Os dois sentidos de “politização”

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1. Shakespeare

Estou começando a leitura de uma peça deliciosa de Shakespeare. É uma comédia de humor negro inspirada no Decameron de Boccacio, e se chama Bem está o que bem acaba. A peça foi escrita entre 1601 e 1608, bem no começo do século XVII, e Shakespeare, avançado como sempre em relação à sua época, colocou como personagem central uma mulher que consegue conquistar junto ao rei (por salvá-lo de uma doença com uma poção mágica) o direito de escolher o seu próprio marido — coisa praticamente impossível naquela época.

O leitor vai me perguntar o que isso tem a ver com questões políticas ligadas ao Brasil, e para responder a isso, preciso fazer um breve comentário sobre essa personagem central da peça shakespeareana (Helena) e mais um outro personagem chamado Parolles.

“Parolles” significa “palavras”. É uma alegoria. E embora nada indique isso explicitamente, suspeito que Shaekespeare tenha pretendido fazer uma alusão a dois personagens da Grécia antiga: a famosa Helena de Tróia e um sofista chamado Górgias.

2. Então vamos lá: quem foi Helena de Tróia?

Mesmo quem não está acostumado a ler texto clássicos como a Ilíada de Homero já pode ter assistido ao filme Tróia, com Brad Pitt. Trata-se da história da guerra entre os gregos e os troianos (a mesma famosa guerra do “cavalo de Tróia”).

É claro que as motivações reais de uma guerra costumam ser bem mais complexas, mas no mito sobre isso narrado no livro Ilíada a guerra acontece porque a jovem e bela Helena, esposa maltratada de um rei grego agressivo, acaba seduzida pelas palavras amorosas de um príncipe da cidade de Tróia e foge com ele. O marido traído, enfurecido e vingativo, faz alianças com vários outros reis e organiza a guerra contra Tróia.

Como os mitos tinham forte influência sobre a mentalidade do povo, e eram tempos de muito machismo, Helena passou a ser uma personagem muito mal falada, a vergonha da Grécia, condenada como responsável por uma guerra horrível que matou muita gente e destruiu a grandiosa cidade de Tróia.

3. Quem foi o sofista Górgias?

Os sofistas da geração de Górgias eram grandes mestres da arte da argumentação e eram, além disso, os maiores defensores da democracia.

Curiosamente, Górgias, além de sofista, foi talvez o maior “negacionista” de que se tem notícia na história da humanidade — dizia que não existia verdade, mas se existisse, não seria possível conhecê-la, e se fosse possível conhecê-la não seria possível comunicá-la para os outros! Só que ao mesmo tempo era um defensor das instituições da Democracia e dos princípios democráticos, do esforço em busca do diálogo, da compreensão entre os diferentes… apenas era pessimista (e muito).

Para Górgias, o esforço do diálogo era como o esforço de saltar de um universo para outro sem espaçonave. Dizer que duas pessoas chegaram a um acordo era fazer uma mera suposição, porque não se saberia se cada um realmente entendeu o que o outro quis dizer. Mesmo assim, tentar chegar a isso não deixava de ser importante.

De qualquer modo, então, Górgias nunca permitiria que suas ideias ameaçassem por exemplo o princípio democrático da decisão da maioria. Seguramente defenderia por outro lado um princípio democrático como o direito das minorias de não serem marginalizadas e oprimidas pela maioria — isso está implícito em seu pensamento, embora não fosse um direito muito oficialmente formalizado na democracia antiga de Atenas.

O direito das minorias hoje é importante, e é sempre bom lembrar que minorias não são necessariamente minorias numéricas, não é necessariamente uma quantidade menor de gente. Em política, “minorias” são os grupos sociais que têm mais dificuldades de fazer valer seus direitos, seja por serem menos gente ou por outras razões, como o preconceito por exemplo.

No caso do direito das maiorias, se Górgias questionava muito as bases dos acordos que formam as essas maiorias, perguntando se na verdade as pessoas não estão discordando sem perceber, por outro lado ele não faria esse questionamento se não soubesse que o direito da maioria estava fortemente firmado em Atenas, e que havia outros companheiros sofistas para defender esse direito, como Protágoras (outro membro do mesmo movimento sofista defensor da democracia).

Se Górgias nunca aceitaria por um lado que a maioria tiranizasse as minorias, marginalizando-as ou oprimindo-as, também não aceitaria de modo nenhum que alguma minoria tiranizasse a maioria, tirando direitos dessa maioria. Direitos, note-se bem, não são vontades. O seu direito não é qualquer coisa que você quer: embora você provavelmenre irá querer que seus direitos sejam garantidos, nem tudo o que você quer é direito seu. Uma coisa não é direito de um grupo social apenas porque ele quer que seja assim. No campo dos direitos, as vontades são necessariamente limitadas, porque uma não pode se impor a outra tirando-lhe a liberdade.

Em democracia, os direitos se limitam uns aos outros e vão se complementando para formar um jogo de equilíbrios que deve valer da melhor maneira possível para a liberdade de todos — tanto quanto possível sem que ninguém se imponha a ninguém, e na medida do possível sem que ninguém precise se impor a ninguém. É um jogo complexo e delicado, um equilíbrio difícil de se conquistar e que depois, em certas circunstâncias, pode se tornar difícil de manter, uma verdadeira luta.

4. Agora vejam só como as coisas se invertem de uma época para outra!

No Brasil de hoje os “negacionistas” são o oposto de Górgias. Estão diretamente conectados a um movimento de polarização agressiva e desestabilização dos princípios e instituições da Democracia, movimento que se desenvolve enraizando uma sucessão interminável de mentiras deslavadas que vão sendo colocadas insistentemente como “verdades” ao mesmo tempo que vão mudando aos poucos de acordo com a conveniência — apenas para garantir o poder de quem se aproveita delas!

E esses negacionistas brasileiros tentam fazer com que os direitos de todos de ir e vir livremente sirvam como pretexto para formar uma maioria que iria sair às ruas sem máscara em plena pandemia e pôr em risco o mais sagrado dos direitos para uma imensa multidão de pessoas: o direito à vida!

E são liderados por um presidente que, ao invés de dialogar com as divergências nos outros dois poderes, procura dominá-los levando aliados à presidência das casas legislativas, infiltrando infiltrando aliados no judiciário, e tratando de desqualificar os demais juízes com mentiras ou meias-informações espalhadas pela população. Um presidente que ignora a lista tríplice para indicação do Procurador Geral da República a fim de garantir ali um aliado (o que deveria ser terminantemente proibido).

Um presidente que se utiliza de um resto de sujeira antidemocrática deixado na Constituição para ser corrigido mais tarde (a Lei de Segurança Nacional) para atacar oposicionistas como se fossem criminosos, ao invés de debater com eles. Um presidente que agride os jornalistas, que são os responsáveis maiores pela garantia do direito de acesso à informação presente no Artigo 5º da Constituição Federal. E assim por diante.

5. O ponto de comparação mais interessante entre Górgias e os negacionistas do Brasil atual

O mais interessante na comparação dos atuais negacionistas brasileiros com Górgias é que Górgias era um dos maiores argumentadores do mundo em sua época, enquanto os argumentos dos negacionistas brasileiros de hoje se limitam a um fanático martelar da mesma tecla, insistindo teimosamente em repetir, com variações conforme a conveniência, argumentos que já foram há muito tempo definitivamente derrubados.

É também do espírito democrático um princípio muito característico da ciência: o de que os argumentos não podem ser tratados como meras justificativas a posteriori para uma opinião já decidida de antemão, não podem ficar sendo substituídos livremente enquanto a opinião se mantém independentemente deles.

Se os argumentos são derrubados, a opinião está derrubada. Ela pode resistir por algum tempo, mas não o suficiente para desqualificar os argumentos como base de sustentação. E é isso o que acontece quando os argumentos se tornam indiferentes porque a opinião continua sempre a mesma: eles deixam de ser base de sustentação da opinião e se tornam meras justificativas a posteriori.

Evitar isso e garantir que os argumentos sejam a base de sustentação sem a qual as opiniões caem, é um princípio democrático. Esse princípio é democrático porque é o princípio do verdadeiro debate, e não há democracia sem verdadeiro debate. Quando os argumentos viram meras justificativas a posteriori, já não temos mais uma opinião embasada em argumentos, o que passamos a ter é apenas um puro e tolo fanatismo.

6. Mas de onde vem todo esse puro e tolo fanatismo autoritário no Brasil?

O autoritarismo tem longa tradição no Brasil. A democracia é que é a novidade. E os ultra-conservadores reagem com muito incômodo e agressividade a ela.

O Brasil tem aproximadamente 5 séculos de história. Desses 5 séculos, aproximadamente 4 de escravidão, e no quinto, uma república que era “café com leite” e não pra valer, e duas longas ditaduras — com uma experiência curtíssima de democracia entre as duas. A nossa, atual, só veio depois. E complicada… passamos já por 2 impeachements nesse curto espaço de tempo e estamos a caminho de um provável terceiro.

A democracia — da qual temos tão pouca experiência em nossa história — é o regime político por excelência, o regime em que tudo depende do sentido político, da compreensão de que há múltiplos (múltiplos, e não meramente “dois”) grupos diferentes e divergentes coexistindo e convivendo em tensão na sociedade.

São grupos que procuram manter essa coexistência viável ao mesmo tempo tentando extrair dela vantagens particulares, muitas vezes infelizmente em detrimento de outros grupos — o que leva a alianças e oposições e a partir daí sim, a polarizações mais amplas por detrás dessa multiplicidade de grupos, no fundo dela, embora sejam polarizações flexíveis, que podem mudar de configuração no decorrer do tempo e com a mudança da disposição dos grupos uns em relação aos outros.

(Aqui abro um pequeno parênteses para dizer com todas as letras algo que pode talvez vir a chocar muitos companheiros meus de esquerda em política: digo que Marx não entendeu o que é a luta de classes, Proudhon e Georges Gurvitch sim, estes entenderam. E vou mais longe: digo que Marx não entendeu porque não quis, e que não quis inclusive por motivações pessoais bastante escusas e nada valorosas que não cabe discutir aqui.)

Mas voltemos ao nosso assunto.

7. O que Górgias tem a ver com Helena de Tróia?

O que Górgias, com seu negacionismo radical e democrático, tem a ver com Helena de Tróia?

Pois bem: Górgias gostava de assumir posições polêmicas e chocantes, para provocar as pessoas a pensarem. E naquele ambiente machista da Grécia antiga, em que a bela Helena do mito da Ilíada escrito por Homero parecia a megera maldita que havia traído o marido e provocado uma guerra, Górgias decidiu escrever um Elogio a Helena — um texto em defesa da moça, contrariando todo mundo na época.

O interessante é o tipo de defesa que Górgias faz de Helena.

Para os gregos antigos havia algumas entidades divinas ligadas ao poder das palavras sobre as pessoas. Havia as musas, que eram o espírito divino por detrás das palavras sábias e sedutoras, e ao sermos levados pelo poder das musas, nosso espírito era possuído em seguida pelo poder do Logos, entidade divina que representava os argumentos, a palavra argumentativa, raciocinada.

As musas, apesar de nos trazerem sabedoria, eram jovens brincalhonas que por diversão poderiam nos enganar. Mas por outro lado, estar bem sintonizado com o Logos era algo muito especial. A sintonia divina com o Logos nos colocava em uma posição superior no momento da decisão.

Pois bem: Górgias argumenta no sentido de demonstrar justamente essa ligação de Helena com o Logos — ouvindo o Logos através daquele príncipe de Tróia (e estando aberta para ouvir essa potência divina) é que ela teria se deixado levar pela sedução.

Se houve guerra, a culpa não foi de Helena, mulher maltratada pelo marido e cujo único pecado foi ser sensível ao Logos, ao poder dos argumentos — o que é mais digno de louvor do que de culpa. Se houve guerra, a culpa foi dos dois homens que se confrontaram através de Helena: o marido ciumento e vingativo de um lado, o príncipe sedutor de outro.

8. O que Helena de Tróia tem a ver com o Brasil de hoje?

No Brasil somos ainda muito vulneráveis à linguagem fácil e aos argumentos superficiais, porque entramos em contato com o poder do Logos, mas ainda não nos aprofundamos nele o suficiente para dominar esse poder. Somos possuídos pelo poder do Logos em suas formas mais superficiais, ao invés de o possuirmos em suas formas mais profundas. Não é nossa culpa. Como Helena de Tróia, viemos de uma história sofrida, somos sensíveis ao poder da palavra, o que é elogiável… mas ainda crus no manejo da coisa, e vulneráveis à malícia de canalhas.

O regime político que gira em torno da palavra argumentativa, em torno do debate, chama-se “democracia”.

A nação brasileira pode não ser tão velha como as da Europa, mas também não é tão jovem. E apesar de não ser mais tão jovem como país com os seus 5 séculos de vida, tem tão pouco tempo de democracia que politicamente ainda é virgem, inocente e sem experiência. Ainda não compreende suficientemente bem toda essa situação. Situação de múltiplos grupos divergentes e polarizando-se, em que ela existe. Ainda não compreende bem essa situação e ainda não sabe lidar suficientemente bem com ela.

Falo do brasileiro médio, de uma espécie de perfil mais ou menos generalizado do brasileiro, que me parece atravessar todas as camadas socioeconômicas sendo fortemente dominante em todas elas sem exceção de nenhuma.

Esse brasileiro médio é politicamente virgem, e está passando neste preciso momento por um difícil e psicologicamente confuso processo de desvirginização. Está sendo forçado a pensar politicamente porque a nossa dividida classe política instaurou à força uma polarização superficial e artificial em um nível que combina o puramente político-partidário com um choque de valores morais divergentes.

Nesse nível moral, aliás, a polarização desce muito mais fundo nas entranhas da sociedade, mas atiçada desnecessariamente e artificialmente de cima para baixo pelo nível político-partidário. É o nível político-partidário que a produz incitando conflitos que, mesmo tendo já aquele peso latente da constante reincidência cotidiana, poderiam ser resolvidos — e talvez apenas poderiam ser resolvidos — por via pacífica e democrática, visto que são agravados, e muito, pela polarização.

Mas há males terríveis que pelo menos em alguma medida vêm para bem: essa desvirginação política, essa perda da inocência, é indubitavelmente um bem em um país que já passou da idade para isso. Outros países com idade bem próxima da nossa se democratizaram e se politizaram muito antes. O problema é que venha em condições psicologicamente péssimas, de violenta e forçada, artificial, polarização — há dois sentidos para a palavra “politização”, que indicam dois caminhos para isso, e o brasileiro, ainda que esteja se politizando, está confuso, e se politizando principalmente pelo sentido ruim.

9. Os dois sentidos de “politização”

Existem dois sentidos, dois caminhos para “politização”, e na confusão psicológica desse momento de virada democratizante e politizadora, o brasileiro médio fica perdido entre os dois.

De um lado, existe uma “politização” saudável e democrática — e é em relação a esta que que se faz benéfica, até mesmo urgente, a “desvirginização política” de uma nação como a nossa, já passada da idade para isso. É a politização no sentido de compreensão das condições políticas e relações de poder efetivas em jogo em cada situação.

De outro lado, existe uma “politização” perniciosa: aquela que constrói e instiga polarizações artificiais para se espalharem pela sociedade, e faz isso onde o que seria benéfico para a democracia e equilibradamente para todos seria que não houvesse tal polarização.

A polarização no primeiro sentido é benéfica precisamente na medida em que ajuda a obter os benefícios que a segunda destrói.

10 – A Helena de Shakespeare e Parolles na tentativa de seduzi-la

Na peça de Shakespeare que mencionei no início vemos uma situação incomum para aquele início de séc. XVII em que ela foi escrita: Shakespeare, séculos à frente de seu tempo, imagina uma mulher (Helena) que teria condições de decidir a sua própria sorte, o seu próprio destino no que diz respeito à relação com os homens.

Apaixonada por um homem mandando para longe para servir ao rei, ela pede conselhos a um outro chamado Parolles (que significa “palavras”) perguntando se deve ou não deve preservar a sua virgindade. Parolles se aproxima dela insinuando-se sexualmente, como um sedutor. O diálogo entre os dois é brincalhão. Ele a aconselha a se entregar, e ela insiste na decisão de resistir. O sexo é comparado a uma guerra, e as estratégias de sedução a estratégias de um lado para “invadir os muros da cidade”, e de outro para “resistir aos invasores”.

A cena é maravilhosamente bem escrita — não vou reproduzi-la aqui porque o artigo já está demasiado longo — e a vitória é de Helena, porque decide por si mesma. O que ela decide, na peça, é manter-se virgem para o amado. Não significa que seja a melhor decisão no atual momento brasileiro: muitíssimo pelo contrário.

O povo brasileiro, em sua confusão, não tem a sorte de Helena de saber claramente a quem ama. E podemos notar que o apelo à virgindade como centro de atenção na questão é ultrapassado — coisa do séc. XVII, que não cabe mais nos dias de hoje, por mais que Shakespeare em outros aspectos tenha sido avançado para sua época.

Mas o povo brasileiro não deixa de ser como uma Helena entre dois diferentes “Parolles”, um que busca desvirginá-lo pelo desenvolvimento do senso crítico e da consciência da realidade política, do funcionamento das coisas na democracia, e outro que procura desvirginá-lo pela politização polarizadora e artificial do que — para o bem de todos e da democracia — deveria ser tratado como “neutro”.

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