Posicionamento em relação à crítica da filosofia nas Teses sobre Feuerbach de Marx

Filosofia e  interpretação

Quando um estudioso de filosofia não se limita a ser apenas um estudioso de perfil acadêmico — apenas um comentador e explicador de textos de outros — é bastante comum o encontrarmos envolvido ao mesmo tempo com diversas outras atividades, principalmente atividades de pesquisa em outras áreas, das ciências naturais, exatas ou humanas. Filósofos com frequência são ao mesmo tempo praticantes de uma ou mais ciência além de filósofos.

Isto tende a ocorrer por causa do perfil característico da atividade filosófica. Ela não funciona como uma especialidade da mesma maneira que ocorre com as práticas científicas — em que por exemplo dificilmente um sociólogo estudará problemas de física avançada ou um químico problemas de antropologia ou de direito. A filosofa, pelo contrário, leva o filósofo a se concentrar muito menos na solução de problemas para algum assunto de área específica, e muito mais na elaboração de um ponto de vista, na construção de uma abordagem geral que seja racional ou estilisticamente coerente (ou no melhor dos casos ambas as coisas) para tratarmos dos mais diversos problemas das mais diversas áreas.

É dessa sua abordagem geral racional e/ou estilisticamente coerente que o filósofo extrái ou conclui também, como algo derivado ou decorrente disso, suas respostas para problemas gerais de interesse da humanidade… ou para problemas específicos de diferentes áreas do conhecimento , da existência e da atividade humana, avançando com isso para dentro do campo de diversas especialidades. E quando digo que o filósofo constrói uma abordagem racional ou estilisticamente coerente, falo aqui de um estilo de pensamento — seja qual for a linguagem em que ele se exprima ou com a qual ele se confunda. Falo de um modo de pensar personalizado, bem mais do que de um estilo estético no modo de expressão desses pensamentos (ainda que essas coisas na prática às vezes se confundam).

A abordagem filosófica coerente que o filósofo desenvolve, marcada pelo seu estilo de pensamento, procura oferecer um modo particular, adequado, interessante, consistente, relevante etc… em suma, de alguma maneira valoroso, de se entender — ou interpretar — os diferentes problemas que já surgiram, que surgem ou que podem vir a surgir na existência humana como um todo. Ou nas diversas atividades especializadas dos seres humanos, incluindo as atividades científicas, políticas, religiosas, artísticas etc.

Neste sentido podemos dizer que o filósofo intetreta o mundo, ou melhor, constrói interpretações possíveis e válidas dos problemas de entendimento do mundo que são típicos da diferentes áreas da vida humana, e também para os problemas práticos de ação sobre o mundo que são típicos das diferentes áreas da vida humana. Mas ao fazer isso, está oferecendo um entre outros modos possíveis de se encarar os problemas com que lidamos em nossa existência, uma entre outras interpretações filosóficas também válidas. E o filósofo não apenas apresenta a abordagem filosófica que construiu, ao lado de outras construídas por outros filósofos, como além disso confronta argumentativamente a sua abordagem com as abordagens alternativas que existem na história dos debastes filosóficos mundiais — ou como prefiro dizer, no debate histórico da comunidade filosófica mundial.

A crítica à interpretação filosófica por Marx,
nas suas Teses sobre Feuerbach

Quando Marx, em suas Teses sobre Feuerbach, diz que a filosofia tem sempre interpretado o mundo, pensou estar falando de um certo tipo tradicional de filosofia, e procurou opor a ela a sua, que seria uma filosofia pautada em critérios mais dependentes daqueles da ciência (Marx foi muito influenciado pelo positivismo científico de sua época).

Marx errou — Porque a crítica que pensou estar fazendo à tradição filosófica mundial, especialmente aos aspectos mais conservadores dela na verdade era uma crítica válida para toda e qualquer prática filosófica, submissa ou não a critérios de outros tipos de atividades — como aqueles que pautam as especialidades científicas. De modo que a crítica de Marx atingiria inclusive a filosofia anti-filosófica construída pelo próprio Marx, submissa aos critérios mais gerais do conjunto das especialidades científicas.

Atingiria — Porque direcionada, sem que o próprio Marx se desse conta, em oposição à sua própria abordagem filosófico-científica. Mas também não atinge. Porque não? Porque na verdade, está fundada em uma má compreensão — porque superficial, caricata — que Marx faz da filosofia como um todo nessa crítica.

Marx errou aqui duplamente, inclusive, nessas suas Teses sobre Feuerbach. Porque nelas não apenas confunde o que é característico da filosofia com algo de caráter necessariamente conservador em termos políticos (o que não é verdade, porque sua própria teoria, por exemplo, não deixa de ser  filosófica nem deixa de ser uma interpretação)… Mas também trata a interpretação como se fosse algo a ser superado pela ação, o que é, rigorosamente, ignorar por completo as relações entre interpretação e ação — cujo exame ele vai retomar com muita força em outras formulações suas de modo completamente equivocado, mergulhando cada vez mais fundo no que eu consideraria como um grave ponto cego de sua teoria, de consequências devastadoramente autoritárias quando cai nas mãos inábeis de seguidores com baixo senso crítico.

As relações entre interpretação e ação nas Teses sobre Feuerbach de Marx:
o papel do proletariado no conhecimento

Para além das simplificações presentes nas Teses sobre Feuerbach, e considerando outros escritos, podemos dizer que Marx, grosso modo, vê as interpretações como produto da realidade prática social, e esta realidade prática social, por sua vez, como produto de sua própria dinâmica interna de conflitos entre polos de ação divergentes e, também, ao mesmo tempo, das influências dessas interpretações sobre ela que vão surgindo a partir dela própria. Mas para ele há uma interpretação privilegiada, mais capaz de captar a realidade do que as demais, que não conseguem ultrapassar uma compreensão superficial, incompleta e ideologicamente reorganizada a partir de desejos e juízos de valor.

E acontece que essa perspectiva ou interpretação privilegiada por seu sentido de realidade superior, acaba por ser atribuída por Marx a uma caricatura superficial e abstrata, muito mal resolvida aliás, do proletariado urbano e industrial consciente de sua “tarefa”ou “missão” histórica (concepção produzida por pontos cegos ainda maiores e mais graves da teoria marxiana), porque descreve esse proletariado com alguns traços simples e abstratos assumidos como se fossem “a essência” do que caracteriza tais trabalhadores, e excluindo ou marginalizando que não se esprema o suficiente para caber nessa estreita descrição, ou mais precisamente, quem não aceitar reduzir a ela todo o complexo conjunto de sua mais autêntica caracterização.

Essa interpretação privilegiada da realidade, segundo Marx (e atentando para o fato de estarmos fazendo aqui uma simplificação ainda grosseira apenas para passar uma ideia geral da coisa) — a do proletariado urbano e industrial “consciente” de seu “papel histórico” predeterminado como um destino pela sua condição socioeconômica, é justificada cpor Marx omo aquela que emerge de camadas sociais capazes de aliar o senso efetivamente vivenciado da necessidade, com uma capacidade de compreender e articular isso intelectualmente em palavras e organizar-se em ações sociais de relevo em relação a isso.Tentemos entender isso.

O que Marx nos diz sobre necessidades materiais e acesso à verdade,
e sobre as relações entre desejos e ideologia (ou falseamento da verdade)

Marxianamente falando, as pessoas são movidas, em resumo, pela busca dos bens materiais necessários à satisfação de suas necessidades. Quando esses bens faltam para elas, ao sentirem sua falta elas tomam consciência de sua importância — e essa consciência contribui para o seu bom sentido do que é o “real”, para o seu realismo, para que o senso de realidade esteja na base de suas ações.

Mas quando a pessoa tem condições de acesso mais fácil a certos bens necessários, a importância, a necessidade desses bens se dilui em sua mente, e ela vai voltar seu foco de atenção para aquilo a que ela ainda não tem acesso ou de que ela não quer perder o acesso — que podem ser coisas inclusive muito fúteis, mas sentidas por ela como se fossem “necessárias”. E como esse sentido do “necessário” é, no entendimento de Marx, a base do próprio realismo ou senso de realidade, essas pessoas desenvolvem uma visão menos realista das coisas do que alquelas que não tiveram tantas condições de acesso a bens. Assim, essa pessoa com mais facilidade de acesso aos bens materiais, acaba sendo movida muito mais pelo desejo de tais e tais bens do que pela real necessidade que tem deles.

O desejo, por sua vez, tende a ser manipulado pelos mecanismos de funcionamento do sistema capitalista de acordo com as necessidades do consumo. E esses mesmos mecanismos tendem a assegurar que esse desejo se mantenha forte e capaz de inclusive sobrepujar, na mente das pessoas, aquela percepção e vivência da falta de bens necessários, construindo a ideologia que tende a dominá-las acima do realismo, acima de suas reais necessidades. E a partir do momento em que isso acontece, a pessoa já não está mais movida pelo real, isto é, pela compreensão, e passa a ter uma interpretação inválida das coisas, uma interpretação mais alienada e/ou ideológica.

Uma compreensão diferente da de Marx: como atua realmente a filosofia?

Mas não é bem assim que as coisas se dão quando se trata de interpretações filosóficas. Elas não se dão do modo como Marx as descreve e critica. E também não é assim quando se trata de interpretações e ações de um modo geral, de qualquer tipo, e das relações entre elas.

As interpretações filosóficas, em primeiro lugar, não são apenas interpretações, mas interpretações em debate — e em filosofia, não temos teorias interpretativas sobre o mundo que são construídas para depois entrarem em debate umas com as outras: pelo contrário, elas vão sendo construídas e reconstruídas no próprio processo de debate, que inclusive as constitue por dentro como parte da própria trama da qual vão sendo tecidas. Pois mesmo quando não há argumentos explicitamente colocados de defesa da teoria contra outras ou de ataque de outras teorias, a confrontação já está lá, embutida, a cada vez que o filósofo se posiciona sabendo que há outros filósofos que discordariam e que já apresentaram uma interpretação divergente desta — ou seja, em praticamente todos os seus posicionamentos.

Isso para não falarmos daqueles momentos (frequentíssimos) em que o filósofo se posiciona já prevendo, clara e assumidamente, futuros posicionamentos que podem vir a surgir contrários aos seus, ou (o que é ainda mais comum) futuros contra-argumentos e refutações possíveis de outros a partes de sua teoria. As teorias filosóficas, em suma, caminham passo a passo atravessadas a todo momento pelo espectro do debate, da confrontação, do ploralismo de possibilidades alternativas em confronto, da divergência, da alteridade… portanto em confronto com o espectro da liberdade alheia de divergir, e a ser tratada não com medíocre e indiferente “tolerância”, e sim com efetiva consideração, com o exame efetivo autocrítico e meticuloso das implicações de cada colocação contrária àquela que se está fazendo. É assim que caminham as teorias filosóficas já há milênios. Sempre.

Todas as teorias filosóficas caminham assim. Mas Marx pretendeu fazer a crítica delas em suas Teses sobre Feuerbach, como se os debates, as divergências não tivessem relevância, por estar se referindo a teorias que ele julga terem baixo senso de realidade em suas interpretações — de modo que desconsidera esses debates como irrelevantes, a não ser no caso daquelas (principalmente as do hegelianismo alemão da filosofia política de esquerda em sua época) que estariam segundo ele mais próximas da verdade, porque essas recisariam ser muito criticamente consideradas, para limpar o caminho de todas as barreiras ainda restantes nela até o objetivo de ligarem a uma percepção efetivamente válida da realidade.

As teorias do idealismo alemão (sobretudo a de Feuerbach) precisariam ser muito intensamente “descascadas” de todos os erros pela crítica, justamente por serem as mais promissoras, e porque estariam então, segundo a visão de Marx, mais próximas de uma percepção realista dos fatos. Mais próximas daquela teoria que seria o grande achado filosófico-científico do futuro, daquela teoria que seria a capaz de articular com excelência essa percepção  da realidade em seu máximo (que é a percepção que ocorre nas camadas mais pobres da população, mais afetadas pela necessidade de bens, e mais capazes de avaliar o que é necessário à vida) com a melhor articulação consciente disto em raciocínios explicativos e exprimindo melhor os valores dessa camada social — articulação que teria as melhores condicões de aparecer se emergisse das condições de vida do proletariado industrial no capitalismo, de um intelectual proletário.

O problema é que em toda essa linha de raciocínio, além de desprezar o valor do senso crítico das teorias em debate com exceção daquelas mais próximas ao círculo jovem-hegeliano de Feuerbach, Marx trabalha o tempo todo com dos pólos que considera separados e interagindo um sobre o outro: o pólo das múltiplas interpretações da realidade feitas nas mentes e livros, das quais só uma poderia ser a “verdadeira”, como descrito acima; e o polo do mundo prático a ser interpretado e reorientado pela interpretação “verdadeira”, o mundo das ações e interações que, em si mesmo seria a própria realidade, e uma realidade unívoca, dotada de um único sentido, de uma única possibilidade efetivamente válida de interpretação.

Isto é um erro. As coisas não são assim. E não são precisamente porque podem não ser — ao contráriodo que Marx dogmaticamente supõe.

Uma visão não-marxista de integração maior entre interpretação e ação

O mundo prático está longe de ser uma realidade em si mesma unívoca da qual teorias mais equivocadas ou menos tentam se aproximar. Ele já é em si mesmo plural, carregado de alternativas, possibilidades, liberdades, múltiplos sentidos coexistentes a cada momento e que podem, de um momento para o outro, prevalecer umas sobre as outras ou submergir umas diante de outras na resultante final de suas interações, que aliás não é uma resultante sempre mecânica e matematicamente previsível ou calculável ou controlável por completo de modo algum.

Esse “controle” — mesmo pensado como um controle “intelectual”, uma “segurança” sum “saber” sólido e consistente acerca de uma realidade unívoca sobre a qual seria possível “acertar”, é um delírio, sempre — e bastante patológico aliás.

Trata-se muito mais de um “construir” incerto do que de um “descobrir” o que é certo. Mas essa “construção” por outro lado não há um puro e simples “vale tudo” em que nossa imaginação é o limite. Há resistências e contraforças no mundo, reais, efeticas, a tudo o que pretendamos fazer em qualquer direção no nosso dia a dia. As ações e suas interações são em si mesmas abertas a interpretações múltiplas igualmente válidas. Mas nem por isso são abertas a toda e qualquer interpretação. E nem por isso as interpretações igualmente válidas têm sempre o mesmo valor. Às vezes podem ter, outras vezes não. E as coisas podem mudar.

As ações também não são tão distintas assim do campo das interpretações, e uma ação em si mesma já é um conjunto de interpretações, que se dão na forma prática, do campo de ações e da rede de interações em que ela se dá. Mesmo que a gente não tenha chegadoa pensar em interpretação nenhuma.

Do mesmo modo, as interpretações não estão num campo separado em que os pensamentos tentam se aproximar da melhor representação dessa realidade prática das ações e interações, ou se perdem em especulações irrelevantes sem correspondência com a realidade. As interpretações são, em si mesmas, orientações que se vão dando às ações, e que se vão conjungando aos poucos em um conjunto que “faz sentido” em alguma direção. Depois é que se reflete a respeito complementando e estendendo aquilo que já se iniciou lá mesmo, na ação.

A questão do “controle” em face dessa
integração maior de interpretação e ação

Marx teve um vislumbre esboçado dessas coisas, dessa integração maior entre interpretação e ação em alguns momentos de maior lucidez. Mas no geral, se limitou a aceitar essa integração maior apenas entre o que julgava serem teorias mais próximas de uma efetiva correnpondência com a realidade prática — que eram bem poucas e claro, acima de tudo a sua própria — o resto delas estaria como que em um campo ou nuvem de alienações flutuando acima da realidade sem efetiva conexão com ela, num ambiente fantasmagórico de ilusões e delírios especulativos intelectuais, por assim dizer, com ocasionais momentos de assumida mentira e manipulação. Esse resto seria, nos dizeres do próprio Marx, mera “ideologia”, e não um esforço efetivo de correspontência com o real.

Mesmo essa maior integração de certas teorias menos ideológicas com o mundo prático, segundo a visão de Marx, ocorreria dialeticamente, no modo da práxis, como uma oscilação entre pólos no fundo distintos.

É em Nietzsche que encontramos essa compreensão integradora melhor delineada. E ainda melhor em Max Stirner — que Marx não entendeu… porque não quis realmente entender, apesar de escrever longamente sobre ele (de um ponto de vista meio que cego e voltado acima de tudo para a imaginação), apesar da insistência de Engels no sentido de que o amigo considerasse com mais atenção a crítica stirneriana aos sentidos de “propriedade” e “posse”, pela qual Stirner radicalizava e jogava essas noções capitalistas contra o próprio capitalismo num combate intelectual genial.

Marx teve a boa intuição pela qual captou o “construir” da, por assim dizer, “verdade”… mas se perdeu na insegurança da necessidade do “certo”. Isto teve consequências no comportamento de seus seguidores, mais tarde. Uma teoria qualquer, quando a desenvolvemos, precisamos saber que dificilmente chegará para os outros na exata e precisa interpretação que esperamos que se faça dela. E em especial a sua difusão e divulgação para muita gente, quando ocorre, tende a se dissolver em versões mais rasas, simplificadas, caricatas e medíocres — é natural que ocorra, ocorre por um mecanismo dos processos de comunicaçãso similar ao da entropia da física.

Infelizmente é raro encontrarmos filósofos que demonstrem uma clara consciência disso e mais raro ainda os que saibam como lidar com isso — porque é realmente muito difícil e frequentemente impossível e doloroso tentar “ccontrolar” o sentido final que terá nos interlocutores e nos intérpretes e no público aquilo que estamos dizendo e que para nós tem claramente tal e tal sentido.

Sobre conflitos e polarizações e suas conexões com o que é teórico

Quando se lida com isso de maneira rígida ou autoritária, tentando efetivamente a segurança do “controle”, o resultado tende a ser uma separação drástica e dogmática entre o que se supõe “verdadeiro” e o que se supõe “falso”. E nesse desespero de insegurança, pode acontecer de a gente se deslocar com facilidade, patologicamenter e sem a menor consciência inclusive, do “tudo é verdadeiro” em todas as informações que se adquire ou transmite ou se “capta”, para o “tudo é invenção ou falsa interpretação” em todas as informações que se adquire ou transmite ou se capta… — porque se perde o sentido da avaliação de graus de relevância.

Combinada a um clima de alta polarização na mente das pessoas entre “nós” e o “eles, os inimigos”, isto tem consequências lastimáveis para o senso crítico: tudo o que vem da categoria do “nós”passa a ser tomado dogmaticamnrte e em bloco como “verdadeiro”, e tudo o que vem da categoria do “eles, os inimigos” passa a ser tomado em bloco e dogmaticamente como mentira manipuladora, sem maiores ponderações e sem avaliação crítica. E frequentemente inclusive sem respeito ao direito de autocrítica e correção de quem se colocou, se for o caso.

Marx ainda tinha um pouco desse sentido de “medida”das relevâncias, embora fosse, a meu ver, tremendamente incompetente nisto. Ainda “media” o valor de teorias entre as que julgava próximas DA grande teoria a exprimir ao máximo o real. Mas sua linha de pensamento acaba fazendo os seguidores tenderem a essa polarização do “toda a verdade” ou “tudo é falso” (“ideológico e manipulador”, na linguagem marxista)… porque sugere isso, indiretamente mas insistentemente, para um leitor muito dogmático ou rígido que por acaso o leia. Está no próprio estilo um tanto belicista dele, por exemplo no ataque frequentemente dirigido mais às pessoas — e inclusive por suas condições de existência praticamente irreversíveis, vedadas a qualquer possível “correção” dessas pessoas — do que aos argumentos delas.

Marx debate com seus adversários por exemplo, muitíssimas vezes, ignorando suas argumentações e tratando de refutá-los pelo fato de terem nascido nestas ou naquelas condições socioeconômicas, argumento contra o qual a única resposta aceitável da parte de um intelectual tachado de “burguês”, por exemplo seria um total e completo abandono de absolutamente tudo no seu modo de vida como se para escapar validamente a uma crítica tivesse que sacrificar tudo o que ele é e ser como que “rebatizado”numa espécie de “sacerdócio” para o qual estaria entrando — Marx se refere elogiosamente a esses casos como “traidores de sua própria classe econômica”.

Esse “clima” intelectual dogmático, não defendido mas indiretamente estimulado por Marx, contribuiu mais tarde, após o marxismo leninista — e foi fortemente que contribuiu — por exemplo para que Stalin, que havia vindo das camadas mais pobres da população, tivesse ascensão maior no partido comunista soviético do que Trótsky, que era um desses “traidores de sua própria classe” entrados apenas a posteriori para o “sacerdócio”comunista após sacrificarem tudo na sua vida pregressa.

Sobre Stalin, Trotsky e a cegueira psicológica das categorizações abstratas

Trotsky, apesar de tudo o que sacrificou de sua antiga riqueza agrária de família “pela Revolução”, era visto ainda por muitos como pensador de um marxismo menos confiável que o de Stalin (apesar de sua leitura de Marx ser incomparavelmente mais cuidadosa e inteligente que a de Stalin, consideravelmente grosseira). Quem era Stalin? Um homem vaidoso, agressivo, vingativo, manipulador, autoritário e com alguns traços de sadismo, que veio de formação militar e religiosa, duplamente conservadora e autoritária, e absorveu dessa formação precisamente isso, e não alguma rebeldia ou sanha de liberdade.

Isso não quer dizer que o próprio Trotsky não estivesse contaminado também pelos efeitos dessas falhad na teoria original de Marx. Estava. E era também autoritário e agressivo. Apenas mais inteligente e cuidadoso em sua leitura de Marx, mais flexível e crítico, menos manipulador, e que eu saiba, sem os mesmos traços de sadismo.

Mas o que importa ressaltar aqui, o relevante, não é aquela disputa entre os dois (que terminou com Trotsky expulso da União Soviética e depois assassinado por um espião stalinista com uma picareta enterrada na cabeça)… o que nos importa aqui, porque é o que está dentro de nossa temática, é o que os membros do partido comunista naquela época viram em Stalin para o valorizarem tanto, apesar de sua baixíssima compreensão de Marx: não viram o homem, com as assustadoras características que descrevi acima — viram nele a categoria geral e abstrata do proletário, numa atitude típica de uma certa “cegueira” para fatos da realidade em favor de abstrações que exprimiriam supostamente a “verdade”mais profunda e essencial desses fatos, cegueira presente já no próprio Marx original, e metodicamente estimulada por ele nos seguidores mesmo diretamente, quando ainda estava vivo.

A deficiência da teoria Marxista quando se trata de compreender a alteridade

O grande ponto fraco de Marx, aliás, sempre foi acima de tudo sua dificuldade, enquanto pensador, de compreender a alteridade. Não só a da realidade para além de sua própria interpretação, apesar de fazer tanta propaganda de que este era o seu forte, mas também e principalmente a do pensamento alheio, do pensamento dos outros — coisa inclusive estrategicamente necessária para poder lidar realmente com eles, e não com um fantasma imaginário deles construido em sua própria cabeça.

Os membros do partido comunista viram em Stalin o que queriam ver nele, e não o que ele realmente era. Quando o compreenderam, era tarde demais para detê-lo. E muitos deles, depois de o terem apoiado, foram parar no cadafalso.

Essa “cegueira” — é o que estou procurando alertar — na verdade está inscrita em certos elementos da teoria do próprio Marx. Não tem como ser pura e simplente atribuída a maus intérpretes. No entanto, sei bem que dizendo isso corro o risco de que gente igualmente cega pretenderão então que a teoria marxiana seja “em bloco” perniciosa e ruim. Mas não é para estes que escrevo. Porque não escrevo para imbecis. Nem tampouco para fanáticos. Escrevo como alerta crítico para os próprios marxistas — aqueles mais dotados de senso crítico e espírito livre, mais abertos à ousadia dos muitos marxismos heterodoxos que já fizeram críticas consistentes e interessantes à teoria original, sem por isso deixarem de ser marxistas.

Não é o meu caso. Não sou e nunca fui marxista. Mas fui militante anarquista na juventude (já não sou mais mas mantenho forte simpatia por essa vertente), e nem por isso deixo de admitir que outro, antes de Marx, e com ainda muito maior intensidade, enveredou pelo mesmo caminho de polarização taxativa e cega e desestímulo ao debate democrático: Bakunin — nada menos que o mais influente de todos os anarquistas. E fez isto em um texto de imensa influência em sua época: Da reação na Alemanha. Na verdade, o mais provável é que o próprio Marx tenha sido influenciado nesse sentido por ele.

Sua compreensão tanto dos potenciais aliados quanto dos rivais em potencial e dos inimigos, entermos por exemplo político-filosóficos, se revela facilmente sempre pautada em última instância am alguns poucos traços gerais abstratos, abstraídos por ele do conjunto das características da coisa a partir de juízos de valor — inclusive na verdade muito mais pessoais seus do que representativos dos pensamentos de uma  “classe” ou categoria socioeconômica, como ele alega.

A circularidade pela qual ele julga que pode justificar isso, detectando os próprios valores como originados de consições socioeconômicas, não se sustenta porque sua própria descrição das “classes” socioeconômicas já é de saída tão extremadamente contaminada por uma abstração (sendo resumível a uns poucos traços característicos, como numa caricatura — que é efetivamente do que se trata). Uma abstração pautada em juízos de valor (preconceitos mesmo, o digamos com todas as letras).

As categorias socioeconômicas que ele próprio pretendia representar sempre se mostraram largamente avessas e resistentes a essa caracterização abstrata, não se reconhecendo nela, e “precisaram” — para usarmos a linguagem das versões mais autoritárias e manipuladoras do marxismo — ser classificadas como “utópicas” (mesmo quando conseguiam resultados práticos efetivos e relevantes) ou “alienadas” (mesmo carregadas de senso crítico e engajamento político), ou “dominadas pela ideologia burguesa” (mesmo quando combatiam o capitalismo burguês com ainda maior ferocidade do que os próprio marxistas)… ou coisas assim.

Um elogio geral aos marxismos heterodoxos

Essa fraqueza, essa falha do estilo de pensamento original de Marx, foi na verdade superada (e bastante bem) por muitos e diferentes herdeiros do pensamento marxista, pelos caminhos inteligentes da autocrítica, e com muito eficazes resultados. Mas naqueles marxistas (principalmente os mais ortodoxos ou ainda mais os de linhagens autoritárias, como a stalinista) em que essa falha grave de Marx não foi criticada e superada, ela se tornou a fonte de origem e justificação de uma das piores, uma das mais horrendas e inaceitáveis — para não dizer inclusive estrategicamente imbecis (e sociologicamente patológicas) — atividades no seio da política marxista: o “patrulhamento ideológico” contra os que, sem esse patrulhamento, estariam muito provelmente de seu lado.

O problema maior da teoria original marxista, neste sentido, está no modo como Marx pretende extrair das realidades observadas por ele o que julga ser a sua essência mais verdadeira e profunda. A essência, os traços essenciais, mais relevantes a considerar, da caracterização da classe proletária, por exemplo, é em Marx uma caricatura quase completamente irreal e inaceitável para um vastíssimo e variado contingente de grupos sociais componentes da camada socioeconômica dos trabalhadores assalariados. E o mesmo problema se repete em inúmeras outras caracterizações igualmente abstratas e caricatas operadas por Marx. Falta-lhe quase sempre — inclusive estrategicamente — uma base sólida de compreensão despreconceituosa do outro, daquele que diverge de sua próprio entendimento das coisas.

Se quisermos examinar isso do ponto de vista científico, podemos considerar o seguinte.

Há no cérebro humano certos mecanismos de funcionamento (já muito conhecidos e bastante estudados aliás) que levam a gente a tender para as simplificações sumárias classificatórias e agressivas nas caracterizações que fazemos de pessoas com as quais lidamos. Tendemos a agrupá-las em “nós” e “os outros”, e a artibuírmos a essa distinção, ao menor sinal de atrito, o sentido de um “nós contra eles”. Isto não é apenas humano, está presente também em diversas espécies de símios, por exemplo em chimpanzés.

Mas a questão seria muito mais apropriadamente tratada do ponto de vista metodológico-epistemológico (portanto meta-cientítfico e meta-filosófico) e do ponto de vista ético, do que do ponto de vista científico psicobiológico. O ponto de vista ético, infelizmente, precisa de uma fundamentação prévia cuidadosa, porque sem isso ainda pode ser facilmente penetrado e contaminado por preconceitos de sentido contrário àqueles de Marx (ele próprio tende a ser facilmente caricaturizado e tratado com preconceito, a partir de uma medíocre caracterização superficial e abstrata do conjunto do que produziu).

De modo que o mais adequado ponto de vista para a abordagem inicial dessa falha do pensamento marxiano, me parece ser a metodológico-epistemológica, que pode servir de base para uma crítica mais equilibrada do ponto de vista ético e de outros pontos de vista, como o político-estratégico. O fato é que há — e eu diria que muito evidentemente — algo de errado nos procedimentos metodológicos pelos quais Marx opera a extração daquilo que considera o essencial ou o mais relevante nas coisas, a partir dos fatos que ele vai observando. E isto rebate por sua vez na própria observação de outros fatos mais adiante, contaminando os filtros de recepção ou captação da realidade, em sua teoria, e por assim dizer, gerando e proliferando nela pontos cegos no que diz respeito a captar efetivamente a realidade tal como se apresenta. Alguns pequenos e pouco relevantes, outros gravíssimos.

Este é um ponto que mereceria exame crítico cuidadoso por parte dos estudiosos marxistas — que felizmente costumam ter em elevada estima esse trabalho de exame crítico de seus próprios fundamentos — muito mais aliás do que aquilo que observamos na imensa maioria das correntes de pensamento político-filosófico, o que veio a gerar uma variedade inumerável de interessantíssimas releituras e reinterpretações de Marx.

Aqui, aliás temos um ponto digno de especial consideração em Marx: apesar de suas muito frequentes distorções na captação do que lhe é outro, não falhou nem um pouco no quesito autocrítica: estimulou consideravelmente seus seguidores a reexaminarem e reavaliarem as coisas, incluindo até certo ponto os próprios fundamentos que oferecia a eles (eu, pessoalmente, procuraria estimular ainda mais isso, mas não se pode deixar de notar esse feliz senso de importância da autocrítica em Marx sem cairmos em injustiça).

O problema é que nem todos os marxistas captaram bem essa lição autocrítica do mestre — que levada a fundo por outro lado por alguns mais heterodoxos, acabou por proporcionar casos de superação extraordinária desse defeito de origem, nessa linhagem de pensamento, e por nos oferecer filosofias que estão sem sombra de dúvida entre os maiores e melhores legados do patrimônio cultural humano. São muitas vezes adversários bastante valorosos nos debates filosóficos, esses marxistas críticos heterodoxos. Não posso dizer o mesmo da maioria dos adversários capitalistas, frequentemente fraquíssimos.

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