sobre ciência e ignorância (novembro de 2012)

A Xlogia é a ciência que estuda os fatos do tipo X.

 

Para ser científica, procura ignorar discussões mais profundas sobre seus próprios fundamentos, seus métodos, suas relações com a vida, sua finalidade ou razão de existir. Nessas discussões, a Xlogia se mantém em nível estritamente técnico, dá atenção apenas ao que serve diretamente à eficácia das suas atividades práticas de pesquisa. O resto, deixa para a filosofia.

 

Para ser científica, a Xlogia ignora os fatos do tipo Y, exceto quando estrita e inevitamelmente necessários ao entendimento dos do tipo X. A relação com o resto dos fatos, aqueles outros cujo entendimento não seja estritamente necessário ao entendimento de X, ela deixa para a filosofia.

 

Para ser científica, a Xlogia procura ignorar qualquer afirmação que não seja sobre como são os fatos ou sobre como não são os fatos no que diz respeito a X. Ela procura ignorar julgamentos de valor, procura ignorar qualquer afirmação sobre se é bom ou não tais fatos relativos a X serem como são.

 

Para ser uma ciência aplicada, a Xlogia aceita alguns julgamentos de valor. Não poderia deixar de aceitar, porque a prática, a ação, se encaminha num sentido, afastando-se do outro, portanto é portadora de valores — positivos em relação àquilo para o que avança, negativos em relação àquilo de que se afasta. Mas para ser prática sem deixar de ser científica, os únicos julgamentos de valor que a Xlogia, muito cuidadosamente, passa a não ignorar, são aqueles que avaliam como é bom que tais fatos relativos a X sejam para que tal coisa relativa a X funcione direito, ou atue de modo eficaz. Todo o resto dos julgamentos de valor, a Xlogia (e mesmo a Xlogia aplicada) ignora, e deixa para a filosofia.

 

A Xlogia quando é sincera em seu intuito científico, tende a reduzir as relações com as quais trabalha, procura soluções elegantes, soluções simples na medida do possível. Pergunte a um matemático, ele sabe do que falo. Embora não possa, e nem queira chegar lá (pois não quer se tornar religião), o fato é que em seus valores intrínsecos (e ignorados por ela) a Xlogia tende para o X absoluto, o X que independe de todas as relações. É nesse sentido que avança, quando ignora o que é de outro campo. É por isso que só não ignora o que é do campo das relações estritamente necessárias ao entendimento de X.

 

A ciência é muito poderosa em seus resultados. No campo do conhecimento e das práticas dele derivadas, ela detém o quase monopólio da idiotice intrínseca do poder. As crenças religiosas procuram deter outro tanto, e tentam entrar numa disputa apaixonada. Mas são ignoradas por esse adversário irritante, que ignora paixão e irritação em suas disputas.

 

A ciência é a arte fria de distribuir e cultivar estrategicamente a ignorância, e jogar todo o resto no lixo.

 

Sim, a filosofia é o lixeiro da ciência.

 

3/Nov./2012

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