Sentimentos contraditórios em relação a Sorel, ao reler as “Reflexões sobre a violência”

Estava relendo agora mesmo, de Sorel, o livro Reflexões sobre a violência.

Já havia lido recentemente, mas agora estou marcando passagens para utilizar no site ProjetoQuem, quando postar material sobre esse autor, e aqui no Blog Quemdisse, onde devo postar em breve mais alguma coisa sobre o que tenho lido desse autor.

Relendo este livro e começando a ler um outro dele (Les illusions du progrès) e mais um terceiro que veio na mesma edição francesa (L’Avenir socialiste des syndicats), já não sei mais se posso considerar Sorel um dos meus “adversários valorosos” em filosofia… ou se devo considerá-lo mesmo como um dos “aliados” que me influenciam mais fortemente ou com os quais tenho diálogo mais íntimo e próximo (como já se tornou o caso).
Não concordo com Sorel em seus principais pontos de defesa, mas a discordância diminui quando o considero em perspectiva, no seu contexto histórico (naquele contexto talvez eu me aproximasse bem mais das posições dele).

No entanto, se discordo dele em alguns pontos que são centrais e fundamentais para sua teoria, mas concordo com quase todo o resto, não posso deixar de lembrar que ocorre exatamente o mesmo em minhas relações com Maquiavel, a quem considero um aliado, e não um adversário.
Mas considero Maquiavel um aliado porque encontrei para ele um par de “sombras” aliadas que posso ler em paralelo como se estivessem confundidas com ele em um só autor mais complexo: Montaigne e La Boétie.

No caso de Sorel, minha passionalidade na leitura me leva espontaneamente a fazê-lo acompanhar-se de muito perto pela sombra de um adversário (valoroso) que é Marx, e já não tão de perto, pela sombra de um aliado (Malatesta) que para mim não está de modo algum em primeiro plano (pois ainda prefiro Proudhon e Stirner).

Por outro lado, Sorel tem procedimentos de raciocínio muitíssimo parecidos com os meus em diversos aspectos, mesmo quando acaba chegando com eles em resultados que eu rejeitaria totalmente e mesmo radicalmente. Essa similaridade de procedimentos de raciocínio para mim pesa muito na definição de um autor como “aliado”. Enfim, no balanciamento de meu posicionamento, por enquanto, Sorel parece firmar-se cada vez mais bem em cima da divisa, sem meios termos: parte dele totalmente no campo dos meus “adversários valorosos”, outra parte totalmente no campo dos meus “aliados” de diálogo íntimo.
Meu problema maior com Sorel continua sendo o elemento fascista que transparece como uma tendência natural no horizonte de sua filosofia, filosofia que realmente acabou se encaminhando nessa direção.
Minhas percepções iniciais e um tanto intuitivas, de que Sorel, apesar de com um pé no anarquismo e outro no marxismo, se mantém perfeitamente coerente, e ainda coerente quando desliza para o fascismo (colocando para essas duas correntes de pensamento incômodos que não podem ser ocultados debaixo do tapete), estão se mostrando cada vez mais precisas e certeiras. E isto contradizendo aqueles defensores de Sorel que consideram distorcida a leitura que o coloca no campo do fascismo… — infelizmente, muitíssimo infelizmente, de modo cada vez mais firme tendo a afirmar que estão errados. …E que Sorel por isso mesmo é um desafio excelente para marxistas e anarquistas autocríticos que queiram superar tendências autoritárias ocultas no fundo de si mesmos!

Sou talvez tão soreliano quanto quase antimarxista, de um lado, e tanto quanto completamente antifascista de outro… apesar de Sorel, o fantástico Sorel, o realista e profundo Sorel, o duro, elegante, agressivo, ao mesmo tempo refinado e embrutecido Sorel que tanto me fascina, apresentar um tanto das duas coisas ao mesmo tempo e de uma só pernada! — Ai ai ai… salvem-me os traços anarquistas e profundamente polemizantes, valorizadores da divergência, também presentes nesse diabo tentador dessa filosofia da “porrada”… hê hê hê…!

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