Política: anamnese e amnésia (ou como às vezes é difícil ouvir a si mesmo)

Por João Borba   31 de agosto de 2006 – artigo 13, vol.1
(originalmente publicado em www.eleicao.info)

coringa do batman com reflexoUma palestra do cientista político
Renato Lessa

Antes que seja acusado de plágio por aqueles que ouviram o cientista político Renato Lessa dia 30 de Agosto, no seminário O esquecimento da política, promovido pelo SESC, gostaria de adiantar: o título que dei a este artigo (sem o subtítulo entre parênteses) é dele e não meu, de um texto dele com base nessa exposição que fez no SESC, cuja publicação ele anunciou e pelo qual espero desde já ansiosamente… e confesso que propenso ao aplauso — embora não me pareça a melhor das propensões quanto a um texto ainda não publicado, porque arrisca-se a diluir de antemão nosso senso crítico, coisa que desaprovo veementemente… o problema é que, para ser sincero, neste caso não estou conseguindo escapar a essa contradição.

De qualquer modo, há de ser um texto muito interessante para os pontos de vista que tenho defendido. Naturalmente, estou falando das formulações teóricas e analíticas desse intelectual (desconheço seus posicionamentos políticos pessoais como eleitor, por exemplo). Fique então como uma propaganda de minha parte, uma vez que, depois da exposição desse professor no SESC, à qual assisti deliciado, tive a sensação de ter encontrado uma voz paralelíssima à minha sob vários aspectos.

O termo amnésia não me parece que exija grandes esclarecimentos: em medicina é um esquecimento patológico de coisas razoavelmente importantes, como por exemplo quem somos, onde vivemos etc… anamnese é também um termo que nos lembra a medicina, onde grosso modo diz respeito ao processo de “reconstrução”, por assim dizer, do histórico de formação de uma patologia. O que Renato Lessa se propõe a fazer, portanto, é uma interpretação do tema do seminário organizado no SESC sob essas metáforas medicinais, atentando para o processo de enraizamento de certas ideias fixas e procurando “curar-nos” desenraizando-as, bem ao espírito e ao gosto da filosofia cética. E a patológica ideia fixa que focaliza é a de que democracia representativa é o mesmo que democracia, ou em outros termos, de que toda democracia é necessariamente representativa (abordei a mesma questão em Isolamento parlamentar e em Pulando de pedra em pedra).

 

Diferenças e indiferença

Minhas coincidências com Renato Lessa — ou com menos exagero minhas proximidades em relação a ele — em nossos posicionamentos em teoria política especificamente (e inclusive, em certa medida, entre nossos perfis intelectuais) me pareceram tão grandes, que tive a sensação extremamente incômoda de estar, como Narciso diante do espelho d’água, ouvindo como que a mim mesmo.

Para mencionar um autor bastante citado na fala de Lessa, ao contrário de Rousseau (que em seus Devaneios de um caminhante solitário parece encantar-se com isso) não tenho simpatia nenhuma pelo narcisismo e pela sensação de espelhamento que o acompanha, e prefiro a polêmica e a sensação de contraste intelectual — suspeito aliás que esse encantamento romântico de Rousseau pela “paz interior”, pelo “simples” e pela união ou “unidade” com a natureza (ou seja, com esse grande outro que em sua época era a natureza para nós, humanos) esteja na raiz de sua supervalorização, mais tarde, da péssima vontade geral que defendeu como soberana contra as divisões e diferenças de opinião. Proudhon, uma de minhas principais fontes intelectuais, detestava o pensamento de Rousseau precisamente por isso e com extensa argumentação contra ele — e este é um dos vários equívocos que Giannoti cometeu em relação à filosofia proudhoniana em um texto que publicou na Folha de São Paulo, ao qual me referi em um de meus artigos (Isolamento parlamentar), e que ficou sem resposta; pois fez Proudhon parecer rousseauísta.

 

Algumas primeiras impressões: minha proximidade com Lessa

Proximidade? Mais que isso: essa minha coincidência chocante com o professor Lessa em termos de teoria política (para descrever a coisa de maneira mais sincera), me pegou de surpresa como uma estranha sensação de inautenticidade em mim mesmo, como se afinal muito do que eu tinha a dizer de “meu” não fosse tão propriamente ou o tão caracteristicamente “meu”, já que comum a outro. Não dizemos a mesma coisa, mas me parece que poderíamos facilmente ter dito. Nossos discursos parecem, pelo menos em grande parte, perfeitamente complementares. Por outro lado, ao mesmo tempo e justamente por isso, uma espécie de alegre euforia se apoderou de mim por sentir que, de algum modo, não estava “delirando” ou gritando sozinho no meio do nada, e que talvez afinal faça mesmo algum sentido tudo o que tenho dito, uma vez que as circunstâncias políticas parecem ter promovido o aparecimento de pelo menos mais uma voz tão paralela assim à minha… esse curioso espelho em que me encaro de certo modo abre indiretamente um acesso de minhas posições para a esfera pública, como uma janela secreta.

Sinto-me forçado, em outras palavras, a propor a leitura de Renato Lessa (talvez com presunção excessiva, e já antecipando minhas desculpas se soar assim, porque não é a intenção), como “introdução” a quem queira me compreender… supondo (mais uma vez com alguma presunção, embora no sentido oposto) que o que escrevo serviria também de introdução para quem pretende compreendê-lo, pois a julgar por sua exposição no SESC, para passar de um para o outro ou do outro para um me parece que seria só uma questão de fazer certas “correções”. No entanto é claro que dizer isso a partir do contato com tão pouco da produção intelectual de Lessa é um deslavado e condenável exagero.

De qualquer modo, o que estou fazendo aqui, como ponto de partida, é apenas relatar minhas sensações a respeito, por assim dizer “à maneira de um cronista” — e mais uma vez a sensação de inautenticidade me invade… é que nesta última frase estou “recitando” a cartilha do ceticismo pirrônico, uma de minhas principais fontes (e aliás também de Lessa, e provavelmente a raiz maior de nossas coincidências… de certo modo estamos de fato no mesmo barco).

Comprometo-me então, de minha parte, a lê-lo com mais cuidado e atenção a partir de agora. Por enquanto já havia folheado alguma coisa dele em busca da ponte entre ceticismo e política, justamente, e com algum interesse, mas sem aprofundar-me, porque confesso que não me havia parecido uma referência muito fundamental para o que eu próprio pretendia, embora uma referência inquestionavelmente interessante. Mas o fato é que, sei lá por que cargas d’água, até agora não havia atinado, nem de longe, com o grau dessa proximidade entre nossas concepções. Ontem voltei a lê-lo — ou por enquanto ainda folheá-lo, mas já com maior atenção — e é verdade: estamos mesmo muito próximos, embora agora tenha percebido que talvez não tanto assim para justificar a fortíssima, a chocante, impressão inicial que tive nesse sentido, afinal. (Nessas leituras, que fiz com muita preocupação, não descobri nada de tão assustador, como por exemplo que seríamos clones um do outro, como nas ficções científicas… UFA! Pelo contrário, como sempre ocorre conforme nos aprofundamos no pensamento de alguém e o detalhamos melhor, recorrendo a um volume mais extenso de sua produção intelectual, as diferenças foram, felizmente, saltando aos olhos para mim mais e mais.)

Brincadeiras à parte, diria que há, para resumir o caso, diferenças marcantes. Nossas caraterizações do que seria propriamente a esfera política, por exemplo, são diferentes, e meu posicionamento em relação à esfera pública como algo “despersonalizado” e “universalizante” é muito mais de oposição do que posso ter deixado transparecer, ao elogiar a colocação da questão por Habermas (no artigo Ética e ceticismo na política: uma resposta?), embora me oponha também à pulverização privatista dessa esfera: é preciso compreender de uma vez por todas que o mundo social não se divide pura e simplesmente em “público” e “privado” como pretendem os marxistas tradicionais, ou que pelo menos essa esfera do “público” tem recortes muito mais complexos e mesmo contraditórios uns com os outros do que se costuma admitir.  Para Lessa, esfera pública e isonomia são noções cujas presenças caracterizam desde a raiz a política — como valorizo a política e não valorizo a esfera pública, ao menos como costuma ser tradicionalmente considerada e como foi muito bem descrita em seu desenvolvimento histórico por Habermas, parece-me evidente, pelo menos por enquanto, que nos distanciamos quanto a este ponto.

Seja como for, o que pretendo aqui é, justamente, fincar pé na questão dessa inesperada proximidade grande de posicionamentos que senti ao ouvir Renato Lessa.

O incômodo de procurar uma janela e topar com um espelho

Como vinha dizendo, então, fui à palestra de Lessa procurando por uma janela pela qual tivesse acesso a uma outra cabeça também interessada na junção entre ceticismo e política. Topei com um espelho, que curiosamente de certo modo parece se abrir como uma janela, não propriamente para me apresentar algo de outro, mas para como que me apresentar indiretamente a outros, conforme ele próprio, Lessa, com suas próprias ideias, se apresenta. Lessa é uma via de acesso bem plausível ao meu próprio pensamento — essa foi minha primeira conclusão saindo da palestra.

Entretanto, devo insistir que tratou-se na verdade de uma sensação incômoda, sobretudo em vista justamente de uma das poucas diferenças (e me parece que principalmente de ênfase) entre nossas posições. É que tenho apostado, creio que bastante radicalmente, em todos os meus artigos, na valorização das diferenças qualitativas entre as pessoas e grupos no campo político, e cheguei a mencionar uma política das palavras (leia-se Ética e Ceticismo na Política: uma questão), o que significa que essa minha aposta nas diferenças — aposta eminentemente política — se estende ao campo do discurso. Poderia dizer com maior acerto ao campo do diálogo, em que contrastamos uns com os outros publicamente em nossas construções intelectuais.

Pois bem: uma das manifestações dessa política das palavras que sugeri, nesse campo do diálogo público intelectual, está precisamente na proposta de referir-me aos que tomo como interlocutores usando para isso uma “orelha torta”, por assim dizer — o que significa por um lado (com uma orelha) estar bem atento ao que esse outro tem a me dizer, e por outro (com outra orelha, “torta” para o lado de dentro) ouvir-me a mim mesmo, diferenciando-me desse intelectual, tirando as diferenças em relação a ele, o que significa usar os dois ouvidos de uma vez só e num único movimento — mencionei isso início do artigo Ouvindo Chico de Oliveira. Trata-se na verdade não apenas de uma política, e sim de uma proposta metodológica — mas não vem ao caso neste momento detalhá-la.

O que importa, é que ela implica uma leitura diferencial daquilo que nos dizem. E aí é que está o “bode”: não consigo com muita facilidade, aliás com nenhuma facilidade, diferenciar-me das posições expressas pelo Renato (peço a ele que me perdoe a intimidade de tratá-lo pelo primeiro nome, pois não nos conhecemos). Mais do que isso: ele até mesmo pratica efetivamente e justificando argumentativamente essa prática (e diria que com brilho) algo como o sentido geral de uma “política das palavras”, também — embora certamente de uma maneira que lhe é própria e diferente da minha. Isso, essa dificuldade de diferenciação, torna as coisas para mim especialmente desafiadoras e interessantes, e por essa razão agradeço calorosamente a esse professor.

Em primeiro lugar porque me força a pôr em questão minha própria aposta no que poderia ser encarado talvez (por um stirneriano, por exemplo) como uma “religiosa” valorização das diferenças a todo custo, me força a verificar se realmente não é o caso, e se não for, esclarecer direito por que é que não é o caso. Em segundo lugar porque captei, embutidos no discurso de Lessa, e emergindo naturalmente da lógica que lhe é própria e que é, em grande medida, também é a minha, dois alertas que apontam para perigos do meu próprio discurso tal como o tenho desenrolado nestes artigos sobre ética e política, e com os quais me sinto inescapavelmente impulsionado concordar, procurando corrigir-me ou justificar-me — e quando digo “inescapavelmente” não quero dizer que pressionado por uma necessidade lógica mais forte que eu, mas que avaliando pessoalmente esses alertas, me parece que o que melhor alimenta e fortalece meu próprio posicionamento é valorizá-los e considerá-los realmente a fundo, porque o Renato Lessa está certo.

Os dois alertas lessianos

O primeiro alerta mais ou menos sutil de Lessa diz respeito ao risco de promover, com um posicionamento politizador ao extremo (como assumo que é por exemplo o meu), uma valorização excessiva da politização e uma condenação do “despolitizado” e do “apolítico” que pode acabar contrariando (talvez até autoritariamente) propensões naturais não tão políticas assim das pessoas, e às quais elas de certo modo, afinal, têm o direito! Ou seja, será que devemos mesmo valorizar uma situação em que não haveria o direito de manter-se afastado da política? — questão delicadíssima e por isso mesmo extremamente atraente para quem tem propensões “equilibristas” (para usar um termo com o qual me referi a meus próprios posicionamentos em outros artigos, especialmente em A sombra do equilibrista).

O segundo alerta diz respeito ao que poderia chamar do risco de certos discursos (e reconheço esse risco em certos aspectos do meu próprio) de cairem na idiotice — usando um procedimento retórico em que Renato Lessa coincide gostosamente com a prática bem-humorada de Vilém Flusser (uma de minhas principais fontes), de tomar formulando como conceito teoricamente expressivo uma expressão popular cuja presença no discurso teórico causa algum “choque”, algum “impacto”, porque inusitada, recuperando para isso o sentido original da expressão. Flusser fez isso brilhantemente com a expressão “conversa fiada”, por exemplo, e também o fez com a expressão “idiotice”. Lessa recupera na noção de “idiotice” seu parentesco com a noção de idiossincrasia, e o perigo diz respeito ao isolamento das pessoas em posicionamentos estritamente idiossincráticos, privados e incompartilháveis, o que dissolveria a própria esfera política enquanto esfera pública por excelência, segundo a concepção de “política” de Lessa. Se minha concepção de “política” é diferente, não me parece necessário explicitá-la aqui, porque de qualquer modo nem por isso fica aliviada desse perigo.

Como correria o risco de ultrapassar os limites do razoável tratando aqui desses dois alertas, vou dedicar-me, neste artigo, a responder apenas aos apelos do primeiro, e mesmo ele de maneira por enquanto bastante “rasa” — embora tratá-lomais a fundo, sob diversos aspectos, extremamente saboroso e interessante, pois me exigiria uma análise de certos fenômenos da atualidade que apontam para um diagnóstico diferente em relação às propensões das pessoas para a vida estritamente privada, sugerindo que um novo quadro está se formando muito rapidamente e que esse diagnóstico privatista, embora historicamente recente e nem mesmo digerido até o fundo pela intelecualidade mundial em todos os seus meandros, já está se mostrando relativamente inadequado.

Um deslize de minha parte

Há uma passagem talvez lamentável em meus artigos que sugere esta supervalorização “religiosa” da politização: no artigo Autoridade e banditismo, escrevi que as as violências de uma ditadura “só se tornam algo ‘habitual’ para os que baixam a cabeça e tapam os olhos, vivendo covardemente nos limites em que é exigido que vivam” — mas será que há necessariamente covardia nisto, e mesmo que haja devemos condenar moralmente quem, por exemplo, por ignorância ou por excessivo respeito à autoridade, simplesmente “não acreditava” que o governo da ditadura cometesse os crimes que se dizia?

Esse moralismo agressivo de meu discurso, que lança anátemas contra os hereges despolitizados, ingênuos ou politicamente inocentes demais, era mesmo necessário? — Não, certamente que não e mil vezes não! — e devo desculpas às pessoas de bem que acaso me leiam e que, não tendo sido ativos militantes contra a ditadura no período militar, por qualquer das razões mencionadas ou até mesmo simplesmente por medo (medo por si mesmas ou pela segurança de seus parentes e amigos, porque o medo é algo humano e perfeitamente compreensível e justificável diante de certas circunstâncias) se sintam constrangidas diante dessas minhas colocações. Errei nessa passagem — realmente, e completamente. Minha única desculpa, bastante esfarrapada aliás, é que essa retórica “cabia bem” no contexto.

Considerando o alerta mais a fundo

Mas avançando para além disto, que se resolve (ou pelo menos assim espero) com minhas desculpas, há um problema mais fundo relativo a esta questão em meus posicionamentos, e que acho que precisa ser colocado: a democracia intensamente participativa para o qual minhas posições têm sempre apontado implicaria, de fato, uma espécie de exigência natural, por pressão das circunstâncias, no sentido de que as pessoas passassem a atuar politicamente com uma intensidade com a qual não só não estão acostumadas, mas talvez pura e simplesmente não queiram — e aqui está o ponto crucial do importante alerta de Lessa.

Ele tem razão: é um problema a se pensar, e em dois sentidos, como ele próprio observa. Primeiro, no sentido de que seria muito difícil, em razão de um processo de formação cultural historicamente observável e hoje já profundamente enraizado, que é o processo de estruturação e supervalorização da vida privada como algo distinto da vida pública, levar as pessoas a essa participação. E segundo porque elas talvez tenham efetivamente o direito de, se assim o entenderem, simplesmente não participar da vida política — e aí, com que cara ficamos? Porque de fato, a idéia de participar da vida política, nos dias de hoje, é facilmente assimilável à caracterização como sendo “uma chatice”. O teórico francês Benjamin Constant (se não me engano em um texto chamado A democracia dos antigos comparada à dos modernos, e que estou mencionando aqui de memória), já colocava isto, séculos atrás, como, por assim dizer, uma condição de impossibilidade histórica da democracia direta a partir do Renascimento. Eu mesmo já havia comentado o assunto no artigo Ouvindo Chico de Oliveira.

O perigo de um valor ineficaz

Iria ainda mais longe quanto a esse alerta, acrescentando à fala de Lessa algo que é meu: instaurar um processo de intensa democracia participativa de maneira muito súbita e artificial, de cima para baixo, sem um trabalho educacional e uma transformação cultural gradual que tornasse isso efetivamente orgânico para a sociedade, poderia redundar em algo que mencionei (no mesmo artigo Ouvindo Chico de Oliveira) como o perigo dos valores sem eficácia, que precisamente por sua ineficácia acabam se tornando na prática contra-valores, e gerando barreiras reais contra a realização do que eles próprios valorizam. Pensemos um pouco: o que seria de uma tal proposta (como Fábio Konder Komparato, por exemplo,  propõe em um artigo na Folha de São Paulo, fazendo coro aliás ao meu próprio discurso que também tem ido sempre nesse sentido) se a população em peso passasse a resistir contra esse “aborrecimento” das exigências constantes de participação política, que estariam “atravancando a sua vida privada”?

É claro que eu provavelmente apoiaria a abertura de campos para a participação popular mesmo que de cima para baixo (ao menos já seria algo, melhor do que nada), é claro que concordo com Fábio Konder. Mas o que estou dizendo é que a abertura de tais espaços por si só não resolve o problema em sua raiz, que está na participação em si mesma, que perderia completamente o sentido e a legitimidade se realizada sob o signo da obrigatoriedade (assim como é um disfarce ridiculo para a falta de legitimidade patente dos governantes a nossa obrigatoriedade do voto). Pode ter, quem sabe, algum peso de solução na medida em que a própria prática participativa tem já por si mesma uma virtude pedagógica inegável, mas se trata de algo mais do que saber participar: trata-se de querer.

O que fazer então? Abrir essas condições e deixá-las em aberto só para os que querem tirar proveito delas? e os demais que sejam arrastados pelas decisões aí tomadas? Sabemos muito bem que há toda uma pequena política de militância partidária que rapidamente assumiria o controle desse campo, descaracterizando-o como campo de atuação efetivamente popular e colocando-o a serviço dos partidos de vocação populista, à direita ou à esquerda, a começar pela militância proto-política dos sindicatos nos dois espectros (direita e esquerda), então já não se trataria mais de ativa participação popular no sentido mais forte do termo, mas de participação cativa e pré-direcionada por instituições de um ou dois tipos, especificamente. A questão que estou procurando tocar em meus artigos, quando falo em participação política, vai mais fundo que isso.

Um discurso moralista agressivo recriminando os “apolíticos” seria então a saída, para “puxar” as demais pessoas para a participação política junto a essas condições concretas de participação? Apostar no controle social das pessoas exercendo pressão umas sobre as outras, como numa pequena tirania moral de todos contra todos em que cada um seria o policial vigiando o outro para forçá-lo à participação política?

A solução pelo controle social, e a questão do prazer

Tempos atrás o filósofo Renato Janine Ribeiro, que foi um de meus professores em tempos de graduação na USP, por quem tenho admiração e apreço e que inspirou várias das minhas reflexões que se iniciaram naquela época, chegou a fazer a defesa a esse tipo de solução, elogiando a sociedade sem estado dos guaranis (elogio que também fiz em Ouvindo Chico de Oliveira), mas elogiando-a (coisa que não fiz) inclusive pelo seu pesadíssimo esquema de controle social, apresentado por Janine hobbesiana e freudianamente como um mal necessário, em face dos atritos naturais entre os seres humanos e do potencial destruidor de seus impulsos inconscientes. Acontece que absolutamente não sou freudiano, embora não deixe de atribuir valor à ideia de forças irracionais que nos impulsionam… e de certo modo gostar delas me parece que mais do que Freud.

Fico pensando o que Max Stirner — outra de minhas fontes teóricas — diria de um tal policiamento moral de todos sobre todos, com seu individualismo radical e avesso a toda e qualquer imposição externa ao indivíduo considerado integralmente e como um todo, e que antes de Nietzsche, e mais ou menos na mesma linha, nos alertava contra nossa auto-escravização sob o domínio de valores que colocamos acima de todas as outras coisas que também fazem parte de nós, como nossos desejos pessoais, nossos prazeres, nossos impulsos irracionais, nosso corpo etc. Pessoalmente, causa-me especial impressão a questão da qualidade de vida — não compreendida estritamente nos moldes quantitativos do IDH, que provavelmente seriam observados por Chico de Oliveira, até certo ponto com razão, como sintomas da “colonização” da vida política pela esfera impessoal da economia. Considero-me entre outras coisas uma espécie de hedonista — (e quanto a este ponto não tenho a menor idéia de qual seria o posicionamento do Renato Lessa, pois já não é uma influência cética em mim).

Falo da qualidade de vida em termos vivenciais mesmo, e qualitativos, essa qualidade de vida fluida e inquantificável que exprimimos com frases como “estou bem ultimamente!”, e da qual Nietzsche detectou um aspecto especificamente interessante quando distinguiu vitalidade de mera sobrevivência. Tinha esta questão discretamente em mente quando escrevi os artigos Bola de neve e Autoridade e banditismo, embora ela não fosse nesses artigos o tema central. Pois bem: o fato é que é possível e até mesmo fácil para uma pessoa nos dias de hoje imaginar a vida como uma extrema chatice, permeada de constantes incômodos, se for necessário a todo momento participar de alguma assembléia ou decisão política. Para usar o linguajar um tanto chulo e despojado dos jovens, para muitos a vida seria um saco.

Minha tendência, portanto, é apostar, à maneira dos sofistas da antiguidade — e talvez especialmente de Progágoras e Górgias — na persuasão educacionalmente temperada, tendo por modelo uma educação nos moldes do autodidatismo, ou seja, tingida de um certo “iluninismo” socraticamente dialogante em que se promovessem na sociedade, ao máximo possível, as condições para que as pessoas entrassem em constante  processo de troca e conflito de idéias e opiniões, de mútuo esclarecimento e correção mútua. Isto significa que considero a persuasão, portanto, como algo fundamentelmente distinto das pressões e controles sociais.

Quanto ao autodidatismo que aponto como modelo, na verdade, tem sido sempre, historicamente, o instrumento maior daqueles que por falta de condições não têm acesso à educação, e não se sujeitam a essa limitação. Costuma ser praticado coletivamente, com a formação de grupos de estudo sem nenhuma orientação superior. (Posso ter deixado transparecer meu interesse por esse tipo de coisa já no artigo Política no orkut). Há estudos sobre isto, inclusive excelentes teses não publicadas, e recomendo ao leitor interessado que dê uma vasculhada no tema autodidatismo na Internet e em bibliotecas universitárias de fácil acesso, como a da PUC-SP por exemplo, cujos pesquisadores tradicionalmente mostram entusiasmo por questões envolvendo formas de sociabilidade e de vida comunitária e formas espontâneas de organização social.

Para terminar, a par e passo com meu hedonismo assumido, declaro que não vejo alternativas para uma transformação radical das coisas (uma “revolução” em um bom rumo, se quiserem compreender assim) senão pela via do prazer. É preciso,  é fundamental, recuperar o sentido de prazer na atividade política. Prazer pela própria política, e não por um dourar de pílula qualquer, agregando a ela algo de “gostoso” mas que não interfere nas próprias características dessa atividade. Os meios mais evidentes e mais rápidos para isto, a meu ver, seriam principalmente a Internet e cmplementarmente as diferentes formas de se tornar a TV e o rádio veículos em alguma medida interativos — uma vez que todos estes já são também, consagradamente, veículos de distribuição de prazer.

Numa época como a nossa, em que o trabalho, as atividades de labor em suma, perdem terreno rapidamente, substituídas pelas atividades automatizadas e mais eficazes dos aparelhos eletrônicos ou máquinas eletronicamente comandadas, e têm por isso o seu valor mais e mais questionado (leia-se, por exemplo o Manifesto contra o trabalho do grupo Krisis), que aprendamos então a conectar a política, tão intimamente quanto possível, a essa grande candidata a ser a nova atividade-guia da sociedade: o lazer… antes que ele se conecte (e talvez irregressivelmente) a uma pulverização da vida social transformando-a numa grande, superficial e medíocre idiotice — no sentido lessiano e flusseriano do termo.

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