver boa. O problema está o contexto e nas condições em que costuma ser implementada. Não se costuma operar um trabalho de reconstrução da cultura educacional junto aos professores senão pela via imopositiva. Imposição e rigidez gera reação contrária. Como alguém pode acreditar seriamente que não geraria?

Na maioria das instituições do país, quando há “modernização” nesse sentido, rumo ao aprendizado virtual, na verdade nem mesmo ocorre uma pseudo “reeducação” (“pseudo” precisamente porque impositiva) do professor. Simplesmente as novas condições são “colocadas”, e faz-se o treinamento puramente técnico de como lidar com a novidade.

Isto é pelo menos mais suave que quando as instituições procuram impor uma nova “cultura” informatizada. Nas melhores instituições, há pelo menos essa preocupação com a mudança da cultura do professorado. Mas muitas vezes marcada ou pelo impositismo esculhambado, ou pelo militaresco. A meu ver, quem fala em “impor” uma cultura, não sabe o que significa “cultura”.

Em suma, o que realmente dá o tom à coisa do aprendizado virtual, na imensa maioria das situações e instituições do país em que é instituída, é esse clima geral prévio de impositividade, em que o professor figura para instituições impositivas quase como um “problema”, um “empecilho” a ser tirado do caminho.

Ora, quem é efetivamente tratado assim, não tem como reagir de outro modo senão opondo-se conservadoramente às mudanças. O perfil impositivo generalizado na formação dos profissionais do país em praticamente todas as áreas, no caso das instituições de ensino brasileiras tende a (de)formar o profissional da educação em sentido reativo e conservador naquilo mesmo que poderia, se realizado de outro modo, ser revolucionário no melhor sentido do termo em sua profissão: o aprendizado de novas tecnologias úteis para sua atividade de educador.

Deste modo, o próprio processo de modernização tecnológica do ensino acaba ferido de morte pela impositividade ligada, diretamente, não apenas ao nosso caldo cultural histórico impositivo — mas também às pressões capitalistas sobre as instituições, fator importante que é preciso notar e do qual os próprios profissionais de educação, examinando idioticamente apenas o seu lado do problema, frequentemente se esquecem.

A impositividade e as pressões capitalistas
sofridas pelos empresários da educação:
efeitos pedagogicamente danosos

É preciso estar atento a uma questão: o setor educacional, especialmente em nível universitário, tende a ser atualmente mais afetado por impositividades que o atravessam por todos os lados e sobretudo de cima para baixo, do que tempos atrás. Por quê?

Pressões capitalistas.

As empresas nacionais — e não é diferente no campo da educação privada — são quase sempre marcadas por um gerenciamento familiar, da família proprietária, e não por um gerenciamento profissional e com profundo conhecimento do setor. No campo da educação, além disso, esse gerenciamento familiar (exatamente como o das primeiras empresas a surgirem no Brasil, as dos senhores de engenho escravocratas, vale ainda lembrar) costuma ser realizado com deficiências mais graves do que as que seria de se esperar: porque se trata de uma atividade cuja qualidade se desenvolve no sentido oposto daquele que traz qualidade a inúmeros outros setores.

Na educação, padronizar, por exemplo, significa quase sempre diminuir a qualidade do aprendizado, e não aumentá-la. Controles rigorosos de qualidade podem (e até mesmo tendem) do mesmo modo se tranformar em poderosos mecanismos de depreciação da qualidade. Tendem a isso a medida em que, sob pressão capitalista, são realizados de um ponto de vista puramente funcional, desconsiderando o fator humano e relacional nas atividades educacionais.

O fator humano e relacional, que é absolutamente central nesse campo de atividades, instaura a liberdade como traço característico fundamental no centro dos processos educacionais, liberdade que deveria propagar-se e multiplicar-se, das relações da instituição com o educador, como via de mão dupla, para as relações (via liberdade de cátedra) com o alunado, que deveria ser também libertadora e de mão dupla.

Tratar o alunado como “clientela” à qual se deve “agradar” a qualquer custo é ainda pior — e é o mais comum nas instituições de ensino privadas no Brasil, diante das pressões capitalistas, que costumam dobrar mesmo aquelas que originalmente eram mais carregadas de preocupações pedagógicas reais e profundas.

Trabalhei num local, certa vez, em um curso universitário que ofereciam para a formação de profissionais que trabalhariam na internet, onde ocorreu algo bizarro: os alunos se revoltaram contra a própria grade curricular do curso, e fizeram um abaixo-assinado e uma algazarra em multidão em que exigiam a exclusão de inúmeras matérias (algumas curiosamente fundamentais para sua formação naquela área).

Se atendidas todas as exigências que estavam ali, o curso se transformaria profundamente: de um curso de nível universitário, se tornaria um cursinho técnico, desses que se realizam em uns poucos meses e preparam a pessoa para o bê-a-bá prático e imediatista da coisa, e nada mais. Em suma, desses cursos que não libertam: apenas formam “tarefeiros”, realizadores acríticos de tarefas práticas imediatas.

Uma das matérias que queriam excluir era a minha, voltada para o exame de questões éticas e jurídicas envolvidas no e-comerce (no comércio pela internet). Os alunos se perguntavam para que precisavam aprender a ser éticos se fossem atuar na comercialização de alguma coisa pela internet, e achavam a matéria inútil. O interessante é que por outro lado, adoravam minhas aulas (vieram inclusive em “comissão” dizer isso a mim, que adoravam a aula, mas não viam para quê aprender esse tipo de coisa para tirar diploma).

O que me foi dito pela “comissão” de alunos se confirmou quando mais tarde, o coordenador do curso, após uma reunião informando que a instituição cedeu às exigências, que achou melhor baixar o nível de formação para manter os alunos sem discutir o caso com eles, e que minha matéria “sairia” da grade… mas queriam me manter “noutra coisa”. Mais precisamente, o coordenador pediu para falar comigo à parte: disse que os alunos me adoravam e queriam que eu desse aulas de outra coisa, desde que não fosse filosofia nem ética, nem sociologia, nem psicologia nem nada assim, mesmo que ligado às questões envolvidas nas relações sociais e comerciais via internet, porque achavam que estudar essas coisas todas atrasaria a conquista do diploma.

Professor Borba é sinônimo de aulas de perfil filosófico. Uma coisa não existe e nunca existirá sem a outra. Mas não é fácil enxergar isso para alunos acostumados a serem tratados como “clientes” atendidos no que quer que exijam a todo custo.

Em suma, os alunos pediam insistentemente — e o coordenador me transferia o pedido — que eu desse aulas a eles de algo como webdesign ou programação em html. Não apenas desconheço a matéria, mas meus anos e anos e anos de formação em filosofia, ao que parece, eram escancaradamente desconhecidos, ignorados ali, simplesmente não vinham ao caso. O coordenador queria que eu aprendesse webdesign ou programação html para dar aula dessas coisas!

Educadamente solicitei, é claro, negociar minha retirada da instituição, minha demissão — o que deixou o coordenador desalentado e, na verdade, visivelmente perturbado com a expectativa do fogo que teria de apagar junto aos alunos, que diziam “me” adorar como professor. Só que esse “me” não era eu por completo. Não importa. O que importa, claros leitores, é o que percebam o absurdo da situação!

Há forças para além das históricas tendências impositivas que temos, de nos oprimir uns aos outros com imposições insanas, forças que instauram e realimentam constantemente essa nossa histórica hospedagem do opressor e essa nossa multiplicação e propagação constante da impositividade. Sobretudo atualmente e sobretudo no campo da educação.

Há, para sermos exatos e irmos direto ao ponto, pressões capitalistas que tendem a forçar os empreendedores do ensino privado universitário a cumprirem as exigências do Capital acima das exigências da qualidade.

E no Brasil de hoje, são pressões grandes e poderosas. Por que? Porque recentemente, grandes multinacionais entraram no “mercado” (quase me dá asco falar da coisa nesses termos) educacional brasileiro, derrubando com preços baixos (e baixa qualidade, evidentemente) e depois comprando, as instituições universitárias privadas uma a uma.

Instituições que estão há décadas e décadas nas mãos de famílias empreendedoras que batalharam muito por esse empreendimento, começam a sofrer dramaticamente o impacto de uma concorrência desmedida, e reagem a essas imposições de mercado… impositivamente, claro. Mais uma vez, hospedagem do opressor.

Há famílias para as quais seu empreendimento educacional é apenas uma fonte de renda, claro. Mas há outras para as quais esse empreendimento familiar é de uma importância indescritível, sobretudo passionalmente.

Neste segundo tipo de caso, se examinamos com a devida atenção as fontes do impositismo, trata-se de puro e simples desespero cego na luta contra os riscos de perder um objeto de paixão e dedicação familiar, e há então um claro apego de coração ao educacional. Entretanto nesta cegueira, o efeito da opressão sentida neste tipo de caso, do medo diante de uma luta como a de Ahab solitário contra uma baleia branca de enorme poder, é, como não podia deixar de ser, o que se desenrola pelos degraus abaixo na hierarquia das instituições.

Para além de todo o nosso histórico autoritário do Brasil, então, para além da nossa culturalmente histórica hospedagem do opressor, e de seu desenrolar escada abaixo na “porrada” dos degraus hieráriquicos uns sobre os outros, conforme o mecanismo examinado por La Boétie e retomado nas animações do filme do The Wall, as imposições capitalistas são o que mais tem repercutido no interior das instituições educacionais na forma de impositismo difundido e generalizado, e prejudicial às condições de ensino assim como às condições de trabalho humanamente digno. Principalmente (mas não apenas) nos meios universitários.

Sobre um Leviatã
que não é necessariamente o Estado
(nem tampouco é “solução”,
assim como o Estado não o é)

Já ouvi de colegas educadores de diversas instituições e que nem sequer se conhecem (muitos, na verdade) num mesmo tipo de pensar em voz alta quase que como desabafando, com os olhos vazios de expressão e parados no nada, frases como “não está mais valendo a pena dar aulas”, ou “preciso arranjar outra profissão… urgente”.

É fato que já quase não é viável mais, hoje, no Brasil, ser “apenas professor”: para sê-lo, é preciso ser ao mesmo tempo um tanto masoquista, ou então (opção bem mais difícil) uma espécie de guerrilheiro pedagógico, terrorista do questionamento, burlador subversivo das funções e mecanismos impositivos, em favor do aprendizado real (isto é, do anti-impositivo em todas as direções, do relacional e humano, do libertador) — variações de uma postura que, paradoxalmente, tende a nos transformar ao mesmo tempo em alvos preferenciais do bombardeio impositivo, além de tender a nos mitificar e estigmatizar positiva e negativamente.

Andei vendo um filme, recomendado por um amigo, que me fez pensar. Chama-se Leviatã, e é um filme russo. Há coisas naquele filme que mostram bem a impositividade em ação nos mecanismos de poder soviéticos. O que o filme me fez pensar foi precisamente o seguinte: a impositividade por pressões capitalistas não atua de um modo assim tão diferente.

Hobbes procurou um meio de nos libertar do pequeno leviatã impositivo e opressor que há em cada um de nós exteriorizando-o na figura de uma instituição de poder transcendente ao das pequenas imposições inter-relacionais. É uma solução autoritária, absolutista, como se sabe. O filme indicado por meu amigo faz a crítica deste tipo de solução, e concordo. Sou antiabsolutista até a medula.

Mas me desculpem o rocambole com que o digo… por outro lado faço aqui a crítica da crítica sem pretender cair no criticado.  É que acho importante observar algo mais do que Hobbes nos revela do problema, ao invés de focarmos tanto sua “solução”: que o absolutismo não está somente ali, no poder do Estado. Não é à toa que o antiabsolutista radical Proudhon, e depois outro antiabsolutista, Stirner, ambos anarquizantes para dizermos o mínimo, procuram se mostrar hobbesianos.

Também não é a toa que linhagens de mobilização popular tão libertárias quanto a dos Anônimos costumam adotar, em relação às autoridades corruptas às quais atacam, uma linguagem permeada de semitons hobbesianos — procurando controlar pelo medo (ou antes contra-atacar pelo medo, em face das ameaças impositivas). De minha parte, considero tudo isto respostas que tendem ao meramente reativo, e prefiro (para brincar de usar, e subverter, uma linguagem tipicamente empresarial) as repostas proativas.

Sei que este artigo repete muitas coisas evidentes e óbvias. Escrevo-o com os pés assentados no coração e na memória. Quando era ainda bem criança, tendo aprendido a ler e escrever praticamente sozinho, o primeiro livro que li na vida, num empreendimento obsessivo que me tomou uma semana inteira ou mais, foi O velho e o mar, de Hemingway, que me impressionou enormemente.

E pouco tempo depois, impressionadíssimo com o grande filme clássico Moby Dick, realizei minha primeira tentativa de produção artístico-literária: tentei reescrever Moby Dick à minha maneira, com o fantasma de O velho e o mar ainda pairando sobre minha cabeça. Foi demais para minha idade. Não consegui. As duas histórias, inclusive, eram claramente apropriadas apenas para gente de outra idade, acho que nem mesmo para adolescentes, quanto mais uma criança recém-alfabetizada.

Depois de algumas páginas escrevendo (e inúmeras arrancadas e jogadas no lixo quando percebia que tinha escrito alguma letra ou palavra errada), comecei a perceber que aquelas páginas eram a minha baleia branca, e que não ía vencê-la, ia acabar me afogando. Lembro que a certa altura chorava de ódio de não conseguir aquilo. E não desistia. As palavras viraram imagens, desenhos.

O navio de Ahab, em minha historinha, afundou rapidamente, e todo o resto do caderno — grosso, de muitas páginas, muitas enormes barrigas brancas a preencher com os rabiscos molhados de minhas lágrimas, estragando-se nelas — todo o resto da aventura, agora em desenhos mudos e manchados de gotas lacrimais de ódio, era a luta daquele último náufrago (que era eu) contra aquele monstro branco gigantesco, que queria afogar-me de qualquer maneira, por todos os meios. Ahab, amarrado à baleia, ainda me acenava da morte, e o fantasma do velho Hemingway me incitava a tentar o absurdo, o impossível, tentar ainda pescar aquele Leviatã.

Na minha historinha, a baleia acabou desistindo, eu sobrevivia por um triz, agarrado a uma tábua. Considerava um empate técnico, mas humanamente, uma derrota. Imensa, profunda e dolorosa.

Na realidade, fora de nossas fantasias e historinhas pessoais e emocionais, nas quais somos sempre os heróis, o fato é que os grandes Leviatãs não estão lá muito preocupados especificamente conosco. Somos apenas uma pecinha mais em um jogo de engrenagens maior, ora jogado com frieza estratégica, ora com sanha impositiva irracional, e na maioria das vezes, dos dois modos meio que simultaneamente.

Nas incontáveis ondas das desventuras da educação brasileira, entretanto, marujo de muitas aventuras, de certa maneira nunca cheguei no tal puro e simples “impasse” superficial do “sobrevivi” mas com derrota moral… porque nunca realmente desisti.

De certa maneira, nunca vou desistir.

Faz parte daquilo que sou.

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