Revolução ética e custos revolucionários no Brasil: problemas envolvidos

Introduzindo a questão

Estou pensando nos custos de uma revolução. De verdade, popular, fundada na sociedade civil, como qualquer revolução digna do nome (reestruturação das bases em que se apoia uma sociedade… aqui no Brasil uns patifes uniformizados decidiram a certa altura pensar na indecência de chamar de “revolução” uma ditadura, e ainda por cima de perfil conservador, militar e semiburguês).

Estou pensando, então, nos custos de uma revolução. Muito se perde em uma revolução. Sobretudo em bens, capital de um modo geral e relações humanas (para não falar em vidas humanas mesmo). É normalmente, além disso, um empreendimento de risco, se não tem sucesso, vai-se pro fundo do poço. Com sucesso, os benefícios podem superar os custos, mas com trabalho pela frente, porque o que uma revolução pode fazer é firmar bases muito melhores para uma reconstrução da vida (individual e social) em termos muito superiores. Os custos são grandes sobretudo porque uma revolução de verdade tende a envolver luta de classes, e quem tem não aceita ceder sem tirar sangue de quem não tem, o que é o início da violência, porque quem não tem, em geral dispõe de poucos, escassos, instrumentos não-violentos de ação, e até mesmo de autodefesa (e os não-violentos são os melhores instrumentos, inclusive e principalmente em termos de eficácia).

Pensando nisto, digo que o Brasil tem neste momento uma oportunidade histórica inédita: a de uma revolução ética, e que nem por isso deixaria de ser uma revolução em sentido forte (embora talvez não “a” Revolução). Revolução burguesa? O termo não se encaixa, porque uma revolução ética neste país, voltada especificamente para a questão da corrupção em primeiríssimo lugar, envolveria por suas consequências de forma real, e não meramente ideológica, todas as camadas da população. O interesse comum no combate à corrupção tem o potencial de minimizar os estragos e custos revolucionários, apesar do elemento ideológico burguês inevitável no sentido de ocultamento das divisões socioeconômicas (e apesar de esse ocultamento tender a provocar, em sentido contrário, uma revolução mais profunda ligada a essas divisões).

Ocorre porém que o capital envolvido na corrupção é tamanho, que tem seguramente o potencial de reestruturar o país e compensar perdas em diversos níveis, sobretudo aquele que, me parece, é o mais fundamental de todos: a educação.

 

Os problemas que podem nos fazer perder o bonde dessa chance

1 – A desigualdade

A divisão socioeconômica do país, marcado historicamente por desigualdades extremas, tende a incitar a transformar uma possível revolução ética em uma ocasião da precipitação dessa revolução mais profunda e niveladora antes do tempo.

 

2 – Risco de fusão (ou evidenciação das conexões) da luta ética com a luta de classes

Uma tal precipitação levaria as elites endinheiradas não corruptas a lutarem ao lado das corruptas, pondo seu capital nisso, o resultado para o país seria desastroso, pois a luta popular seria feita com menos recursos, portanto mais violenta, e a reconstrução posterior, mesmo com vitória das camadas populares, seria dificílima, se daria em circunstâncias traumáticas e condições paupérrimas, economicamente seria um retrocesso histórico talvez similar ao do Paraguai com a guerra suja que fizemos contra aquele país.

 

3 – Risco de exacerbação de ideologia burguesa nacionalista

A própria condição de uma revolução ética que escaparia a isso estimula por outro lado o ocultamento das diferenças socioeconômicas por uma ideologia burguesa provavelmente de perfil nacionalista, que tende a provocar a reação contrária do desmascaramento agressivo das reais desigualdades, e a consequente precipitação da revolução em sentido mais profundo.

4 – Possíveis decorrências de uma exacerbação ideológica nacionalista

A incitação nacionalista em conjunto com a revolta sobretudo de jovens (porque são os que têm acesso à educação e circunstâncias de vida que os colocam em sintonia com mudanças, desde o nível profissional até o nível familiar) tende a reeditar condições que historicamente têm levado governos burgueses a promoverem guerras, a fim de eliminar (literalmente) o “problema” que são os jovens rebeldes enfiando neles o alvo de tiros que se chama “uniforme de soldado”, e mandando-os para fora do país com armas nas mãos (novas condições para uma futura reedição da contracultura? Talvez, mas com condições psicológicas traumáticas que podem acirrar revoltas futuras e de tom ainda mais violento, inclusive porque guerras acostumam os sobreviventes à violência, à morte, e à ideia de que “não há nada a perder” mesmo).

 

5 – Educação (basicamente sensibilização para alteridades e diferenças) versus ideologia nacionalista (portanto estupidificante) do interesse exclusivamente “comum a todos”

Se fizermos a revolução ética, a educação será um foco incontornável de atenção reconstrutora já desde o início, as elites endinheiradas sabem disso, e a população agora (com a atuação educativa dos jovens rebeldes) também sabe, percebe cada vez mais nitidamente — assim como ambos os lados percebem também que essa valorização da educação tende a alimentar a outra revolução, a mais profunda. Pois formação, estímulo intelectual, é a forja evidente dos que se rebelam, os jovens; sobretudo, os estudantes. E percebendo isso, as elites endinheiradas tendem a desviar-se ainda mais da questão educacional, em fuga desesperada, para a ideologia nacionalista que mascara as desigualdades.

 

6 – Histórico e perfil tendencial da população em suas atitudes

Historicamente, ao contrário do que se apregoa em livros de história superficiais e viciados em certos moldes preconcebidos no “esclarecimento” dos fatos, mas na verdade bem desatentos a eles, o povo brasileiro tem um perfil extremamente rebelde, agressivo, explosivo inclusive, mas de uma rebeldia sempre irracional, emocional, impensada, sem reflexão ou planejamento.

As revoltas populares na história do país (violentas, e ainda mais violentamente reprimidas sempre pelas forças armadas, historicamente acostumadas a verem mais inimigos dentro que fora do país) são de uma frequência, e de um porte e intensidade, impressionantes, na verdade chocantes mesmo, para quem se acostuma ao faz-de-conta apassivador com o qual nosso povo costuma ser falsamente pintado. E mesmo quando escapam ou sobrevivem à repressão violenta (e quase sempre sobreviveram em alguma medida), tendem curiosamente a explodir, depois “desaparecer” do nada (por um longo período de digestão do ocorrido e dos resultados) e depois explodir novamente, e assim por diante…

Porque o povo não tem formação intelectual, não está acostumado a ter que refletir sobre o que está ocorrendo e a planejar futuras ocorrências, de modo que a reflexão ocorre aos solavancos, forçada pela necessidade e pelas pressões e urgências do momento, que trazem sempre de novo à tona a explosão que não resolveu os problemas — na verdade, na maioria dos casos nem bem se sabe exatamente quais esses problemas, porque sentidos mais do que racionalmente definidos.

Nessas condições, a tendência a precipitações impensadas é, naturalmente, bem grande. Se tudo (continuar a) conduzir à pura e simples identificação entre as elites endinheiradas e os corruptos, o que vai acontecer?

 

7 – Histórico e perfil tendencial das elites endinheiradas

Historicamente, as elites endinheiradas no Brasil sempre protelaram o máximo possível qualquer alto custo imediato inevitável para transformações, e no último momento, sempre empenharam uma enorme criatividade para, de repente, covardemente, achar alguma “solução” com o mínimo de custos imediatos estropiando de imediato o povo das camadas mais baixas (a imensa maioria) e espremendo também (para baixo) classe média, agigantando e empurrando em seu próprio meio (na elite endinheirada) os custos para as gerações futuras (ou seja, deixando a bomba cair no colo de seus próprios descendentes).

Foi o que aconteceu, por exemplo, na “inevitável” conjunção do processo de independência com o processo de abolição da escravatura: foi evitado. A que custo? Não queriam colocar armas nas mãos negras do povo, com medo de exigirem liberdade (leia-se “salário”) ou ficarem meladas de vermelho, então pressionaram D. Pedro I a “comprar” do rei papai portuga a liberdade do país, iniciando com a Inglaterra nossa sofridíssima dívida externa.

E depois a guerra covarde de destruição do Paraguai.

Dessa vez não tinha jeito: armas nas mãos dos ex-cravos (negros), porque aqueles “guaranayos” do Solano Lopes não desistiam nunca… a palavra “guarani” significa “guerreiro”, aliás… (e o “problema” dos 8 milhões ou mais de irmãos brasileiros deles já havia sido eliminado, por uma combinação de dizimação com aliciamento, aliciamento pelo qual se reduziram a umas gotas de sangue tupi no nosso corpo aportuguesado). Finda a guerra, temos mais um exemplo do que estou dizendo: não dava pra colocar os “heróis de guerra” de volta na senzala.

O que fizeram então? Libertaram sem dar condição nenhuma de formação pro novo trabalho industrializado que vinha chegando. Ao invés disso, trouxeram operários estrangeiros já “prontinhos”, italianos que o governo da Itália não queria mais por lá. E o povo negro brasileiro que se lixasse!

Mas dessa vez pelo menos nossas elites endinheiradas se preocuparam (um pouco) com seus próprios descendentes, seus herdeiros: tornaram-se os sócios financiadores desses jovens industriosos, não é?

Não, não é: que italianos eram esses, que o governo não queria? Anarquistas (rebeldes, não pagavam impostos, organizavam sindicatos, lutavam contra essas mesmas elites endinheiradas). Mas para não gastar com a educação dos negros valia a pena jogar essa bomba no colo dos seus próprios herdeiros e descendentes, não é? Afinal, até esses anarquistas conseguirem organizar os trabalhadores aqui, levaria um bom tempo, não é mesmo? Ainda mais com a massa da população olhando feio para eles como se fossem “ladrões de emprego”! ? esses dois episódios são ilustrativos no que diz respeito ao histórico das nossas elites endinheiradas.

O povo que se lixe; os herdeiros e descendentes, se for possível fazer algo por eles sem muito custo, ótimo, mas se o custo for alto, que se lixem também, evita-se o custo agora com alguma solução criativa, e joga-se toda a bomba no colo do futuro deles, os mais jovens que se virem… — Essa tem sido, historicamente, a mentalidade das nossas elites endinheiradas.

Alguma coisa mudou nessa mentalidade? Por enquanto, não está parecendo.

 

8 – A sopa das dúvidas quanto à possível aliança real (e não meramente discursiva) das elites endinheiradas contra a corrupção, uma sopa que vai engrossando, engrossando, engrossando…

Combate à corrupção tem custo, exige formação e manutenção de órgãos da sociedade civil capazes de fiscalização e de pressão. Quem vai fazer isso? Os jovens estudantes das periferias das cidades, dos Estados, do país? Estão dispostos, já estão fazendo. Heroicamente, aliás.

Mas de que instrumentos dispõem? Só da sua garra, da sua agressividade, de sua criatividade, e do seu desespero em relação ao futuro de corrupção e altos custos de vida em que estão entrando.

O que nossas elites endinheiradas vão fazer desta vez? Vão ficar (continuar) coniventes com seus “coleguinhas” corruptos? Sim, porque é assim que estão sendo vistos, cada vez mais, como “coleguinhas” dos corruptos em uma luta que se revela cada vez mais como “luta de classes”. Antes do tempo de amadurecimento orgânico e sobretudo econômico, eu diria (talvez colocando um oscilante ponto de interrogação quanto  a esse “antes do tempo”, aliás… mas a princípio é mesmo o que me parece — e essa precipitação (se é mesmo uma precipitação, como me parece ser) pode ter custos gravíssimos para o país. Para todos nós no país.

Combate à corrupção envolve reestruturação política, que terá custos também. E que precisa ser vigiada de perto e com firmeza pela sociedade civil organizada, precisa ser controlada de forma sólida, para não servir como mais um furo na parede do estoque pros ratos devorarem o que puderem antes de o navio deles afundar. As elites endinheiradas não-corruptas podem ajudar. Precisamente porque são (estão) endinheiradas. Vão ajudar, ou continuar na conivência?

A revolução no sentido profundo, economicamente niveladora (com nível de radicalidade nisto que pode ser maior ou menor, mas que não dá pra prever) é inevitável, e virá cedo ou tarde, e quanto ao inevitável, na verdade não há o que temer, mas apenas o que preparar.

Será que o medo irracional do inevitável vai mantê-los (os das nossas elites endinheiradas) como “coleguinhas” coniventes dos corruptos, apenas reclamando no discurso, mas sem tomada de nenhuma ação concreta? Ou vão tomar lugar na organização de frentes de luta anticorrupção e busca de futuros alternativos das quais os jovens desendinheirados já tomaram com coragem a dianteira e a iniciativa?

Nossas elites endinheiradas vão se dar conta de que o inevitável é inevitável e por isso mesmo não há o que temer dele? Vão promover, organizar, a luta pela corrupção, promover, organizar a educação massiva e de qualidade no país? Vão gastar com isso? Vão — ainda melhor — gastar nisto e também forçar o governo a realmente fazer algo a respeito com o que já gastam com isso, na forma de impostos? Vão contribuir para que o nivelamento revolucionário das desigualdades se dê “para cima”, por força da educação, essa fonte inevitavelmente criadora de rebeldes, porque criadora de cabeças pensantes ? ou vão se encolher de terror e covardia e, por isso mesmo, precipitar o nivelamento “para baixo” na pior das condições?

Porque se não se derem conta é o que vai acontecer: vão precipitar uma revolução niveladora para baixo, e com prejuízo para todos, porque dadas as atuais circunstâncias históricas, o nivelamento precipitado antes do tempo de amadurecimento orgânico e social será muitíssimo para baixo, uma verdadeira derrubada do país. Esta é a questão.

Conclusão (inconclusa… o tempo e as mobilizações sociais dirão o resto)

Houve tempos em que se discutia se uma revolução poderia ser feita de baixo para cima ou só poderia ser feita de cima para baixo. Hoje sabemos que revolução de cima para baixo simplesmente não existe. Só é revolução na medida em que feita de baixo para cima.

Mas a questão aqui é outra, diz respeito à qualidade dos resultados possíveis em uma revolução feita em dado momento, em dadas condições históricas específicas. É preciso pensar se o nivelamento que um processo revolucionário tende a promover contra as desigualdades nivelará as condições de vida “para cima”, melhorando as dos menos favorecidos, ou “para baixo”, piorando as dos mais favorecidos — ou ainda (o que é sempre o mais provável) e em ambas as direções… o mais relevante na verdade é saber em que medida o nivelamento se dará de fato e em que medida caminha em cada uma dessas direções, para cima e para baixo no final das contas.

E a previsão passa por uma questão de controle de custos e de capacidade de produção de riquezas (essas duas decorrências da formação educacional das pessoas).  Que a revolução, sejam quais forem os resultados, parte necessariamente de baixo, que se inicia dali, não há dúvidas — nunca é demais repetir, porque as pessoas muitas vezes lêem surdamente o que a gente escreve.

O Brasil está em uma condição ímpar quanto a isto, porque entre os que já estão “em cima” há gigantescos focos acumuladores de capital que o acumulam por uma via unanimemente recusada pelos “de baixo” e por todos os “de cima” que não seguem essa via: a via da corrupção.

A questão é: os “de cima” estão dispostos a arriscar algum grau de nivelação que pode vir junto com a luta anticorrupção, qualquer que seja esse grau, ou vão empurrar esse grau de nivelação absolutamente inevitável com a barriga até que exploda na cara deles no grau máximo (e nivelando tudo por baixo) junto com a explosão dos corruptos? Será que, ainda pior, vão se aliar à corrupção e todo esse dinheiro (deles e dos corruptos) vai ser torrado no país numa combinação de luta insana contra o povo e fuga de capitais (e de corpos rosadinhos, covardes e bem alimentados) para o exterior?… Pelo histórico vergonhoso dos “nossos” endinheirados, seria típico… muito típico.

As próprias dúvidas da população quanto à atitude que será tomada pelas elites endinheiradas — esse mesmo conjunto de dúvidas que acabo de exprimir acima no ponto 8 — tende a alimentar cada vez mais a precipitação, a identificação da possível e generalizadamente benéfica revolução ética cabível no momento com uma a princípio mais satisfatória e profunda revolução político-econômica niveladora, mas da qual as condições atuais fariam, a curto prazo, um desastre econômico para o país, e a longo prazo uma possibilidade de reconstrução incerta, imprevisível.

Tais dúvidas tendem a promover tal precipitação precisamente na medida em que as atitudes das elites endinheiradas continuem a ser (como historicamente é do perfil delas) proteladas e arrastadas para sempre mais adiante em favor de reações meramente discursivas e cosméticas.

Esta é a bola de neve que está se formando em volta de nós nas previsões mais evidentes, se cairmos da corda bamba em que estamos dançando, e cambalhotarmos ladeira abaixo por essa montanha gelada da situação do país. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. O bicho da luta de classes para as elites endinheiradas. O bicho das condições de vida decentes no futuro para as camadas mais pobres.

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