O valor do que tem sentido: polissemia dos valores morais

Sobre valores morais… que dizer?

Caminhamos. Sempre. Nos movemos, nos alteramos em alguma direção.

Como o contexto em que estamos também está sempre em mudança em alguma medida, pretender contrariar e não acompanhar as mudanças é alterar-se (em relação ao que seria o caminho para o qual estaríamos naturalmente sendo arrastados pelo contexto). É impor a essa tendência natural uma alteração. E seguir as mudanças do contexto, por outro lado,  é também alterar-se (pretendendo ou não) — porque é alterar-se passando da posição ou condição atual, quando nos consideramos isoladamente e sem o contexto, arrastados pelas alterações desse contexto.

Portanto, não existe isso de “não se alterar, não mudar”.

O que somos, tanto coletivamente quanto individualmente, é justamente isso: somos processos em constante alteração. Mudamos de contexto, ou nos deslocamos de um contexto para outro, individual ou coletivamente, e essas alterações contextuais nos alteram por dentro.

Mudamos por dentro, vivenciamos uma alteração interna a nós individualmente ou interna a alguma coletividade em que estamos integrados, e isso em alguma medida afeta e altera esse nosso arredor, produz um certo campo de alterações, mais amplo e mais profundo ou mais restrito e mais superficial.

Cada alteração, cada mudança, tem a cada momento algum sentido, uma direção na qual vai (ainda que se desvie para outro sentido no percurso, em função de diversos fatores). Tudo sempre faz sentido.

Um valor positivo, daqueles que perseguimos, na verdade é apenas a projeção para mais adiante, daquilo que ja está inscrito em nossos rumos de alteração até o momento, no sentido que eles vão manifestando, conforme um histórico que nos é ora mais antigo, ora mais recente.

O movimento ou ação é anterior ao valor — que apenas exprime sua projeção num futuro provável, razoavelmente previsível, de maior e maior aproximação em relação a esse valor, e não o contrário. Um valor que avaliamos como negativo, daqueles que rejeitamos e evitamos como indesejáveis, é uma projeção histórica ou biográvica no sentido oposto, rumo ao passado, aquilo de que estamos nos afastando.

Só que não somos processos simples.

Equanto processos (e falo tanto de indivíduos quanto de coletividades) somos na verdade uma composição de inúmeros outros processos cada qual com seu próprio sentido ou rumo de desenvolvimento, seus próprios valores positivos e seus próprios valores negativos.

Reduzir essa complexidade (tanto do indivíduo quando da coletividade) a uma caricatura monointerpretável, por exemplo reduzi-la a uma categoria geral e abstrata a partir de alguns poucos traços característicos privilegiados na observação, sem as diferentes facetas e sentidos coexistentes ou julgando-as como “erros”, “incoerências” etc., não é apenas cometer um erro grave de compreensão por excesso de abstração simplificadora. É cometer além disso uma tolice estratégica extremada no relacionamento com esse indivíduo ou coletividade. E é também, no mesmo movimento, cometer uma atrocidade desumana.

Se podemos atribuir a toda essa complexa composição de processos um só sentido ou rumo que parece ser o do nosso desenvolvimento, é apenas porque esse sentido ou rumo exprime na verdade um vetor geral resultante de todos os subprocessos componentes dessa composição complexa.

Mas esse sentido geral resultante pode variar e oscilar, conforme mudem as forças ou sentidos dos vetores menores que o compõem (e eu diria inclusive que o compõem por dentro e por fora). E isso significa que as projeções de futuro adiate (e “adiante” quer dizer rumo a valores buscados, perseguidos pelo movimento que projeta tais valores em sua extensão lá na frente) também podem mudar.

É natural que haja oscilações entre diversos sentidos de desenvolvimento igualmente dominantes e não-coincidentes ou até contraditórios na composição do vetor geral resultante em qualquer ação humana, individual ou coletiva, e condenar a presença disso em um processo não tem o menor cabimento, pretender reduzir autoritariamente e caricatamente a complexidade de sentidos que produz o sentido geral resultante de uma qualquer ação humana, individual ou coletiva — é um comleto e tolo e pernicioso absurdo.

É um completo e tolo e pernicioso absurdo, por exemplo, reduzir a complexidade de um indivíduo, tachando-o apressadamente de “coxinha pró-capitalista”, de “comuna autoritário”, de “traidor” (desta ou daquela linha de conduta que, à esquerda ou à direita, o próprio acusado de “traição” explicitamente nunca pretendeu defender ou seguir) etc. etc. etc. …sem efetivamente examinar-lhe a complexidade do posicionamento.

Também o é fazer isso com toda uma coletividade. Por exemplo um setor da sociedade que se manifesta publicamente em passeatas de protesto ou de exigência de alguma coisa, tachando-a de “classe média” e atribuindo-lhe um perfil conservador supostamente único e sem divergências, que teria apenas “se revelado” como se fosse uma “verdade oculta” por detrás de manifestações inicialmente de superfície esquerdista — como se as divergências e a diversidade de eposições e projetos nas passeatas iniciais fossem alguma espécie de sinal de fraqueza ou deficiência e de superficialidade inconsistente, e como se a emerg?ncia depois de uma unidade de sentido impactante de perfil bem mais conservador fosse “a revelação” da “verdade profunda” da coisa. Esse tipo de análize revela apenas uma coisa: a profunda imbecilidade e rasa mediocridade (para não dizer o tacanho oportunismo interpretativo) do analista. Nada mais.

Também é aliás uma redução tosca, caricata, superficial, medíocre, oportunista, imbecil, completamente tola, perniciosa e absurda (ou resumindo tudo isso, autoritária) pretender que algo como “a classe operária” como um todo, por exemplo tenha ou deva adquirir um perfil único, livre de divergências (de complexidade interna de posicionamentos) e dotada de uma espécie de “tarefa histórica (eu diria histérica) única para a qual estaria de algum modo histórica e economicamente predestinada. Beira o ridículo.

Mas não é possível rir desse ridículo, porque é posicionamento real; (ainda) poderoso em setores significativos de diversas sociedades no mundo; e “stalinisticamente” perigoso digamos assim —  exceto pelo fato de que na atualidade está perdendo o pé da realidade a própria caracterização da classe operária industrial como “a classe portadora da tarefa histórica de realizar a grande revolução que porá fim ao capitalismo” (em versões mais distorcidas em relação ao Marx original, essa classe ladeada pelo figura camponês)… esta e outras balelas reducionistas e caricatas do gênero, aproximadas a esta, vêm se tornando cada vez mais evidentemente coisas de um anacronismo insustentável, pelo que se pode projetar dos desenvolvimentos dessa porcaria horrorosa e igualmente danosa, senão ainda pior, chamada capitalismo.

Trabalhar com o conceito de algo como uma “classe sócio-econômica”, como se esta expressão simplificadora fosse mais que um conceito descritivo externo, caricato e superficial, de utilidade apenas didática para melhor compreensão das raízes de certos conflitos sociais profundos e gerais, é absurdo. Não há algum agente único com o mesmo perfil (descritível em alguns pequenos, simples e grosseiros traços gerais) que seja “o agente” necessário de uma necessásria revolução por vir. Os conflitos, profundos e reais que sejam, e por mais que possam sim cindir a sociedade bipolarizando-a, não têm e não têm como ter por detrás deles um simples par de agentes historicos opostos — do tipo “exploradores” e “explorados” — cada um deles caracterizável em poucos traços grosseiros e caricatos, e dotados os dois sentidos de ação simples e monointerpretáveis, diametralmente opostos.

Essa caricatura abstrata e idealizante é precisamente o que beira o ridículo, e o que passa do ridículo ao gravemente pernicioso quando se pretende de algum modo forçar a produção ou emergência de tais unidades simples e opostas, como se este fosse o caminho para firmar e iluminar para os “dois” lados a cisão e a bipolaridade social. Só que não é o caminho correto para mostrar essa cisão (que sim, é uma cisão real e profunda). Não é o caminho porque não se trata de uma cisão que divide agentes de um lado e de outro, mas de uma cisão transversal que os atravessa a todos, cortando uns mais na superfício, outros mais no fundo, e inclusve oscilando e variando quando a isso, quanto a esse ponto em que corta e atravessa transversalmente, em cada agente.

Seja qual for o lado da cisão em favor do qual os diferentes agentes acabem por se posicionar, não se posicionam por sua condição social ser mais coerente com a defesa de um lado da bipolarização ou com a defesa de outro. Não: não há tais simplificações e elas não ocorrerão, a naõ ser sob a forma de discursos preconceituosos e superficiais lançados de uns contra outros, e nada mais que isso: gente é — efetivamente — bicho (ou processo) de rumos complexos e que resultam (só podem resultar, sempre) em um vetor geral oscilante em função dessa complexidade.

E isto quer dizer: os sentidos de ação oscilam, e atenção: os valores (e inclusive os valores morais) tambémem toda e qualquer classe ou categoria sócio-econômica.

E não, não vislumbro vislumbro qualquer possibilidade (ou desejabilidade) de que isto algum dia não ocorra, a não ser (para os que querem isto, entre os quais não me enquadro) por uma brutal e autoritária redução do próprio caráter humano, por uma desnaturação desse bicho agressivamente sociável e complexo, soterrando essa complexidade sob camadas e camadas de preconceitos, num dique que tende a um dia aliás explodir e trazê-la toda à tona de volta… com violência.

O bicho (ou processo) “gente” é complexo e oscilante assim tanto no nível coletivo quanto no individual. E isto por uma razão  muito simples: porque tudo o que existe na face do universo também é (e digo que visivelmente, para quem efetivamente observe, e não rotule) complexo, oscilante e densamente processoal assim. Até mesmo uma pedra. O bicho gente, em sua aressiva sociabilidade, não apresenta absolutamente nada de especial que o faça tão diferente de qualquer outra coisa existente no universo.

Note-se bem. Estou exagerando propositalmente e retoricamente quando falo ou insinuo teses sobre a “natureza” de algo, “o universo” etc… tudo isso não passa de uma visão ou interpretação do real — e não, não há como superar esse plano meramente interpretativo. Uma pedra também não poderia superá-lo, se aceitássemos chamar de “interpretação” o que ela de fato realiza ao estar presente no mundo com a forma (o conjunto de características descritivas) que tem, e portanto selecionando e ordenando no mundo ao seu redor, devido a essa forma, o campo das possibilidades e probabilidades de relações que pode vir a estebelecer com o que quer que seja mais no universo. O mesmo ocorre com seres humanos, só que neles chamamos isso de “interpretação”, tendendo tolamente a acharmos que é algo de caráter puramente “mental” e de algum modo voluntário e consciente. Não é. E algo análogo, apenas, àquilo que a pedra faz quanto ao conjunto inteiro do que lhe existe como “outro”, pelo simples fato de ter suas próprias caracteristicas descritivas.

Enfim e em suma: agentes individuais e coletivos rumam simultamentamente e parcialmente e oscilantemente numa série de sentidos divergentes, porque se movem ou transformam conforme o sentido geral resultante (vetorialmente falando) de todos esses seus sentidos componentes divergentes menores. E a cada oscilação em seu sentido geral resultante, se configura todo um de seus jogos de valores (por exemplo morais), que é relativo ao que se revela desse sentido geral nesse momento da oscilação. Em outro momento da oscilação, outro jogo de valores coexisente com esse no mesmo agente (e nem sempre coerente com o anterior) se manifesta, e assim por diante, podendo haver várias diverentes configurações coexistentes e igualmente passíveis de se manifestarem em um momento ou em outro.

No percurso, certos rumos, e com eles certas configurações de valores, podem ganhar força e se tornar dominantes em relação aos outros, sumergindo-os em sua sombra e operando uma curva específica de desenvolvimento nesse processo (que ainda assim permanecerá oscilante, mas com desequilíbrio de força e influência de algumas das configurações de valores que estão se manifestando nessa oscilação sobre outras.

Parte da responsabilidade por cuvas como estas (por exemplo mais para a direita ou mais para a esquerda) está no próprio histórico de desenvolvimento do processo, outra parte nas forças e contraforças com as quais foi se chocando no caminho, outra ainda nos reflexos (ou reflexões) que o processo teve como feedback no seu caminho de desenvolvimento, a respeito de si próprio… porque o processo humano individual ou coletivo se desenvolve também no sentido do autoconhecimento e mais precisamente da autoformação, da autoalteração mediante feedbacks que recebe acerca de suas ações, valores e posicionamentos. E esta nem sempre é (e aliás quase sempre não é) uma autoformação ou autoalteração consciente e voluntária de seus desvios de curso.

Dito tudo isto, quem pretende compreender o que ocorreu na passagem das manifestações e passeatas iniciais, carregadas de valores direta ou indiretamente libertários, para as passeatas atuais, carregadas de valores reacionários ou ultraconservadores, às vezes entupidos de preconceitos e sanha agressiva, e no menos ruim dos casos de perfil tendencialmente liberal-burguês e pró-capitalista… quem pretende compreender essa passagem, enfim, e acima de tudo quem pretende de algum modo representar ou lutar para fazer valerem valores mais libertários, precisa compreender muito bem alguns pontos relativos a toda essa série de passeatas e a tudo isto que acabo de dizer.

ANTES DE QUALQUER OUTRA COISA: não, não houve uma manifestação ou revelação dos valores ocultos de uma camada social que era a que estava se manifestando, porque os manifestantes não são exatamente os memos. São apenas parcialmente os mesmos. E mesmo os que despontram mais conservadores, não viriam a apresentar necessariamente esse perfil. A estratégia boa ou ruim de outros fatores em jogo (por exemplo partidos) assim o permitium e até o estimulou.

O setor maior, mais ativo e mais intenso e consistente dos manifestantes de perfil mais libertário das manifestações iniciais se calou e se retraiu, deixou de se manifestar. Em meu entendimento porque não era nem de longe um grupo majoritariamente de perfil anarquista ou autonomista (quer dizer, defensor de democracia direta). E nem mesmo voltado para a luta pela participação popular na política, inclusive. Na maioria, queriam (infelizmente) poder se sentir politicamente representados por partidos, é o que me parece.

De modo que quando digo que havia nos manifestantes e passeatas iniciais valores mais libertários se manifestando, não uso a expressão “libertário” no sentido de “anarquista” nem tampouco no sentido mais amplo e de uso corrente em que se considera marxistas e outros socialistas também como “libertários”. Estou tomando esse termo num sentido superabrangente como referente, geral e vagamente, aos que lutam pela libertação em relação a uma vida de restrições e limitações impostas pelos mecanismos de acumulação de poder (por exemplo na forma de capital, mas não apenas sob essa forma).

O que avalio é que esse setor dos manifestantes ainda era naquele momento (e ainda é  o atual) de perfil politicamente democrata-representativo. Na maioria ainda confia e espera — por incrível que pareça — que virá “a solução” partidária-representativa que lhes garantirá a efetivação desses valores “mais libertários”, apesar de todo o entusiarmo de participação nas manifestações de rua. Acho que esperam (ou desesperam) de quem fará isso por eles na forma de uma ou mais organizações político-partidárias de perfil “novo”, “mais moderno e jovem”, à esquerda — de modo que me parece que, em sua maioria, tendiam a encarar suas próprias passeatas já desde aquele tempo de entusiassmo como algo provisório, para pedir por isso da parte de futuras forças públicas.

Minha avaliação é que esse setor tinha de modo geral esperanças nesse sentido depositadas parcialmente no próprio PT, em alguma reviravolta desse partido, parcialmente em outros partidos de esquerda que têm sempre orbitado menores ao redor do PT, e parcialmente numa solução que apontava para lideranças como Marina Silva ou algo de perfil similar. As noções de ser alguém “ecologista” ou coisa de esquerda “mais moderna” assim, e especialmente a de Marina ser “emergida do povão” à maneira de Lula, mas parecer representar algo mais moderno, pegavam bem de modo geral. Havia simpatia.

Minha avaliação é a de que essa gente toda não encontrou guarida satisfatória para suas esperanças imaturamente partidário-representativas. Por isso se retraiu.

De que essa gente toda não se sentiu efetivamente abrigada nem de um lado nem do outro, no final das contas, e não tendo uma visão mais de si mesma como força política plural de sociedade civil organizada que poderia amadurecer com autonomia frente a quaisquer partidos de esquerda para depois insttumentalizá-los, começou pelo contrário a se retrair assim que os valores mais conservadores do outro setor dos manifestantes, apenas parcialmente misturado a este, começaram a vir à tona com agressividade cada vez mais intimidadora, em grande parte reagindo agressivamente contra o próprio prolongamento dessa situação de passeatas e protestos, compreendida por esse setor mais conservador como um mal necessário, a ser resolvido rápida e decisivamente, sem mais “enrolação” e “baderna” na rua.  Me parece que o setor mais conservador dos manifestantes assumiu  até certo ponto bem essa postura paradoxal, de se manifestar com firmeza para pôr um fim de uma vez em tudo isso, contra o prolongamento das manifestações, em suma.

Entre os dois setores, a parte mais moderada de ambos me parece ter predominado, misturando-se aos dois lados em geral sem perceber com clareza e nitidez essa polarização de valores (não se reconheceriam nessa descrição que fiz do setor mais conservador dos manifestantes, e aceitariam mais ou menos bem o que tenderiam a ver como pequenos e relativamente inofensivos “exageros”, “estravagâncias” as posturas do setor mais intensamente libertário.

Quando este último se retraiu, os mais moderados ficaram com os conservadores, sem notarem sempre com clareza sua própria diferença em relação a eles, e acabaram lhes servindo como massa de reforço para contaminarem com valores conservadores mais pesados os diálogos em torno do foco que se ia concentrando cada vez mais em uma luta contra a corrupção. Com os mais libertários retraídos, os mais conservadores tomaram a dianteira, e a luta contra a corrução foi rapidamente se configurando como uma busca de bodes expiatórios com alguns traços de sanha vingativa — e mais uma vez, não creio que a massa dos manifestantes mais moderados se reconheceria de modo algum no que estou descrevendo.

O conjunto inteiro de todos esses manifestantes que tiveram mais expressão, foi se desenvolvendo e se processando e se alterando então mais ou menos com estas curvaturas em seu rumo: primeiro os mais libertários, com apoio dos mais moderados, depois, com a retração deles, os mais radicalmente conservadores passaram a acompanhando a massa desses mais moderados dando um pouco do tom que acabaria por caracterizar o sentido do movimento em sua curva final até aqui. Dilma e o PT caíram vítimas em grande parte dessa curvatura de valores dessa camada de manifestantes, e não meramente do PMDB, do PSDB e afins.

Quanto à mídia, claro que teve um papel relevante — por que? Porque um processo coletivo em desenvolvimento, tomando ação nas ruas, é como já disse também (e sempre) um processo em autoconhecimento e autoformação, alimentando-se do feedback que vai encontrando às suas ações pelo caminho pelo qual vai se espelhando e tomando alguma curvatura de rumo, privilegiando alguma de suas configurações de valores oscilantes e alternativas.

O movimento tendeu a partir de um certo momento a firmar rumo em uma curva para a direita política, com seus participantes mais moderados custando muito a enxergar isso, e tendendo a encarar essa descrição de sua participação como algo do tipo “desaforo”. Mas a agressividade de seus parceiros mais firmemente à direita vai agora lhes abrindo os olhos aos poucos.

Pois bem: grande parte de todo o conjunto desses manifestantes (e não, não todos, de maneira absolutamente nenhuma) era do que muito vagamente se pode classificar como “classe média”, já que essa grande parte não era propriamente pobre, mas de modo nenhum era rica. Essa classificação no entanto é absurdamente pobre e precária. Serve aos de tradição marxista para avaliarem que todas essas oscilações ou contradições seriam fruto precisamente de sua condição de classe média, supondo que se fosse uma mobilização mais efetivamente popular e generalizada nas camadas economicamente mais baixas da população, o movimento não assumiria esse perfil oscilante. — Isto é precisamente o que estou negando. Tais oscilações não são características de “classes médias”. São características de indivíduos e grupos (ou coletividades) humanos. Sempre.

Assim como numa elaboração mais complexa e incabível neste artigo — e me perdoem porque sem isso na verdade me arrisco a parecer um pouco louco aqui — poderia avançar e esclarecer que tais oscilações estariam presentes também em pulgas, minhocas, pedras, caixotes, postes, raios de luz, estradas, florestas, samambaias, vulcões, oceanos, gotas de chuva, bananas, feijões, garrafas de cerveja, desenhos animados, fluxos de energia, conceitos, instituições, leis, princípios, softwares, ideias, sentimentos etc. etc. etc. O que se pretenda pensar ou imaginar como simplesmente “existente” dentro daquilo que é humanamente captável na existência. Ou seja: toda e qualquer aparência humanamente captável pelos sentidos e/ou mentlmente. Todo e qualquer fenômeno.

No caso de indivíduos e coletividades da espécie humana, podemos usar a expressão “valores morais” para um certo tipo de valores que exprimem o sentido das ações e movimentos (ou transformações ao longo do tempo) quando projetados na forma de previsão razoável para mais adiante que o momento presente (no desenrolar biográfico ou histórico desses processos que estou chamando de “indivíduos” e “coletividades”).

Cada processo humano individual ou coletivo em desenvolvimento (não importa a classe socio-econômica) oscila entre alguns jogos de valores morais às vezes consideravelmente diversos uns dos outros. Claro, compatíveis com as vivências desses processos humanos, ligadas sim entre outras coisas às suas classes socioeconômicas. Entretanto não há um conjunto fixo e exclusivo de valores morais que sejam sempre e necessariamente os de uma classe socioeconômico, a não ser por um esforço delirante de abstração da realidade concreta daquele que analisa.

Tampouco existe qualquer necessária e definitiva incompatibilidade “profunda” e “mais verdadeira” a ser descoberta ou revelada de uma classe socio-econômica a outra, entre todos os diversos, variados e até divergentes jogos de valores morais que podem emergir em um mesmo processo humano (individual ou coletivo) de uma específica classe sócio-econômica em particular, e os que podem emergir da outra. Certas caricaturas estreitas, publicamente difundidas com persistência para descrever certos grupos, ou indivíduos, podem contribuir para criar nesses grupos ou indivíduos o inimigo ou objeto de atenção de relevância segundária que se pretende ver neles como se já estivesse ali — repito, criar, e não “revelar” como se fosse “a verdade profunda” do posicionamento deles, porque eles têm muitas dessas “verdades” divergentes em si mesmos.

O que se tende a tratar muitas vezes como revelação dos valores profundos de um gruupo ou indivíduo —termos como “coxinha”, por exemplo — na verdade não passa de um preconceito grosseiro que tende a alimentar como reação, nesse indivíduo ou grupo, um feedback para sua autoformação que é bastante desfavorável a quem promoveu esse preconceto como feedback, por ajudar a provocar uma curvatura em direção inimiga que na verdade não tinha nada de necessário, que não existia necessariamente ali com peso e relevância suficiente para tomar o controle dos rumos a seguir.

A estratégia de inventar um inimigo (um fantasma) para unir outros em luta contra ele não é sempre a mais adequada e a mais eficaz. E seguramente (pelo menos considerando qualquer situação que eu consiga neste momento imaginar)  não é nunca a mais decente.

 

2 comentários sobre “O valor do que tem sentido: polissemia dos valores morais”

  1. Olá João. Tenho interesse na sua dissertação de mestrado sobre Proudhon (Teatralidade e poder em Confissões de um revolucionário), contudo, não consigo achá-la em pdf no banco de teses e dissertações da PUC. Como faço para ter acesso a dissertação?

    1. Estranho não ter conseguido acessar pela PUC. Pessoalmente achei essa minha dissertação de mestrado bem ruim. A tese de doutoramento (também sobre Proudhon) está muitíssimo melhor. Meu projeto para essa dissertação de mestrao estava mil vezes melhor que a dissertação em si mesma, fugi do projeto original, e fiz mal. De qualquer modo vou tentar ver se encontro pra você onde está disponível ou se tenho alguma versão em pdf.

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