sobre intimidade, exposição e os rascunhos do Projeto Quem

Com a exposição de rascunhos do Projeto Quem (realizada principalmente na seção Rascunhos provisórios — mas que de certo modo caracteriza o próprio estilo do projeto como um todo — o visitante da seção que tem esse título, no Blog Quem disse, poderá postar comentários aos próprios rascunhos do meu material, antes que ele chegue a ser publicado no site ProjetoQuem ou materializado de alguma outra forma, em outros veículos de exposição do projeto (como por exemplo a série Sinapses de videoaulas de filosofia).

Mas nem todos os rascunhos estarão sempre expostos.

O Projeto Quem, apesar dessa exposição de rascunhos, não é nem pretende ser inteiramente construído sob os olhos do público — na verdade, nem mesmo sei se isto seria possível… e sinceramente espero que não.

Vivemos num mundo de hiperexposição de tudo, um mundo em que (para usarmos os termos de Flusser) tudo se “objetiva”, e no qual o sujeito (aquele que age e responde pessoalmente, personalizadamente, por suas ações), antes adensado nos espaços da “interioridade” e da “intimidade” — fatores importantes na construção do humano — esse sujeito que é (ou que costumava ser) agente de sua própria vida, enfim, passou a se exteriorizar e se diluir cada vez mais nos espaços públicos, perdendo sua subjetividade. Passou a tornar-se cada vez menos propriamente sujeito, e cada vez mais uma mera nuvem de informações.

A subjetividade humana precisa hoje reencontrar recursos para o cultivo de sua existência, eu diria aliás mais do que isso: precisa mesmo construir um novo espaço, inteiramente diferente, para sua preservação nesse ambiente de intensa e crescente hiperexposição e objetivação de todas as subjetividades.

Não obstante, grande parte dos rascunhos do Projeto Quem como um todo (e não apenas do site ProjetoQuem) — e digo inclusive a parte mais importante desses rascunhos — estará sim aberta a público.

Por que? — Porque o que está proposto na exposição de rascunhos do Projeto Quem não é na verdade a exposição, no sentido de uma desinteriorização “despersonalizadora”, e sim o inacabamento e uma dinâmica incessante de autoconstrução.

Todo este processo de realização de rascunhos públicos, expostos e abertos a comentários — que faz do Projeto Quem o que em arte se costuma chamar de um work in process — será sempre retomado em reflexões mais aprofundadas no site ProjetoQuem, na seção intitulada Autoreflexões do Projeto Quem. É o que está “pronto” de todo esse material rascunhado? Não. Assim como ocorre na vida, nada nunca estará “pronto”, jamais algo será “a versão definitiva e acabada”.

Isto não impede o salto de um patamar para outro. Aqui, no Blog: pensamentos “palpitantes”, vivos e incertos — na verdade mesmo palpites, lançados ao sabor e ao calor do momento. No site ProjetoQuem, as reflexões mais consolidadamente filosóficas sobre os mesmos assuntos, inseridas em um ambiente enciclopédico no qual se podem encontrar informações sobre todas as suas fontes. Aqui os palpites — e tudo aquilo que lhes dá pretexto, circunstância, contexto e resposta mais imediata. No site ProjetoQuem as reflexões, o adensamento, buscando um clima de maior gravidade e erudição.

Precisando melhor a coisa, o Blog Quemdisse contém: minha reação epidérmica à leitura dos textos, dos fenômenos sociais e das vivências pessoais, uma primeira e intuitiva seleção do que é relevante nisso tudo, meus “palpites” acerca dos assuntos (palpites que são o material dominante no Blog), e uma primeira ponderação desses palpites através de ocasionais comentários de visitantes. O site ProjetoQuem é o que dá densidade filosófica a isso tudo. O Blog Quem disse — assim como o fórum Bocas — pretende dar maior vida e fluidez a essa densidade no diálogo com a realidade presente.

Mas vale a pena estender um pouco mais, aqui, os esclarecimentos sobre a questão da “autoexposição” intensificada neste site, já que faço a crítica da tendência atual à hiperexposição de tudo.

É que como novo espaço para a subjetividade personalizada, aposto sim na reapropriação daquilo que está aberto a público, mas não por meio da privatização (ou de uma hipergeneralização do patrimonialismo, seguindo o modelo dos nossos políticos corruptos). Aposto nessa reapropriação realizada de uma forma inteiramente outra, ali mesmo, no espaço do efetivo interesse público, pela via do deixar uma marca pessoal contribuindo para o coletivo. Mais precisamente, pela via da personalização e do cruzamento de personalizações individuais em personalizações coletivas — e não pela via retrógrada da retomada de guetos de privacidade.

O novo caminho da subjetividade, no meu entendimento, não está no privado, não está naquilo que exclui outros, mas em uma seletividade compartilhada, e que não é compartilhada apenas com aqueles a quem oferecemos o acesso a algo que nos é íntimo, mas com aqueles que nos conquistam esse acesso, descobrindo nossas chaves de acesso, decodificando nossas mensagens. O novo caminho da subjetividade, nos tempos atuais, está nas relações íntimas pessoais que deslizam sob a proteção da opacidade da arte, da multiplicidade de interpretações, e dos labirintos da complexidade de acesso aos contatos diretos.

A nova privacidade está no compartilhamento de filtros de acesso à verdade e à sinceridade, de chaves de decodificação de algo que não está realmente retirado do acesso público, mas exposto sim, e no entanto dotado de múltiplas interpretações, das quais só os “íntimos” compreendem qual é a que exprime de fato a intimidade de quem ali se expôs.

A intimidade, atualmente, não é mais um campo privado (ainda há recursos consideravelmente bons de “segurança” e “privacidade” para a preservação do que é íntimo e pessoal… mas esses recursos estão em vias de extinção). A intimidade deixou de ser um campo privado, restrito, para ser um campo público apenas complexamente codificado e de acesso seletivamente facilitado. Não há mais — ou melhor, ainda há, mas não faz mais sentido, e “portanto” (como diria Proudhon) logo deixará de haver — o privado e o público como instâncias separadas: há graus de privacidade inscritos dentro do público.

 

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