Sobre o exercício do poder

New_pulsos amarrados com fita vermelhaQuem conhece minhas aulas sobre política sabe de minha paixão pela teoria de Maquiavel. Isso não quer dizer que eu concorde completamente com tudo o que esse filósofo diz.

Estava agora há pouco (pouco antes de clarear o dia) escrevendo algo para mim mesmo, e esse assunto surgiu. Estava pensando sobre as relações entre os diferentes campos de estudo em que minhas reflexões filosóficas circulam, e escrevendo o que ia pensando para em seguida fazer um diagrama interligando esses campos. Dois desses vários campos de ação do meu pensamento filosófico são o das questões ligadas ao poder e o das questões ligadas ao saber, e comecei a pensar em meu diagrama pelas relações entre esses dois campos, o que me levou a lembrar de Francis Bacon, e em seguida em Maquiavel, discordando de ambos.

Maquiavel pelo menos me parece mais sábio por reconhecer melhor o que chamo de “ignorância intrínseca” do saber. Isto é, por reconhecer uma margem de desconhecido que exerce papel importante na própria caracterização do saber — reconhecimento sábio que, em Maquiavel, transparece quando ele, acerca da sabedoria prática, considera a noção de “Fortuna” como demarcação daquilo que sempre pode ultrapassar as condições de saber e de agir de um agente político. Em Bacon, interessado em padronizar para todos os campos o que Maquiavel levantou para o campo político, a figura da Fortuna desaparece para ceder lugar a barreiras que ele otimisticamente vê como sempre ultrapassáveis (aquelas que ele chama de “ídolos”).

Posso estar errado, é claro, e me parece que especialmente quanto a Bacon, me corrijam se for o caso. Mas de qualquer modo, o que está em foco aqui não são esses pensadores, falo deles aqui apenas para não apresentar o que penso sem um contraponto, e porque o que penso faz contraponto com certa noção sobre o poder político que é derivada dos pensamentos deles.

Outro filósofo por cuja teoria sou apaixonado, Nietzsche, tem no entanto a infelicidade de acabar servindo também como reforço a essa mesma noção de política (ou mais precisamente do exercício do poder na política) à qual me oponho, porque me parece acabar justificando o eticamente injustificável, como ficará claro ao final desta postagem.

Enfim, estava com três softwares abertos ao mesmo tempo: um em que estava escrevendo sobre esses meus campos de pensamento, um que abri para fazer o diagrama que irei inserir no texto, e um para notas rápidas (do tipo sticky notes), no qual estou lançando pensamentos rápidos para organizar as ideias conforme vou fazendo o diagrama (e agora, neste momento, são quatro sofwares abertos, porque a primeira anotação, sobre poder e saber, me pareceu publicável aqui neste blog, de modo que abri também o navegador de internet para publicá-la).

A anotação, exatamente como a escrevi, é a seguinte:

Existe uma idiotice intrínseca ao exercício do poder, pela sua recusa do relacionamento com o outro enquanto outro, instrumentalizando-o. O que chamo de teoria sádica do poder, segundo a qual só se caracteriza como poder o exercício que considera o outro como outro e que o domina enquanto outro, me parece insustentável do ponto de vista prático a não ser para justificar o caráter humano do exercício de poder, o que o justifica em certa medida como algo “aceitável” sob o pretexto de caracterizar melhor o que é o específico da política. Demarcar melhor um campo da praxis humana não justifica essa justificação. O exercício de poder sobre outro (o único realmente possível) é em si mesmo injustificável, e quando se justifica, sim, sob a forma de jogo político equilibrado, já não se caracteriza mais como exercício de poder de um sobre outro.

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