Sobre apostas e certezas, inseguranças e forças, limites e contrastes

Por causa de uma conversa recente, estou pensando em coisas nas quais pensava bastante em 2012 (e nas quais nunca deixei de pensar). Essa conversa me fez pensar em coisas que aprendi no teatro, em meus vários anos como ator amador. Me fez pensar na arte da improvisação. Como se constrói uma boa improvisação? Do nada? Não: a partir da repetição, da adoção de algum padrão de ação, de alguma linha prevista de comportamento, a partir de algo… seguro, estável, não propriamente “improvisado”, algo seguro que, como não existe (porque estamos improvisando), precisa ser construído por nós naquele mesmo momento, conforme vamos improvisando, para nos servir de base.

Algo como ir construindo o chão seguro e sólido sob nossos próprios pés conforme caminhamos… mas sim, com segurança, para que possamos então ir brincando, alterando, variando livremente, experimentalmente, essa base de segurança, a fim de fazermos do improviso, do incerto, do inseguro, efetivamente um prazer, e uma valorosa intensificação do momento de criação que vai se desenrolando e prolongando ali, na hora, uma contínua e cambiante aposta. 

Uma vida bem vivida, me parece, é assim, improvisada. Mas bem improvisada: com a construção de uma boa base de segurança para que possamos levar adiante a nossa contínua e cambiante (e intensificante) aposta, sem transformá-la em sofrimento inútil, em mera angústia sem mais nada que preste. A boa angústia é aquela que é só um friozinho na barriga de emoção, de expectativa, de interesse vivo e prazeiroso… mas que não nos despedaça os apegos, os focos de carinho, de interesse e atenção, que nos alegram e aquecem o coração. Quem viu o filme The groundog day (O dia da marmota — na tradução infeliz para o português, como de hábito, o título tornou-se menos poético e irônico e mais “explicativo”: Feitiço do tempo)… quem viu esse filme já tem um bom material para discutir essa questão do improviso na vida de um outro ângulo, mas que tem alguma coisa de bem similar a este que estou apresentando aqui.

Enfim, para entrarmos diretamente no assunto: estou pensando em apostas (que intensificam a vida). E também na margem de incerteza sem a qual nenhuma aposta é possível. Portanto também estou pensando, por contrapartida, em segurança — essa necessidade que é uma fraqueza necessária, da qual não podemos nos livrar, e sem a qual, em última instância, não conseguimos nem sequer apostar… por que? Por que não conseguiríamos levar adiante a incerteza de uma aposta sem o contraponto de alguma margem de segurança ou certeza? Porque nossas fraquezas, nossos limites, nossas certezas e seguranças, nas quais nos apegamos doentiamente e sem as quais não conseguimos viver — essas coisas terrivelmente patológicas agarradas em nós — são no fundo aquilo que nos define, aquilo que nos caracteriza.

Devemos cultivar com carinho, inclusive, as nossas certezas, os nossos limites, as nossas fraquezas. Mas na medida em que possamos tomá-las como referências para orientar nossas ações, e não como barreiras ou amarras que nos prendem.

Em alguma medida, podemos nos “domar” e reorientar nossas crenças direcionando-as de modo que nos sirvam ao sentido que queremos construir em nossa vida, e não como barreiras.

Conseguiremos nos domar sempre por completo? Provavelmente não. Provavelmente inclusive só um pouquinho.

Mas não importa. Essa margem de segurança, esse cultivo de nossas próprias fraquezas (dentro do possível num sentido mais “nosso”), continua importante. É inclusive o que oferece o contraste para o destaque de nossas forças, daquilo em que temos a coragem e até o tesão de apostar, e que nos intensifica a vida.

Não somos “tudo”. Ser “tudo” é ser “nada”. É não ser. Pelo menos não humanamente, ou entre vivos — porque as vivências se dão nos contrastes, nas fronteiras, nos limites entre diferentes. Todas as percepções se dão assim, mesmo a percepção intelectual de ideias e abstrações, e não há nada em nossa vida que não seja vivência. (Aqui, como em tantas outras ocasiões, estou apostando no existencialismo, numa versão muito pessoal que tenho dessa linhagem de pensamento).

Não me agrada nem um pouco a ideia de transmitir insegurança às pessoas. Me agrada a de transmitir o valor da expectativa, do imprevisto, da aventura, da aposta. E fornecer o que é preciso para que as pessoas possam realmente apreciar isso: fornecer, dentro do que estiver ao meu alcance, possíveis margens ou bases de segurança, referências, e autoconfiança. Mas sem jamais permitir que essas coisas sufoquem o que é mais importante e o que elas deveriam sempre alimentar: a intensificante e vivificante experiência da alteridade!

Acho que é isso o que sou até quase o fundo das entranhas. Um profissional da educação. Um profissional da busca da alteridade… porque aprender, afinal, não é isto?

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