Sobre candidaturas que querem se apropriar do sentido das manifestações de Junho de 2013

Por João Borba – 20 de junho de 2013 – artigo 2, vol. 2

rosto_no_quadro_sem_rosto_fora_do_quadro_p&b

Boas candidaturas que querem emergir de um movimento social orgânico tornam-se boas para elas mesmas, e ruins para o movimento

Algumas coisas sobre as manifestações de Junho de 2013 (que já estão planejadas até para Julho) precisam ser ditas. Neste artigo vou falar de uma delas.

É o seguinte. Precisamos ficar atentos, porque já há, conforme previsto, pessoas tentando se utilizar das manifestações em favor de campanhas de políticos, desta vez de maneira indireta, anti-eticamente, aproveitando-se do fato de estarmos com as atenções voltadas para outro lado. Acabo de ser convidado no facebook, por pessoas muito queridas, aliás, a sair nas ruas nos protestos vestindo verde.

A página do facebook referente a isso tem (por enquanto pelo menos) a foto de uma grande onda… pra bom entendedor meia palavra (no caso imagem) basta: é alguém do pessoal da tal Onda Verde de Marina Silva prestando um desserviço horroroso a essa moça (candidata talvez talvez talvez interessante, pelo menos a meu ver) que quer se candidatar. Desserviço porque pega muito, muito mal, tentar minar, destruir, esculhambar um movimento social orgânico dessa forma.

Ou alguém acredita sinceramente que um movimento desses vai manter o perfil entrando no cabresto de uma candidatura específica, e de contrapartida ainda ganhando, de graça, a oposição de quem se opõe a essa candidatura?

O que significaria realmente uma candidatura política oficial
que emergisse dessas manifestações?

Se isso acontecesse, se um candidato emergisse disso, emergiria com uma força cem vezes maior que a do Lula: para fazer o que? Cumprir as pautas do movimento? Isto, meus caros, não é possível.

Uma candidatura à presidência da república cumpre as pautas disso que se chama “presidência da república”, com ou sem as pautas de um movimento popular anterior em meio a elas, mas necessariamente — e atentem para o que estou dizendo: necessariamente — com as pautas do tal movimento em segundo plano, supondo que sejam seguidas. Porque inclusive isto não depende de quem está lá.

Não depende de quem está lá porque se trata da estrutura institucional da coisa. Da forma material que a coisa tem, e do que essa forma material permite ou não permite — e quando digo “forma material” quero dizer esse conjunto de características que oferecem uma certa resistência, que tendem a permanecer nessa sua forma, e que descrevem, no caso, uma “presidência da república”… e mais profundamente, um “representante político”, qualquer que seja a pessoa e qualquer que seja o cargo.

 

Não há “mocinhos” e “vilões” nessa história

Aliás, quanto à força das formas materiais que uma instituição tem, independentemente de quem esteja “preenchendo-a” (se essa instituição é por exemplo um cargo político) ainda digo mais: não há exatamente “vilões” e “mocinhos” nessa história.

Há pessoas com seus interesses e valores, fazendo parte de grupos que tem também seus interesses e valores, e há instituições que têm também, do mesmo modo, seus sentidos próprios de desenvolvimento. Sentidos que, no que dependem delas próprias, já não são determinados por pessoas nem coletividades, mas pela funcionalidade interna dessas instituições, pela dinâmica interna dos seus mecanismos de funcionamento, como uma espécie de “motor” que funciona do jeito como funciona, independentemente de nossas vontades e de para onde pretendemos ir, e que não, não é uma ferramenta neutra nem é plenamente controlável (muito pelo contrário, tende a nos controlar).

Do ponto de vista da dinâmica funcional de uma instituição, qualquer que seja ela, as decisões e torções de vontade das pessoas envolvidas se dividem mais ou menos assim: há aquelas que são funcionais, isto é, condizem com a dinâmica funcional da instituição; e aquelas que não são.

Entre as que “são”, ou seja, entre as vontades e decisões humanas funcionalmente aceitáveis para as instituições vigentes, estão as vontades e decisões de pessoas que sentem alguma segurança em se apoiarem na estabilidade dessas mesmas instituições, ou que retiram desse apoio grandes vantagens ou até o seu puro e simples sustento para seguirem vivendo.

Tais pessoas normalmente sentem muito, muito, muito medo, quando forças muito grandes balançam o funcionamento institucional regular. E gente com medo é gente perigosa.

Essas pessoas também não são “vilões” da história. Pelo menos não de saída. Mas serão, se os tratarmos assim e começarem a assumir esse papel (em geral, ninguém quer ser o “vilão”; mas normalmente as pessoas preferem assumir até mesmo essa posição a não serem nada, ou quando se serem forçadas contra aquilo que já está muito enraizado nelas). Isso pode acontecer. Podemos facilmente (muito facilmente, aliás), criar “vilões” reais, e na contraface deles, esses resultados de segunda mão, os “mocinhos”. É facílimo criar isso. Basta começar a usar as expressões “eles” e “nós” — e já haverá dois lados, cada um dos dois se autodenominando “nós” e chamando o outro de “eles… os vilões da história”.

 

A perigosa e politicamente essencial estratégia do “nós” e do “eles”

Esse mecanismo do “nós” e do “eles”, portanto, considerado o que já foi dito acima, é perigoso.

E por outro lado, é igualmente perigoso ignorar que há pessoas de fato assumindo, sim, essa divisão no fundo, mas na superfície dizendo sempre e apenas “nós” (e bem sorridentemente). Para uma pessoa mergulhada na corrupção até o pescoço, por exemplo, pode ser muitíssimo vantajoso entrar na onda do “nós”. Mas sem levar isso até o fundo (até aquele fundo em que há desvio de fundos “deles”, os trouxas, para os que esses caras realmente sentem como o seu “nós”, a turma da bandalheira que está com eles).

O que quero dizer é que fazer e desfazer essas classificações faz parte (e uma parte importante) do jogo nas lutas políticas — e digo “políticas” no sentido forte do termo, no sentido do que são essas manifestações por exemplo, não no sentido de rasteiras palacianas entre partidinhos e politiquinhos. As classificações do tipo “nós” e “eles” estão entre as armas mais fundamentais do jogo político.

Separar pessoas do grupo do “nós” passando a tratá-las como “eles” pode fortalecer ou destruir um grupo. Agregar mais pessoas no grupo do “nós” também pode, igualmente, fortalecer ou destruir (por exemplo dissolvendo as propostas originais em outras que desvirtuam o sentido do movimento). Muita atenção, então, quanto ao uso do “nós” e do “eles”. É grande parte do que agrega forças, e é grande parte do que as desagrega e dissolve, ou as faz se arrebentarem umas contra as outras. É o que conduz a violências, e o que dissolve violências, por exemplo.

É preciso lidar com isso com atenção e cuidado.

 

“Eles”: os procedimentos institucionalizados e as instituições em geral (…e seus — viciados ou oportunistas — dependentes humanos).

Permitam-me filosofar um pouquinho sobre esse “eles” muito específico que estou apontando em relação a meus posicionamentos pessoais: as instituições e procedimentos institucionalizados. Em especial aqueles que formam o conjunto do que costumamos considerar a parte tecnoburocrática da política, os meios técnicos e institucionais pelos quais as coisas são postas em prática na política. (Para os que gostariam de mais referências, estou relendo o conceito de “aparelho” de Vilém Flusser combinando-o com o de “instituição” utilizado por Cornélius Castoriadis… e com mais uma porção de coisas extraídas de Proudhon, Bakunin e Stirner).

Deixem-me esclarecer melhor meu conceito de “forma material”.
(Para os curiosos é coisa que venho pensando a partir de Demócrito, Flusser, Stirner, Aristóteles e a psicologia da Gestalt… e por incrível que possa parecer, não é uma salada louca não, é uma apropriação e reformulação conjunta, cuidadosa e coerente, de conceitos encontrados nesses autores, coisa que venho formulando há anos).

A forma material de uma “presidência da república”, por exemplo (dentro daquela maior de um “representante político oficial”) permite certas coisas, não permite outras, se ajusta a certas coisas, não se ajusta a outras. E coloca necessariamente — necessariamente mesmo, pois não há saída possível para isso — a sua própria forma em primeiro lugar, e o resto em segundo. Inclusive porque se não colocar sua forma em primeiro lugar, essa forma perde a materialidade, perde a resistência, e se desmancha, a instituição se suicida, desaparece e já não realiza mais nada.

Então — amigos, não se iludam! — se uma candidatura qualquer à presidência da república, mesmo que pareça muito boa sob vários aspectos, começar com um pegajoso “nós” em relação às manifestações sociais orgânicas ora em curso, estaremos assistindo na verdade a algo que pretende sim emergir no lugar da manifestação e absorvendo vampirescamente suas forças, e não de algo que irá “exprimi-la”. Porque qualquer expressão indireta por “vias institucionalizadas” de um movimento que é social e orgânico, é também necessariamente um falseamento da coisa.

Esse excesso de confiança nas instituições, aliás, é a única falha realmente grave da filosofia política do Castoriadis, o autonomista… ele precisava examinar um pouco melhor as críticas anarquistas já clássicas nesse sentido. Institucionalizações são (infelizmente) inevitáveis em algum momento da vida de um movimento social orgânico… mas é justamente um momento de morte, ou de uma prefiguração da morte, isto é, de sacrifício de parte da organicidade em vista de resultados específicos menores. Um movimento realmente profundo sobrevive a isso, é verdade, e tende a voltar a tona em outros momentos no futuro para rachar (e ocasionalmente até destruir) as instituições que ele próprio criou e que o abafaram. Tais instituições, mesmo criadas como ferramentas a serviço de um movimento social orgânico, são o oposto dele, o oposto de sua vida, de sua organicidade, e por isso necessariamente o traem.

O que digo é o seguinte: qualquer instituição que venha a dar forma a um movimento social orgânico (detalhe não mencionado até aqui… esta expressão, extraí das leituras de Proudhon e Bakunin) deve ser mantida sempre sob suspeita, sob vigilância, sob pressão e controle social desconfiado e constante. E isto é exatamente o oposto do que se pretende quando se quer transformar um movimento desses em manifesto a favor de alguma candidatura política. Porque isso tira a força de uma candidatura.

De modo que numa tal situação, seria ou uma coisa ou a outra, visto que uma coisa mata o momento de emergência da outra.

 

um apelo à luta pelo controle popular das instituições

Os mesopotâmicos, na antiguidade, tinham um ritual interessante no “coroamento” de seus líderes: o futuro líder, para ser empossado, tinha que ficar de joelhos e ser esbofeteado em público tantas vezes quanto necessário para soltar lágrimas muito visíveis para todos. A falha maior no ritual estava em acontecer apenas no momento da posse. A meu ver tinha que ser constante, arrancando junto com as lágrimas (de crocodilo, evidentemente) todas as mínimas artimanhas de poder e controle do povo, e aproveitamento das instituições em detrimento do povo, que são constantemente postas em prática, e escancarando isso tudo para todos em meio a essas lágrimas de bofetadas.

Acontece que isso inclusive não é suficiente. Porque não se trata de esbofetear as pessoas, mas as instituições que elas estão encarnando, porque se há pessoas que tiram vantagem ilicitamente das dinâmicas institucionais, é porque essas dinâmicas o permitem. E também não basta manter sempre as instituições “sob pressão” do controle popular. É preciso ir além, compreender e manter a constante consciência de que elas existem (as instituições) porque surgem, simplesmente surgem, queiramos ou não (e geralmente surgem no momento em que mobilizações sociais começam a “cansar” e perder sua energia orgânica original.

Na verdade, não há como nos livrarmos das malditas instituições, e uma vez que tenham emergido, tentarmos simplesmente nos livrar delas piora as coisas ainda mais, porque sabe-se lá que outras instituições vão emergir (e acreditem: vão emergir outras, rapidamente) e sabe-se lá com quais novos mecanismos de manipulação e controle do povo ainda não conhecidos essas novas instituições vão emergir.

 

A conclusão:
O perigo (provavelmente inevitável) do amortecimento das manifestações em instituições que podem acabar por substituí-las

Quando se trata de manifestações sociais orgânicas, não se pode confiar nas instituições. E geralmente, nem tampouco nas pessoas que se “penduram” em instituições para viverem, lícita ou ilicitamente, por exemplo tirando vantagens de brechas de interpretabilidade ou margens de “livre jogo” nos ajustes entre as “peças” das máquinas institucionais. As pessoas que criaram dependência em relação às instituições, em suas vidas, lutarão com unhas e dentes para manter essas instituições inalteradas.

As instituições em certa medida podem dar forma e força a um movimento social orgânico, mas só porque o canalizam numa direção específica, anulando todas as outras direções que vêm junto, todas as suas potencialidades (para quem já ouviu falar em Aristóteles), toda sua riqueza de propostas e liberdade de rumos.

Elas necessariamente reduzem o movimento para tonificá-lo (ou supostamente para tonificá-lo, porque na verdade tonificam seletivamente apenas alguns aspectos dele, o resto morre na engrenagem funcional dessas instituições). E reduzir assim um movimento social orgânico é matar justamente o que ele tem de social e orgânico.

Ficam as questões: é possível adiar esse momento até quando? É possível perpetuar o movimento sem esgotá-lo nem institucionalizá-lo? Se chegarmos a certa altura num limite do fôlego e das energias populares, estender o movimento indefinidamente para além disso será vantajoso ou desvantajoso? As ideias de “vantajoso” e “desvantajoso” implicam obviamente esta outra pergunta: Para quem?

Há outras mil perguntas importantes, e que nos ajudam a pensar e a nos preparar. Formule a sua.

Deixe uma resposta