Política no orkut

Por João Borba 22 de agosto de 2006 – artigo 11, vol.1
(originalmente publicado em www.eleicao.info)

globos oculares saindo da tela do notebookUma queixa

Tenho escrito principalmente textos analisando situações, mas os simples relatos às vezes podem ser relevantes e interessantes também, como material para reflexão. O que é o orkut? Um espaço na internet para as pessoas se conhecerem, trocarem ideias, travarem relações, trocarem intimidades, certo? Mas é um espaço que mobiliza as opiniões de uma enorme quantidade de gente, e é natural que em tempos de eleição seja tomado pelos interesses políticos dessas pessoas e até por instituições (partidos, por exemplo) que querem, com razão, tirar proveito dessa excelente fonte de contatos… em outras palavras, em tempos de eleição o orkut se torna extremamente chato, desumano, para dizer o mínimo, e desagradável  mesmo.

Se é natural que se queira fazer política no orkut, diria que há questões de etiqueta, simpatia e mesmo de sensatez a considerar, e que é preciso saber fazê-lo. Não vou analisar aqui o que significa exatamente saber fazer isso — não sou consultor de marketing político, e não seria a pessoa mais indicada para esse tipo de análise, há gente competente especializada nisso. Como já disse, o que pretendo aqui é apenas fazer um relato e, por assim dizer, registrar uma “queixa”.

Primeiro round

Recentemente, recebi em minha página o sinal de alguém que queria ser “meu amigo” (em linguagem orkutiana, alguém que queria ser adicionado à minha lista de amigos para trocarmos idéias). A pessoa não se identificava como pessoa, mas como “Partido Verde”. Note-se bem: não era uma comunidade, mas supostamente um perfil pessoal (modo orkutiano de se dizer que era, ou deveria ser, uma pessoa). O orkut tem comunidades para a discussão de assuntos, que podem ser abertas livremente pelas pessoas, e você pode convidar quem você quiser para participar de uma comunidade sua, por exemplo de uma comunidade para conversar sobre um partido. Mas as comunidades (felizmente!) não aparecem pessoalmente pedindo para serem suas amigas: você vai a elas, se quiser ir a elas.

Acontece que o brasileiro, naturalmente, é mais “criativo” e mais “esperto” que a estrutura original do orkut… então o orkut está borbulhando de instituições e entidades abstratas que saltam de repente na sua página pedindo para serem suas “amigas”, ou com alguma mensagem “amiga” indicando um link que, você vai dar uma olhada, é propaganda (ou seja… aborrecimento e perda de tempo).

Não percebem que isso já foi feito, de maneira muito mais profunda, original e interessante, muito antes de existir o orkut, pelo pessoal do movimento de 68, quando criaram um filósofo imaginário como pseudônimo para uma coletividade indefinida e aberta, chamado Luther Blisset. Blisset tinha (tem, porque ainda está “vivo”) uma postura extremamente crítica e original. Mas não, aqui a coisa é de um nível medíocre mesmo. Trata-se de “vendas”, de “marketing” puro e simples, de vender a imagem de algo ou alguém que está engajado no grande movimento de acumulação de capital ou poder do nosso mundo atual.

Pequenos empresários têm feito isso no orkut (não percebem que é detestável e acaba servindo como uma anti-propaganda)… mas a gente aquenta um certo volume de bobagens inúteis em nossa página a serem apagadas sumariamente. Então chegam as eleições… e pronto: o orkut se torna intrafegável.

Segundo round

Fui à página daquela pessoa, do tal “Partido” que queria ser mau “amigo”, para saber de quem se tratava. Coisa desagradável: não estava explicitado. Havia pessoas que conheci entre os “amigos” desse tal de “Partido Verde”, ex-alunos, se não me engano (de uma faculdade onde cheguei a ter mais de 700 alunos em um semestre). Não dava pra saber de quem se tratava sem fazer uma “pesquisa” e, sinceramente, não tive paciência de fazê-la, de forma que recusei aquela “mão estendida” e posso ter até magoado algum conhecido (vá saber…!).

O filósofo Max Stirner — crítico excelente — talvez me acusasse de ser um falso ateu e um “religioso” por me deixar dominar frequentemente por ideias, conceitos e abstrações; enfim, por coisas do mundo intelectual e “espiritual” humano em geral… mas embora tenha por brincadeira e prazer intelectual meus “fantasmas amigos” (como o próprio Stirner por exemplo), não sou tão religioso assim a ponto de me considerar “amigo” de instituições político-partidárias, que além de abstrações encarnadas em estruturas burocráticas, são estruturas carregadas de poder hierarquicamente organizado, e de declaradas e assumidas intenções de se apoderarem do controle sobre nossas vidas no lugar de nós mesmos, como que nos “representando”: pois bem: não me representam, e não estou falando do Partido Verde, mas de todo e qualquer partido.

Vá lá… tenho minhas simpatias, bastante consideráveis até, pelos “verdes” do mundo afora, justamente… e inclusive admiração por alguns grupos militantes um tanto heroicos do Green Peace. A meu ver — os simpáticos Gabeira e Daniel Cohn Bendit me desculpem, mas… — o que estraga esse movimento em todo o mundo é justamente o fato de ter se articulado em “partidos verdes”, com candidatos etc., nos quais ele naturalmente acaba se descaracterizando, uma vez que é um movimento ecológico, e que a ecologia não dá, não pode e não deve dar conta de todos os problemas sociais, políticos e econômicos que existem para nos preocuparmos (e com os quais um partido ou candidato, chegando ao poder, terá de lidar); mas sim especificamente do aspecto ecológico que acaso esteja envolvido nesses problemas.

Terceiro round

Então um outro desconhecido me apareceu pedindo para adicioná-lo como “amigo”. Dessa vez era um jovem candidato a não-sei-quê. A foto dele estava estampada ali, pelo menos, e o nome também, claramente, e de que cidade ele era. Em sua página no orkut, além disso, havia um pedido de desculpas por ter ido à minha (e à de muitos e muitos outros provavelmente) pedir “amizade”, quando estava era em busca de votos. Ora ora ora… aí estava um que pelo menos tinha vergonha na cara!  Explicava que não tinha condições de financiar uma campanha grande, e o orkut era infelizmente um de seus poucos recursos. Achei pelo menos um pouquinho mais simpático, e por ser mesmo realmente jovem, e interessado em mobilizar jovens em geral no sentido de entrarem para a política e renovarem o que está aí, confesso que senti o impulso de responder algo a ele (talvez tenha sido meu instinto de educador… sei lá).

É importante que se compreenda que não foi a abordagem dele o que me gerou esse impulso de responder, mas o fato de ela coincidir com certos traços da minha personalidade e da minha história de vida pessoal.

É que trabalhei durante anos junto a jovens na periferia de São Paulo, em diversas ONGs, ensinando-os a se informarem a respeito das coisas, a articularem e exprimirem suas próprias opiniões, e a compreenderem a cidadania em um sentido mais profundo. E em uma dessas ONGs, os jovens acabaram emergindo como um grande grupo articulado com ideias próprias e diferentes das nossas como adultos educadores — e muito mais sensatas e interessantes do que podíamos prever ou imaginar. Queriam “tomar a rédea das coisas”, da direção e do sentido geral de sua própria educação, trabalhando em conjunto conosco (e não “contra” nós, porque julgavam, me parece que acertadamente, que assim sairiam perdendo em todos os sentidos), queriam “tomar as rédeas” quanto às diretrizes gerais da sua própria educação, já que se tratava dos interesses deles, mas pautando-se na nossa experiência e nos nossos conhecimentos. Se alguma vez senti realmente orgulho na vida, foi daqueles jovens.

Este, que agora se apresentava como candidato a não-sei-quê, estava longe de ter o perfil daqueles. Posso estar redondamente enganado, mas me parecia um jovem de classe média-alta, e não sei se tão articulado. De qualquer modo, algo me despertou a lembrança deles, dos meus “educandos” da perifa (que me educaram em tanta coisa), e por isso senti o impulso de responder.

Quarto round

Coloco aqui o que pretendia dizer (e acabei não dizendo) a esse jovem candidato. Ia escrever tudo isso num scrap — uma mensagem aberta — para ele, na página dele:

Caro X***, sinceramente, não acredito que os partidos políticos sejam o melhor caminho para se promover qualquer mudança profunda nas coisas, ou mesmo qualquer mudança que seja realmente interessante, a não ser talvez por meio de pressões da população. Sou mais favorável às mobilizações, aos movimentos populares etc. Por outro lado, concordo que essa via (político-partidária) está aí como um dado de realidade, que ela infelizmente nos arrasta por ela afora interferindo em nossas vidas, mesmo (e até ainda mais) quando pretendemos “ignorá-la”, e compreendo bem que muitos (como você) se sintam chamados a “tomar as rédeas” nesse arraste, e entrar por essa via de vontade própria, como “políticos”, como “militantes de partido” ou simplesmente como eleitores engajados e em alguma medida fazendo campanha para partidos. Até admiro a iniciativa… pelo menos é melhor que não fazer nada. Mas não é meu caminho. Estou fora dessa barca.

De qualquer modo, meus “amigos” em política costumam achar que políticos e partidos no fundo são todos a mesma b…&¨$¨%¨%$¨##, (e não são pessoas nem um pouco despolitizadas!…). Mas eu não acho. Por isso é que estou te escrevendo. Políticos e partidos não são todos iguais: há os ruins e os piores (entenda bem, não é nada pessoal, o problema é a instituição que o ‘político’ é, que é necessariamente incorporada pela pessoa… a instituição partidária é ainda pior, porque menos humana, mas pelo menos implica algum comprometimento e algum projeto do cara). Tudo o que posso fazer é, dependendo do seu partido e das suas propostas — porque ser jovem já é alguma coisa, mas não é tudo —, desejar boa sorte, porque você está entrando num moedor de carne.

 

Quinto round

Agora, por que foi que, afinal, acabei não dizendo nada disso ao sujeito? Em primeiro lugar porque o orkut às vezes “emperra” quando escrevemos demais… uma chatice. Aí a gente precisa dividir a mensagem em partes, e elas ficam fora de ordem se não ajeitar direito, mil problemas… um porre. Mas também, e principalmente, porque isso me deu tempo de lembrar de dar uma olhada no partido e nas propostas do sujeito antes de sair colocando uma mensagem — que, afinal de contas, não deixava de ser uma resposta, um aceno para alguém especificamente no jogo de sorrisos e acenos da política — e um aceno que todo mundo iria ver. Não sei por que, mas estava com a ideia de que ele era do mesmo Partido Verde (talvez a cor da roupa na foto, sei lá…). Estava enganado (não que fizesse lá muita diferença se fosse). O que importa é que aí pintou uma coisa interessante: não estava muito claro o partido. Por que será? alguma espécie de vergonha ou timidez? E não havia proposta. Nenhuma mais à vista, pelo menos. Fucei um pouco, e logo achei o partido.

Era algum desses “nanicos”, uma sigla que passaram-se só uns 15 minutos de lá pra cá, mas já esqueci qual era… não conhecia o tal partido, mas achei que já tinha ouvido falar… e se não me engano, era alguma coisa de direita, mais reacionária e populista, tipo Collor ou coisa assim… será possível que o sujeito nem olhou para que tipo de perfil de gente estava mandando a “amizade” política dele? Essa linha política não combina nada comigo! Não, eu devia estar enganado, melhor checar direitinho qual era o tal partideco afinal… só que o orkut continuava travando e minha paciência estava no fim.

Nocaute

A essa altura, na verdade, já havia perdido o gosto por responder, mas ainda procurei uns dois minutos por alguma informação mais clara a respeito das propostas do sujeito, ou pelo menos do partido dele, antes de desistir… então, voltando de passagem para a minha página pessoal, me dei conta de que havia mais um “amigo” nela me convidando para trocar ideias: era a Heloísa Helena. Naturalmente não era ela: era alguém fazendo campanha.

Desculpem-me a expressão, mas meu saco foi pra Lua. Orkut, de partidos, candidatos… Bah! — Chega.

Desliguei tudo e fui comer um chocolate.

 

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