sobre vida, morte e jogo (de julho de 1988)

Vamos fazer um jogo: vamos apagar três coisas da nossa cabeça. Vamos imaginar que não sabemos mais o que é:

 

morte

vida

eu

 

Vamos esquecer tudo isso. São três palavras vazias, completamente vazias. Três palavras ocas rodando na nossa cabeça. Calma, isso é só um jogo. (Agora vamos rechear essas palavras de novo, vamos reinventar o que elas querem dizer.)

 

Numa agitação epilética de ocorrências, onde tudo são (ao mesmo tempo) acasos e ecos, ocorrem tubos aspiradores. E um tubo aspirador (acaso e eco) que aspira ser “Eu”, se coloca como centro de tudo. Agora sou ponto de referência. Tudo ao meu redor é uma implosão caótica de acasos ao redor de um eco vazio. Viver é perceber o fluir dos acasos. Construir uma vida é modelar e direcionar o caldo louco dos acasos.

 

A morte não bloqueia a vida porque não é páreo para ela. A vida é um tremendo cassino onde todos os jogos são jogos de linguagem. E a morte é um bloqueio pequeno que acontece de repente em certos jogos da vida, dificilmente suficiente para barrar uma vida inteira. Morrer é “parar de jogar”. A gente morre muitas vezes na vida, morre de um lado enquanto está vivendo de outro. Às vezes a gente se aborrece com algum jogo, e aí a gente morre nesse jogo… às vezes a gente morre sem querer durante um jogo, e aí a gente fica aborrecido. Por isso a vida é cheia de gente aborrecida, que passa a maior parte do tempo mais morta do que viva e nem percebe. Morrer é muito aborrecido. Morrer é calar a boca.

 

Jogar, é ser assassino da morte.

 

1º de Abril de 1988 […dia da mentira? A própria data, próxima mas inexata, foi colocada no original manuscrito precisamente para sugerir isto. A imagem do tubo orgânico numa tempestade de acasos não era minha: era de Flusser, das coisas que o ouvia dizer. Imaginarmo-nos como tubos ocos parece absurdo: é e não é. Biologicamente e topologicamente é bastante razoável, ao mesmo tempo que existencialmente absurdo. Dizia Flusser que, do ponto de vista do contato com a realidade externa, somos de fato um enrolado, ou melhor, um emaranhado de líquidos viscosos e tecidos orgânicos moles e duros, com alguns apêndices (como braços e pernas). E que se emaranhou em torno de um tubo pelo qual passa por dentro, até sair do outro lado, a realidade externa: o tubo digestivo. Do ponto de vista da topologia matemática, a imagem é igualmente razoável: somos um tubo. A realidade como uma tempestade de acasos é uma visão de mundo democritiana, da qual Flusser era herdeiro, e que também herdei dele. Demócrito é um filósofo bem mais interessante do que apenas o criador da primeira teoria dos “átomos”. Já a ideia da vida como jogo, me vinha um pouco de Flusser, um pouco da leitura de Huizinga. Mas a palavra importante aqui, aquela que mexe com a data, é…”morte”.]

 

 

 

As regras. As regras são tudo o que é fixo, em relação ao que se movimenta. As regras são, ao mesmo tempo, muros na carne e trapézios no abismo. Que sejam, cada vez mais, trapézios melhores e muros inúteis.

 

7/Jul./1988

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