sobre razão, abstração e diferassociação (de abril de 2013)

Uma possível definição de “razão”: razão é o aparecimento intensificado de processos valorados de associação diferenciante.

Uso a palavra “aparecimento” para não precisar dizer que pode se tratar de esclarecimento (sobre algo que já havia ali) e/ou de produção, criação (de algo que não havia ali). Ou seja, que esse “aparecimento” pode se dar receptivamente ou projetivamente em relação a alguém — o agente racional envolvido.

Digo que esse aparecimento é “intensificado” porque o aparecimento de alguma racionalidade (criada ou descoberta por alguém) em algo só se dá se essa aparência de racionalidade, ou aparência racional, não parecer uma mera continuidade ou extensão “automática” ou “por inércia” daquilo que já havia antes ali. Temos uma certa aparência inicial, e uma nova aparência, mais racional, que emerge nela (porque captada nela ou porque criada nela) para alguém (o agente racional envolvido). Se não há diferença, contraste, no grau de racionalidade nessa passagem da aparência inicial para a seguinte, e se não é uma diferença pela qual a segunda parece mais racional que a anterior, então ela simplesmente não parecerá “racional”, não parecerá por exemplo explicar ou esclarecer o que quer que seja.

Digo que são processos “valorados” porque, de diferentes maneiras, eles parecem acompanhados de avaliações positivas ou negativas em relação a si mesmos ou a algo. O processo de aparecimento de algo “racional”, de “alguma razão” em uma aparência diante da qual estamos, já carrega em si mesmo um sentido de valoração positiva… parecer “mais racional” tem já o sentido de parecer, de algum modo, “melhor”. Mas além disto, uma das atividades da razão consiste em argumentar, e o resultado de uma argumentação é a atribuição de valor positivo ou negativo a alguma coisa, dependendo de ser um argumento “a favor” dessa coisa ou “contra” ela. (Não está excluída, é claro, a possibilidade de uma avaliação que acabe por conduzir a um posicionamento “neutro”… mas nem por isso deixa de ser uma avaliação.)

Digo que são processos de “associação diferenciante” porque são processos pelos quais há análise e síntese. Pelos quais há “análise” no sentido de que há divisões, recortes em partes, determinação de “elementos” ou “unidades” envolvidas no raciocínio (unidades que podem ser, por exemplo, ideias), e portanto diferenciação entre essas partes, elementos, unidades etc. (diferenciação entre as ideias envolvidas no raciocínio, por exemplo, ou mesmo aquela diferenciação pela qual uma ideia ou noção qualquer se define, caracterizando-se por suas diferenças em relação a tudo aquilo que não tem esse mesmo conjunto de características). E digo isso também porque são processos pelos quais há, simultaneamente, “síntese” — no sentido de que essas partes, elementos, unidades etc. diferenciados por análise, são ao mesmo tempo unidos, ligados, conectados numa associação uns com os outros, conforme vamos ligando por exemplo um pensamento a outro.

O que estou dizendo é que o que a razão faz é diferenciar e também, ao mesmo tempo conectar (digo “associar”) o que está sendo diferenciado. Neste sentido, a velha ideia filosófica de buscar a unidade na multiplicidade ou a multiplicidade na unidade me parece exprimir, no fundo, a busca do que é “racional”. Só que a racionalidade tende a exigir distinções (ou diferenciações) particularmente bem feitas, precisas… contrastes nítidos; e a exigir também associações (conexões) firmes, muito íntimas, e não frouxas e vagas.

Para serem considerados “racionais”, os contrastes pouco nítidos, as coisas indeterminadas ou vagamente definidas, as coisas ambíguas etc., normalmente exigem maiores e mais claras justificações; e o mesmo vale para as conexões ou “associações” propositalmente “frouxas” e não muito próximas ou íntimas entre um polo e outro. De modo que a razão é um processo de associação diferenciante em que se exige maior intensidade na diferenciação (contrastes maiores, mais nítidos) — ou no caso contrário, maior justificação para não se buscar isso —; e do mesmo modo maior intensidade na associação (associação mais íntima, mais próxima, sem que se percebam facilmente “falhas” ou “rupturas” de raciocínio no salto de um dos polos diferenciados para o outro) — ou no caso contrário, maior justificação para que se aceite como válida alguma associação muito vaga ou distante entre os polos associados.

No uso da razão, o que propositalmente não se realiza em termos de nitidez dos contrastes ou de força das associações apresentadas, exige-se que seja transferido para as justificações dessa atitude proposital — que então precisam ser construídas com nítidos contrastes e associações firmes para serem válidas e, indiretamente, validarem o que foi apresentado de pouco nitidamente delineado e de pouco firmemente associado.

Mas essas associações diferenciantes — ou “diferassociações”, como prefiro chamá-las — que constituem a razão ou racionalidade, podem às vezes ter sua face “diferanciação” mais intensa que sua face “associação” ou vice-versa. E combinando-se isso com as diferentes manifestações de valoração no uso da razão, temos as diferentes atividades que compõem isso que chamamos de raciocinar ou de detectar razão nas coisas.

 

Quais atividades são essas?

 

São as de: esclarecer (receptar, perceber, captar) ou produzir (projetar)…

a) determinações ou indeterminações (delimitações, dizendo “o que faz parte de” e “o que não faz parte de” ou desmanches de delimitações, em outras palavras, diferenciações mais intensas ou menos, estas últimas também interpretáveis como indiferenciações);

b) conexões (associações tão íntimas quanto possível, com os polos tão próximos quanto possível uns dos outros), ou desconexões (dissociações);

c) argumentos (pró ou contra alguma coisa).

Quanto a “a”: determinar, delinear… ou desfazer o delineamento, a determinação… mas de quê? De outros itens do tipo “a” ou de itens do tipo “b” ou de itens do tipo “c” (ou de composições de tais itens, combinações deles etc.)

Quanto a “b”: quais são os polos conectados ou desconectados? Conectar, associar… ou desconectar, dissociar, que coisa de que outra coisa? Qualquer item ou composição ou combinação de itens de tipo “a”, “b” e/ou “c” em relação a qualquer outro item ou composição ou combinação de itens de tipo “a”, “b” e/ou “c”.

Quanto a “c”: argumentos pró ou contra o quê? Pró ou contra itens do próprio tipo “c” ou dos tipos “a” ou “b” ou composições ou combinações de quaisquer desses três tipos.

E eis a razão destrinchada numa combinatória de elementos componentes. Destrinchada formalmente. Formalmente demais talvez… é uma análise fria e formal da razão.

A questão final é a seguinte: quando analisamos assim alguma coisa, será que os itens em que a dividimos não perdem algo do sentido original e não se transformam em coisas diferentes do que eram já pelo simples fato de estarem considerados “em separado”? Será que não se definem pela sua própria participação no todo, pelas interações que estabelecem no conjunto do qual foram retirados por essa abstração analítica? Dissecar assim a razão ainda a mantém… viva?

Faltou a Descartes… raciocinar um pouco mais a respeito?

03/Abr/2013

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