Sobre acusações de artistas à mídia ninja, ao pósTV e ao coletivo Fora do Eixo

Por João Borba – 19 de agosto de 2013 – artigo 6, vol 2

elos_umpresoQual o assunto deste artigo?

Havia colocado no site ProjetoQuem, na seção Links Recomendados, um link para o #posTV acompanhado de comentários elogiosos. Hoje, dia 14 de agosto de 2013, acabo de retirar provisoriamente de lá a indicação desse link devido a diversos casos de atuação suspeita do coletivo Fora do Eixo, possivelmente ligado ao posTV, pois estão circulando diversas acusações feitas por artistas vitimados por contratos fraudulentos sob a batuta desse coletivo.

O link original de recomendação, em meu site, dizia o seguinte:

Sustentado à base de festas e shows, diz a lenda que o #posTV está nas origens da Mídia NINJA (Narrativas Independentes Jornalismo e Ação) no Brasil. Novo modelo de jornalismo temático e engajado, direto e sem edição, voltado aos problemas  e lutas sociais da população, que atua ligado a outros coletivos ativistas. Excelente.

Agora, a indicação do posTV no site está exposta (na mesma seção), com o texto de recomendação riscado e com um link para esta postagem:

 Incentivo às dissidências

As acusações contra o Fora do Eixo, em volume crescente, partem de artistas vitimados por esquemas fraudulentos em que seus trabalhos são apropriados por essa “marca” (INSTITUIÇÃO) para exploração financeira e de concentração de influência e poder no meio cultural, sem respeito pelos direitos do artista.

Enquanto investigo as acusações, o site ProjetoQuem suspende provisoriamente suas recomendações a qualquer atividade que não comprove independência, autonomia, em relação a esse esquema, e desde já passa a incentivar dissidências do movimento Fora do Eixo que se disponham a continuar o excelente trabalho de forma que seja realmente e comprovadamente ética e transparente, e com respeito ao trabalho dos artistas envolvidos e valorização do trabalho de seus próprios membros.

Afinal, se as acusações forem incorretas, nenhuma dissidência poderia vir a prejudicar o coletivo em questão, segundo os princípios que o próprio coletivo alega seguir. O que é realmente libertário não pode ter problemas com “dissidências” igualmente libertárias, não é? A convivência entre grupos mutuamente dissidentes — e absolutamente independentes uns dos outros, em regime de equilíbrio de forças — é benéfica para qualquer mobilização libertária, e qualquer grupo que se oponha a isto está de imediato sob suspeita.

Em defesa da dissidência e da apropriação coletiva local

Acentuo que estou atuando desde sempre em defesa de todo e qualquer grupo que, de maneira ética e efetivamente libertária, sem fins ocultos de caráter capitalista ou no sentido da construção de candidaturas políticas, procure estimular os movimentos de transformação do país pela via do envolvimento direto da população, e sobretudo através das artes, da educação e da mobilização cultural em geral.

É preciso realizar a apropriação coletiva local de todas as operações que têm tido bom resultado na promoção de transformações no país, eliminando os focos de concentração externos de proveito disto no sentido da acumulação capitalista ou da concentração de poder e  influência. É preciso, em termos mais simples, cortar qualquer dependência em relação a focos de decisão centralizados, externos às operações locais, para que as coletividades locais se apropriem disto e o conjunto do movimento não seja minado por focos de concentração de força externos a essas coletividades.

Minha sugestão neste sentido, aos que lutam comigo neste sentido é, sempre que um esquema como este se estruture de modo mal intencionado, mas com bons resultados, pressionar no sentido da independência completa, completa autonomia (declarada e assumida publicamente, na mídia), dos diferentes grupos envolvidos em parceria uns com relação aos outros, e principalmente, acima de tudo, incentivar todas as dissidências e rebeliões internas que pretendam continuar o excelente trabalho de maneira que seja autenticamente libertária, ética e transparente, sem a perniciosa ideologia do “sacrifício por um bem maior” (fonte habitual da ideologia de “seita”), e sobretudo sem a submissão perniciosa a focos de liderança centralizados (seja uma liderança oficializada ou apenas informal, mas evidente)  quaisquer que sejam esses focos.

Sobre acusações contra a mídia Ninja

Há também acusações no sentido de que a “Midia Ninja” esteja ligada a esse esquema. Acentuo que tais acusações, mesmo que se revelem corretas quanto aos praticantes iniciais da mídia ninja, em minha opinião são absolutamente irrelevantes, pois quem a pratica, no caso é o que menos importa (desde que, evidentemente, tenha seus direitos como profissional de jornalismo respeitados): o modelo ninja de jornalismo continua a ser algo não apenas válido mas um modo de operação que deveria nortear todo jornalismo crítico. Basta apenas que se façam as devidas correções visando a confrontação de posicionamentos, para evitar a assimilação à dinâmica do mero boato e a seleção de informações que alimentem os interesses de focos ocultos de concentração de poder.

Sobre a importante diferença entre
trabalho voluntário e iniciativa voluntária

Trabalhei muitos anos em ONGs na periferia, como autônomo (pago, ainda que mal) e sempre fui frontalmente contra o trabalho voluntário, exceto provisoriamente em esquema de mutirão em casos de emergência pontual, como incêndios, inundações etc. Minha crítica sempre foi a de que o trabalho voluntário corrói todo estímulo a uma prestação de serviço efetivamente de qualidade às populações carentes, porque toma o lugar do trabalho qualificado e de qualidade desestimulando a busca de bons profissionais para o serviço.

Agora acrescento a esta mais uma crítica, e bem mais grave: o trabalho voluntário de pessoas sem preparo para uma atividade pode compensar sim o despreparo com o empenho, quando é muito realmente muito empenho… e por isso mesmo se presta a uma espécie de nova formulação do trabalho escravo, utilizando a ingenuidade das pessoas pela via ideológica, seguindo o modelo de “seita”.

É preciso lutar contra isso.

Existe uma diferença muito grande entre o trabalho voluntário feito nesses moldes (que estou colocando no foco da minha crítica aqui) e o trabalho voluntário no molde daquele que consolida por exemplo muitos softwares livres, na forma da contribuição de programadores, ou no molde do que faço ao realizar o site ProjetoQuem como uma espécie de enciclopédia gratuita: a diferença básica e fundamental está na questão da iniciativa e da não-obrigação.Permitam-me colocar-me como exemplo nisto. Nada nem ninguém além de mim mesmo me obriga a fazer algo como o site ProjetoQuem.

Não permito, não aceito, inclusive, nem mesmo o estabelecimento de laços de obrigação que me forcem por exemplo a criar uma seção que eu próprio não pretenda criar. Por isso, precisamente, é que posso me dizer completamente responsável pelo site. E acima de tudo, a iniciativa parte (sempre) de mim mesmo. Ninguém jamais pôde nem poderá me impor como obrigação (moral ou de qualquer outro tipo) fazer isto ou aquilo em meu site, e inclusive a minha sobrevivência não depende de fazer isto ou aquilo no site (farei das tripas coração para que jamais, em hipótese nenhuma, minha sobrevivência dependa do site). ele deve ser mantido pela minha vontade, não pela minha necessidade.

Este é o tipo de sentimento que deveria estar por detrás de um “trabalho voluntário”. Por isso, prefiro opor a ideia de “trabalho” voluntário a esta outra: a de iniciativa voluntária. Pois se a iniciativa parte de fora de nós, e nós apenas obedecemos a ela como a uma obrigação nossa, então não somos voluntários nessa ação droga nenhuma.

A participação das pessoas em algo como a Wikipédia por exemplo é, na imensa maioria dos casos, tão livre quanto isto que estou propondo, embora não tenha tão acentuada a questão da responsabilidade pessoal, da assinatura pessoal, como no site ProjetoQuem. É algo voluntário no sentido de que (e na exata medida em que) não se prende a uma rede de obrigações permanente (ou duradoura) na qual haja um desequilíbrio grande entre o que o que se dá e o que se recebe, e pior, uma rede de obrigações que não possa mais ser desfeita pela pessoa enredada sem muito sofrimento. A própria iniciativa é da pessoa, voluntariamente, em cada momento em que se dá, e não uma resposta a uma obrigação que se coloca vinda de fora dela. O voluntariado é pernicioso quando e na medida em que gera uma rede de obrigações formais ou informais à qual a pessoa fica constrangida, perdendo sua liberdade e iniciativa nessa rede e tornando-se funcionária dela… um funcionário que recebe pouco ou nada em troca por isso.

É contra esse tipo de coisa que estou falando.

Atenciosamente,

João Borba – autor do ProjetoQuem.


 

Em tempo: a acusação específica que, depois de acompanhar diversas outras neste sentido (que estão circulando na internet), me fez tomar esta atitude foi a que está aqui, no link abaixo.

link para a acusação mencionada – clique aqui

Um comentário sobre “Sobre acusações de artistas à mídia ninja, ao pósTV e ao coletivo Fora do Eixo”

  1. COMENTÁRIO COMPLEMENTAR IMPORTANTE DO PRÓPRIO AUTOR DA POSTAGEM
    Relendo o que escrevi acima, e examinando com mais atenção o caso, ouvindo em entrevista no Roda Viva dois envolvidos na coisa, o Bruno Torturra (pósTV) e especialmente o Pablo Capilé (Fora do Eixo), de quem nunca tinha ouvido falar (e parece ter bastante influência no movimento) — começo agora (ainda em agosto de 2013) a achar que bati talvez com força demais na questão. A princípio estou sim disposto a dar um voto de confiança ao coletivo Fora do Eixo. Mas com muita, muita, muita cautela.
    O que sugeri no sentido de apropriação coletiva local, independência e equilíbrio de forças das organizações parceiras envolvidas, é preciso que se entenda com toda clareza: não impede a utilização de algo como um banco de fundos comuns que possam ser transferidos para um ponto ou outro de acordo com as necessidades. Apenas afeta o modo como isto seria gerenciado, o nível de registro, clareza e transparência de todas as transações financeiras como estas, e de participação de todos nesse gerenciamento.
    O coletivo Fora do Eixo, suponho que nascido na informalidade como tudo aquilo que é espontâneo e libertário, me parece estar trilhando infelizmente alguns caminhos um tanto tortuosos que já vitimaram antes o PT, cedendo espaço à corrupção. São caminhos ligados muito especificamente à ausência de registro em transações, acordos e contratos (e digo registro aberto a público), e também à ausência de garantias de contrapartida a parceiros e colaboradores. Se o coletivo Fora do Eixo quer conquistar o público (e tudo indica que quer) deve fazer diferente, comprovar que é diferente, que faz diferente. Porque esses (já “tralhados” desastrosamente pelo PT) são caminhos que, sejam boas ou más as intenções originais, acabam abrindo muito espaço (MUITO) para as más se realizarem, e podem acabar destruindo gravemente as condições de realização das boas lá adiante.
    Se forem tomadas atitudes consistentes, mas realmente consistentes, no sentido de corrigir isto, o coletivo Fora do Eixo passará a receber, de minha parte, ao invés de suspeitas expressas publicamente, todo o meu apoio.
    Como demonstração de boa fé de minha parte, procurarei inclusive publicar em breve algumas sugestões perfeitamente realizáveis nesse sentido (ou desafios, se os mais desconfiados quiserem entender assim).
    João Borba.

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