Qual o limite do aceitável acima do silêncio? O limite da boa-educação social.

Quando circulamos de ônibus, sempre podemos localizar o informe que diz que é proibido utilizar aparelhos sonoros, exceto quandos utilizamos com fones de ouvido. Isto não é à toa. Os nossos ouvidos não são seletivos de maneira deliberada e controlada. Não podemos selecionar o que escutamos e o que não escutamos dos sons ao nosso redor de acordo com nossa vontade. Por isso a regra dos fones de ouvido. Ninguém tem o direito de impor a música que quer ouvir também aos ouvidos alheios.

Entretanto, algumas questões tendem a picocar na nossa cuca se começamos a pensar com mais cuidado a respeito.

Primeiro: nem sempre exigir os fones de ouvido são suficientes. Porque há pessoas que os usam apenas para poderem ouvir mais alto, de modo que aumentam o volume a tal ponto que o som ultrapassa os fones, e continua incomodando o vizinho no assento do ônibus.

Segundo: se é proibido impor aos ouvidos alheios uma música, por que não é proibido impor aos ouvidos alheios a própria voz, quando viajamos de ônibus?Qual a diferença entre uma pessoa que ouve um aparelho de som impondo ao vizinho de assento uma música que o desagrada, e uma pessoa que, apesar do fone de ouvido, fica cantarolando, e inclusive às vezes desafinadamente, aquilo que está ouvindo? E ainda, qual a diferença entre isto, e uma pessoa que fala sem parar com alguém pelo celular?

Outro caso: sinceramente, estou farto, a ponto de quase perder a cabeça às vezes, de ter gente ao meu redor falando sozinha aos brados no ônibus, coisas religiosas, rezando, cantarolando coisas religiosas. Ou outras coisas. (Disse “coisas religiosas” porqur parecem ser o tema favorito desses insuportáveis). Mais de uma vez desci do ônibus porque não aguentava mais aquela arenga. Ocorre muito, especialmente, (por razão que desconheço) nos ônibus que partem do terminal Santo Amaro. Nos que partem de outros cantos da cidade, pelo menos naqueles que frequento, nem tanto.

Por outro lado, poderíamos pensar: mas e as pessoas que não estão falando sozinhas nem pelo celular, mas falando com alguém. E pessoas que estão conversando? Não podem estar icomodando terceiros ao redor?

Mas o que vamos fazer? Proibir as pessoas de conversarem quando estão no ônibus? — Me parece absurdo. Proibir apenas o uso de celulares? Mas como assim? Poderia-se conversar ao vivo mas não via celular? — Que sentido faria isso? O absurdo é evidente.

Entretanto, todos esses casos parecem muito sutilmente ou muito irrelevantemente diferentes em face daquilo que está em questão.

O que está em questão é: não temos a capacidade de selecionar deliberadamente o que queremos e o que não queremos ouvir, dos sons que nos chegam aos ouvidos — e por isso, as pessoas não devem lançar no ambiente sons que as outras pessoas ao redor talvez não queiram ouvir, porque isto seria impor algo aos ouvidos das pessoas, que têm o direito de não ouvirem isso se não quiserem.

E o problema é que, examinando corretamente a questão, não parece haver razão suficiente para que sons de tipos diferentes tenham regras diferentes, se a possibilidade de incomodarem é exatamente a mesma.

Música vinda de aparelhos ou cantarolada por alguém, que diferença faz? Falação gravada e reproduzida em um aparelho de som, ou falada ao vivo por alguém, que diferença faz? Falação em monólogo ou de pessoas conversando, que diferença faz? Pessoas conversando ao vivo ou por meiro de celular, que diferença faz? — Não existe nenhuma razão evidente para se decretar que algum desses tipos de som pode incomodar necessariamente mais do que outro.

Pessoalmente, creio que isto não é uma questão de regras ou leis.

É uma questão cultural, uma questão de boa educação em relação aos outros, civilidade, senso de sociabilidade, senso de acolhimento do outro, e também de simples bom senso. costumes que tendem ao egoísmo, e costumes que tendem à boa convivência com o outro, ao acolhimento do outro.

Por exemplo, é de bom tom em termos de sociabilidade e boa convivência a gente conversar em voz tão baixa quanto possível, se estiver na proximidade de terceiros que podem se incomodar, e inclusive — por que não? — se estamos sentadoa ao lado de alguém em um ônibus, perguntar educadamente algo como… “O senhor (ou a senhora) se incomodaria se eu falasse um pouco ao celular com um amigo…?

A mesma boa educação levaria a pessoa a se sentircomo que na obrigação de responder “Claro que não, fique à vontade, não se incomode, obrigado (ou obrigada) por perguntar.” Talvez esse senhor ou senhora a quem perguntamos, e que respondeu de modo igualmente educado, não se sentisse assim tão pouco incomodado, talvez torcesse para que nossa conversa ao celular fosse rápida. Mas de qualquer modo, teria a satisfação de ter sido consultado (ou consultada), e educadamente. Esse senhor ou senhora sentiria, ao menos que foi respeitado (ou respeitada).

Mas o Brasil de hoje está carregado da confusão entre liberdade democrática e direito de fazer o que quiser ignorando os outros e até oprimindo-os. Isto está ligado ao que tenho chamado, em outros artigos de hospedagem do opressor — conceito (do educador Paulo Freire) de que tenho me utilizado bastante.

No brasil de hoje, parece que cada um se acha no direito de fazer alegremente o que bem entende e os outros ao redor que se lixem. E esse suposto direito é tratado pelas pessoas como se sua liberdade pessoal estivesse nisto. A tal ponto que, se você educadamente pede a alguém, no ônibus, que abaixe o volume de seu aparelho de som, ou que fale um pouco mais baixo, a pessoa se sente ofendida, como se você a estivesse oprimindo, bloqueando sua liberdade.

Chegamos assim a uma situação tal, que se perguntarmos educadamente a alguém se estaremos incomodando ao usarmos o selular ao seu lado, a pessoa pode nem mesmo entender o que estamos dizendo, porque é que estamos perguntando isso, o que é que ela tem a ver com isso… essa pessoa, acostumada à atual falta de educação generalizada, só perceberá tarde demais, quando estivermos zurrando no celular (e nos ouvidos dela ali ao nosso lado, no assento do ônibus) porque o sinal é fraco e quem está do outro lado da linha não está nos ouvindo direito.

E como temos já de saída a quase certeza de que a pessoa sequer entenderá se pedirmos com educação antes de usarmos o celular, achamos mais socialmente ajustado nem mesmo perguntar.

Bola de neve rolando morro abaixo, quanto mais rola, mais neve acumula e maior fica. Assim é a opressiva — e não, nada libertadora — mal-educada desatenção do brasileiro atual em relação aos outros ao seu redor, em embientes públicos como os assentos de um ônibus.

 

 

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