sobre apostas e crenças (novembro de 2012)

Queria poder apostar apaixonadamente no som desse sinal de intervalo, no som dessa voz que me pergunta algo assim tão pessoal, nesta carne do meu braço, nesta textura do giz, dura farelenta, que sinto ainda em eco de memória entre os meus dedos ainda brancos, nessa dureza escura e fria do quadro negro, nesta madeira do tampo da mesa, na luz da janela, nas caras de espanto e de riso que vejo, nesta firmeza do chão que está por debaixo dos meus pés… vou conseguir o outro passo? Será?! Aposto. Uau! Consegui!

 

Queria poder viver assim, em relação a tudo ao meu redor. Infelizmente, eu não posso, não tenho forças para tanto. Então direciono minhas apostas menores, em cada momento da vida, para certas coisas diferentes, como por exemplo um olhar convidativo da minha companheira lá em casa… e vou cultivando algumas outras mais longamente na vida, como por exemplo quanto tempo vou viver para curtir o que me venha de tais olhares, ou para realizar certas coisas que me apaixonam também, como uma teoria filosófica. O que está fora do foco das apostas, cai em crença, que se há de fazer!

 

Acredito, infelizmente, que há esse chão aqui debaixo dos meus pés. Mas podemos ir direcionando o nosso foco de apostas, e dando-lhe consistência ao longo da vida. Transofrmando em certos momentos essa crença tão aborrecida numa deliciosa aposta apaixonada. E as direções do foco, seus pontos de persistência e sua maleabilidade, dependem de como vamos nos formando, do projeto que criamos para nos mesmos, do nosso projeto quem.

 

Materialista? De um modo geral, é uma aposta, e uma aposta hedonista, porque gosto da ambiência material. Quanto a cada forma material que me aparece aos sentidos cotidianamente, tenho a fraqueza de não conseguir vivenciar a todas como apostas apaixonadas… embora umas desastradas e divertidas experiências culinária e nas artes, por exemplo, me ofereçam bons momentos desse tipo. Então, escolho. Vou me construindo na vida para modelar sempre melhor essas escolhas na direção do que sou e do que quero ser. Ateu? É uma dessas crenças em que caio involuntariamente… mas também gosto de ser ateu, e às vezes faço disso uma aposta. Quando não estou quanto a isto em modo de aposta, acaba por ser uma fraqueza… ainda assim escolhida, aceita e muito bem assumida. Um desses limites que me caracterizam. É parte do que sou, daquilo que me define. Cético? O ceticismo em mim é uma aposta, mas tem sim seus limites nesse materialismo quando sai do modo de aposta.

 

Anticreu? Mais uma aposta.

 

Filósofo…?

 

4/Nov./2012

 

 

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