Pulando de pedra em pedra

Por João Borba 26 de julho de 2006 – artigo 04, vol. 1
(originalemente publicado em www.eleicao.info)

rochas voandoQuestões de prática filosófica

Vamos falar um pouco, pra variar, de algumas questões ligadas à prática filosófica. Digamos que eu escrevesse agora um artigo com o tema Ética e ceticismo na política. Depois de dois artigos publicados no mesmo local sobre a possibilidade ou não da ética na política, o leitor poderia começar a sentir essa insistência no mesmo assunto — a possibilidade ou não da ética na política — um tanto enfadonha, em face de toda a riqueza temática que o universo político apresenta.

Um tema como esse, reformulando com outras palavras o que parece já ter sido dito e redito nos artigos anteriores, causaria essa impressão de redundância porque (para retomarmos aliás um detalhe já mencionado nos artigos anteriores) o hábito e os costumes, no mundo atual, nos levam a tomarmos as palavras em um sentido mais simples e imediato que o original, e que exige menor reflexão. Então, quando damos de cara com um tema como esse — ética e ceticismo na política — temos a sensação de que o assunto se esgotaria facilmente em um ou dois artigos. Por que escrever mais sobre isso?

Quando digo que no mundo atual costumamos procurar nas coisas o sentido mais simples e imediato, quero me referir, mais precisamente, ao modo como o mundo se apresenta em função disto que nos acostumamos a chamar de “capitalismo”, e que na verdade me parece um mau nome para definir uma certa estruturação econômica das sociedades atuais — mas este é um detalhe a ser retomado, quem sabe, em um outro artigo.

Passinhos e grandes saltos

O que importa observar aqui é que, conforme tomamos as palavras em um sentido cada vez mais simples e imediato, o sentido primitivo vai se desgastando, perdendo a relevância, como em uma moeda muito usada que perde o relevo, e acaba se tornando um detalhe sutil em uma imagem cada vez mais superficial.

Nessa imagem superficial, sem diferenças de relevo, sem jogos de transparência e opacidade em camadas sobrepostas, encontramos menos detalhes pelos quais circular e penetrar com a nossa atenção. “Política”, “ceticismo”, “ética”, cada uma dessas noções do tema do tal artigo imaginário — assim como tantas outras na nossa linguagem corriqueira — tenderia a aparecer cada vez mais como uma unidade simples e sem divisões por dentro.

Assim, quando as lêssemos juntas nessa frase — Ética e ceticismo na política — cada uma delas nos pareceria quase como um todo estático onde não há caminhos para a reflexão, e saltaríamos de uma dessas noções inteiriças, assim com a simplicidade com que ela nos aparece, para a outra, e desta outra para a terceira, através de palavras de conexão vazias de sentido próprio, como as palavras “e” e “na” do nosso tema.

O pensamento, em condições como essas, dá grandes saltos de uma noção para outra sem examiná-las, e perde de vista o trabalho de análise mais detalhada de cada pedacinho de terreno em que pisa. É verdade que ganha-se abraçando horizontes cada vez mais amplos e descobrindo novos territórios, e muitos dos maiores patrimônios teóricos e intelectuais da humanidade surgiram assim. No entanto, na maioria dos casos, o uso comum da linguagem não consegue nada de especialmente saboroso deste modo. Os conceitos não são cuidadosamente recortados, preparados e temperados um a um antes de serem lançados todos na mesma grande panela da comunicação, e o conjunto perde o sabor. E se examinarmos mais de perto os processos pelos quais se produz cada um de nossos maiores patrimônios de sabedoria e erudição em todo o mundo, muitas vezes gerados por meio do que parecem saltos intuitivos e associações geniais, perceberemos um trabalho secreto de cozinha muito mais cuidadoso do que imaginávamos.

Percebendo os relevos

Parte importante do trabalho de quem lida com filosofia é detectar e reavaliar essas relevâncias, em seus próprios pensamentos e nos dos outros — quando é preciso dar saltos e quando examinar o terreno, para não pisar em falso. E mesmo por detrás dos grande passos, encontramos essa minuciosa avaliação. Assim, se tivesse escrito mais um artigo com o tema Ética e ceticismo na política, certamente detalhes diferentes do assunto seriam relevados, de maneira a abrir uma série de novas — pequenas, mas promissoras — questões para a reflexão.

Esse trabalho no pequeno nível dos detalhes é importante, e o leigo tem razão em reclamar que a filosofia frequentemente complica as coisas, ao invés de oferecer soluções simples e diretas. Mas sem o detalhamento, essas noções sobre as quais refletimos seriam apenas aqueles todos inteiriços e simples sobre os quais firmamos os pés saltando de um para o outro, e não perceberíamos que, no cruzamento entre os detalhes de uma e outra, na co-implicação entre os detalhes (que é o que torna as coisas tão complicadas  em filosofia), abrem-se novos caminhos para a reflexão, que pode avançar seus passos em novas direções.

O complicado e o simples

Apesar da sensação que nos sugere o contrário, aprendi ao longo da vida que a reflexão é mais livre quando abre caminhos para si mesma do que quando pula no vazio e, por um feliz acaso, encontra uma pedra interessante e já bem assentada em que pode firmar o pé. Por isso me agrada lembrar aos meus alunos, especialmente a turmas de administração, preocupadas com questões práticas de gerenciamento e aflitas com as complicações filosóficas, que quando estão diante de um problema que parece um beco sem saída, o melhor a fazer talvez não seja simplificar as coisas, mas complicá-las. Não digo inventar complicações, mas procurar dar mais atenção aos detalhes que tornam as coisas complicadas.

Em outras palavras, levantar todos os detalhes desse “beco sem saída” e como estão articulados, não só uns com os outros, mas também com o que existe ao redor do beco, porque cada detalhe é mais um caminho em potencial para que uma saída sutil, discreta e inusitada acabe aparecendo. E uma vez que os alunos tenham apreendido essa dinâmica, conduzi-los a dilemas e becos sem saída — com bom humor e espírito lúdico — pode se tornar uma boa ferramenta para estimular a reflexão.

Assim, o trabalho filosófico — que se pretende uma reflexão de alta qualidade e proativa (para usarmos um termo que já esteve em moda na área de administração e que me parece muito bom) — tem mesmo um aspecto um tanto obsessivo em relação aos detalhes e às palavras. Aspecto que pode chegar a parecer massante para o leitor, que tem a atenção naturalmente voltada para a beleza e os odores do prato que estão servindo à sua inteligência, e frequentemente está mais ansioso para saborear os conteúdos e pensar livremente sobre eles do que para refletir a respeito das minúcias da composição e da receita.

O fato é que um texto filosófico, e ainda mais um conjunto de textos escrito pela mesma mão com intenção filosófica, não pede para ser apenas lido: pede para ser digerido e ruminado em seus detalhes, e saboreado em conjunto com uma reflexão minuciosa — e não corrida e aos saltos — por parte do próprio leitor.

Conservar e mudar

Escrever um texto para a leitura rápida, em uma tela de computador, é por isso especialmente desafiador para quem é da área de filosofia. Porque a prática filosófica exige tempo e densidade no trabalho de leitura. Exige por exemplo o trabalho da releitura, constante e orientada pelo senso crítico. Exige ao mesmo tempo a consideração de contextos mais amplos, incluindo o estudo histórico de um passado que pode parecer longínquo, e de uma multidão de detalhes que a princípio parecem irrelevantes.

Exige muita paciência.

Tudo isto pode passar a sensação de um pensamento lento, pesado, que, para usar a linguagem da informática, exige e mobiliza muita memória nesse aparelho de computar ideias que é o nosso cérebro. Essas noções de peso e lentidão no pensamento costumam ser associadas a um certo conservadorismo… e no entanto, não há nada menos conservador e mais crítico do que a prática da reflexão filosófica.

É que mover o pensamento, do ponto de vista filosófico, não significa meramente saltar de uma a outra por sobre as noções que o pensamento articula, segundo o entendimento comum que se costuma ter dessas noções e com os significados que já estão assentados para elas na cabeça do leitor. Significa promover, estimular no leitor, um trabalho mais cuidadoso de exploração e experimentação intelectual em torno dessas noções, indo até os limites do modo como ele está acostumado a ver as coisas e propondo novas visões.

Filosofia e posicionamentos políticos

Escrever abordando especificamente a política a partir da filosofia é uma tarefa especialmente saborosa para quem a pratica. Acontece que política é um jogo de estruturas de poder, o que significa que há sempre, de alguma maneira, forças que estão “por cima” e outras que estão “por baixo” nesse jogo.

Naturalmente, as forças que estão “por cima” estão em uma situação que gostariam de conservar, e as que estão “por baixo”, em uma situação que gostariam de “mudar”. Por isso o trabalho de mobilização dos pensamentos praticado pelo filósofo tende a ser, em quase todas as épocas e contextos, mal recebido pelos que têm uma situação a conservar, e acatado de maneira provisória e interesseira pelos que pretendem mudar essa situação. Estes últimos, quando sobem ao poder, invertem rapidamente sua opinião acerca desses “agitadores” de pensamentos que são os filósofos.

No entanto, seria ingênuo idealizar a figura do filósofo como um personagem que está sempre além e aquém de todo posicionamento político, apenas promovendo a sacrossanta reflexão a todo custo. Mesmo Sócrates, que se tornou uma lenda viva pelo que parece ter sido o seu esforço nesse sentido, de isenção política e posicionamento “puramente” filosófico, não pode sustentar essa imagem idealizada quando estudamos mais cuidadosamente suas relações políticas na época em que viveu, na cidade grega de Atenas — aquela em que foi inventada a democracia, com o sentido de democracia direta, e não representativa.

Para alguns especialistas, como o jornalista político e filósofo Izzi F. Stone, essa nossa lenda viva da filosofia era na verdade politicamente um conservador, e uma ameaça real à democracia ateniense (O julgamento de Sócrates – 1988, venda lastimavelmente proibida em Portugal na época, tradução brasileira pela Cia. das Letras em 2005… parece que Sócrates era um símbolo moral forte demais para ser criticado publicamente quando “o primeiro Stone” se lançou contra ele, depois do escândalo dos ataques de Nietzsche, mas Nietzsche era perdoável, afinal, ele próprio é um clássico da filosofia e não um mero comentador, e sua postura escandalosa já foi bem assimilada). Stone é uma figura a quem admiro especialmente, e que tomaria como modelo se, a meu ver, não tivesse dado um tremendo tiro n’água em relação Sócrates… de minha parte teria mirado em Platão (o “divino” Platão, como costuma ser chamado).

Para outros, como F. Cabral Pinto (Sócrates, um filósofo bastardo – Lisboa, 1985), Sócrates na verdade era um democrata mais radical do que o próprio stablishment democrático da época aceitaria. Para Cabral Pinto, o filósofo mendigo da antiguidade, o sátiro pensante, o fundador da ética — Sócrates enfim — seria a má consciência da democracia traída… traída não pela esfera dos representantes políticos oficiais, pois essa esfera não existia como hoje, e sim pelo dogmatismo acrítico do próprio senso comum. Concordo com esse autor, e voto minhas simpatias a Sócrates. De qualquer modo, o caso é complicado e não pode ser decidido assim tão facilmente.

O fato é que, além de filósofo, aquele que se dedica às práticas filosóficas é sempre um indivíduo humano, vivendo e posicionando-se em um contexto histórico e político bem determinado, e não uma entidade intelectual neutra pairando como um espírito superior acima de todos os posicionamentos. Como indivíduo, e sob o risco de ser interpretado de maneiras que nem sempre estão sob seu controle, ele seleciona e recorta, pessoalmente, naquele contexto em que vive, os materiais que estão sendo irrefletidamente conservados e sobre os quais pretende promover a reflexão crítica — e o faz a partir de seus posicionamentos, que não são sempre, e em toda a sua medida, pura, estrita e absolutamente filosóficos e nada mais do que isso…

…no final das contas, nóis aqui da filosofia também é genti, num é?

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