O sentido, a organização e… nada

Organização… hummm…

Tenho sempre relutado muito em aceitar, em relação a essa noção, uma ideia que as pessoas costumam aceitar com muita naturalidade, tanta naturalidade que minha relutância tende a parecer sem sentido, insana, cômica, bizarra etc. Como será que uma pessoa com o posicionamento padrão habitual em relação ao assunto veria essa minha relutância? Imagino. Acho que ve veriam mais ou menos como uma criança que tapa os olhos e diz não existe para aquilo que não quer que exista, que gostaria que não existisse… Tolinho, em suma. Tapar os olhos, tirar algo da própria vista não faz com que esse algo deixe de existir, não é mesmo?

Só que crianças costumam tapar os olhos para coisas ruins, como monstros imaginários  (o bicho-papão e coisas parecidas). Meu caso, para algumas pessoas, pode parecer ainda mais risível que o da inocente criança: pois tapo meus olhos para a “evidente” (e ponho isto entre aspas apenas porque quem está escrevendo aqui sou eu, e não essas pessoas cujo pensamento imagino), repito, para a evidente organização da natureza. Pois é assim que consideram a coisa em geral: como evidente.

Deste ponto de vista padrão habitual, que considera a natureza como organizada, quando comparo meu corpo, como já fiz mais de uma vez em artigos meus no Blog Quemdisse, a um rocambole desengonçado de carne despecado e esborrachado no chão (dando a entender algo desorganizado e decadente)… quando faço isso, enfim, deve parecer que estou tapando meus olhos para o “evidente” desenvolvimento organizado dos seres vivos, que por isso mesmo são chamados aliás de “organismos” — e mais: essa organização da natureza costuma ter, para as pessoas, um caráter inclusive positivo! 

Se a organização da natureza é coisa positiva, isso deixa meu “tapar de olhos” para a coisa ainda mais esquisito e risível. A criança tapa os olhos para coisas ruins (reais ou imaginárias), e eu tapo os meus para algo positivo, e prefiro imaginar meu próprio corpo, meu próprio organismo, como algo pior (algo comestível, assumindo a postura de presa natural para algum carnívoro, e que além disso é desengonçado e e está espatifato no chão, pois é com essa imagem que tenho descrito os corpos humanos incluindo o meu). Destarte pareço não apenas uma criança tola, mas ainda por cima birrenta, como uma criança que quer ser do contra.

O fato de que a natureza seja “organizada” costuma ser visto, insisto, como algo “bom”, algo “positivo”. Por que? Tempos atrás, havia pelo menos uma razão que parecia bem clara: imaginava-se a natureza como algo feito por Deus, e Deus como “bom”, de modo que não faria, não criaria, uma natureza “má”, caótica, desorganizada. Mas era uma razão tão clara quando perfeitamente insuficiente: por que é que tendemos a considerar o “organizado” como “bom” e o “caótico” como “mau”?

Passada a moda desa postura religiosa em relação à coisa, veio com Charles Darwin a postura evolucionista para tomar-lhe o lugar. E mais uma vez, o organizado foi suposto “positivo”, “bom”, e o caótico, o desorganizado, como “ruim” ou “mau”. Só que desta vez com “aval científico”.

Uma mesma avaliação continua sempre presente, do religioso ao evolucionista , do evolucionista ao religioso. A avaliação de que a a organicidade natural é algo “bom”, e de que ela se opõe a algo caótico que seria “ruim”.

Nos dois casos me parece ocorrer uma continuidade, valores que não mudaram, que continuaram iguais. Nos dois casos exist a ideia de que do caos à organização existe o desenvolvimento de algo “melhor”, e da organização ao caos uma decadência para algo “pior”. Por que? Porque nos dois casos — tanto no evolucionismo darwiniano quanto no pensamento religioso que tanto patrece opor-se a ele — temos a ideia de que existe algum sentido na organização, e de que esse sentido, esse rumo ou caminho apontado pela organização, é “bom”.

E é observando isto que começo a perceber com mais clareza as razões da minha própria rejeição da ideia de que a natureza seja “organizada”. É que continuo com a mesma valorização da organização como algo dotado de “sentido”, e de um “bom” sentido (humanamente bom, bom para nós, humanos). Entretanto… não vejo nada, absolutamente nada na natureza, caminhar para um um sentido que para nós seja “bom”. O que vejo é a lei da entropia conduzindo tudo, isto é, a tendência universal para a dissolução, a indiferença, a morte.

Ora, se vamos considerar como “organização” algo que tem um sentido “bom” para nós, então não podemos considerar nada do que se faz segundo as leis da natureza como “organizado”! E se por outro lado, vamos considerar o que se desenvolve segundo as leis da natureza como “organizado e bom”, então temos que adotar uma postura suicida, anti-humana, porque estaremos valorizando a entropia, a nossa indiferença e a nossa morte.

Do ponto de vista humano — e daquilo que é humanamente bom, bom para nós, humanos (e diria ainda mais, bom para os vivos em geral) — morrer não é nada bom. Bom para o “humano” é poder continuar a existir e a se desenvolver ainda mais enquanto “humano”. Bom para o “vivo” é poder continuar a existir e se desenvolver como “vivo”, não como alguma outra coisa ou parte de alguma outra coisa, não dissolvido no resto da natureza.

Tudo faz sentido, uma vez que tudo se move em alguma direção. Com exceção da morte final e definitiva, da dissolução total, da inexistência e da indiferença completa… para a qual todos os movimentos, do que quer que seja no universo, isto é, na natureza, acabam convergindo. Portanto, o sentido final e resultante de tudo, o sentido último de todos os sentidos, é o suicídio dos sentidos, a auto-anulação do próprio sentido de “sentido”, o sem-sentido final.

Deste ponto de vista, se considerarmos que o que se “organiza” está tomando algum rumo, e se organiza precisamente para tomar melhor esse rumo, algum sentido ou direção, ou toma melhor esse rumo, esse sentido, essa direção, na medida em que se organiza, então em última instância nada se organiza. Ou — outra possibilidade — toda “organização” é um disfarce, um sem-sentido disfarçado sob um sentido provisório aparentemente desviante. Toda organização é meramente aparente, uma ilusão provisória, um escapismo, uma fuga da realidade. E todo “sentido” também o é.

E nesse “sentido”, meus rocamboles de carne espatifados no chão como imagens dos organismos vivos em geral (do meu próprio corpo, por exemplo), é perfeitamente cabível, e prenuncia até algo do sentido final e real de todo organismo e de tudo, que é o sentido da entropia: o sem-sentido, a inexistência e a morte.

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