Somos movidos por valores ou por necessidades?

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Duas referências básicas para
a discussão do assunto: Marx e Nietzsche

Segundo Marx somos movidos por necessidades. Segundo Nietzsche, por valores. (Weber combina os dois em diversos aspectos, mas quanto ao que nos move, parece preferir a posição nietzscheana).

Porém tanto Nietzsche quanto Marx se apoiam no fundo em um certo fisicismo, em um certo materialismo energético, que considera tudo em termos de energias segundo um modelo análogo ao da física.

1. Marx

No caso de Marx, embora ele o declare com mais insistência, o materialismo energético em seu nível mais profundo não é tão evidente, porque se afasta do materialismo empirista ao qual estamos acostumados no nosso dia a dia (para Marx, uma mesa não é um objeto material se não for considerada como um processo em seu contexto social-histórico e econômico, desde sua produção até seu consumo final: considerada isoladamente, ela é uma abstração, por estar abstraída de todo esse contexto).

Mas o fato é que, lendo Marx, é possível fazer conexões entre o que ele diz dos movimentos históricos das massas sociais em luta pela satisfação de suas necessidades, e o que a física diz nas leis da termodinâmica. E há intérpretes de Marx que chegam realmente a fazer essa conexão. Mas seu materialismo é mais evidente quando fala sobre as necessidades humanas: porque segundo ele, essas necessidades são o que nos move, e para satisfazê-las, precisamos produzir e consumir os objetos materiais adequados para isto.

Ainda segundo Marx, quando temos a maior parte de nossas necessidades já satisfeitas, passamos a ser movidos por algo mais superficial: pelo “entusiasmo” — que é o que move as revoluções burguesas, mais superficiais que as operárias, porque puxadas por gente de mentalidade no fundo capitalista, isto é, gente orientada pelos valores individualistas de quem coloca acima de tudo sua própria riqueza individual.

Portanto, segundo Marx, os valores não nos movem: eles nos orientam.

2. Nietzsche

Para Nietzsche somos movidos por valores. Mas esses valores são produzidos em nós pela disposição de forças energéticas em tensão mútua em nosso organismo e ao redor dele (sob a forma de tudo aquilo que está no nosso contexto ou em relação conosco). Tudo, da matéria ao sentimento e ao pensamento, e até as idéias que circulam socialmente, são composições mais densas ou mais rarefeitas de energia.

Cada um dos focos de energia, nessa composição de forças energéticas, tende à sua própria intensificação — este é o sentido intrínseco de sua energicidade, que é intrinsecamente dinâmica (não há energia “parada”, e o sentido em que a energia, ou força, se move, é naturalmente o sentido da energização, o do fortalecimento, o da sua intensificação).

Trata-se além disso de focos de uma energia que podemos dizer indiretamente magnética. Essas forças energéticas são indiretamente magnéticas, porque não poderiam “criar” mais de si mesmas do nada, não poderiam “criar do nada” mais energias em si mesmas, criar mais força do nada. Movendo-se no sentido de sua própria intensificação, cada uma dessas forças energéticas só poderia aumentar, intensificar-se, arrastando e tomando para si mesma a energia das demais forças ao seu redor — o que a caracteriza como uma força indiretamente magnética, que atrai para si as demais e lhes “suga” a energia.

Naquilo que é vivo, essas energias são a própria vida, ou vitalidade, ou força vital… que podemos descrever como um impulso de viver, e de viver com intensidade. As forças que compõem o organismo são sentidas por esse organismo vivo como vontades de poder — uma gana de manifestar e exercer com intensidade sua força.  No caso dos fortes, essa gana de efetivar sua força, sua energia, se manifesta especialmente no enfrentamento contra desafios e forças do mesmo nível ou superiores (vivas ou não).

Mas Nietzsche, se não me engano, tende a considerar a vida como algo frágil no conjunto da natureza, e as forças maiores como sendo de caráter inanimado. Isto coloca um elemento trágico nessa tendência para a intensificação das nossas forças, porque na medida em que formos conseguindo realizá-la em nós, iremos ultrapassando a condição humana e, no limite, a própria condição de seres vivos, o que significa uma espécie de morte, mas uma morte a que chegamos por um processo de ascensão, no extremo oposto daquela a que chegamos pela decadência do nosso organismo.

Note-se que o próprio Nietzsche (que ao contrário do que muitos julgam não tem absolutamente nada de “místico”) não parece ver qualquer possibilidade de ultrapassarmos efetivamente nosso estado humano, demasiado humano continuando na condição de organismo vivo do tipo humanoide, de modo que tende a ver essa ultrapassagem mais propriamente nos termos de uma alusão à morte heroica dos guerreiros da antiga aristocracia grega do que em qualquer ascensão mística de tipo espiritual.

Para ele não há inclusive “espírito” separável de matéria. Espírito e matéria são igualmente composições energéticas, e nada mais. Aliás, para ele as energias estão mais adensadas e intensificadas naquilo que é material do que naquilo que é imaterial, espiritual, como ideias, pensamentos etc. Por isso é que o vivo, carregado de elementos imateriais como sensações, sentimentos etc., é frágil. E o vivo pensante lhe parece ser ainda mais carregado de regiões rarefeitas e fracas — as regiões dos pensamentos e abstrações, das ideias, crenças e valores.

3. De Nietzsche a Pascal, ida e volta

Segundo Nietzsche, o ser vivo é movido por suas regiões mais rarefeitas, movido por suas fraquezas. No humano ainda mais que em outros animais. E no humano fraco essa dissolução avança mais e mais. No forte, ela se reverte num esforço de intensificação que significa ultrapassar esse campo rarefeito da “espiritualidade” e mergulhar na materialidade.

Entretanto, Nietzsche não está defendendo alguma espécie de mera decadência do humano em sua animalidade. Valoriza a possibilidade de que um humano vá para além da condição humana nesse mergulho na materialidade, e não que ele volte para trás retornando à animalidade pré-humana. Valores são coisas do campo que costumamos chamar de “espiritual”, portanto do campo mais rarefeito, mais fraco e menos intenso da existência humana, mas são segundo ele o que nos move — e os demais animais não têm propriamente “valores”. Vivem a vida sem avaliá-la.

Para compreendermos melhor esse mergulho na materialidade que Nietzsche valoriza, precisamos compreender que ele, apesar de todo o seu materialismo, era (assim como eu) um leitor apaixonado de Pascal, cuja filosofia não deixava de influenciá-lo.

Para Pascal, no centro de nós há um grande vazio do qual fugimos para distrações na vida. O vazio, diz ele, é mais importante que essas distrações que constituem a vida social humana. Mas a grandiosidade humana não está em isolar-se na solidão para mergulhar nesse vazio, e sim em estender-se da diversão, ou distração que constitui a vida diária, até o fundo vazio, sem deixar de encará-lo de frente, portanto se fugir desse vazio, dessa região rarefeita e oca em nós, mas também sem abandonarmos a condição humana e social.

Em Nietzsche, este modo pascaliano de ver as coisas se reflete na noção de que o mais valoroso está também em nos estendermos, tanto quanto nos for possível, da condição humana até o mais profundo mergulho possível na materialidade natural e orgânica, mas sem abrirmos mão da humanidade. Isto seria a supra-humanidade, a condição de estar para além do humano, e não uma infra-humanidade, não uma condição sub-humana e puramente animal.

A condição humana, segundo Nietzsche, é a de um animal insuperavelmente alienado da materialidade natural, vivendo em seu próprio campo mental (materialmente rarefeito) mais do que em contato direto com essa materialidade natural. Tal condição alienada do ser humano lhe permite atribuir valores às coisas. E Nietzsche não pretende de maneira nenhuma valorizar uma situação em que não poderíamos mais avaliar o que quer que fosse… por estarmos abaixo da capacidade humana de avaliar.

Pelo contrário, quer que a própria capacidade humana de avaliar as coisas nos conduza para o que está acima (e não abaixo) das condições de qualquer avaliação possível. Quer que a própria capacidade humana (demasiado humana) de avaliar as coisas nos conduza, em suma, a apreciar e valorizar acima de tudo a vida (a vitalidade, o viver intensamente) — e apreciá-la, devidamente, como algo tão superior que nossa própria existência tal como somos depende disso (de estarmos, e intensamente, vivos).

4. “Fortes” e “fracos” — os valores humanos segundo Nietzsche

Segundo Nietzsche, há basicamente dois tipos de valores que podem derivar das diferentes composições de forças em nós e ao nosso redor: o dos fortes, que é o tipo de valores produzido em nós pelos focos mais intensos de energia; e o dos fracos, que é o tipo de valores produzido em nós pelos aglomerados de energias fracas que tentam resistir ao magnetismo das mais fortes.

Os valores do fraco são os que colocam a sobrevivência acima do impulso de viver com intensidade. Envolvem a comunhão de forças, especialmente para resistir contra o mais forte ou contra forças superiores de qualquer espécie, encarados como “maus” ou “ruins”. Envolvem também por outro lado a obediência fácil e a passividade, o espírito de massa e a tendência à mediocridade, à valorização do que é comum, habitual, seguro, estável, regular, previsível etc., repudiando tudo o que pareça arriscado, estranho, diferente, incomum…

Os valores do forte são os que envolvem o impulso no sentido de viver a vida com intensidade, colocando isto acima da mera sobrevivência, considerando a sobrevivência apenas como condição básica para uma vida intensa, e nada mais, o que significa assumir e curtir os riscos, calculando-os em função apenas do que a sobrevivência pode permitir em termos de intensificação da vida.

São valores que envolvem ousadia, originalidade, independência, autonomia, iniciativa, prazer pelo enfrentamento de desafios à sua altura, apreciação do que é diferente, inusitado, surpreendente, valorização da diversidade, da aventura, da experimentação etc.

É importante notar que o forte reconhece, aceita e assume, e inclusive valoriza, suas próprias fraquezas, seus limites, ao mesmo tempo que continua enfrentando-os e procurando superá-los. Encara suas próprias limitações (isto é, as forças que superam as suas) como desafios admiráveis.

(O interessado no assunto, pesquise os temas da amizade e do amor fati em Nietzsche.)

5. A questão da liderança e da obediência em Nietzsche

Esses valores nietzscheanos incluem, é claro, boa parte do que está envolvido no que chamamos de liderança — mas apenas enquanto provisória e sem constituir qualquer compromisso ou obrigação para além dos que o próprio líder decide assumir, e enquanto mantiver por si mesmo e livremente essa decisão. Porque prender-se ao que não quer mais, ou mesmo entrar em alguma espécie de dependência em relação a liderados ou à existência de alguém para liderar, é coisa de gente fraca. Quando o forte mantém compromissos, é porque quer mantê-los, e não por força maior. 

Para uma boa compreensão de Nietzsche, é preciso reforçar a questão provisoriedade de qualquer impulso de liderança, e do caráter instável, precário e aventureiro, repleto de riscos, de qualquer liderança possível.

O fato é que a liderança real gera sempre, inevitavelmente compromissos e laços de responsabilidade, e sem isto, conduz rapidamente à derrubada do líder. E para Nietzsche, tais laços e compromissos são sinais de… fraqueza.
De modo que ele está valorizando um modelo propositalmente incompetente de líder, e estou falando da competência para manter e aumentar sua liderança. Porque não está de fato valorizando os líderes ou que as pessoas mantenham e aumentem sua liderança. Esta seria (é, porque muita gente a faz) uma leitura medíocre e superficial de Nietzsche.

Nietzsche não valoriza a liderança. E inclusive valoriza mais a vontade de poder do que o poder em si mesmo quando exercido de fato. Valoriza sim, que essa vontade de poder se realize, mas apenas para poder avançar para a realização de uma vontade de mais poder ainda. E no entanto, não dá valor a (pelo contrário, despreza) a condição básica de estabilização e crescimento do exercício de poder de alguém sobre outros, que é a obediência desses outros. É preciso estar muito atento a isto, se queremos compreender bem Nietzsche.

Há quem pretenda fazer de Nietzsche uma espécie de defensor das lideranças fortes e que exercem sobre os liderados um domínio irracional (Weber parece compreendê-lo até certo ponto deste modo). Entretanto, de uma perspectiva nietzschiana não há estabilidade nas composições de forças que formam as coisas vivas ou inanimadas do mundo. De modo que o “forte” e o “fraco” são apenas referências indicadoras para um estado ou condição em que a pessoa “está” provisoriamente e em determinado contexto.

Uma pessoa sempre está forte em tais e tais aspectos de sua vida, ao mesmo tempo que por outro lado está fraca em tais e tais outros aspectos de sua vida. O “forte” é apenas aquele que está mais forte por mais tempo e na maior variedade de aspectos de sua vida, enquanto o “fraco” está mais fraco por mais tempo e na maior variedade de aspectos de sua vida. Além disso o forte só é “forte” em comparação com esse “fraco” (e vice-versa). Apenas o forte não faz tais comparações, não está preocupado com elas, por mais que sejam reais; ele não pensa em si mesmo a partir comparações com os outros, não se compara com os outros.

Entretanto… será que realmente há alguém que esteja sempre, o tempo todo e em todos os aspectos da vida, mais forte que todos os demais? — o próprio Nietzsche riria da crença ingênua nisto.

Que haja ou possa haver algum dia alguém assim, é para Nietzsche apenas uma hipótese. Uma hipótese que ele considera de fato particularmente atraente, mas nem por isto menos hipotética, ou mais real. Continua sendo sempre e apenas uma hipótese. Atraente, segundo a perspectiva de Nietzsche, porque seria alguém a ser muito valorizado, muito admirado e… enfrentado, combatido. Pois obedecer é fraqueza. De modo que a hipótese de existir alguém mais forte que todos é a hipótese de existir um desafio a ser admirado e enfrentado por todos. Isto é, alguém que seria o inimigo admirável de todos, e que por isso contribuiria para garantir para todos uma vida mais heroica e desafiadora.

O mais forte é, portanto, alguém a ser ao mesmo tempo admirado e enfrentado, combatido. O fraco, por outro lado, é alguém que não o admira nem o enfrenta. Pelo contrário, o fraco de fato geralmente obedece — ou então resiste ao forte, mas resiste apenas como massa, seu autonomia e ousadia, sem força própria (porque teme pela própria vida), ou então através de maquinações indiretas, fingindo obediência para hipocritamente preparar em segredo armadilhas contra o forte.

O fraco, segundo Nietzsche, age assim porque não está voltado para a intensidade da vida. Ao invés de viver intensamente — o que implica viver arriscadamente, enfrentando forças equivalentes ou maiores e também grandes desafios — o fraco teme pela própria vida, ou melhor, tem medo de não sobreviver diante de enfrentamentos e desafios, de modo que prefere não enfrentar o forte por si mesmo, diretamente e com suas próprias forças; e trata de enfrentá-lo apenas indiretamente, disfarçadamente (enquanto finge obediência) e em conluio com outros fracos.

O fraco, diz Nietzsche, não deve ser valorizado ou admirado, a fraqueza não é coisa boa, é algo que merece desprezo. De modo que, na prática, Nietzsche na verdade acaba impulsionando as pessoas à alta autoestima, ao orgulho e ao enfrentamento de todo e qualquer poder em exercício (ao mesmo tempo que as impulsiona, paradoxalmente, ao exercício do poder). O resultado, se não houvesse fracos (isto é, obedientes e gente que age de maneira massificada), seria uma dinâmica instável de forças relativamente equilibradas confrontando-se constantemente umas com as outras, ao mesmo tempo que se valorizam mutuamente. O impulso que Nietzszche oferece nessa direção costuma ser considerado, com certa razão, como uma espécie de “anarquismo aristocrático”.

Nunca é o bastante repetir: não existem realmente pessoas que sejam sempre e definitivamente fortes em todos os aspectos de sua vida, no modo nietzscheano de ver as coisas. Imaginar uma pessoa assim (alguém superforte o tempo todo e em todos os aspectos da vida, isto é, imaginar alguém que estaria para além da condição humana de tão forte) é, para esse filósofo, apenas um modo de indicar aquilo que deve ser valorizado pelas pessoas: a força vital, o viver intensamente, e não a mera sobrevivência. Ele não está se referindo com isso a nada que exista realmente ou mesmo a algo que poderia vir a existir algum dia. Nada disso. Está apenas indicando uma referência para os nossos valores, algo que deveríamos aprender a valorizar. Segundo ele, deve-se valorizar quem vive a vida com intensidade, e valorizar também, portanto, os momentos mais intensos de nossas vidas, bem como aquilo que produz esses momentos de vida intensa.

Deixemos ainda mais clara a distância entre Nietzsche e qualquer espécie de valorização das lideranças: Nietzsche considera o “forte” como paradoxalmente “frágil”. O “forte” para Nietzsche é “frágil”? Sim, frágil.

Como assim? É forte no sentido de que vivencia sofrimentos e alegrias com muito maior intensidade, e retorna dessa montanha russa sempre com muito maior rapidez e tranquilidade que os outros, parecendo-lhes falso ou esquisito, exagerado, desmedido emocionalmente, infantil (a criança é um símbolo de Nietzsche para o forte, aliás). Tudo o afeta intensamente (de maneira que pode parecer desmiolada, sem senso de medida) e no entanto, tudo “passa” e é esquecido com a mesma rapidez, e nada o derruba.

Mas é frágil no sentido de que morre (ou tem as suas condições de sobrevivência dificultadas) com muita facilidade. Os fracos se encarregam disso: de matá-lo, de preferência aos poucos, e de maneira que lhes pareça dolorosa. Ele não perceberá o que se passa (por que não está nem aí), e não sentirá nada do que pensam que está sentindo. Mas de fato, tenderá a perder reais condições de sobrevivência, sem se dar conta. Porque o mundo é dos fracos, dos medíocres, dos que não aceitam o diferente.

O forte é alguém que não se preocupa com a sobrevivência nem com o que os demais pensam ou dizem ou fazem com referência a ele, enquanto os fracos ao seu redor avaliam todas as suas ações como se ele as fizesse pensando neles (sem perceber que na verdade não lhe interessam o mínimo que seja).

O forte é inclusive naturalmente generoso, já que não se apega a nada. Em sua generosidade não pede nada em troca. Mas não firma laços, e acaba desconcertando os que acreditam que ele faz algo pensando “no bem” ou “no mal” de quem quer que seja. O forte só pensa no exercício de sua força, de sua vitalidade, no seu viver intensamente. E naturalmente, acaba morrendo nesse mundo dominado pelos fracos.

Pensando um pouco mais politicamente a partir de Nietzsche, a desgraça do autoritarismo e do capitalismo está na desintensificação da vida das pessoas — e nos tempos atuais, sobretudo na tendência a substituir a intensidade da vida por sentimentos pseudo-intensos vividos passivamente diante das imagens intensas em uma tela de TV, e ecoados na massificação do consumo econômico, orientado por essas imagens.

Mas pelo menos, enquanto estão diante da telinha, pensando que suas emoções são tãããão intensas, acabam deixando de lado os fortes, que talvez assim possam ter um pouco liberdade… se não vierem logo com câmeras filmar as suas “ousadias”, que decerto chamarão a atenção (e depois acusá-lo de fazê-las “para aparecer”, ou o contrário, de fugir das câmeras (ou das atenções públicas) “por arrogância”…

Um “líder” é algo intrinsecamente social.

Um forte nietzscheano é algo intrinsecamente a-social.

O forte nietzscheano está muito mais para um aventureiro provavelmente (mas não necessariamente) carismático, e seguramente muito excêntrico e esquisito, do que para um “líder” de qualquer espécie que seja.

O forte nietzscheano inclusive (ao contrário do que Weber parece supor, em sua leitura de Nietzsche) não faria nenhuma questão de construir ou mudar o que quer que seja com esse seu carisma, se o tiver. Ou de atender a quaisquer interesses ou expectativas alheios aos seus — sabe-se lá quais são os seus, aliás, porque um forte faria tanta questão de comunicá-los com clareza quanto de escondê-los… ou seja, não faria questão nenhuma, nem de uma coisa nem de outra. Ele  simplesmente não estaria nem aí para os outros. Um forte nietzscheano não se interessa nem mesmo por imaginar o que os outros pensam que ele está fazendo, pensando ou sentindo, seja para liderá-los ou para qualquer outra coisa.

Hummm… talvez, provisoriamente, para usá-los na conquista de algum objetivo. Mas logo se aborrecerá entediado com esse uso, se a coisa demorar muito, e provavelmente largará o “projeto” no meio do camino, sem maiores explicações, deixando desconcertados tanto os que o seguiam quanto os que desconfiavam dele. Não se iluda leitor, o forte nietzscheano também não é um capitalista usando “seus” funcionários. Existe pouca coisa que exprima melhor o que Nietzsche entende por fraqueza e mediocridade do que a burguesia como um todo.

O forte nietzscheano, quando abandona projetos e os troca por outros, não faz isso movido por estratégias em jogos de pressões em algum campo superior ao acesso dos “fracos” com os quais está lidando. Não faz sentido nenhum compará-lo a algo como um capitalista manipulando funcionários em vista de objetivos estratégicos no mercado, por exemplo… este, é escravo das pressões mercadológicas, quando não é também escravo de sua própria insegurança, que o obriga a dar ordens para sentir-se superior, ou até para manter o controle quando as coisas parecem desesperadoramente escapar-lhe. 

O forte nietzscheano não é escravo de nada. Ele simplesmente não se apega a nada de vivo ou inanimado que exerça sobre ele alguma forma de… controle.

E por viver num mundo em que tudo o que sobrevive sobrevive sob controle, o forte vai sendo morto, e tende a precipitar-se ainda mais rapidamente por si mesmo, em seus impulsos aventureiros e em sua altivez, e infantil inistência em ser como é, com suas diferenças características, e não como esperam que seja — sua atitude é por excelência uma atitude socialmente insensata. Oposta em tudo, neste sentido, à de um líder.

6. Um diferença básica do autor deste artigo
em relação a Nietzsche: os equilíbrios tensos

Uma diferença básica entre meu modo de ver as coisas e o de Nietzsche, é a seguinte.

Os focos de energia de que Nietzsche fala, ele os descreve como diferenciais de força, de modo que, como já vimos, para que uma força se intensifique, ela se intensifica em relação à desintensificação de outras, por sua diferença de intensidade em relação a outras.

Portanto para ele há duas possibilidades: desequilíbrio, que significa intensificação de algum ponto em detrimento dos demais, ou equilíbrio, que significa fraqueza, rarefação do conjunto.

Agora pensemos um pouco mais nietzscheanamente, em termos de “forças” e “intensificação de vida”. A mim me parece haver uma talvez excessiva abstração nisto, quando seguimos o ponto de vista de Nietzsche.

Forças não “são” diferenciais de força: elas “têm” diferenças de força entre elas, e a intensificação não diz respeito à absorção de outras forças e sim à tensão existente. E acontece que a tensão depende justamente do… equilíbrio entre as forças! (Desde que combinado a uma alta intensidade de ambas, é claro, porque se as duas forças forem equilibradamente de baixa intensidade, a tensão também será baixa). Portanto… equilíbrio não significa fraqueza.

Na verdade, além do mais, não penso propriamente em “forças”, como Nietzsche, mas em qualiforças, qualidades, ou conjuntos de características, que são dotadas de força, além de outras coisas de que também são dotadas… minha perspectiva é fundamentalmente fenomênica, parto do exame das aparências em ação — ou em movimento, as aparências em sua dinamicidade —, e partindo daí vou para… nenhum outro lugar.

Influenciado em larga medida pelo ceticismo pirrônico, recuso-me a ultrapassar o terreno das aparências, e por aparências não quero dizer meras interpretações mentais das coisas, como em Nietzsche, mas vivências no sentido do existencialismo, que são um amálgama indiscernível do que chega a mim vindo do meu exterior e do que vem de mim projetando-se para o exterior.

Mas deixemos esses detalhes de lado, e façamos de conta que penso em termos de forças, reduzindo tudo a elas como faz Nietzsche. Voltemos ao raciocínio que vinha seguindo, mais colado ao de Nietzsche, antes de mencionar meu fenomenismo existencialista, meu apego às vivências em seu caráter aparente.

Considerando então apenas o quadro das forças em jogo, mais proximamente ao que Nietzsche faz, vejo três possibilidades, e não duas: equilíbrio de baixa tensão (alto grau de indiferença entre os polos), desequilíbrio (uma força superior à outra… de modo que a somatória de tensão  não é alta, não há enfrentamento suficientemente tenso, e portanto há baixa intensificação de vida); e equilíbrio tenso, entre dois polos igualmente fortes.

7. Posicionamento pessoal do autor deste artigo:
uma questão de entropia e resistência

Meu posicionamento pessoal quanto ao ponto discutido neste artigo, entretanto, não é tão colado assim ao de Nietzsche. Abreviando-o aqui sem maiores explicações, mas o suficiente para que as diferenças se tornem bem nítidas, é o seguinte: não somos movidos por valores, e sim orientados por eles em nossos movimentos. Mas também não somos movidos por necessidades, e sim limitados e pressionados parcialmente ou até certo ponto e em diferentes graus por elas, nos nossos movimentos — assim como por outras espécies de barreiras, dificuldades e limites.

(Na verdade, não pretendo afirmar como verdade nada disto, mas apenas como um ponto de vista filosoficamente possível, defensável e interessante, aquele no qual aposto e que, pelas implicações que extraio dele para a vida, escolhi defender em minha insersão no campo de debates da filosofia.)

Somos movidos, me parece (ou é o que me parece valer a pena defender pessoalmente), segundo leis análogas às da física e da biologia, e do que podemos chamar de “sistêmica”.

Em especial, trata-se de leis análogas (embora não idênticas): às do magnetismo (forças de atração e repulsão); às da tendência ao equilíbrio; também algo análogo ao que costumamos chamar de “inércia”; e leis relativas a energias de impulsão interna e de pressão externa, que se desgastam no desenrolar dos movimentos.

E mais: além destas, também leis análogas às da teoria da evolução — às quais no entanto eu aplicaria uma série de correções consideravelmente drásticas, pois ao contrário do que é mais habitual no campo da biologia, considero a genética, a etologia de Conrad Lorenz e a herança de Kropotkin e Thoreau, que é a ecologia, como referenciais superiores ao de Darwin e mais básicos, pelos quais o darwinismo precisaria ser corrigido da base até o topo (embora não abandonado). E ainda leis análogas  àquelas dos desenvolvimentos topológicos dos organismos vivos (que eu examinaria a partir de referenciais extraídos mais da física do que do darwinismo) .

Quanto ao que chamei de “sistêmica”, nos considero movidos também até certo ponto pelas leis da funcionalidade e da eficácia. Acrescente-se a tudo isto largas margens de acaso apenas parcialmente redutível às leis da probabilidade (que não me parecem assim tão confiáveis quanto se costuma apregoar).

Em suma, não vejo como atribuir a um único fator em especial todos os nossos humanos movimentos… a menos que consideremos a entropia como uma força maior por detrás de tudo isto e assumindo ora a forma de uma desses fatores, ora a de outro.

Mas considero a própria entropia (ou tendência geral para a dissolução de tudo na indiferença e na morte completa, absoluta) como caracterizada pela presença de contrafluxos internos em vista dos seus diferentes objetos de sua ação, das diferentes coisas sobre as quais a força entrópica age — coisas que lhe oferecem resistência até certo ponto, em diferentes graus e de diferentes modos. Coisas que por isso geram diferentes vias ou caminhos (incluindo momentos de desvio e contrafluxo) para a realização cada vez mais completa da entropia.

Nossos movimentos se dão no seio dessa dinâmica do grande fluxo da entropia, e dos pequenos e variados contrafluxos e desvios de que ela está sempre coalhada nesse seu grande fluxo. Em seu grande fluxo (o maior e dominante), a entropia representa basicamente o caminho da dissolução e da morte. Mas em seu caminho, a dissolução entrópica acaba encontrando como meio de realização mais eficaz e menos indireto as formações vivas, e inclusive em certa medida e por certo período resistentes a ela… porque realizar-se por outras vias seria ainda mais indireto e ofereceria ainda maiores resitências.

Ecos nietzscheanos? — Note-se a fragilidade da vida, e inclusive sua instabilidade e dinamicidade, que oferecem à morte (à entropia) um caminho de realização mais direto, com menores barreiras, do que por exemplo o da dissolução de certas grandes rochas encravadas em montanhas… de qualquer modo, a entropia continua sendo um referencial que herdei de Flusser para depois retrabalhá-lo à minha maneira, e não de Nietzsche.

Em cada um de nós, e em cada coletividade pequena ou grande da qual fazemos parte, há sempre diversos movimentos e tendências ocorrendo ao mesmo tempo, com sentidos variados, ora convergentes, ora divergentes, ora contraditórios, e que só se excluem, eliminando uns aos outros, na medida em que vão se fazendo absolutamente incompatíveis para a mesma unidade individual ou coletiva. É basicamente na resistência à entropia que as coisas acabam entrando em conflito umas com às outras, e tendendo a se “entropizarem” mutuamente. Cada uma, com suas ações de precária e provisória resistência à entropia, tende a fazer isso por meio do sacrifício de outras ao redor, que acabam arrastadas por ela a uma entropia mais acelerada.

Proudhon — o grande pensador anarquista que é uma de minhas maiores referências — falava em uma teoria dos valores imanentes à ação, e não exteriores a ela. Mas não deixou o desenvolvimento disto claro e explícito e didaticamente esclarecido em algum ponto específico de toda a sua obra. Minha compreensão disto de certo modo procura completá-lo neste mesmo sentido.

Defendo uma teoria do valor intrínseco ao sentido do movimento. Cada movimento (ou ação) se desenrola numa certa direção. Nossos valores — e não apenas os de tipo moral — estão inscritos nos movimentos e tendências que ocorrem em nós e ao nosso redor, e que em conjunto vão desembocando em uma nossa ação final resultante.

Valorizamos como “positivo” aquilo para que se encaminha algum daqueles movimentos ou ações (nossos individualmente, ou de algum coletivo de que façamos parte) que assumimos como “próprios de nós”. E avaliamos como “negativo” (“mau”, “ruim” etc.), aquilo de que tendemos a nos afastar devido ao rumo desses mesmos movimentos (“próprios de nós”). E conforme os movimentos e tendências que nos atravessam ou nos circundam vão sendo magnetizados ou repelidos uns pelos outros, compatibilizando-se mutuamente ou incompatibilizando-se mutuamente, vamos nos “apropriando” de certos movimentos (com os respectivos valores) e dispensando outros (com os respectivos valores).

Normalmente não detectamos com clareza esses movimentos (ou ações) por inteiro, mas detectamos os valores para os quais se encaminham ou dos quais “fogem” (isto é, os que tais movimentos evitam). Nos apropriamos de valores e de avaliações negativas que a princípio não eram os nossos, e dispensamos outros que antes considerávamos “nossos”.

Mas ao dispensarmos certos valores ou nos apropriarmos deles, se não fizermos s devidas adaptações desses valores e dessas avaliações aos movimentos que já temos em nós, estaremos também indiretamente absorvendo para nós ou dispensando, sem nos darmos conta, todo o movimento em que tal avaliação está inserida, ou pelo menos parte dele. E isto passará a fazer parte da composição de movimentos com diferentes sentidos que temos em nós e no nosso contexto de vida, e que modela a resultante final de nossos rumos na vida.

Muitos desses sentidos de movimento e ação em nós e no nosso contexto de vida, que nos puxam para esta ou aquela direção, são favoráveis a uma diminuição das resistências e a uma aceleração do processo de dissolução entrópica, favorecendo o fluxo maior da entropia e um avanço mais rápido para a morte, ou uma presença maior da morte em vida, sob a forma de uma vida vivida com mais baixa qualidade e maior indiferença ou passividade em relação a isto.

Muitas vezes a busca da mera sobrevivência, ao contrário do que pode parecer, caminha nesta direção mortificante, aceleradora da entropia, de modo que mais uma vez devo meus cumprimentos a Nietzsche.

Outros dos sentidos de movimento e ação que temos em nós e no nosso contexto, influenciando-nos, são sentidos de ação e de movimento que se revelam resistentes, que se aproveitam do fluxo geral da entropia em seu favor, e que eu considero como pró-vida  — mas na medida em que resultam em mais vida no balanço geral de todos os movimentos (nossos e de outros) que estão envolvidos.

 

 

 

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