O segredo da telepatia (ou No que é que Rousseau tinha razão)

por João Borba

Estamos na segunda década do século XXI, e o segredo da telepatia já está decifrado. Apenas não ligamos ainda os pontos com suficiente clareza para compreendê-lo de uma vez por todas. Esses pontos no entanto estão bem claros: foram esclarecidos pela neurociência, em um de seus temas mais interessantes — o que vem sendo chamado de novo inconsciente (porque inteiramente diferente daquilo que Freud preconizava).

Rousseau, em sua descrição hipotética do homem no seu “estado natural” havia falado sobre “piedade natural”, “comiseração”… a capacidade humana (ainda maior que a dos macacos) de “macaquear”, imitar — e com isto, reproduzir em si mesmo o sentimento de outro. Supunha entretanto que essa capacidade era disparada diante das expressões de dor. Um “bom selvagem” rousseauniano seria “bom” precisamente por isso: porque apesar de não ter qualquer noção de bem ou de mal, seria capaz, em sua inocência, de captar o sofrimento, a dor, a miséria, expressos pelo outro, imitando esse sentimento em si mesmo de modo a compartilhá-lo com a vítima original, e deste modo , apiedar-se dela.

Rousseau errou aqui gravemente ao pressupor que num primeiro momento só as expressões de sofrimento disparariam essa imitação, porque não há razão consistente para pressupor isso — e mesmo tratando-se de meras hipóteses, a própria posição contratualista, da qual Rousseau é somente mais um exemplar (seguindo a mesma proposta geral dos demais), pretende trabalhar com hipóteses que não sejam aleatórias, mas tão razoáveis quanto possível. Hipóteses das quais se possam engendrar todas as consequências necessárias para uma tomada de posição pretendida na política.

O critério da razoabilidade das própria hipóteses básicas em si mesmas (aquelas acerca da natureza, do homem em estado natural, e do contrato social pelo qual superamos esse estado) — isto é, o critério da coerência nas razões a priori para pressupô-las — é perdido de vista apenas no neocontratualista John Rawls. Rawls, de fato, se satisfaz apenas com a justificação de suas hipóteses pela sua eficácia instrumental a posteriori na lógica geral dos raciocínios rumo às conclusões desejadas — por isso pode colocar hipóteses que, fora desse contexto, parecem absolutamente irrazoáveis (até cômicas). Mas Rousseau não.

Rousseau pretende efetivamente que suas hipóteses iniciais básicas sejam em si mesmas razoáveis, mais que as de Hobbes inclusive. Por isso podemos dizer que errou (perdeu-se da razoabilidade proposta por ele próprio) ao considerar as expressões especificamente de sofrimento como as primeiras que o homem perceberia nos outros e imitaria.

Essa correção anularia na visão original de Rousseau qualquer pretenso significado atribuível à expressão “bom selvagem” — pois essa semente de altruísmo inocente (ou coisa parecida) não seria de modo algum mais primitiva ou relevante que as sementes de outros sentimentos nada comparáveis ao altruísmo. Mas o mais interessante para o que pretendemos dizer aqui não é essa correção, e sim uma possível complementação que se pode fazer decorrer logicamente do próprio Rousseau estendendo um pseudópodo da sua teoria, por assim dizer, na direção de Wilhelm Reich — o psicanalista que vê os sentimentos brotando do corpo, das contrações e distensões musculares (e de certo modo reduzindo-se, ou fundindo-se, a elas: ocorrendo ali mesmo, e não fora dali).

Trata-se do seguinte: de que modo exatamente se materializaria no humano essa capacidade de imitação da qual Rousseau fala? E como é que dela (ou nela) emergiriam os sentimentos? — Diante de uma expressão emocional em outro ser vivo à nossa frente (sobretudo outro ser humano) imitaríamos essas mesmas expressões físicas dele (que observamos nele, portanto fora de nós)… as mesmas contrações e distenções musculares no rosto e no corpo, ou pelo menos contrações e distenções similares e que nos parecem equivalentes. E então reconheceríamos nelas, ou através delas, aqueles sentimentos que nos costumam levar a fazê-las.

Destarte a informação emocional se transporta (para usarmos um termo que é do próprio Rousseau) através do contato humano, de uma pessoa para outra. Rousseau, ao invés de “sentimentos” prefere falar em “transportes de sentimento” — de modo que não parece sequer chegar a compreender os “sentimentos” como algo que se dá fixamente no campo privado do indivíduo,  no seu campo íntimo e pessoal. Entretanto, sua busca de razoabilidade o leva a descrever esse “transporte de sentimento”, ao detalhá-lo, mais como uma recriação “aqui” do sentimento originalmente ocorrido “ali” (ou de um parecido) — imitamos as contrações e distenções musculares do outro, e percebemos (em nós) que são as mesmas que fazemos quando temos tais e tais sentimentos (que reproduzem aproximadamente os do outro).

Agora, suponhamos que a tal “telepatia” seja na verdade algo bem parecido com isso de que Rousseau nos esclarece. Basicamente, um captar mensagens no outro pela via de uma recriação delas em nós mesmos. É o que os estudos de neurociência tendem a nos sugerir.

Recomendo a leitura do livro Subliminar, de Mlodinow, como um primeiro passo na compreensão do novo inconsciente descoberto pela neurociência. Recomendo também, diante desta hipótese, que o leitor pense nos valores e perigos dessa “telepatia” retomando e atualizando autores como Maquiavel, Pascal, Montaigne, La Boétie, Hobbes e Diderot.

São autores que, no caminho que foi levando a Rousseau já sentiam a diferença da antiga vida medieval, em pequenas aldeias (ou em castelos) onde todos se conheciam de infância, para a nova era em que viviam: a do capitalismo crescente, com suas multidões de desconhecidos circulando diante dos olhos (e nos olhando também) nos mercados dos burgos.

Todos esses autores laboraram fortemente o tema então novíssimo da máscara social, da teatralidade nas interações humanas (fora do palco),do “jogo de cena”. Para eles, poder ou liberdade diante do outro dependem da máscara (Maquiavel, Diderot) ou estão ameaçados por ela (Montaigne, La Boétie), ou ambas as coisas (Pascal, Hobbes).

Neste quadro, a nova “telepatia” revista em face da neurociência, embora perca em (ingênua) credibilidade e (ilusória ou inexplicável) radicalidade, quando comparada ao conceito original — pois já não vai tão longe como ele, e se apoia menos em crença no que quer que seja de não observável — por outro lado é um conceito que recupera um certo valor bem humano, digamos assim. Isso porque se torna associável a temas muito marcantes e muito abrangentes relativos às interações humanas. Basta pensar, por exemplo, em algumas noções que passam a ligar-se decerto modo a essa nova “telepatia”, como os de sinceridade, e principalmente transparência. Ou ainda compreensão mútua, empatia… conceitos conectados, entre outras noções atraentes para muita gente, à noção de amizade (como em Montaigne e La Boétie).

As condições da boa “telepatia” seriam possivelmente aquelas mesmas do que reconhecemos como uma atitude amigável, compreensiva — desprendendo essa “telepatia” de seu sentido originalmente relacionado a um poder sobre os outros — embora esse desprendimento que permite uma nova compreensão da coisa não elimine a possibilidade de sua compreensão oposta, como instrumento de poder (bastando para isso lembrar os conselhos de Maquiavel para os príncipes).

No campo da neurociência, finalmente (para abordarmos de uma vez o tema da “telepatia”) ao invés de rodeá-lo com coisas que não parecem assim tão ligadas a ele, alguns pontos já bastante esclarecidos podem trazer uma luz ainda maior a esse “transporte” de sentimentos de que falava Rousseau, e de modo a mostrar como o tema se aproxima, sim, dessas questões. E pode-se dizer inclusive que envolvendo um “transporte” não só de sentimentos. Vou tentar mostrar como a noção de “telepatia” na verdade parece emergir de três pontos especificamente, entre tantos outros esclarecidos pela neurociência a respeito do novo inconsciente que ela vem descobrindo no homem:

  • as microexpressões faciais e corporais involuntárias, que denunciam muito discretamente pensamentos, sentimentos e intenções;
  • a formulação (consciente ou não) e a captação (inconsciente) de mensagens subliminares;
  • o reconhecimento de padrões.

Digo que tudo o que se pode entender sanamente por “telepatia” se esclarece na reunião desses três pontos, sendo que os dois primeiros se dão apenas na presença de pessoas ou de signos diretos e indiretos de expressão delas, e o terceiro pode ocorrer em casos assim ou apenas na presença desses signos. O que se pode entender por “telepatia” na verdade decorre da correlação desses pontos com tudo o que foi observado acima acerca de Rousseau.

Captamos indiretamente, pelas microexpressões físicas e faciais, sentimentos e pensamentos de pessoas que observamos, de um modo que para nós é quase sempre inconsciente ou semiconsciente. E podemos captar também, como numa espécie de espelho, sentimentos e pensamentos de uma pessoa X atrás de nós, observando uma que está à nossa frente e que reage em microexpressões ao comportamento dela… e esse jogo de espelhos pode se ampliar enormemente conforme o número de pessoas (passantes desconhecidos por exemplo) ao nosso redor. Note-se ainda que, muitas vezes, uma reação física discreta, em microexpressões, a algo inconscimentemente captado em alguém, pode perdurar por algum tempo ou ser relembrada quando estmos diante de uma outra pessoa, transmitindo isso a ela.

“Telepatia” é apenas uma capacidade (geralmente sem autocontrole) de em certos momentos dar uma atenção especial, focalizada e mais nítida a uma certa porção dessa massa de conteúdos de informação sutis transmitida subliminarmente por meio de microexpressões. E, note-se bem, essa “telepatia” rarissimamente se desliga de reinvenções inconscientes por parte dos envolvidos que distorcem os fatos.

De modo que seu efeito ocasionalmente e em alguma medida “eficaz”, é apenas uma combinação de:

  • por um lado, condições perceptivas e expressivas, de sensibilidade e atenção (e receptividade não-criativa), muito particulares do assim chamado “telepata”;
  • uma longa cadeia de coincidências que por acaso tenham conduzido a uma não-distorção da mensagem original “capata” pelo suposto “telepata”.

Mas há mais do que isso na tal “telepatia”, porque há também o reconhecimento de padrões — que podem estar presentes no ambiente mesmo sem a presença de pessoas. Padrões que acabam por sugerir similaridades entre esse ambiente e outros (na memória do “telepata”), que estejam associados de algum modo para ele  a sentimentos e pensamentos similares aos supostamente “captados”… e, é claro, algo em algum desses padrões deve sugerir associações também com a pessoa de quem se está supostamente “captando” essa mensagem.

Mas espera um pouco, espera um pouco!

Tudo isso descreve a “telepatia”realmente eficaz como algo não apenas raríssimo, mas dependente de coincidências e associações incertas, e na verdade distante daquilo que se costuma entender por “telepatia”, porque depende totalmente de informações acaso presentes no meio externo. E também de uma tão rara que quase impossível condição de que tais informações venham a ser corretamente distinguidas de outras irrelevantes, relacionadas ao emissor correto, e depuradas de interferências criativas e distorcivas por pessoas que são “canais” pelos quais a mensagem passa, bem como da própria expressão dessa mensagem em “sinais” captáveis em padrões no ambiente.

Sim.

Mas ainda digo mais — e é de tudo o mais interessante: segundo a neurociência, uma imensa porcentagem de tudo o que consideramos acerca do passado, próximo ou distante (se aproximando assustadoramene dos 100%, embora não chegue lá), é pura e simplesmente uma reinvenção aqui e agora a partir de uma memória na verdade absurdamente fragmentária, e mais apoiada em padrões prefixados do que realmente na impressão dos fatos reais. Reinvenção reafirmada de imediato coletivamente, de modo explícito e principalmente subliminar (via microexpressões) por quem quer que esteja conosco quando a “lembrança” se formula  na nossa mente.

Para sermos exatos, aliás, na verdade o “fato” não é realmente lembrado, ele na verdade se recria em nossa mente sob as influências mais recentes das microexpressões de pessoas com quem estivemos ou estamos em contato, e soba influência de padrões captáveis e interpretáveis como “mensagens” no ambiente atual em que estamos.

Mas então, de qualquer modo, o próprio sentido de “telepatia” acaba por ser uma criação coletiva daqueles que respondem subliminarmente à pessoa que, em dado momento, mesmo que não diga nada, julgue estar captando algo “telepaticamente”!

Exato. Ao captarem subliminarmente o sentimento do suposto “telepata” de estar sendo “telepático”, respondem também subliminarmente de modo afirmativo ou negativo a essa possibilidade, mas o próprio fato de responderem (pelo sim ou pelo não) a reafirma para o pretenso “telepata” como uma possibilidade que ao menos faz sentido

…e de algum modo até que faz, se prestarmos bem atenção aos meandros de todo esse raciocínio (quase) no fundo tão (aparentemente?) antitelepático.

Espero ao menos que simpático.

 

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