Quem sou eu: uma crise, uma questão, uma aventura

Quem sou eu?

Quem me conhece sabe que sou um sujeito normalmente educado e até carinhoso com as pessoas. Mas desmemoriado para nomes. Um dia estava em uma fila para assistir a um show ou peça de teatro (não lembro bem) no Centro cultural São Paulo, perto da estação Vergueiro do metrô, e me dei conta de que estava na fila um conhecido. Percebemos que não havíamos nos percebido, nos cumprimentamos, rimos e começamos a conversar. Só que uma coisa estava me incomodando um pouquinho: não me lembrava do nome do sujeito.

Aí vi que estava chegando um outro conhecido, e pensei: e agora? Estou numa fria! — é que não queria ser grosseiro com nenhum dos dois, mas o outro vinha chegando, e imaginei que, por educação, teria que apresentá-los um ao outro. Mas não lembrava de jeito nenhum do nome do primeiro… e na verdade, nem do nome do segundo!

O segundo conhecido me viu e me reconheceu à distância, acenei e ele veio. Para minha sorte, viu que eu estava conversando com o primeiro e já chegou se apresentando. De modo que os dois se apresentaram um para o outro, e problema resolvido (inclusive, agora, eu já sabia os nomes dos dois). Alívio! Continuamos conversando os três, e a conversa deslizou (claro) para filosofia. Dali a pouco estávamos em um profundo papo filosófico, quando aquele segundo, parecendo um tanto incomodado, me interrompeu e me disse:

— Desculpe a indelicadeza, mas… qual o seu nome mesmo?

A história poderia terminar por ai, e seria suficientemente engraçadinha para ser contada, acho. Só que aconteceu mais uma coisa: eu não conseguia responder pro sujeito. Estava tão envolvido na conversa filosófica que tinha esquecido meu próprio nome.

Os dois riam muito da minha cara, ás vezes interrompendo (ou tentando interromper) o riso para me pedir desculpas. e quanto mais riam, mais eu, atrapalhado, tinha dificuldade para lembrar o meu nome. Fora muitos e longos e tropeçantes minutos assim, e eu me sentindo a pessoa mais desengonçada da Terra… até que eu conseguisse finalmente lembrar, com grande alívio e levantando o dedo indicador com os olhos arregalados por detrás dos óculos: — Ah, sim, sou o Borba! Acho que… João, isso, João Borba, esse é o nome!

E como continuavam rindo, reforcei com outras informações sobre mim mesmo que aos poucos vieram me voltando a mente, para assegurar a eles que eu não era tão louco assim e que ainda sabia quem era, sim: estudante de filosofia na USP, depois na PUC, professor etc., etc. Em suma, desfilei uma rápida lista de “categorias” que me enquadravam e me “explicavam”, que terminava com qualquer coisa como… “e gosto de suco de uva”.

— Impagável! — continuava rindo um deles.

Só agora (anos e anos depois) é que está me ocorrendo que talvez… eu nem conhecesse esses dois! O primeiro talvez só estivesse feliz de ter encontrado alguém para conversar enquanto a fila não andava, e o segundo, de encontrar um lugar na fila à frente dos outros (porque quando chegou a fila já estava longa)… quem sabe?

Mas a questão que realmente interessa aqui é outra.

A questão é a seguinte: quem sou eu?

Como assim, você ainda não sabe? — poderia o leitor perguntar.

Pode parecer engraçado, esta mesma pergunta — Quem sou? — é a que girava e girava cabeça de um grande (um maravilhoso) filósofo: o cético Montaigne. “Penso, logo existo”, dizia Descartes. Montaigne respondeu com uma pergunta: mas existo sendo quem? Ou em suas palavras exatas: Quem sou?

E a resposta de Montaigne à sua própria pergunta foi ainda mais interessante: ao que tudo indica, ninguém — não sou nada além de um nome, uma figura física e uma porção de hábitos de comportamento que se reconhecem repetidos nesse mesmo ponto vivo do universo, a que tenho a teimosia de chamar sempre de “eu”.

Você, leitor, pense bem: quando alguém tenta dizer para outro alguém quem é uma terceira pessoa, normalmente não começa a desfilar, direta ou indiretamente, categorias às quais essa terceira pessoa faz parte? — “É uma morena que trabalha em tal setor, baixinha, que estudou tal coisa, que é ligada a tal religião, e que está sempre com tal outra pessoa…” (Seis categorias: a das morenas, a das que trabalham em tal setor, a das baixinhas, a dos ligados a tal crença religiosa, a dos que estudaram tal coisa, e a dos que estão sempre com tal outra pessoa).

A pessoa é então esse conjunto de categorias? — …talvez sim, pelo menos em grande parte. Mas de onde vieram essas categorias todas, como se juntaram ali, naquele ponto do universo que estamos dizendo que é “aquela pessoa”? Algumas coisas pela genética talvez, outras pela história de vida, pelos caminhos que a pessoa foi tomando na vida, entrando para tal ou tal outra categoria de pessoas a cada novo passo em sua biografia.

Se formos levantar todas as categorias de que fazemos partes, será uma lista infindável, no caso de uma mulher como a descrita acima, o próprio fato de ser reconhecida como “mulher” (e não como “homem”) já é uma categorização específica, ligada quase sempre a critérios que envolvem principalmente a estrutura do corpo: corpo de mulher, corpo de homem. Estando ligada à estrutura física do organismo da pessoa, essa parece ser uma categoria de bases muito “reais”, uma categoria que a maioria das pessoas consideraria longe de ser uma abstração (…entretanto, conheço muita gente com muito boas razões para questionar sim o “realismo” disso).

Seja como for, há uma quantidade inumerável de categorias que não têm nenhum apoio no corpo da pessoa, e que podem ser fundamentais na sua caracterização. Inclusive, em diversos contextos, categorias ligadas ao fato de aquela pessoa ser do sexo masculino ou do sexo feminino podem ser as menos importantes, ou até não ter relevância nenhuma (por exemplo para um banco, para o qual aquela pessoa é apenas um item numa lista de contas de correntistas).

Tenho pensado muito nesse tipo de coisas… categorias. Não nesta ou naquela categoria especificamente, mas no que são afinal essas categorizações, no que é que elas significam na vida das pessoas em uma sociedade de certo tipo. Estou pensando principalmente (mas não só) em sociedades de tipo capitalista (essas em que tudo na vida tende a girar direta ou indiretamente em torna da acumulação de capital).

Minhas reflexões filosóficas estiveram sempre muito voltadas para a política. Não especificamente o que envolve partidos e governos, mas o estudo das relações de poder em um sentido mais geral, incluindo coisas como partidos e governos. E para pensar as relações de poder, sempre me vi muito às voltas com as relações entre instituições, coletividades e indivíduos.

Venho pensando nessas coisas há muito tempo, mas examinando as relações de poder atuais, foram pintando no horizonte cada vez mais certos tipos de questões e problemas para os quais não encontrava um bom caminho de raciocínio. Era como se todos os meus pontos de apoio nesse território estivessem por sua vez apoiados numa espécie de fundo falso, que desabava fácil em buracos desses em que se enfia e se prende o pé, a qualquer pisada no ponto errado. E parecia haver muitos, muitos pontos errados.

Então comecei a me inteirar de certos eventos político-sociais um tanto diferentes que estavam ocorrendo no mundo… e que em seguida chegaram também com muita força ao Brasil. Falo de eventos envolvendo as imensas e impalpáveis redes de “Anônimos”, e o hacktivismo que as percorre em momentos politicamente especiais como um sistema nervoso provisório.

Depois de papear também online sobre o assunto com algumas pessoas que não sei (e provavelmente nunca saberei) quem são, uma das falhas básicas dos meus raciocínios começou a ficar mais clara: estava partindo sempre do pressuposto de que questões ligadas à nossa personalidade, questões envolvendo a tal pergunta de Montaigne — quem sou? — não eram questões diretamente políticas, a não ser que falássemos em “personalidade coletiva” ou na liberdade de expressão do indivíduo.

Havia alguma falha aí. Os pressupostos estavam errados.

Então redescobri a psicologia de Félix Guattari (autor de O anti-édipo), que sempre havia me despertado curiosidade, mas cuja leitura rapidamente me cansava. Redescobri Guattari sob um outro viés, um outro modo de lê-lo — via Maurizio Lazzarato, através de seu livro Signos, máquinas, subjetividades (São Paulo: SESC, 2014).

Lazzarato traz à tona o que há de mais pé no chão e de efetivamente revolucionário ali (na verdade, com este livro, a teoria toda de Guattari começa a parecer muito mais uma economia das subjetividades no capitalismo do que propriamente uma psicologia… e o resultado é muito muito muito bom). com essa magnífica leitura, muita coisa para mim se esclareceu, e diversos caminhos se abriram para raciocinar criticamente de modo mais consistente.

Passei a perceber a personalidade individual (a começar pela minha própria) como uma coisa muito menos “natural”, e principalmente muito menos “própria” e “minha”, do que costumava senti-la: passei a enxergar toda uma rede de construção de máscaras que me recobre, costurada em mim artificialmente por mecanismos de poder, de funcionamento das instituições, e de mercado. Percebo agora que eu vinha tola e ingenuamente acreditando ser “eu” uma porção enorme de coisas que são apenas construções externas “coladas” sobre mim por mecanismos sociais, políticos e econômicos.

Problemas afetivos variados do momento, contribuíram para essa percepção de uma maneira excelente, de modo que posso dizer que tive muita, muita sorte. Essas coisas “em mim”, portanto, como vejo agora com considerável clareza, não são são “eu”. Pelo menos não exatamente, e acima de tudo, não enquanto ainda não tenho ação realmente relevante sobre elas, e sou conduzido, passiva e inconscientemente a assumi-las como “parte de” mim. Porque estão muito mais sob o domínio de mecanismos por exemplo de marketing, que forjam gostos em mim, do que sob a minha ação criativa e efetivamente livre de autoconstrução, de autoformação.

Ainda as estou embrenhado no difícil (mas interessantíssimo) trabalho de mapeamento dessas coisas em mim, e decerto esse mapeamento vai me tomar algum tempo e dedicação — porque é um quadro bastante complexo e entranhado o que entrelaça aquilo que posso (ou aceito) considerar (porque me liberta) e aquilo que não posso e não devo (em função de minha liberdade — política, quero dizer, no sentido mais forte e profundo do termo) considerar realmente como “eu”. Parece haver muitos graus variados de penetração e domínio do “eu” por esses mecanismos que me são exteriores e pretendem me forçar a “ser” assim ou assado, a “não ser” de tal modo ou de tal outro.

Em resumo, o que chamo de “eu”, então, de duas ou três semanas para cá, recuou subitamente para um fundo por detrás de muitas máscaras que agora percebo, com considerável clareza, que foram e vêm sendo coladas em mim, no desenrolar de minhas vivências, por mecanismos de marketing e controle social, ou de controle por parte de instituições e coletividades. Mecanismos que (atenção!) estão aí, funcionando ao redor de todos nós a todo vapor, e fazendo isto com todos nós (facebook está ligado a isto, por exemplo). Mecanismos que praticam esse controle e modelagem de quem somos seja propositalmente (por exemplo por interesses privados) seja inconscientemente (mecanismos cegos que se foram formando sem visarem nada de específico… há muitos deles ao nosso redor, na vida social).

É claro que compreender isto com a devida profundidade e maturidade envolve também fugir ao patológico, às síndromes persecutórias paranóicas e todo esse tipo de bobageira em que essas constatações assustadoras podem nos lançar. Trata-se simplesmente de compreender qual é de fato o mundo capitalista em que estamos vivendo mergulhados. Fazer caírem certas máscaras, e tomar atitude… dentro desse mundo, do modo como ele é — precisamente para melhor compreendê-lo, combatê-lo e conseguir detectar as brechas reais pelas quais se escapa a isso.

Trata-se de detectar as tendências efetivamente desviantes — e os momentos em que deixam de sê-lo e passam a incorporar esse Sistema, assimiladas por ele. Sistema que aliás — dando aqui mais firmemente um passo apenas esboçado em Lazzarato (ou na leitura lazzaratiana de Guattari) — me parece estar para muito além do assim chamado “capitalismo”, pois creio que Marx errou, não focalizou o alvo correto de análise, ao focalizar o sistema capitalista. O problema vivencialmente relevante é mais profundo: é a maquinicidade (para usarmos um termo lazzaratiano-guattariano), o problema é a sistematicidade em si (e não apenas a sistematicidade característica do sentido intrínseco de desenvolvimento do capitalismo, que dela se alimenta e que a alimenta também, reciprocamente).

Perdi a personalidade! — ou melhor: descobri que nunca a tive! Grande parte dela era (é) um construto maquínico social, político e econômico frequentemente proposital ou semiproposital, com finalidades (ou sentidos de desenvolvimentos) nada “humanos”, muitíssimo pelo contrário. Até sentimentos são modelados por essa via, na esteira da modelagem da personalidade (ou devo dizer dos perfis de consumo e outros perfis congêneres?).

Sacrossanta barbaridade escrotal, Batman! — roubavam-me de mim mesmo e… e eu nem percebia!  😳 Tinha sim, claro uma vaga, vaguíssima intuição de tudo isso, mas nunca pensei que… caramba, assim desse tamanho, a coisa, confesso, é de arrepiar! (Dá pra imaginar o tamanho dessa m…&#* insuportável  na cabeça de um megalomaníaco como eu?!)

Katzo!

Mas vamos é arrepiar nossos trilhos, porque ela abre (arrebenta) muralhas e dá o vislumbre a caminhos de aço para uma crítica política mais atualizada 😉 .

Sinceramente: estas considerações me fizeram sentir (e é o que estou sentindo agora) um desamparo enorme. E por outro lado um desprendimento e uma liberdade que confesso um tanto assustadores.

Muita, muita aventura pela frente!

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