sobre crenças e anticrença (novembro de 2012)

Materialista ateu e cético. E lançam contra mim três argumentos. 1º, se sou cético, devo sê-lo apenas em relação à religião, porque já disse crer no materialismo. 2º, se me digo cético em matéria religiosa, como posso crer na não existência de deus? E 3º, há céticos religiosos, como Pierre Bayle, Pascal e até mesmo Montaigne… o ceticismo os lança em um “creio precisamente porque é absurdo; sendo absurdo, não posso saber, apenas crer” — mas isto coloca-lhes a fé ao abrigo das críticas da razão, que no entanto continuam valendo no que diz respeito a tudo o mais, àquilo que se julga conhecer acerca da materialidade.

 

Pois materialista sim, e já que insistem, insisto também ainda mais. Se houver alguém mais irremediavelmente perdido para a fé do que eu, me apontem, que vou tentar ultrapassá-lo… porque esse é, no fundo, o meu jogo. Então ateu sim, cético sim… e ainda anticreu — isto é, avesso a toda e qualquer crença. Inclusive aquelas que tenho, e também as que compartilho com materialistas “científicos”. Meu ceticismo anticreu atinge no mesmo pacote crenças científicas e religiosas, de modo que absurdo ou não, nada resta em que se deva “crer” (como restava a Pascal e outos “céticos crentes”).

 

E ainda assim… tenho crenças. E mais: escolho em mim, tanto entre as absurdas quanto entre as coerentes, aquelas que devo cultivar e aquelas que devo combater. Porque se trata de uma questão de formação pessoal. Então é preciso que me explique, pois a pressa em condenar as “incorerências” vai levá-los a vê-las aonde na verdade não existem.

 

Proudhon dizia-se antiteísta, porque reconhecia no ateísmo uma crença como qualquer outra, mas que sempre foi a de minorias… então, apesar de ateu, dispunha-se, do ponto de vista teórico, a supor a ideia de deus como hipótese, para então combatê-la: declarava-se inimigo da ideia de deus. Acho que não foi tão fundo quanto poderia e deveria. E digo-me então anticreu. Isto é, inimigo toda e qualquer crença. Digo que as crenças são uma fraqueza que deveria ser superada. Gostaria de não crer, em absolutamente nada. Infelizmente, porém (reconheço) elas constituem algo como uma patologia humana intrínseca a todos nós, e ao que tudo indica insuperável.

 

Então escolho aquelas crenças que quero cultivar — carinhosamente, inclusive… não vem o “carinho” da mesma fonte da “carência”, afinal? — e as que quero combater em mim mesmo. Combato a crença em deus, acolho e cultivo (com carinho) a fé na materialidade, como uma fraqueza incontornável e que me define.

 

Mas acima de tudo combato, e apaixonadamente (não “teoricamente” como Proudhon), a própria crença nas crenças, ainda que as tenha em mim mesmo. Por isso “anticreu”.

 

O que talvez ainda surpreenda, é que isto me faz mais materialista, e não menos!

 

4/Nov./2012

 

 

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