Sobre a imaturidade popular e institucional brasileira

sumário

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Nosso bebê

Sempre quis ter um filho, mas acho que já passei da idade. É uma de minhas frustrações. Mas não sou egoísta, topo dividir com todos os cuidados com esse grande bebezão que é o nosso Brasil… e que de certo modo ou até certo ponto somos nós próprios. É interessante observar o quanto, em alguma medida, nós somos pais também de nós mesmos. O Brasil vive à procura do grande pai ou da grande mãe que resolverá tudo. Mas já tem tantos dentro de si mesmo, e nem se dá conta!

Observemos então essa nossa criança, porque temos sido pais bem desleixados. Tratemos da questão das divergências e do preparo para a vida social. 

De fato, o Brasil ainda não me parece ter amadurecido o suficiente para lidar realmente bem com suas divergências — e ainda menos com suas crises, embora tenha se aperfeiçoado consideravelmente bem na arte das soluções rápidas e superficiais, em dar um nome (qualquer nome, desesperadamente) à crise e bater nele o carimbo que diz “encerrado”.

Posso ter reflexividade suficiente para perceber isso, mas é coisa que sinto até em mim mesmo, atávica, vindo lá do fundo, quando emoções vêm à tona… a irritação com tensões e oposições, a angústia de voltar depressa a um estado emocional de maior conforto e tranquilidade, quase que a qualquer custo. (Vejo alguma dose disso em mim às vezes, e nem sempre… mas em algumas pessoas, às vezes em multidões de pessoas, vejo muito.)

Vejo isto no Brasil e nos brasileiros (como eu) já no plano orgânico, nas disposições da população, e ainda muito mais no plano jurídico e institucional, na estrutura óssea desse nosso bebê democrático que ainda está saindo do engatinhar e aprendendo a se equilibrar, correndo o risco desde já de umas fraturas precoces e dolorosas, porque não anda em terreno lá muito plano (aliás, o brasileiro em geral não é lá muito forte em “planejar” seus caminhos, esburacados quase sempre, e caminha normalmente no improviso e no tropeço).

Por isso, por esse atávico inconformismo com tudo o que nos traz o desconforto das tensões e oposições, naturais em uma democracia, as crises — como a crise evidente de legitimidade da representação política junto aos corações brasileiros — não são levadas até o fundo, e então… não se resolvem de fato. São substituídas por soluções de verniz. Por isso se repetem sempre mais adiante com novas cores e tons, visto que a opção é sempre pela solução mais rápida e menos dolorosa, saída na qual somos hábeis… e os problemas não são nunca realmente resolvidos.

O mundo: vida social e existência cultural

Nosso problema não é só nosso.

É agravado aqui — e muito — pelas sequelas de nossa história, cinco séculos de autoritarismo, e dos cinco, mais de quatro de deseducação, uns quatro séculos e meio carregados das marcas do chicote, da imposição e da tortura (e tem gente que ainda quer mais!). Contudo há coisas que não só aqui, que no mundo, ainda precisam ser melhor estudadas, experimentadas, melhor planejadas, melhor refletidas, melhor praticadas.

Aqui se trata a meu ver de um problema de formação dos agentes históricos (coletivos) no país, e de suas vias institucionais de expressão, que só parecem funcionar realmente naquilo para que instituições em geral servem melhor, que é reprimir, deter e conter, e não efetivamente exprimir. Mas é preciso compreender também que há nisso algo maior, um problema mundial, histórico e civilizacional: porque não há vida social sem instituições.

É preciso compreender que em qualquer parte do mundo vivemos — e me parece que só conseguimos viver — culturalmente. E isto quer dizer numa realidade social e artificialmente criada, da qual precisamos como de uma bolha uterina, um pulmão artificial, uma incubadeira em que respiramos, como se fôssemos um peixe num aquário feito por nós mesmos, e de um vidro maleável, que vamos desenhando e colorindo, mas também remodelando… Se uma bolha estoura precisamos logo de outra.

Instituições, sistemas econômicos
& outros meios de formação

A formação de um agente histórico (e só coletividades o são ou têm as condições para realmente sê-lo) envolve a de suas instituições de todo tipo e a de seus aparatos jurídico-políticos.

Mas também envolve o design dos meios de informação e comunicação assim como a de seu ambiente urbano e geográfico, a da arquitetura e design dos objetos com os quais lida ou em meio aos quais transita. E finalmente, envolve o design de sua organização administrativa e econômica — que inclui o design ou formato das técnicas e tecnologias de ação, e o das instituições econômicas públicas, privadas e outras, fechando o ciclo de toda esta lista de formas ou designs que vamos formando em nossa vida cultural.

Todas estas são formas em contato com as quais vamos nos formando. O conjunto de todas essas formações culturais é informado por nós e nos informa — como nos ensina Flusser. Redesenhando essas formas estamos desenhando em nossa bolha, ou redesenhando as formas dela, o que se reflete sobre nós e nos reforma ou nos transforma, e assim por diante.

Considerando a produção intelectual mundial em termos de reflexões disponíveis nessa direção, pode-se dizer que já aprendemos até certo ponto a importância do trabalho e da administração na formação de pessoas, embora sejamos ainda um pouco míopes quanto aos detalhes de efeitos mais amplos disso em nível social.

Também já aprendemos há algum tempo a importância das formas jurídico-institucionais na formação de pessoas, já pensando em coletividades — embora os estudos quanto a isso ainda me pareçam só arranhar a superfície. E aprendemos a importância da formas ou “design” de macroestruturas econômicas, como as do capitalismo em suas variações por exemplo — focalizadas por Proudhon, depois por Marx.

Nos falta conectar isto com o resto (e interconectar todo esse resto): as formas dos objetos de uso, as formas arquitetônicas, urbanísticas e geográficas, as logísticas de circulação pelas cidades… — a conexão, me parece (como parecia a Flusser), passa pelo exame das formas de produção e circulação de informações, porque as formas de objetos, casas, cidades e as vias de utilização que tais coisas nos oferecem também nos informam e nos formam.

É preciso compreender, me parece, que o bolo todo — destas formas com as do gerenciamento e com as formas jurídico-políticas, institucionais em geral, tecnológicas e econômicas —  que o conjunto disso tudo, enfim, é um grande processo de auto-alteração e autoformação de uma multiplicidade de agentes coletivos interpenetrados, e também individuais.

Que tudo isso se interconecta num processo de autoexpressão em que atribuímos limites a nós mesmos, nos espelhamos neles com nossas múltiplas facetas e tendências, potenciais ou possibilidades, nossos múltiplos caminhos disponíveis ou imagináveis — para em seguida rompermos esses mesmos limites com os quais nos havíamos delimitado e definido, tomando algum rumo redecidido e nos aventurando além da casca do ovo… até formarmos nossa próxima bolha ou nosso próximo ovo de autoexpressão coletiva e plural, avançando sempre de uma nova bolha para outra.

Nos falta, me parece, compreender, que a base de nossa tomada de rumos na história não é gerencial nem jurídica, nem é governamental ou econômica. Que ela é na verdade uma base informacional e formativa, educacional e expressiva — e que, arriscaria dizer, se manifesta até certo ponto, em estado embrionário e puro ou pelo menos mais consciente, no tipo de atividade praticado pelo artista. Porque somos historicamente, mesmo quando não nos damos conta, artífices de nós mesmos pela via da construção de objetos de auto-expressão, e de sua ruptura rumo a novas formas criativas para nos mesmos.

De modo que somos os responsáveis inclusive, enquanto cidadãos, pelos rumos que vamos tomando em um país, por exemplo… (e no Brasil estamos ainda começando a nos dar conta disso, tardiamente, e bem vagarosamente).

Entre a decisão dos agentes políticos históricos
e a repetição sistêmico-funcional

Todas essas coisas — gerenciamento, direito, governo, sistema econômico — assim que se engrenam em algum padrão de funcionamento regular, tendem a ser movidas pela mera repetição sistêmica e funcional, e só se alteram realmente e a fundo, a cada vez que tomam novos rumos, pelo impulso dos agentes coletivos envolvidos, em seu movimento de autoexpressão e auto-alteração (e também, na verdade, por uma margem ora maior ora menor de desvios incalculáveis e imprevistos gerados por uma multidão de microdiferenças individuais em ação — coisa que Hegel não soube enxergar mas a teoria do caos consegue mostrar).

No Brasil, por causa de nossa aflita habilidade para o encontro de qualquer solução rápida e de superfície, que nos alivie as tensões e nos traga logo de volta o conforto — adquirida historicamente e tornada atávica como um recurso desesperado de sobrevivência emocional pela via do a alienação e do alheiamento, por nossa história de autoritarismo, de chicotes e torturas — tendemos a buscar saída para as tensões e divergências em uma funcionalidade sistemática em que não precisemos tomar decisões nem suportar o outro, o diferente à nossa frente… um tipo de solução que não nos exprime nem resolve até o fundo nossas dores.

Porque não se resolverão no imediato. Precisam de expressões e de rupturas… muitas ainda, por muito longo tempo, até que nos curemos. E me parece sensato (já que sofro do mesmo mal do hedonismo) aprendermos como trilhar o caminho, preparando nossas instituições jurídico-políticas para ele com uma visão menos rígida, mais atenta às vias de expressão e resolução popular para as coisas.

Na esfera jurídica o próprio Kelsen pode mesmo fornecer algum recurso para isso, se na rigidez no positivismo jurídico brasileiro (e apesar dela) dermos um pouco mais de atenção às possibilidades do que ele chama de “dinâmica do direito”, e ao fato de que numa democracia o kratós (ou poder), em condições de equilíbrio, deveria ser dos demos (dos agrupamentos e comunidades sociais, e da sociedade civil des-organizada e também da organizada).

Os estudiosos dessas diversas áreas cujas formas e designs mencionei a importância, em todo o mundo (uns mais, outros menos), já começam a vislumbrar desde o século vinte as interconexões entre elas enquanto meios de formação social e coletiva (embora ainda seja notória uma certa estreiteza de visão nesse sentido especificamente entre os da área de administração, e ainda mais no Brasil).

Há caminho a percorrer. Estou com sono, sim, o oceano é grande e assustador, a praia é mais acolhedora e quentinha — mas é cedo pra morrer, ainda não quero dormir.

Bom dia pra você, me me está lendo. Estou me espreguiçando agora, diante do computador… acho que vou passar um café.

 

 

 

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